{"id":24230,"date":"2012-12-24T17:23:12","date_gmt":"2012-12-24T17:23:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=24230"},"modified":"2012-12-24T17:23:12","modified_gmt":"2012-12-24T17:23:12","slug":"portugues-para-viver-alem-de-narciso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/12\/portugues-para-viver-alem-de-narciso\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Para Viver Al\u00e9m de Narciso"},"content":{"rendered":"<p><em>A vida \u00e9 um fen\u00f4meno que resulta de rela\u00e7\u00f5es: \u201cn\u00e3o existe vida no isolamento\u201d, ensina a professora e conferencista argentina Lia Diskin \u2013 em entrevista realizada para o estudo Pol\u00edtica Cidad\u00e3, produzido pelo instituto Ideafix para o IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade). Os valores que deveriam nos orientar s\u00e3o, portanto, interdepend\u00eancia, empatia, solidariedade, coopera\u00e7\u00e3o, partilhamento: \u201ca compreens\u00e3o de que estamos imersos em uma comunidade viva que nos sustenta\u201d. Ao contr\u00e1rio, a ideologia dominante em nossa cultura \u00e9 a do individualismo. \u201cMas nenhum de n\u00f3s se fez sozinho, embora se tente fazer crer que a cria\u00e7\u00e3o desta obra ou daquela ideia seja exclusivamente de fulano ou beltrano\u201d, recorda ela.<\/em><\/p>\n<p><em>Lia Diskin vive no Brasil desde 1972, quando fundou a Associa\u00e7\u00e3o Palas Athena \u2013 organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos que adota a gest\u00e3o compartilhada e atua nas \u00e1reas editorial, de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, direitos humanos, meio ambiente e promo\u00e7\u00e3o social. Passou o ano de 1986 estudando budismo em Dharamsala, na \u00cdndia, terra dos exilados tibetanos, tendo o Dalai Lama como um de seus professores. Desde ent\u00e3o tornou-se uma esp\u00e9cie de embaixadora do l\u00edder budista no Brasil, e organizou suas visitas ao pa\u00eds em 1992, 1999, 2006 e 2011. \u00c9 tamb\u00e9m coordenadora do Comit\u00ea Paulista da D\u00e9cada da Cultura de Paz, da Unesco.<\/em><\/p>\n<p><em>Especialista em t\u00e9cnicas de medita\u00e7\u00e3o, Lia observa que vivemos olhando para fora, em busca de aprova\u00e7\u00e3o, deixando assim de perceber o que se passa em nossa mente. \u201cEstamos habitando uma casa da qual o \u00fanico que conhecemos \u00e9 a janela, e da janela para fora. O que acontece dentro da casa, quais s\u00e3o os outros integrantes desse espa\u00e7o, qual \u00e9 a din\u00e2mica que se estabelece dentro desse espa\u00e7o, a gente simplesmente ignora.\u201d Mas a vida vai al\u00e9m disso, lembra.<\/em><\/p>\n<p><em>Vivemos nos equilibrando sobre a crosta de um planeta que gira em alta velocidade em torno do sol, na periferia de uma dentre bilh\u00f5es de gal\u00e1xias do universo. Um planeta cuja estabilidade est\u00e1 sendo afetada por n\u00f3s, que estamos colocando em risco o fen\u00f4meno da vida. \u201cN\u00e3o somos o centro da gal\u00e1xia, dentro dela \u00e9 tudo el\u00edptico. O centro \u00e9 o Sol, sem o qual n\u00e3o h\u00e1 vida. Nosso sistema \u00e9 perif\u00e9rico, n\u00e3o \u00e9 central\u201d, ela lembra, nos devolvendo a humildade.<\/em><\/p>\n<p><em>Admiradora de Gandhi, Lia observa que ainda n\u00e3o estudamos adequadamente as estrat\u00e9gias pol\u00edtico-pedag\u00f3gicas que o l\u00edder pacifista indiano colocou em marcha j\u00e1 em meados do s\u00e9culo XX para, sem um \u00fanico tiro, derrotar o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico e libertar a \u00cdndia. \u201cGandhi foi um dos primeiros a promover o poder local \u2013 do qual hoje falamos tanto. Insistia constantemente em fortalecer, nutrir, empoderar as aldeias.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Ao falar sobre a necessidade de redefinir nossas prioridades, ela elege a educa\u00e7\u00e3o como meio por excel\u00eancia para o cultivo de outros valores. E aponta a televis\u00e3o, grande instrumento de lazer do povo brasileiro, como o instigador da viol\u00eancia e do desrespeito ao humano. \u201c\u00c9 o deboche, a ridiculariza\u00e7\u00e3o do outro, em que todo mundo ri da desgra\u00e7a alheia. Como achar gra\u00e7a de uma crian\u00e7a que est\u00e1 aprendendo a caminhar e cai? Como isso pode ser motivo de chacota?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Sobre a atividade pol\u00edtica, Lia entende que \u2013 ao contr\u00e1rio do que hoje se considera \u2013 talvez seja a mais elevada e mais nobre que podemos ter. \u201cPorque nos erguemos acima dos interesses pessoais e passamos a contemplar o que atende \u00e0s necessidades de uma parcela maior da popula\u00e7\u00e3o.\u201d Ela defende que os interesses nacionais e coletivos devem estar acima de qualquer tipo de partidarismo. \u201cSe a gente n\u00e3o entender que pol\u00edtico \u00e9 aquilo que atende a todos n\u00f3s, independente do partido em que estamos engajados, vai ser muito dif\u00edcil resgatar o princ\u00edpio fundante da vida comunit\u00e1ria, da vida p\u00fablica\u201d, explica, ressalvando que apesar disso os partidos pol\u00edticos devem ser fortalecidos, j\u00e1 que s\u00e3o eles que mant\u00eam a roda dos espa\u00e7os institucionais em funcionamento. A seguir, a entrevista. (<\/em><strong><i>I.C.)<\/i><\/strong><\/p>\n<p><b><br \/>\n<strong>Como voc\u00ea percebe a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do cidad\u00e3o brasileiro?<\/strong><\/b><\/p>\n<p>Muito enfraquecida, pouco envolvida, pouco comprometida. Apesar de haver uma informa\u00e7\u00e3o crescente, talvez por causa das redes sociais, numa perspectiva mais de longo prazo n\u00e3o vejo uma capacidade aglutinante de fazer propostas locais, pontuais, nem de uma macroestrat\u00e9gia de desenvolvimento do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Penso que isso se deve tamb\u00e9m \u00e0 complexidade crescente da vida nas grandes cidades, nas quais os deslocamentos de um lugar para outro se tornam cada vez mais penosos e consomem mais tempo. Por outro lado, essa exig\u00eancia prepotente de estar informado sobre todas as coisas: qual \u00e9 o livro que acaba de ser lan\u00e7ado, qual \u00e9 o filme que ganhou mais pr\u00eamios no festival, qual \u00e9 o restaurante que est\u00e1 tendo uma promo\u00e7\u00e3o mais interessante, o \u00faltimo lan\u00e7amento da moda? \u00c9 tamanho o leque de informa\u00e7\u00f5es sobre as quais h\u00e1 que se dar conta, \u201cpara ter respeitabilidade em diferentes meios da sociedade\u201d, que isso simplesmente termina consumindo toda a energia do cidad\u00e3o. Penso que perdemos o senso da prioridade e da essencialidade. Perdemos o senso do que \u00e9 importante na vida familiar, na vida privada e na vida p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Nesse cen\u00e1rio, que temas mobilizariam a sociedade brasileira?<\/strong><\/p>\n<p>Neste momento, acredito que \u00e9 tudo aquilo que esteja afeito ao universo financeiro, econ\u00f4mico, fact\u00edvel de tornar-se consumo ou de tornar-se produto. \u00c9 assustador o espa\u00e7o que ocupam as informa\u00e7\u00f5es dessa esfera nas grandes m\u00eddias, Qual \u00e9 o sentido de estar todos os dias nos principais jornais da televis\u00e3o brasileira a subida ou a descida da bolsa da Nasdaq, de Frankfurt, de Hong Kong? Qual \u00e9 o sentido disso para o cidad\u00e3o m\u00e9dio? Aquele que realmente tem necessidade desse tipo de informa\u00e7\u00e3o a obt\u00e9m online a fim de fazer suas transa\u00e7\u00f5es, portanto n\u00e3o precisa delas nos jornais televisivos.<\/p>\n<p>Na Gestalt se fala muito a respeito de \u201cn\u00e3o vermos que n\u00e3o vemos\u201d. H\u00e1 um ponto cego dentro de todos n\u00f3s. Penso que o grande ponto cego da sociedade contempor\u00e2nea \u00e9 justamente n\u00e3o perceber que determinadas pautas s\u00e3o talvez interessantes ou indispens\u00e1veis para grupos muito pequenos da popula\u00e7\u00e3o. Mas essas pautas terminam ocupando a maior quantidade do tempo e do espa\u00e7o nas mentes dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou da energia gasta no consumo, falou em m\u00eddia e em valores essenciais. Poderia discorrer sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, na cultura dominante o consumo tornou-se um objeto de reconhecimento social. Voc\u00ea v\u00ea isso j\u00e1 em crian\u00e7as pequenas, com o uso, por exemplo, de telefones celulares, iPods, iPhones e companhia. Todos n\u00f3s precisamos de reconhecimento, \u00e9 inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana. Precisamos ser legitimados pelo outro. Quando tal atitude transborda e se torna quase uma compuls\u00e3o, e o fator de inclus\u00e3o s\u00e3o as quest\u00f5es de ordem material, de ordem objetiva, aquilo que posso ostentar na presen\u00e7a dos outros \u2013 isso se torna extremamente perigoso, porque a pessoa passa a colocar todo o seu capital de tempo e criatividade a servi\u00e7o do reconhecimento social, apenas. O cultivo, o conhecimento de si mesmo, a possibilidade de acessar um potencial latente para outras \u00e1reas fica totalmente obliterado, porque a pessoa n\u00e3o tem mais energia.<\/p>\n<p>Estamos habitando uma casa da qual o \u00fanico que conhecemos \u00e9 a janela, e da janela para fora. O que acontece dentro da casa, quais s\u00e3o os outros integrantes desse espa\u00e7o, qual \u00e9 a din\u00e2mica que se estabelece dentro desse espa\u00e7o, a gente simplesmente ignora. Utilizamos as coisas para obter reconhecimento dos outros, e esse reconhecimento parece conferir a n\u00f3s a sensa\u00e7\u00e3o de termos direito, de sermos merecedores da vida. E tudo fica encapsulado entre o teto de nossos cabelos e o ch\u00e3o de nossos sapatos. Mas a vida \u00e9 algo que vai al\u00e9m disso. A vida n\u00e3o acontece apenas entre nossos cabelos e nossa planta do p\u00e9.<\/p>\n<p><strong>Fale desses valores essenciais, daquilo que est\u00e1 dentro da casa e que a gente n\u00e3o conhece\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Para que haja a vida \u2013 a gente hoje sabe muito bem, porque temos trabalhos extraordin\u00e1rios no campo da biologia, da neuroci\u00eancia \u2013 \u00e9 preciso uma teia de rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o existe vida sem rela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe vida no isolamento. Ou seja, o individualismo, por si s\u00f3, \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o da vida. A vida existe enquanto h\u00e1 uma din\u00e2mica constante de manuten\u00e7\u00e3o, sustenta\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es e promo\u00e7\u00e3o de novas rela\u00e7\u00f5es. Um ecossistema \u00e9 tanto mais rico quanto mais variedade de vida exista dentro dele e quanto maior conectividade possa existir entre essas vidas.<\/p>\n<p>Quando falamos num repert\u00f3rio de valores essenciais, estamos nos referindo a um repert\u00f3rio de valores sustentados por essa teia, e que por sua vez a sustentam. Quanto mais nos distanciamos disso, mais repercuss\u00f5es dolorosas e ru\u00eddos no sistema ir\u00e3o acontecer. No humano, a rela\u00e7\u00e3o se manifesta n\u00e3o apenas pela vincula\u00e7\u00e3o imediata de afetos, mas tamb\u00e9m pelos princ\u00edpios de empatia, de solidariedade, de coopera\u00e7\u00e3o; pelos princ\u00edpios do partilhamento, da compreens\u00e3o de estarmos imersos em uma comunidade viva que nos sustenta.<\/p>\n<p>Nenhum de n\u00f3s se fez sozinho. A esp\u00e9cie humana, dentre os seres vivos, \u00e9 a que mais demora a adquirir autonomia e independ\u00eancia. Para nos movermos no ber\u00e7o, precisamos de tr\u00eas ou quatro meses. Se n\u00e3o houver algu\u00e9m dando conta da nossa exist\u00eancia, sequer conseguimos nos virar no ber\u00e7o. Para ficar em p\u00e9, quase um ano. Para ter minimamente um discernimento do que posso e o que n\u00e3o posso ingerir \u2013 aquilo que p\u00f5e em perigo a minha vida e aquilo que sustenta a minha vida \u2013, ser\u00e3o seis ou sete anos. Para adquirir maturidade biol\u00f3gica, ou capacidade de procriar, 11, 12, 13 anos. E para ter maturidade psicol\u00f3gica nos v\u00e3o minimamente 16, 17 anos, se \u00e9 que alguma vez a atingimos. Muitas vezes a gente v\u00ea crian\u00e7onas de cabelos brancos, no sentido de n\u00e3o serem capazes de se responsabilizar pelos efeitos dos pr\u00f3prios atos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o somos uma esp\u00e9cie que demora muito a aprender, simplesmente porque n\u00e3o nascemos equipados para dar conta de nossa exist\u00eancia. Uma tartaruga nasce e j\u00e1 consegue ser autossuficiente. Uma tartaruga marinha sabe onde est\u00e1 o mar, e vai se dirigir para este mar. Ela j\u00e1 vem com um repert\u00f3rio de saberes que lhe permite satisfazer as necessidades desta vida que ela mesma constitui, que ela mesma \u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o caso do humano. Damos conta de nossa vida aprendendo. E aprendemos, obviamente, do meio que temos no entorno. N\u00e3o podemos dizer que somos 100% fruto do meio, porque sen\u00e3o todos ser\u00edamos iguais, mas grande parte de nossas refer\u00eancias internas se constituiu a partir do meio que nos nutriu, nos alimentou e nos deu parte da identidade que afirmamos ser. Nesse sentido, quando se tem uma sociedade na qual os valores que est\u00e3o sendo promovidos s\u00e3o sempre secund\u00e1rios com refer\u00eancia \u00e0 vida, ao que \u00e9 essencial, alguma coisa est\u00e1 errada. A solidariedade e a coopera\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem ser uma excepcionalidade no humano, s\u00e3o constituintes do humano. A excepcionalidade teria que ser justamente o contr\u00e1rio: negar-se \u00e0 solidariedade, negar-se \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o, negar-se ao compartilhamento.<\/p>\n<p>E temos que ser realistas: o que nos est\u00e1 mostrando uma grande parte dos elementos constituintes daquilo que chamamos cultura \u2013 seja a m\u00eddia, seja a arte \u2013 s\u00e3o rupturas, rupturas, rupturas. Voc\u00ea liga uma TV, passa pelos canais abertos e pelos canais privados, 80% da programa\u00e7\u00e3o \u00e9 confronto b\u00e9lico, \u00e9 confronto nutrido de raiva, de ressentimento, \u00e9 busca de uma competi\u00e7\u00e3o absurda pelos poderes. Os outros 10% s\u00e3o muitas vezes de uma precariedade e de uma indignidade psicol\u00f3gica muito dolorosa: \u00e9 o deboche, a ridiculariza\u00e7\u00e3o do outro, aquela coisa das pegadinhas, situa\u00e7\u00f5es em que todo mundo ri, literalmente, da desgra\u00e7a alheia. Como achar gra\u00e7a de uma crian\u00e7a que est\u00e1 aprendendo a caminhar e cai. Como isso pode ser motivo de chacota? A primeira rea\u00e7\u00e3o ante algo inusitado \u00e9, muitas vezes, o riso. Mas de maneira alguma isso pode ser uma celebra\u00e7\u00e3o coletiva. Ent\u00e3o, o que sobra? Uns 10%, em que se encontram fontes de inspira\u00e7\u00e3o na vida animal, em recortes hist\u00f3ricos ou releituras de fatos do passado, programas sobre astronomia. S\u00e3o tamb\u00e9m os que t\u00eam menos audi\u00eancia.<\/p>\n<p>E a\u00ed est\u00e1 o grande n\u00f3 g\u00f3rdio que temos de desatar, porque est\u00e1 fazendo sofrer a todos, sem exce\u00e7\u00e3o: ningu\u00e9m hoje est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o na qual possa desfrutar da vida que lhe est\u00e1 sendo oferecida a cada instante. Penso que \u00e9 momento de revisitar premissas. Para onde estamos nos dirigindo, qual \u00e9 o porto a que queremos chegar, e de onde estamos partindo? N\u00e3o podemos saber com clareza onde queremos chegar se n\u00e3o sabemos de onde estamos partindo. E estamos partindo de um cen\u00e1rio de bilh\u00f5es e bilh\u00f5es de anos, que \u00e9 a vida, que tem uma experi\u00eancia acumulada extraordin\u00e1ria e provoca admira\u00e7\u00e3o \u2013 porque tamb\u00e9m \u00e9 natural do humano admirar os feitos, n\u00e3o apenas belos, mas tamb\u00e9m s\u00e1bios. A gente reconhece intimamente quando h\u00e1 sabedoria. E tudo isso est\u00e1 sendo colocando em perigo pelo estado de arrog\u00e2ncia, de prepot\u00eancia em que a esp\u00e9cie humana terminou se refugiando. Ent\u00e3o, penso que s\u00e3o necess\u00e1rios mecanismos urgentes de redefini\u00e7\u00e3o das prioridades.<\/p>\n<p><strong>Que mecanismos seriam esses?<\/strong><\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o, sem sombra de d\u00favida. Em toda a minha forma\u00e7\u00e3o escolar, n\u00e3o recebi uma \u00fanica aula a respeito de quest\u00f5es ambientais. Ali\u00e1s, a palavra ecologia sequer existia. Hoje j\u00e1 se veem crian\u00e7as assinalando, dentro de casa: \u201cmam\u00e3e, a torneira est\u00e1 aberta; papai, olha a luz acesa; fulano, n\u00e3o jogue papel na rua\u201d. H\u00e1 uma capacita\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es para dar conta de uma consci\u00eancia \u00e0 qual a minha gera\u00e7\u00e3o esteve totalmente alheia. As novas gera\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m v\u00e3o ter que criar todo um novo repert\u00f3rio de concilia\u00e7\u00e3o com a vida \u2013 porque parece que estivemos brigando com ela, dando-lhe as costas, querendo criar um mundo paralelo independente da natureza \u2013 o que \u00e9 imposs\u00edvel. \u00c9 esquizofr\u00eanico.<\/p>\n<p><strong>Que papel as redes sociais podem ter nessas mudan\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p>Vai depender do conte\u00fado com o qual estiverem preenchidas. O instrumento em si \u00e9 extraordin\u00e1rio, a gente fica at\u00e9 orgulhoso pela capacidade do ser humano de criar instrumentos de liga\u00e7\u00e3o. Mas sem uma vincula\u00e7\u00e3o, sem criar um nexo com outros, n\u00e3o funciona. Se isso n\u00e3o se sustenta, se isso \u00e9 l\u00edquido, como fala Zygmunt Bauman, a sociedade l\u00edquida que n\u00e3o tem raiz, n\u00e3o tem profundidade, n\u00e3o consegue criar sustentabillidade e, consequentemente, promover mecanismos de continuidade. Se n\u00e3o tenho isso, as redes sociais podem se tornar mais um objeto de consumo do tempo e da energia das pessoas. Para mais uma vez fugir do importante e do essencial, que \u00e9 o compromisso, a rela\u00e7\u00e3o \u2013 com todo o risco que isso acarreta.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha ent\u00e3o que as redes sociais precisam se enraizar nas rela\u00e7\u00f5es pessoais, para ter alguma efetividade?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, e devem estar profundamente aliadas com a compreens\u00e3o do que s\u00e3o as redes de vida, de como a vida se comporta dentro de macrossistemas e de microssistemas, como em nossa esp\u00e9cie.<\/p>\n<p><strong>A natureza \u00e9 o nosso espelho?<\/strong><\/p>\n<p>Sem sombra de d\u00favida, sem ela n\u00e3o somos nada. Uma coisa que me parece absurda \u00e9 que todos somos capazes de distinguir carros pelas suas marcas, pelo ano e pelos insumos que trazem. Contudo, se voc\u00ea pergunta a diferen\u00e7a que h\u00e1 entre um ip\u00ea e uma paineira, ou ainda quais s\u00e3o as \u00e1rvores que h\u00e1 em sua rua, a pessoa n\u00e3o sabe. Como podemos distinguir modelos de carros e ser incapazes de distinguir duas \u00e1rvores? As crian\u00e7as n\u00e3o sabem diferenciar uma abobrinha de uma berinjela, n\u00e3o sabem diferenciar batata de car\u00e1 ou inhame \u2013 isso \u00e9 preocupante, porque elas podem viver sem saber a marca dos carros, mas n\u00e3o podem viver sem \u00e1rvores e sem vegetais.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre isso que falo: de nos referirmos ao importante, ao essencial. Estamos embevecidos, quase narcotizados pelas cria\u00e7\u00f5es humanas, e nos esquecemos de que tudo isso \u00e9 poss\u00edvel unicamente porque h\u00e1 um substrato dado pela natureza, dado pela vida, pela terra, a terra que nos nutre e nos sustenta, sem o qual nada vai ser poss\u00edvel. Todas as inova\u00e7\u00f5es no campo da sustentabilidade energ\u00e9tica, seja energia e\u00f3lica, seja dos mares, s\u00e3o pensadas a partir de um recurso natural. N\u00e3o h\u00e1 como sair disso. A energia que inventamos, que foi a energia nuclear, est\u00e1 sendo repensada: ser\u00e1 que somos suficientemente respons\u00e1veis para dar conta de um instrumento cujas consequ\u00eancias sequer conseguimos prever?<\/p>\n<p><strong>Algum movimento social te chamou aten\u00e7\u00e3o, aqui no Brasil ou fora dele?<\/strong><\/p>\n<p>Para mim o Greenpeace continua sendo uma refer\u00eancia, pela continuidade. Valorizo muito a continuidade em uma a\u00e7\u00e3o, esse estardalha\u00e7o de projetos fogueteiros, que criam um grande evento e terminam, n\u00e3o leva a nada. H\u00e1 movimentos interessantes trabalhando seriamente na quest\u00e3o da sustentabilidade, mas penso que isso tem que entrar mais no cotidiano das pessoas, n\u00e3o apenas as discuss\u00f5es sobre sacolinha de pl\u00e1stico. Tem que perguntar: \u201cComo eu, como indiv\u00edduo, estou afetando a vida dos outros seres? Qual \u00e9 a minha pegada ecol\u00f3gica, como \u00e9 meu consumo?\u201d Em \u00faltima inst\u00e2ncia: sou eu que escolho, ou me deixo escolher pela sedu\u00e7\u00e3o das refer\u00eancias externas? Essas quest\u00f5es t\u00eam que passar necessariamente pelo indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Gandhi tinha uma frase radical: \u201cSeja a mudan\u00e7a que voc\u00ea quer ver no mundo\u201d. Comece por si mesmo. Voc\u00ea n\u00e3o pode come\u00e7ar pelo mundo, mas pode come\u00e7ar por voc\u00ea. Gandhi tinha essa capacidade de apontar com clareza quest\u00f5es relevantes, acess\u00edveis \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de todos. Penso que devemos resgatar essa capacidade.<\/p>\n<p><strong>Gandhi esteve vivo em v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es recentes, por sua n\u00e3o-viol\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Mas ele \u00e9 uma refer\u00eancia ainda pouco estudada. Admiramos muito Gandhi, mas n\u00e3o o estudamos. N\u00e3o estudamos o que est\u00e1 por tr\u00e1s da estrat\u00e9gia que ele utilizou para desmontar o enorme maquin\u00e1rio de coloniza\u00e7\u00e3o \u2013 estou falando do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, n\u00e3o de um imp\u00e9rio passageiro \u2013 em um pa\u00eds t\u00e3o populoso e t\u00e3o rico em recursos naturais quanto a \u00cdndia. Sem uma \u00fanica arma, sem necessidade de disparar um \u00fanico tiro\u2026 como aconteceu isso? N\u00f3s ainda n\u00e3o estudamos as estrat\u00e9gias pedag\u00f3gico-pol\u00edticas que Gandhi colocou em cenaj\u00e1 em meados do s\u00e9culo XX \u2013 a independ\u00eancia da \u00cdndia foi em 1947 e em 1948 Gandhi morreu. Ele escreveu muita coisa, n\u00e3o \u00e9 que ele seja um ativista sem reflex\u00f5es nem metodologia. Criou todo um processo estrat\u00e9gico para desmontar o poder e, fundamentalmente, robustecer as massas indianas. Que eu me lembre, Gandhi foi um dos primeiros a promover o poder local \u2013 do qual hoje falamos tanto. Insistia constantemente em fortalecer, nutrir, empoderar as aldeias. \u00c9 nas aldeias que vive o indiano, dizia ele. \u00c9 nas aldeias que devemos pensar quando falamos da constru\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o, de uma identidade nacional.<\/p>\n<p><strong>Diante de tudo isso, voc\u00ea consegue enxergar novas formas de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro, temos que despartidarizar as quest\u00f5es pol\u00edticas. Se a gente n\u00e3o come\u00e7a a limpar o terreno do pol\u00edtico, entendendo que pol\u00edtico \u00e9 aquilo que atende a todos n\u00f3s, independente do partido em que estamos engajados, vai ser muito dif\u00edcil resgatar o princ\u00edpio fundante da vida comunit\u00e1ria, da vida p\u00fablica. A palavra <em>idiota<\/em>, em grego, refere-se justamente \u00e0quele que n\u00e3o se interessava pelo p\u00fablico, t\u00e3o apequenado estava por seus interesses pessoais que n\u00e3o conseguia enxergar o cen\u00e1rio do p\u00fablico, do coletivo. Ent\u00e3o, se a gente n\u00e3o despartidariza as quest\u00f5es de ordem p\u00fablica, n\u00e3o vai resgatar a dimens\u00e3o extraordin\u00e1ria que tem a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Talvez a atividade pol\u00edtica seja a mais elevada e mais nobre que cada um de n\u00f3s pode ter. Porque nos erguemos acima de nossos interesses pessoais e passamos a contemplar o que atende \u00e0s necessidades de uma parcela maior da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 um ato de generosidade, quando voc\u00ea abre m\u00e3o de seu espa\u00e7o para refletir sobre algo maior. A minha perspectiva \u00e9 despartidarizar quest\u00f5es de ordem p\u00fablica, o que n\u00e3o quer dizer que os partidos pol\u00edticos n\u00e3o tenham que ser fortalecidos. S\u00e3o eles, no fim das contas, que v\u00e3o manter a roda da pol\u00edtica em funcionamento. Mas os interesses nacionais, os interesses coletivos t\u00eam que estar, muito claramente, acima de qualquer tipo de partidarismo.<\/p>\n<p><strong>Pensando no futuro, como voc\u00ea v\u00ea as novas gera\u00e7\u00f5es convivendo nesse planeta t\u00e3o pequeno?<\/strong><\/p>\n<p>Quando a gente se p\u00f5e a pensar onde estamos, na periferia de uma gal\u00e1xia\u2026 N\u00e3o somos o centro da gal\u00e1xia, dentro dela \u00e9 tudo el\u00edptico. Em nosso sistema o centro \u00e9 o Sol, sem o qual n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de vida. Nosso sistema \u00e9 perif\u00e9rico, n\u00e3o \u00e9 central. E nossa gal\u00e1xia, dentro do universo, \u00e9 uma dentre bilh\u00f5es. N\u00e3o sabemos se o fen\u00f4meno vida, ou alguma coisa semelhante \u00e0quilo que chamamos vida, existe em outra parte do universo. O que sabemos \u00e9 que estamos na crosta de um planeta cuja estabilidade depende de milh\u00f5es de fatores, e que estamos intervindo em alguns desses fatores, o que provoca altera\u00e7\u00f5es que colocam em risco todo o fen\u00f4meno da vida.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno vida tem tr\u00eas ou quatro bilh\u00f5es de anos de exist\u00eancia. Isso teria que criar em n\u00f3s um senso de responsabilidade muito, muito grande. O que possibilita a uma jabuticabeira saber que chegou o tempo de dar fruto? Existe a\u00ed toda uma experi\u00eancia acumulada. Voc\u00ea pode dizer \u201cmas ela n\u00e3o \u00e9 consciente disso\u201d. A jabuticabeira pode n\u00e3o ser consciente disso, entretanto ela cumpre o seu papel no processo. Aparentemente, somos os \u00fanicos que temos consci\u00eancia de que temos consci\u00eancia. A esp\u00e9cie humana tem esse diferencial de saber que sabe ou saber que ignora. Isso teria que aumentar o nosso senso de responsabilidade, e n\u00e3o diminu\u00ed-lo.<\/p>\n<p>Penso que as novas gera\u00e7\u00f5es hoje est\u00e3o muito mais sens\u00edveis a isso. Voc\u00ea v\u00ea uma gera\u00e7\u00e3o inteligente, capaz, talentosa, em marcha. Por exemplo: est\u00e1 abrindo m\u00e3o de ter carro para se deslocar na cidade de bicicleta, ainda que esta cidade n\u00e3o ofere\u00e7a facilidades para tanto. Jovens que est\u00e3o abrindo m\u00e3o de ter cargos de lideran\u00e7a em multinacionais porque querem trabalhar em institui\u00e7\u00f5es de cunho social, ou ainda dedicar-se mais \u00e0 fam\u00edlia acompanhando a educa\u00e7\u00e3o de seus filhos. Jovens que deixam de fazer p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es nas universidades legitimadas pelo senso acad\u00eamico e empresarial para ir a trabalhar em uma comunidade de um pa\u00eds asi\u00e1tico, africano, latino-americano. Ou seja, estamos vendo sinais muito evidentes de uma gera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 \u00e9 muito mais sens\u00edvel a toda essa rede que eu chamo de as coisas importantes da vida.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea imagina uma governan\u00e7a global?<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 vendo a dificuldade que t\u00eam as Na\u00e7\u00f5es Unidas. A ONU \u00e9 a arquitetura pol\u00edtica mais interessante que tivemos no s\u00e9culo XX, e 50 anos n\u00e3o s\u00e3o nada para uma institui\u00e7\u00e3o criar seus mecanismos. Mas n\u00e3o acredito na centralidade de um poder. Acredito muito na pluralidade, no poder da diversidade adquirir compet\u00eancia para manter vincula\u00e7\u00f5es sem perder sua identidade. Isso de homogeneizar, de ter um discurso \u00fanico, um repert\u00f3rio de valores \u00fanicos, n\u00e3o penso que seja saud\u00e1vel para a humanidade.<\/p>\n<p>Acredito que a humanidade tem que preservar essa capacidade extraordin\u00e1ria de ter diversas representa\u00e7\u00f5es e compreens\u00f5es de mundo, mas coloc\u00e1-las para dialogar. N\u00e3o para uma convencer a outra, n\u00e3o para uma domesticar a outra, mas, pelo contr\u00e1rio, para se fecundarem mutuamente. Para que cada uma possa potencializar na outra o que tem de melhor. \u00c9 a diversidade que nos vai permitir ampliar a percep\u00e7\u00e3o da realidade. Se fico monocorde, em um \u00fanico modelo de percep\u00e7\u00e3o, simplesmente encurto a minha capacidade de enxergar a realidade. Mas se acoplo cada um com sua caracter\u00edstica e essencialidade, amplio a percep\u00e7\u00e3o que posso ter da realidade, e isso \u00e9 muito saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel, hoje, \u00e9 a insaciabilidade que parece ter o homem contempor\u00e2neo: ele quer tudo, quer mais de tudo. Gosto muito daquela frase de Conf\u00facio: \u201cnada \u00e9 o bastante para quem considera pouco o que \u00e9 suficiente\u201d. H\u00e1 a\u00ed uma grande lucidez, da qual precisamos nos nutrir e iluminar. A gente perdeu totalmente a no\u00e7\u00e3o: nada \u00e9 suficiente, a gente quer sempre mais, mais, mais e mais. Mas h\u00e1 um limite para o que \u00e9 saud\u00e1vel desejar. N\u00e3o h\u00e1 como sentir mais, n\u00e3o h\u00e1 como comer mais.<\/p>\n<p>____________________<\/p>\n<p><i>A Professora Lia Diskin e membro da Rede TRANSCEND para a Paz, o Desenvolvimento e o Meio Ambiente.<\/i><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2012\/12\/19\/para-viver-alem-de-narciso\/\">Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/p>\n<p><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lia Diskin [membro da TRANSCEND] disseca ultra-individualismo das sociedade submissas aos mercados, mas aposta nos novos valores da juventude e numa pol\u00edtica despartidarizada.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-24230","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24230","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24230"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24230\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}