{"id":25824,"date":"2013-02-18T12:00:03","date_gmt":"2013-02-18T12:00:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=25824"},"modified":"2013-03-02T01:34:47","modified_gmt":"2013-03-02T01:34:47","slug":"portugues-do-que-um-cao-precisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/02\/portugues-do-que-um-cao-precisa\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Do Que Um C\u00e3o Precisa"},"content":{"rendered":"<p><i>Ser\u00e1 que o c\u00e3o tem esp\u00edrito? \u2013 perguntou-me o filho do meio. Olhei para ele surpreendido. E acabei por responder: \u2013 N\u00e3o sei se n\u00f3s pr\u00f3prios temos esp\u00edrito ou se \u00e9 o esp\u00edrito que nos tem ou est\u00e1 em n\u00f3s. \u2013 \u00c9 isso que eu queria dizer. Olha para ele. Era um fim de tarde de Agosto, o c\u00e3o estava parado em frente ao mar, o p\u00ealo muito luzidio, a cabe\u00e7a levantada, narinas abertas, sorvendo o ar. \u2013 Ele est\u00e1 a cheirar o esp\u00edrito. O esp\u00edrito da terra, o esp\u00edrito do vento, o esp\u00edrito das \u00e1guas\u201d. <\/i>(Manuel Alegre).<\/p>\n<p>Se os c\u00e3es tem ou n\u00e3o esp\u00edrito \u00e9 discut\u00edvel para algumas pessoas. Para mim \u00e9 fato: eles possuem um esp\u00edrito conectado com sua mente e corpo. J\u00e1 escrevi sobre <a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/2012\/07\/portuguese-do-que-um-cao-nao-precisa\/\" >o que um c\u00e3o n\u00e3o precisa<\/a>. Agora, escrevo pontualmente sobre o que um c\u00e3o precisa para exercer o princ\u00edpio b\u00e1sico da vida saud\u00e1vel com dignidade de mente, corpo e esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Os fatores que me guiam nessa caminhada vem, principalmente, de minhas leituras. Mas abuso de uma certa dose de instinto abolicionista e das experi\u00eancias adquiridas de uma vida de conviv\u00eancia e observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tenho, em minha biblioteca, que fui formando com o tempo, desde adolescente, exatamente trinta e sete livros que falam sobre c\u00e3es. Todos no estilo \u201ccomo fazer seu c\u00e3o feliz\u201d. Destes trinta e sete, infelizmente, trinta e cinco ensinam como manter um c\u00e3o \u201cfeliz\u201d sob a perspectiva humana que reduz um c\u00e3o a um mini-humano de quatro patas. Trinta e cinco ensinando como tirar proveito da conviv\u00eancia com um c\u00e3o atrav\u00e9s da lei do m\u00ednimo esfor\u00e7o, que negligencia e portanto frustra suas mentes complexas.<\/p>\n<p>A \u201ceduca\u00e7\u00e3o\u201d de um c\u00e3o saud\u00e1vel, nesses livros, se restringe \u00e0s regras mec\u00e2nicas de adestramento que para o c\u00e3o n\u00e3o fazem sentido algum. Mas que para o dono s\u00e3o motivos de orgulho e exibicionismo. Frustra\u00e7\u00e3o de instintos. \u00c9 essa concep\u00e7\u00e3o que tenho desse tipo de adestramento. Os assuntos abordados nos referidos livros tamb\u00e9m giram em torno de comida (a mais f\u00e1cil), banho, tosa e cuidados veterin\u00e1rios. Essenciais, mas o c\u00e3o precisa de mais. Os livros n\u00e3o s\u00e3o de todo, ruins. Mas qualquer abolicionista, ao ler, se incomoda com uma coisa ou outra. Em geral, a leitura come\u00e7a bem. De repente, um ponto que contraria a premissa de considerar um c\u00e3o como um todo (corpo, mente, esp\u00edrito e instintos) p\u00f5e quase toda a leitura a perder. Essas leituras me incomodam. Primeiro, porque suponho que o ideal seria (para o bem dos c\u00e3es) n\u00e3o manter qualquer rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia entre um c\u00e3o e um ser humano. J\u00e1 fui e sou muito criticada por acreditar que n\u00e3o deveriam existir animais domesticados. H\u00e1 muito o que aprendermos sobre as mentes caninas se o que de fato pretendemos \u00e9 uma conviv\u00eancia saud\u00e1vel para ambas as partes. Segundo, porque a despeito dessa suposi\u00e7\u00e3o, vivemos em um mundo em que essa conviv\u00eancia imposta s\u00f3 aumenta. Na capital de S\u00e3o Paulo, por exemplo, existem cerca de 1,5 milh\u00e3o de c\u00e3es \u2013 um c\u00e3o para cada sete habitantes. Destes, 70% semidomiciliados, 20% de domiciliados e 10% em total abandono (dados do CCZ de SP). Esses 20% domiciliados fazem parte de um contingente que alimenta uma ind\u00fastria que movimenta 8 (oito) bilh\u00f5es de reais por ano no Brasil com venda de filhotes e de toda a parafern\u00e1lia adjacente. Da necessidade \u00e0 futilidade. N\u00e3o \u00e9 de se estranhar que haja um incentivo cada vez maior \u00e0 domestica\u00e7\u00e3o, sem pensar em suas consequ\u00eancias para o c\u00e3o.<\/p>\n<p>Dos trinta e sete livros que mencionei no in\u00edcio, dois deles, na minha modesta opini\u00e3o, conseguiram falar do corpo e da mente de um c\u00e3o sob a perspectiva de quem permite que o c\u00e3o seja simplesmente um c\u00e3o. Os autores conseguem deslocar o foco central do ser humano tutor para o c\u00e3o, o maior interessado. Isso quer dizer que os autores tentam perceber o mundo sob a perspectiva canina. E os tutores humanos s\u00e3o considerados os respons\u00e1veis pelos principais problemas desenvolvidos pelos c\u00e3es. Justamente por imputarem uma conota\u00e7\u00e3o demasiadamente humana a um c\u00e3o. De um desses autores, falarei mais adiante, pois embasar\u00e1 meu racioc\u00ednio. Esses tantos livros que menciono, h\u00e1 os comerciais (maioria), os de poesia e os cient\u00edficos. Entre os de poesia, destaco o \u201cPoemas que latem ao cora\u00e7\u00e3o\u201d, do colega colunista Ulysses Tavares. S\u00e3o poemas de quem aprendeu a respeitar um c\u00e3o como um c\u00e3o. Recomendo.<\/p>\n<p>Academicamente falando, o quadro se agrava porque a maioria dos estudos, artigos, comp\u00eandios, teses e pesquisas que versam sobre o comportamento e a mente dos animais n\u00e3o humanos (em especial, dos c\u00e3es), infelizmente ainda est\u00e1 restrita a estudos comportamentais em cativeiro. Principalmente no Brasil. E a\u00ed vem uma gama de descalabros chamados de \u201cpesquisa comportamental\u201d envolvendo priva\u00e7\u00e3o de alimento, dos cuidados maternos e outros que me embrulham o est\u00f4mago (e de outros abolicionistas) mas esses, podem e devem ser foco de outra discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses livros, aos quais me refiro como n\u00e3o recomendados como fonte de informa\u00e7\u00e3o para quem realmente se preocupa com seus c\u00e3es, repetem o padr\u00e3o refletido em nossa doentia sociedade humana.<\/p>\n<p>Os tradicionais h\u00e1bitos ocidentais, principalmente da medicina tradicional, d\u00e3o uma \u00eanfase obstinada a prover e tratar estritamente o que chamamos de \u201ccorpo\u201d. E parecem esquecer-se de que o corpo \u00e9 puramente f\u00edsico. Por isso \u00e9 denominado \u201ccorpo\u201d depois da morte, do desencarne. Corpo \u00e9 o que resta quando tudo o mais j\u00e1 se foi. N\u00e3o \u00e9 assim que nos referimos? \u2013 O \u201ccorpo\u201d est\u00e1 sendo velado. \u2013 Tantos \u201ccorpos\u201d foram encontrados no acidente. \u2013 O \u201ccorpo\u201d da v\u00edtima estava irreconhec\u00edvel. Se somos t\u00e3o reducionistas a tratar certas quest\u00f5es e problemas humanos milenares, o que dizer quando nos referimos aos corpos, mentes e esp\u00edritos de outras esp\u00e9cies animais?<\/p>\n<p>Todas as outras esp\u00e9cies, sob cuidados ou sob a tirania (condenada ou legitimada) humana, sofrem as conseq\u00fc\u00eancias em seus corpos, esp\u00edritos e mentes. Seriam necess\u00e1rias v\u00e1rias p\u00e1ginas para descrever a viol\u00eancia que os corpos, mentes e esp\u00edritos dos c\u00e3es sofrem para se adaptar \u00e0 conviv\u00eancia humana (o que dizer dos demais animais)? E outras tantas para discutir como amenizar ou reverter esse triste quadro. Nesse texto trago apenas algumas quest\u00f5es para serem pensadas e digeridas por quem ainda n\u00e3o enxerga os c\u00e3es como c\u00e3es. Bater nessa mesma tecla parece n\u00e3o ter nexo algum para quem gosta do seu c\u00e3ozinho. \u201cMas \u00e9 \u00f3bvio que sei que meu c\u00e3o \u00e9 um c\u00e3o\u201d. Mas a julgar pelo que se v\u00ea todos os dias nas ruas, nas casas, nos notici\u00e1rios, enfim, ao nosso lado e cotidianamente, de maneira geral, as pessoas est\u00e3o muito distantes de respeitar o que o c\u00e3o de fato nasceu para ser.<\/p>\n<p>O primeiro livro em portugu\u00eas (traduzido) que me caiu \u00e0s m\u00e3os e n\u00e3o foi uma decep\u00e7\u00e3o, foi \u201cO encantador de c\u00e3es\u201d de Cesar Millan. Foi um dos primeiros livros que li que consegue ir al\u00e9m do adestramento. Outra obra que considero interessante \u00e9 o \u201cA cabe\u00e7a do cachorro\u201d, de Alexandra Horowitz. Mas sobre seu livro, escreverei oportunamente. De ambos dou a referencia completa no final desse texto.<\/p>\n<p>Os argumentos que desenvolvo s\u00e3o realizados, principalmente, a partir das considera\u00e7\u00f5es feitas por Cesar Millan. S\u00e3o contribui\u00e7\u00f5es do autor que, a meu ver, v\u00e3o al\u00e9m da hegemonia \u201cmarqueteira\u201d de adestramento, antropomorfiza\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o humana sobre o c\u00e3o. Nenhuma novidade para quem tem empatia pelos c\u00e3es. Mas pode gerar um desconforto para alguns ao constatar-se que o maior problema dos c\u00e3es desequilibrados s\u00e3o seus tutores humanos.<\/p>\n<p>Nossa falta de conhecimento sobre aspectos b\u00e1sicos relacionados \u00e0 verdadeira natureza dos c\u00e3es faz com que muitas vezes n\u00e3o deixemos essa natureza manifestar-se em sua plenitude. Essa \u00e9 a raiz de um comportamento canino desequilibrado. E esse desequil\u00edbrio pode vir na forma de agita\u00e7\u00e3o, depress\u00e3o, falta de limites, agress\u00e3o e outros comportamentos indesejados.<\/p>\n<p>Hoje em dia, apesar de termos mais livros, mais t\u00e9cnicas, mais recursos e boas inten\u00e7\u00f5es, o n\u00famero de c\u00e3es que se \u201ccomportam mal\u201d tem crescido como nunca. Muitos s\u00e3o indevidamente punidos das formas mais diversas, sem haver sequer nenhum questionamento sobre a causa do seu \u201cmau comportamento\u201d que reside t\u00e3o somente na frustra\u00e7\u00e3o de sua ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao tomarmos consci\u00eancia a respeito do que um c\u00e3o precisa, e da complexidade de suas mentes e corpos, a face da mesma moeda \u00e9 compreender o quanto os mesmos s\u00e3o frustrados e violentados em sua natureza pelo ser humano.<\/p>\n<p>Deformadores de mentes, corpos e esp\u00edritos. Express\u00f5es fortes, mas talvez, adequadas para definir n\u00e3o s\u00f3 exploradores (os que vendem, alugam, usam e abusam desses animais). Mas tamb\u00e9m certos adestradores e tutores. Bem intencionados, ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Do abandono e maus tratos expl\u00edcitos \u00e0 conviv\u00eancia for\u00e7ada, a viol\u00eancia \u00e0 ess\u00eancia desses animais tem in\u00fameros tons.<\/p>\n<p><b>Afinal, do que um c\u00e3o precisa?<\/b><\/p>\n<p>Primeiro, Cesar deixa claro que c\u00e3es n\u00e3o s\u00e3o equipamentos que voc\u00ea manda para o conserto e pronto. E portanto, que se um tutor quer um c\u00e3o saud\u00e1vel, deve estar disposto a colocar em pr\u00e1tica seus conselhos durante todos os dias da vida do seu animal. Cesar Millan destaca tr\u00eas coisas essenciais que o c\u00e3o precisa, al\u00e9m de \u00e1gua, comida e cuidados m\u00e9dicos preventivos ou curativos: exerc\u00edcio, disciplina e carinho, nesta ordem, que n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria, pois na natureza e segundo seu instinto, \u00e9 isso que ele procura. Refor\u00e7o que h\u00e1 muito mais do que o exposto abaixo. Quem tiver interesse, procure ler a obra completa, pois l\u00e1 h\u00e1 dicas muito importantes sobre como levar a cabo as sugest\u00f5es aqui apresentadas, e o mais importante: uma leitura atenta pode ajudar a compreender a linguagem corporal canina e aprender um pouco mais sobre o conceito de mentes caninas saud\u00e1veis.<\/p>\n<p><b>1. Exerc\u00edcio:<\/b><\/p>\n<p>Cesar acredita em intensa atividade f\u00edsica para ajudar os c\u00e3es a encontrar o tipo de equil\u00edbrio que teriam se vivessem naturalmente em um mundo sem a influ\u00eancia dos humanos. A\u00ed se encontra a dificuldade de entendimento de algumas pessoas que n\u00e3o respeitam o c\u00e3o como um ser com necessidades diferentes das suas. Pergunto: quem, nos dias de hoje disp\u00f5e de tempo para caminhar, correr, brincar, no m\u00ednimo duas vezes por dia e no m\u00ednimo meia hora de cada vez (p. 196) com seu c\u00e3o como recomenda o autor? Ele \u00e9 taxativo: ou voc\u00ea proporciona isso ao c\u00e3o que voc\u00ea escolheu para viver com voc\u00ea, ou ter\u00e1 o desenvolvimento do que ele chama de \u201cquest\u00f5es\u201d: problemas caninos que v\u00e3o desde a depress\u00e3o at\u00e9 a agressividade. E se voc\u00ea n\u00e3o for capaz de \u201cassinar esse contrato\u201d, ent\u00e3o, n\u00e3o o obrigue a viver com voc\u00ea. E n\u00e3o adianta ter uma casa com quintal enorme porque o c\u00e3o vai entender esse espa\u00e7o como um canil grande, nada mais. \u201cPassear com o cachorro\u201d significa ir al\u00e9m de liber\u00e1-lo para esvaziar sua bexiga, intestinos e respirar um pouco de ar. Uma caminhada vigorosa desenvolve o esp\u00edrito de matilha, essencial para reafirmar uma identidade canina. Todos os animais (do peixe de aqu\u00e1rio ao ser humano) tem a necessidade inata (e muitas vezes frustrada) de ser ativos. Cesar adverte que os c\u00e3es tem energias e genes diferentes. Alguns precisam se exercitar mais, outros menos, mas todos devem se exercitar. Os lobos, ancestrais dos c\u00e3es andam mais de cem quil\u00f4metros por dia e ca\u00e7am por mais de dez horas (National Park Service). Cachorro precisa se exercitar, cheirar, interagir e principalmente, viver em matilha. Se ele n\u00e3o tem outro igual para conviver, transfere esse papel para o tutor. Que como chefe de matilha, muitas vezes \u00e9 decepcionante. Cesar completa: \u201ctodos os c\u00e3es tem uma coisa em comum: para eles, fazer parte de um grupo de semelhantes tem um sentido muito importante. Fazer parte de uma fam\u00edlia de pessoas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. Eles se sentem confort\u00e1veis, talvez at\u00e9 mimados. Mas n\u00e3o tem esse sentido primordial. Por isso, quando os c\u00e3es conseguem fazer parte de um grupo de semelhantes, independente da ra\u00e7a, eles se sentem completos\u201d. De novo pergunto: quantos tutores tem essa consci\u00eancia? Sempre, a maioria guia-se pela lei do menor esfor\u00e7o. Para que \u201cter\u201d dois se um j\u00e1 satisfaz SEU ego? Para que ter as despesas (e aten\u00e7\u00e3o dispensada) dobradas ou triplicadas? E como sempre, quem perde, \u00e9 o c\u00e3o. Ap\u00f3s os exerc\u00edcios, espera-se que seu c\u00e3o tenha a energia canalizada e entre naturalmente em um ritmo de descanso. Na teoria, parece f\u00e1cil mas o autor n\u00e3o diz em nenhum momento que o seria. Mas diz que nunca \u00e9 tarde para come\u00e7ar. As dificuldades de in\u00edcio como os c\u00e3es que arrastam os donos, e outras mais s\u00e9rias s\u00e3o sanadas com o tempo, persist\u00eancia, regularidade e boa vontade. C\u00e9sar coloca o exerc\u00edcio como o primeiro ponto crucial e indispens\u00e1vel na rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel c\u00e3o-tutor. \u00c8 durante o exerc\u00edcio que temos a maior oportunidade de refor\u00e7ar que somos mais que tutores: somos lideres da matilha. Assim eles nos v\u00eaem. E refor\u00e7a v\u00e1rias vezes: se voc\u00ea n\u00e3o for capaz de proporcionar exerc\u00edcio regular (na forma de caminhadas. Jogar a bolinha no quintal n\u00e3o \u00e9 considerado exerc\u00edcio) a um c\u00e3o, n\u00e3o o obrigue a viver com voc\u00ea.<\/p>\n<p><b>2. Disciplina<\/b><\/p>\n<p>A palavra disciplina n\u00e3o tem aqui, a conota\u00e7\u00e3o de castigo. No mundo animal, todos s\u00e3o naturalmente disciplinados: as abelhas, as formigas, os golfinhos. \u00c9 necess\u00e1ria uma boa dose de disciplina e organiza\u00e7\u00e3o para coordenar a ca\u00e7a, as migra\u00e7\u00f5es e ate as brincadeiras. No contexto, disciplina envolve comprometimento com a rotina canina. Com regularidade nos hor\u00e1rios de exerc\u00edcios, alimenta\u00e7\u00e3o, brincadeiras e etc. N\u00e3o agredir, n\u00e3o fazer coc\u00f4 e xixi no lugar errado, n\u00e3o pular nas visitas. Tudo isso \u00e9 conseguido com disciplina. As matilhas s\u00e3o cheias de regras, com uma cultura peculiar. O mau comportamento \u00e9 \u201cpunido\u201d na natureza de v\u00e1rias formas, desde mordidas, \u00e0 morte e exclus\u00e3o da matilha. C\u00e9sar compara a disciplina canina \u00e0 humana, frisando a import\u00e2ncia dos limites: \u201ctodos n\u00f3s conhecemos pais que n\u00e3o estabelecem limites. S\u00e3o os filhos deles que saem correndo e gritando pelos restaurantes, jogando comida para todos os lados e perturbando o jantar. S\u00e3o esses pais que chamam a Supernanny quando a casa vira um caos\u201d. No caso dos c\u00e3es problem\u00e1ticos, ou viveram um passado de priva\u00e7\u00e3o, abusos e crueldades, ou simplesmente n\u00e3o tiveram limites quando deveriam ter. No caso dos c\u00e3es mimados, para compensar a falta de tempo e aten\u00e7\u00e3o, seus tutores os deixam fazer o que o instinto (ou desequil\u00edbrio) manda. C\u00e9sar alerta que nunca se deve corrigir um c\u00e3o atrav\u00e9s da ira, da frustra\u00e7\u00e3o e do medo. Viol\u00eancia, jamais \u00e9 aceit\u00e1vel. Gritar e esbravejar com um c\u00e3o mostra que voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o desequilibrado quanto ele. Mostrar lideran\u00e7a e cumprir regras s\u00e3o bem diferentes de causar medo e aplicar castigos. A corre\u00e7\u00e3o pode ser um som ou uma linguagem corporal que tire o c\u00e3o de determinado estado mental.<\/p>\n<p>Nem todos os \u201ccomportamentos naturais\u201d dos c\u00e3es que vivem com humanos devem ser permitidos. Meus cachorros (assim como a maioria) adoram se esfregar na carni\u00e7a, na bosta e em outras coisas repugnantes (para um ser humano). \u00c9 um resqu\u00edcio da evolu\u00e7\u00e3o, pois seus ancestrais assim disfar\u00e7avam seu cheiro para fazer suas ca\u00e7adas. Mas como tutora, redobro a aten\u00e7\u00e3o nas nossas caminhadas e n\u00e3o permito. Isso quando vejo. Como s\u00e3o quase sempre mais r\u00e1pidos que eu, sobra para mim tirar o \u201cbudum\u201d de carni\u00e7a com um banho (mesmo que depois v\u00e3o se esfregar direto na grama).<\/p>\n<p>Outro termo controverso que faz parte da disciplina \u00e9 a domina\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea sempre se comportou de um jeito errado e algu\u00e9m vem e tenta mudar as regras, a resist\u00eancia se estabelece. C\u00e3o disciplinado \u00e9 c\u00e3o submisso aos limites, segundo Cesar, n\u00e3o \u201chumilhado\u201d, at\u00e9 mesmo porque isso n\u00e3o existe no dicion\u00e1rio canino. O propagado m\u00e9todo de est\u00edmulo e recompensa funciona somente em c\u00e3es d\u00f3ceis e habituados desde filhotes. O que n\u00e3o \u00e9 o caso de pessoas que adotam c\u00e3es com um hist\u00f3rico de vida de priva\u00e7\u00f5es e maus tratos. Um alerta importante que Cesar faz \u00e9 que esse tipo de domina\u00e7\u00e3o \u00e9 coisa s\u00e9ria e deve ser feito com ajuda profissional e muita colabora\u00e7\u00e3o de um tutor persistente e empenhado em dar continuidade \u00e0 disciplina. Outro alerta \u00e9 que somente um c\u00e3o devidamente exercitado est\u00e1 pronto para ser disciplinado, do contr\u00e1rio, qualquer tentativa ser\u00e1 um desastre.<\/p>\n<p><b>3. Carinho<\/b><\/p>\n<p>Para Cesar, o momento certo de dar carinho \u00e9 quando o c\u00e3o est\u00e1 exercitado, alimentado e submisso. Se esta com medo, nervoso ou pulando em voc\u00ea sem parar, dar carinho s\u00f3 refor\u00e7ar\u00e1 o tipo de comportamento que voc\u00ea quer inibir. E lembra que apenas n\u00f3s, seres humanos, acreditamos que se n\u00e3o dermos carinho aos nossos c\u00e3es o tempo todo, estamos privando-os de algo.<\/p>\n<p>A despeito de todos os \u201cconselhos\u201d que foram abordados aqui de forma pontual, h\u00e1 uma outra faceta do mesmo problema: h\u00e1 muitas pessoas (e eu tenho muitos amigos, familiares e colegas assim) que s\u00e3o tutores de c\u00e3es abandonados. Que abrigam em suas casas 10, 20, 30 ou mais c\u00e3es. Todas s\u00e3o pessoas com muitos afazeres mas que dedicam (e sacrificam) suas vidas em prol desses seres. \u00c9 humanamente imposs\u00edvel colocar em pr\u00e1tica tudo o que foi aqui descrito. Mas essas pessoas, tenho certeza que se pudessem, escolheriam n\u00e3o tutelar esses animais. E, a julgar pelas nossas conversas, se ressentem de n\u00e3o poderem proporcionar a todos os seus c\u00e3es, uma vida ideal. S\u00e3o verdadeiros anjos, como j\u00e1 disse uma vez, que tentam minimizar as mazelas decorrentes da irresponsabilidade humana. Esse texto n\u00e3o \u00e9 para eles.<\/p>\n<p>Esse texto pode servir de reflex\u00e3o para aqueles que tem a ilus\u00e3o de que \u201cter\u201d um c\u00e3o \u00e9 coisa f\u00e1cil, sem maiores responsabilidades. \u00c9 para aqueles que compram um c\u00e3o como se fosse uma coisa e depois descartam. \u00c9 para aqueles que, para atender a um capricho do filho sem limites, adotam (ou compram) sem a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o de como ou com quem esse c\u00e3o vai ficar quando viajarem, quem vai limpar coc\u00f4 e xixi o dia todo, quem vai cuidar e fazer companhia quando ele adoecer. Quem vai fazer exerc\u00edcio com ele? Isso \u00e9 o de menos. E prevalece, novamente, a lei do menor esfor\u00e7o e cuidados com o \u201ccorpo\u201d, n\u00e3o com a mente e o esp\u00edrito do c\u00e3o: \u201cempregados\u201d para limpar e passear, hotelzinho para o c\u00e3o ficar nas f\u00e9rias, e \u201cjoga\u201d no veterin\u00e1rio para \u201ctratar\u201d. Ou ent\u00e3o, descarta, das mais cru\u00e9is e diversas formas. P\u00f5e na corrente, trancafia num canil e resolve o SEU problema. N\u00e3o h\u00e1 exemplo maior de covardia e irresponsabilidade. Existem muitos \u201ccachorros de madame\u201d, abandonados.<\/p>\n<p>Alguns tutores simplesmente n\u00e3o querem fazer o que \u00e9 preciso para deixar seus c\u00e3es equilibrados. Demanda trabalho e esfor\u00e7o. Muitos n\u00e3o querem perder a realiza\u00e7\u00e3o proporcionada por um ser servil. Mas pergunto, assim como Cesar o faz durante todo o seu livro: um relacionamento ideal n\u00e3o \u00e9 aquele que \u00e9 bom para ambos? Se a resposta for sim, ent\u00e3o h\u00e1bitos arraigados, inclusive o da \u201cnecessidade\u201d de \u201cter\u201d um c\u00e3o devem ser seriamente repensados. Pelo menos por aqueles que respeitam e querem o bem dos c\u00e3es na sua totalidade: de corpo, mente e esp\u00edrito. Mesmo que esse respeito signifique n\u00e3o ter um c\u00e3o.<\/p>\n<p>_________________________<\/p>\n<p><em>Marcela Teixeira Godoy. Bi\u00f3loga, Professora da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Coordena e trabalha com projetos de Ensino, Pesquisa e Extens\u00e3o voltados para o abolicionismo animal. Doutoranda em Ensino de Ci\u00eancias na Universidade Estadual de Londrina-Paran\u00e1, Brasil.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/08\/02\/2013\/do-que-um-cao-precisa\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser\u00e1 que o c\u00e3o tem esp\u00edrito? \u2013 perguntou-me o filho do meio. Olhei para ele surpreendido. 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(Manuel Alegre).<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[170,46],"tags":[],"class_list":["post-25824","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-animal-rights-vegetarianism","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25824","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25824"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25824\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25824"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25824"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25824"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}