{"id":26019,"date":"2013-02-25T12:00:16","date_gmt":"2013-02-25T12:00:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=26019"},"modified":"2013-03-04T20:07:25","modified_gmt":"2013-03-04T20:07:25","slug":"portugues-o-mito-do-capitalismo-natural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/02\/portugues-o-mito-do-capitalismo-natural\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Mito do Capitalismo \u201cNatural\u201d"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_26022\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/130219-Avareza-e1361308336620.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-26022\" class=\"size-full wp-image-26022\" alt=\"130219-Avareza-e1361308336620\" src=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/130219-Avareza-e1361308336620.jpg\" width=\"400\" height=\"279\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/130219-Avareza-e1361308336620.jpg 400w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/130219-Avareza-e1361308336620-300x209.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-26022\" class=\"wp-caption-text\">A Avareza<\/p><\/div>\n<p><i>H\u00e1 s\u00e9culos, ideia de que ser humano \u00e9 \u201cem ess\u00eancia\u201d ego\u00edsta-competitivo justifica rela\u00e7\u00f5es capitalistas. Descobertas recentes est\u00e3o derrubando tal cren\u00e7a.<\/i><\/p>\n<p>O modelo capitalista de sociedade premia e estimula o comportamento individualista, utilit\u00e1rio e ego\u00edsta. Diversos pensadores, como o economista Alan Greespan, acreditam que tal comportamento apenas reflete a verdadeira ess\u00eancia da natureza humana e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 muito a fazer a respeito. Entretanto, essa vis\u00e3o do ser humano foi moldada ao longo da hist\u00f3ria e, na verdade, os estudos de hoje discordam da no\u00e7\u00e3o de que somos \u00a0essencialmente individualistas e agressivos.<\/p>\n<p>Alguns fil\u00f3sofos, como Thomas Hobbes, John Locke e Adam Smith, contribu\u00edram para a consolida\u00e7\u00e3o da ideia de que o ser humano \u00e9, por natureza, racional, aut\u00f4nomo, utilit\u00e1rio e voltado principalmente para a satisfa\u00e7\u00e3o ego\u00edsta de seus pr\u00f3prios interesses. As principais institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas que hoje moldam a sociedade foram fundadas a partir desses preceitos sobre a natureza humana.<\/p>\n<p>O modelo social adotado pelos princ\u00edpios capitalistas p\u00f5e em cena uma perspectiva de Estado-Na\u00e7\u00e3o que tem como objetivo estimular as for\u00e7as do livre mercado e proteger a propriedade privada. O homem \u00e9 ent\u00e3o considerado um indiv\u00edduo aut\u00f4nomo e racional que, ao optar por viver em sociedade, acredita que esta \u00e9 a melhor forma de proteger seus pr\u00f3prios interesses, evitando assim um estado de selvageria natural representado pela express\u00e3o hobbesiana \u201cguerra de todos contra todos\u201d.<\/p>\n<p>Da mesma forma que os indiv\u00edduos proclamam sua autossufici\u00eancia, os Estados s\u00e3o vistos na pol\u00edtica internacional como aut\u00f4nomos na busca do pr\u00f3prio interesse. Sob tal perspectiva, as na\u00e7\u00f5es encontram-se em eterna batalha em busca de poder e de bens materiais. A narrativa hist\u00f3rica \u00e9 constru\u00edda a partir de uma constante dicotomia estabelecida entre Estados e indiv\u00edduos isolados, p\u00fablico e privado, termos ocasionalmente unidos apenas por raz\u00f5es de utilidade ou de lucro.<\/p>\n<p>O mito do homem que sobrevive como indiv\u00edduo \u00e9 difundido na literatura universal em her\u00f3is como Robinson Cruso\u00e9: o homem que consegue, sozinho, atrav\u00e9s do uso da raz\u00e3o, utilizar a natureza a seu favor e sobrevive sem o aux\u00edlio de outras pessoas. Por\u00e9m, o que n\u00e3o est\u00e1 dito \u00e9 que Cruso\u00e9 \u00e9 um homem adulto, que cresceu em uma sociedade complexa, na qual dependia diretamente de outras pessoas. Al\u00e9m disso, ele apenas aprendeu os conhecimentos necess\u00e1rios para a sua sobreviv\u00eancia na ilha deserta atrav\u00e9s do contato com experi\u00eancias de outras pessoas e outras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o filos\u00f3fica, que se transformou em pol\u00edtica, foi naturalizada por um conjunto de teorias cient\u00edficas. O darwinismo social \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o estreita da teoria de Darwin aplicada \u00e0 sociedade humana. Tal teoria enfatiza a ideia de que a evolu\u00e7\u00e3o se relaciona \u00e0 competi\u00e7\u00e3o e \u00e0 sobreviv\u00eancia do mais forte, pondo-a em pr\u00e1tica na sociedade humana. Dessa forma, caracter\u00edsticas como individualismo, agressividade e competi\u00e7\u00e3o seriam os agentes naturais da evolu\u00e7\u00e3o. Argumenta-se que a competi\u00e7\u00e3o pela sobreviv\u00eancia fundamenta a evolu\u00e7\u00e3o humana, a fim de justificar a sociedade capitalista como o modelo natural a ser adotado.<\/p>\n<p>Atualmente, tal no\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada bastante reducionista. J\u00e1 se observou, por exemplo, que n\u00e3o apenas a competi\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m a coopera\u00e7\u00e3o entre os indiv\u00edduos s\u00e3o fatores de extrema import\u00e2ncia na sobreviv\u00eancia de esp\u00e9cies sociais. Recentes estudos de sociobiologia v\u00eam comprovando a hip\u00f3tese de que o ser humano \u00e9, na verdade, um dos animais mais sociais que existe. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil comprovar esse fato: vivemos em grupos cada vez maiores, em sociedades cada vez mais complexas com indiv\u00edduos interdependentes. Temos a necessidade constante de nos sentir conectados a outras pessoas e de pertencer a um grupo, em um sentimento que remonta \u00e0s ideias ancestrais de coletividade e de comunidade.<\/p>\n<p>Uma descoberta biol\u00f3gica recente vem corroborar essa ideia. Os neur\u00f4nios-espelhos fazem parte de um importante sistema cerebral que atua diretamente em nossa conex\u00e3o com outros indiv\u00edduos. Esse conjunto de neur\u00f4nios \u00e9 mobilizado quando vemos outra pessoa fazendo algo. Pesquisadores constataram que, quando uma pessoa observa outra realizando uma a\u00e7\u00e3o, no c\u00e9rebro do observador s\u00e3o estimuladas as mesmas \u00e1reas que normalmente regem a a\u00e7\u00e3o observada. Portanto, ao que tudo indica, nossa percep\u00e7\u00e3o visual inicia uma esp\u00e9cie de simula\u00e7\u00e3o ou duplica\u00e7\u00e3o interna dos atos de outros.<\/p>\n<p>Os neur\u00f4nios-espelhos s\u00e3o a base do aprendizado e da aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem humana. Mais do que isso, eles tornam fluida a fronteira entre n\u00f3s e os outros; s\u00e3o a origem da empatia, que \u00e9 a capacidade de nos colocar no lugar de outra pessoa. Pode-se dizer que, ao observar algu\u00e9m sorrindo, imediatamente nos sentimos impelidos a sorrir tamb\u00e9m. Quando percebemos algu\u00e9m que est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o que causa dor, a rea\u00e7\u00e3o natural \u00e9 partilhar o sentimento de dor alheia.<\/p>\n<p>A capacidade emp\u00e1tica e a necessidade de fazer parte de um grupo formam as bases, por assim dizer, das religi\u00f5es organizadas e do sentimento de nacionalismo. O problema \u00e9 que, ao mesmo tempo em que fomentam a empatia coletiva, estas institui\u00e7\u00f5es limitam o sentimento emp\u00e1tico pelos indiv\u00edduos que n\u00e3o fazem parte do mesmo grupo. Assim, o indiv\u00edduo que faz parte de outra ordem \u2014 seja ela uma na\u00e7\u00e3o, uma religi\u00e3o, uma etnia ou uma classe social \u2014 \u00e9 considerado diferente, distante e, eventualmente, intoler\u00e1vel. Tais r\u00f3tulos limitam a capacidade emp\u00e1tica e impedem de ver o outro como um semelhante na partilha de sentimentos, desejos e ang\u00fastias intr\u00ednsecos \u00e0 natureza humana.<\/p>\n<p>Um exemplo de que a empatia \u00e9 natural ao ser humano \u00e9 a forma como ela ocorre de maneira livre e instintiva nas crian\u00e7as. Quando uma crian\u00e7a observa outra pessoa em situa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel, como a mendic\u00e2ncia e a falta de moradia, a primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e9 o questionamento. Invariavelmente, as respostas que fazem uso de r\u00f3tulos auxiliam a explicar a situa\u00e7\u00e3o: \u201c\u00e9 apenas um mendigo\u201d ou \u201c\u00e9 s\u00f3 um menino de rua\u201d. Com frases assim, est\u00e1-se afirmando que o outro n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m como n\u00f3s; trata-se apenas de algu\u00e9m diferente, em uma realidade distante da nossa. Portanto, ao estimular constantemente o ego\u00edsmo e o interesse individualista, a sociedade baseada no modelo atual desestimula a capacidade emp\u00e1tica existente em cada um.<\/p>\n<p>Dessa forma, pode-se afirmar que o desafio do nosso tempo \u00e9 desnaturalizar o ego\u00edsmo social que foi imposto e recuperar nossa empatia natural, n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o aos grupos de pertencimento, mas sobretudo ampliada em rela\u00e7\u00e3o a toda nossa esp\u00e9cie.<\/p>\n<p><b><b>Posts<\/b> Relacionados:<\/b><\/p>\n<ol start=\"1\">\n<li><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2012\/08\/31\/slavoj-zizek-alem-do-mito\/\" title=\"Para ler Slavoj \u017di\u017eek al\u00e9m do mito\" >Para ler Slavoj \u017di\u017eek al\u00e9m do mito<\/a><\/li>\n<li><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2013\/01\/09\/wallerstein-capitalismo-austeridade-e-saidas\/\" title=\"Wallerstein: capitalismo, \u201causteridade\u201d e sa\u00eddas\" >Wallerstein: capitalismo, \u201causteridade\u201d e sa\u00eddas<\/a><\/li>\n<li><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2011\/10\/29\/para-superar-capitalismo-bauman-convoca-a-imaginacao\/\" title=\"Contra o capitalismo, Bauman convoca \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o\" >Contra o capitalismo, Bauman convoca \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o<\/a><\/li>\n<li><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2010\/01\/05\/perspectivas-2010-da-crise-ao-pos-capitalismo\/\" title=\"Perspectivas 2010: da crise ao p\u00f3s-capitalismo\" >Perspectivas 2010: da crise ao p\u00f3s-capitalismo<\/a><\/li>\n<li><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2010\/04\/17\/pos-capitalismo-direitos-humanos-e-liberdade\/\" title=\"P\u00f3s-capitalismo, direitos humanos e liberdade\" >P\u00f3s-capitalismo, direitos humanos e liberdade<\/a><\/li>\n<\/ol>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2013\/02\/19\/o-mito-do-capitalismo-natural\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O modelo capitalista de sociedade premia e estimula o comportamento individualista, utilit\u00e1rio e ego\u00edsta. Diversos pensadores, como o economista Alan Greespan, acreditam que tal comportamento apenas reflete a verdadeira ess\u00eancia da natureza humana e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 muito a fazer a respeito. Entretanto, essa vis\u00e3o do ser humano foi moldada ao longo da hist\u00f3ria e, na verdade, os estudos de hoje discordam da no\u00e7\u00e3o de que somos  essencialmente individualistas e agressivos.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,46],"tags":[],"class_list":["post-26019","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-capitalism","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26019","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26019"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26019\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26019"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26019"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26019"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}