{"id":26154,"date":"2013-03-04T12:00:57","date_gmt":"2013-03-04T12:00:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=26154"},"modified":"2013-03-01T00:47:57","modified_gmt":"2013-03-01T00:47:57","slug":"portugues-franz-kafka-e-a-segunda-feira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/03\/portugues-franz-kafka-e-a-segunda-feira\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Franz Kafka e a Segunda-feira"},"content":{"rendered":"<p><i>Ao contr\u00e1rio do que dizem os apologistas do fim da Hist\u00f3ria, a luta de classes n\u00e3o se calou. No entanto, diante da assepsia publicit\u00e1ria por que passam os discursos contestat\u00f3rios, a l\u00f3gica po\u00e9tica de Kafka nos leva a pensar a contrapelo de n\u00f3s mesmos: se o movimento da contradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica n\u00e3o for estancado e reconfigurado, continuaremos a figurar como coadjuvantes da cadeia alimentar que nos coage \u00e0 frieza, \u00e0 brutalidade e ao cinismo do entrechoque entre gato e rato, de modo que a &#8220;Pequena F\u00e1bula&#8221; possa receber um t\u00edtulo mais adequado aos tempos atuais: &#8220;segunda-feira&#8221;.<\/i><\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, Franz Kafka escreveu uma<\/p>\n<p><b>Pequena F\u00e1bula (*)<\/b><\/p>\n<p><i>\u201c\u2018Ah\u2019, disse o rato, \u2018o mundo torna-se cada dia mais estreito. A princ\u00edpio era t\u00e3o vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via \u00e0 dist\u00e2ncia, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem t\u00e3o depressa uma para a outra, que j\u00e1 estou no \u00faltimo quarto e l\u00e1 no canto fica a ratoeira para a qual eu corro\u2019. \u2013 \u2018Voc\u00ea s\u00f3 precisa mudar de dire\u00e7\u00e3o\u2019, disse o gato e devorou-o\u201d. <\/i><\/p>\n<p>Muitas teses e ant\u00edteses j\u00e1 entraram em entrechoque para tentar determinar o sentido cabal que daria conta da labir\u00edntica f\u00e1bula em quest\u00e3o. Assim, ora a vastid\u00e3o inicial do mundo estaria relacionada ao Jardim do \u00c9den, a utopia m\u00edtica, ora ela diria respeito aos prim\u00f3rdios das revolu\u00e7\u00f5es, em que a euforia coletiva pela nova mir\u00edade de oportunidades daria vaz\u00e3o a um perigoso caos pol\u00edtico que logo precisaria de restri\u00e7\u00f5es para n\u00e3o se transformar em completa balb\u00fardia. As paredes que acabam por despontar \u00e0 direita e \u00e0 esquerda seriam, ent\u00e3o, o sinal da Queda dos homens \u2013 a perda da liberdade original pela expuls\u00e3o do \u00c9den id\u00edlico \u2013 e\/ou a chegada de um ditador que, com pulso firme, colocaria ordem na desordem, uma vez que n\u00e3o poderia haver v\u00e1cuo no poder. Religiosos e pol\u00edticos fariam um breve armist\u00edcio, no entanto, diante da fraqueza original do homem \u2013 o rato tr\u00eamulo \u2013 que demandaria a tutela infal\u00edvel de Deus e\/ou do Guia Genial dos Povos \u2013 eis a onisci\u00eancia e a onipresen\u00e7a do gato. (Iconoclastas tanto da tradi\u00e7\u00e3o quanto do poder, os anarquistas de plant\u00e3o discordariam de ambos os lados e diriam ser necess\u00e1rio p\u00f4r abaixo o labirinto; se tal fato acontecesse \u2013 dizem os religiosos e pol\u00edticos que apenas por ora voltam a concordar \u2013, o beb\u00ea seria jogado fora junto com a \u00e1gua do banho, j\u00e1 n\u00e3o haveria motivo para discord\u00e2ncias, j\u00e1 n\u00e3o haveria nem mesmo a f\u00e1bula de Kafka, \u201cn\u00f3s n\u00e3o ter\u00edamos o que fazer, ficar\u00edamos todos desempregados, e voc\u00eas, anarquistas, j\u00e1 n\u00e3o teriam o que destruir\u201d.)<\/p>\n<p>Diante do labirinto poliss\u00eamico de Kafka, que arremessa as interpreta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias e contrariadas em um turbilh\u00e3o infind\u00e1vel de contradi\u00e7\u00f5es, uma m\u00e1xima de Oscar Wilde parece dar o tom para a contenda fabular entre Tom e Jerry. \u201cQuando os cr\u00edticos discordam entre si, o artista concorda consigo mesmo\u201d (**).<\/p>\n<p>E se ao inv\u00e9s de perguntarmos <i>o que<\/i> a pequena f\u00e1bula quis dizer, passarmos a interrogar <i>como<\/i> ela o fez? Se voltarmos nossas aten\u00e7\u00f5es para a <i>forma<\/i> kafkiana de estrutura\u00e7\u00e3o e movimenta\u00e7\u00e3o dos conflitos, talvez cheguemos \u00e0 conclus\u00e3o de que a din\u00e2mica da Hist\u00f3ria est\u00e1 inconclusa; de que a desigualdade entre gato e rato permanece, de modo a conferir atualidade \u00e0 dial\u00e9tica entre liberdade e autoritarismo; de que o sentido est\u00e1 n\u00e3o no <i>conte\u00fado<\/i> un\u00edvoco que a f\u00e1bula possa conter, mas na <i>forma<\/i> poliss\u00eamica que norteia e desnorteia as mais diversas interpreta\u00e7\u00f5es e cuja din\u00e2mica prolonga as contradi\u00e7\u00f5es sem reconciliar os conflitos que a Hist\u00f3ria ainda n\u00e3o resolveu. A meu ver, a atualidade de Kafka reside na plasticidade da moldura de seu labirinto, cujas galerias comportam os entrechoques das mais diversas teses e ant\u00edteses. Analisemos, ent\u00e3o, o modo pelo qual a forma dist\u00f3pica, em estreito di\u00e1logo com as contradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, transforma os discursos ut\u00f3picos em antec\u00e2maras do labirinto, ao fim do qual a sa\u00edda n\u00e3o passa de uma nova entrada. Sen\u00e3o, vejamos.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 preciso salientar o car\u00e1ter <i>fabular<\/i> da breve est\u00f3ria kafkiana. Animais com caracter\u00edsticas humanas vivenciam experi\u00eancias e procuram torn\u00e1-las intelig\u00edveis para si pr\u00f3prios \u2013 e para os leitores. Animais sociais que somos, n\u00f3s n\u00e3o vivemos em meio \u00e0 natureza sem a media\u00e7\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Assim, o processo de identifica\u00e7\u00e3o entre o leitor humano e as personagens animais apresenta, desde o princ\u00edpio, um sentido tr\u00e1gico e c\u00ednico para a f\u00e1bula: como a humanidade ainda n\u00e3o conseguiu superar as contradi\u00e7\u00f5es de um capitalismo voraz que arremessa seus s\u00faditos em rela\u00e7\u00f5es de competi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e autof\u00e1gica, a personifica\u00e7\u00e3o dos animais e a animaliza\u00e7\u00e3o das pessoas medem a dist\u00e2ncia hist\u00f3rica entre a utopia n\u00e3o realizada e a distopia de nosso cotidiano. Ademais, a cadeia alimentar que coage os animais \u2013 mas que n\u00e3o deveria coagir os animais racionais \u2013 estabelece uma hierarquia inequ\u00edvoca entre gato e rato: predador e presa. Quando entreveem essa assimetria, muitos leitores associam <i>imediatamente<\/i> a figura do gato ao poder, enquanto o rato representaria o povo secularmente acossado. Tal leitura n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o a <i>l\u00f3gica impessoal<\/i> do poder que subjaz \u00e0 constru\u00e7\u00e3o kafkiana.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XX, s\u00e9culo <i>kafkiano<\/i>, demonstrou que a revolu\u00e7\u00e3o bem pode degringolar em contrarrevolu\u00e7\u00e3o. O l\u00edder fascista Benito Mussolini certa vez afirmou que, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o, resta o problema dos revolucion\u00e1rios. Seria poss\u00edvel exercer cont\u00ednuas autocr\u00edticas sem municiar os opositores que almejam o poder? Mas sem o exerc\u00edcio cont\u00ednuo da cr\u00edtica e da autocr\u00edtica, como garantir que o poder e os poderosos n\u00e3o demandar\u00e3o a autocracia? Ora, os prim\u00f3rdios da revolu\u00e7\u00e3o pareciam ter transformado o mundo em mera imagem e representa\u00e7\u00e3o, tudo parecia poss\u00edvel. Tr\u00f3tski certa vez profetizou que, em meio \u00e0 sociedade transformada pelo socialismo, o n\u00edvel m\u00e9dio dos cidad\u00e3os seria compar\u00e1vel a Marx e a Arist\u00f3teles. Antes que conservadores onipresentes riam do revolucion\u00e1rio russo, \u00e9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o o profundo otimismo hist\u00f3rico que embasava tal coloca\u00e7\u00e3o. A revolu\u00e7\u00e3o prometia romper os aguilh\u00f5es que impediam o desenvolvimento humano. Artistas russos chegaram a declinar da autoria de suas obras. \u201cN\u00e3o fomos n\u00f3s que as criamos, a hist\u00f3ria falou atrav\u00e9s de n\u00f3s, o proletariado \u00e9 o grande autor\u201d. Mas os interrogat\u00f3rios vindouros da pol\u00edcia pol\u00edtica de St\u00e1lin acabariam com o otimismo da autoria coletiva. \u201cVamos, confesse!\u201d O pat\u00edbulo e o degredo na Sib\u00e9ria como testemunhas oculares.<\/p>\n<p>A esquerda tende a se <i>endireitar<\/i> quando toma as r\u00e9deas do poder. A direita n\u00e3o sabe bem o que fazer com o bast\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o, mas precisa minimamente contestar se quiser sobreviver em sua mais nova e ins\u00f3lita posi\u00e7\u00e3o. A Hist\u00f3ria nos ensina que a <i>l\u00f3gica<\/i> do poder tende a subverter e a inverter as prerrogativas do l\u00edder, grupo e partido que ocupam o trono.<\/p>\n<p>Nesse sentido, gato e rato s\u00e3o menos pap\u00e9is demarcados e un\u00edvocos do que <i>fun\u00e7\u00f5es<\/i> din\u00e2micas a serem ocupadas ora por um ator, ora por outro. Se os esquerdistas n\u00e3o estudarmos as li\u00e7\u00f5es de Kafka, estaremos fadados a vestir ainda uma vez a fantasia do gato para colocarmos os trajes de rato naqueles que a revolu\u00e7\u00e3o obrigou a ceder as velhas vestes de felino. Assim, campos de concentra\u00e7\u00e3o siberianos, os Gulags de St\u00e1lin, revolu\u00e7\u00f5es culturais que queimaram livros e pared\u00f5es n\u00e3o conseguiram romper a <i>l\u00f3gica<\/i> tali\u00f4nica do poder que os revolucion\u00e1rios outrora afirmavam utilizar apenas momentaneamente enquanto o capitalismo n\u00e3o era superado por completo. (Quando os por\u00f5es da Esta\u00e7\u00e3o da Luz ficavam superlotados, os torturadores do DOPS paulistano n\u00e3o tinham quaisquer escr\u00fapulos em voltar a dar aulas pr\u00e1tica de l\u00f3gica do poder \u00e0queles que ousavam n\u00e3o delatar os camaradas que ainda n\u00e3o haviam sido presos.)<\/p>\n<p>Ao voltarmos ainda uma vez para a <i>Pequena F\u00e1bula<\/i>, descobrimos que, a princ\u00edpio, o rato se lamenta pela crescente estreiteza do mundo. O rato, animal combalido em face do gato vindouro, parece demandar maior liberdade. (Se a est\u00f3ria parasse por aqui, os anarquistas iriam a Praga a fim de convidar Franz Kafka para o congresso liter\u00e1rio de maio de 1968.) Mas a frase seguinte \u2013 a ant\u00edtese em face da tese que a primeira frase apresenta \u2013 narra um ratinho temer\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vastid\u00e3o inicial do mundo. Podemos deduzir, ent\u00e3o, que havia uma imensid\u00e3o anterior \u00e0 cont\u00ednua estreiteza do mundo com a qual o rato se depararia posteriormente. Como decidir qual a posi\u00e7\u00e3o efetiva do rato? Ele teme as m\u00faltiplas possibilidades de um mundo vasto, mas ao mesmo tempo se lamenta por conta do cont\u00ednuo emparedamento a que o mundo transformado o coage. Enquanto os cr\u00edticos partid\u00e1rios quiserem atribuir um conte\u00fado un\u00edvoco \u00e0 trajet\u00f3ria do rato, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel ver que a <i>l\u00f3gica<\/i> po\u00e9tica de Kafka, ao mimetizar os movimentos contradit\u00f3rios da Hist\u00f3ria, arremessa o roedor ora \u00e0 direita, ora \u00e0 esquerda, ora como sujeito de suas demandas, ora como s\u00fadito de seu medo, de modo que a leitura que opte por um \u00fanico sentido acaba resolvendo artisticamente um conflito que, no terreno da luta de classes, ainda n\u00e3o foi superado. Assim, a despeito da boa inten\u00e7\u00e3o inicial que n\u00e3o sabe agir sem tachar <i>amigos e inimigos, camaradas e inimigos do Estado, companheiros e opositores<\/i>, a tentativa de arregimentar Kafka em um partido ou tend\u00eancia \u00fanicos dilui a enorme atualidade de sua forte cr\u00edtica social que est\u00e1 presente na <i>din\u00e2mica<\/i> de sua est\u00f3ria, na <i>l\u00f3gica po\u00e9tica<\/i> de sua f\u00e1bula. O problema para a cr\u00edtica partid\u00e1ria \u00e9 que a cr\u00edtica social kafkiana n\u00e3o resolve as contradi\u00e7\u00f5es que a Hist\u00f3ria s\u00f3 faz prolongar, e ent\u00e3o ela se mostra <i>impessoal<\/i> e sem muita utilidade para aqueles que s\u00f3 cumprir\u00e3o os des\u00edgnios do poder sem romper com a sua l\u00f3gica hist\u00f3rica que delineia e define as fronteiras das a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>O adv\u00e9rbio <i>finalmente<\/i>, na segunda frase da f\u00e1bula, traz um certo alento ao pobre ratinho que, enfim, v\u00ea as paredes de Deus, do Pai, do pai, do partido, da empresa, do casamento, do clube etc. do etc. lhe darem novamente um m\u00ednimo de seguran\u00e7a. Para aqueles que n\u00e3o estamos acostumados a viver segundo o ritmo incerto da liberdade socialmente constru\u00edda, as contradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas sussurram que tende a haver uma grande contiguidade entre o medo de caminhar com as pr\u00f3prias pernas e a entrega da pr\u00f3pria autonomia a terceiros para que a incerteza pessoal seja permutada pela tutela alheia. (Se o labirinto de Kafka tivesse os contornos de uma catedral, o ratinho comeria a h\u00f3stia e se confessaria com o padre \u201cpor s\u00e9culos e s\u00e9culos, am\u00e9m\u201d.) Mas, novamente, Kafka d\u00e1 dinamismo ao movimento da contradi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o ratinho passa a sentir que, agora, \u201cessas longas paredes convergem t\u00e3o depressa uma para a outra\u201d. Vale a pena retomarmos o fio da meada: primeiro o rato \u00e9 altivo, pois reclama da estreiteza do mundo \u2013 rato revolucion\u00e1rio; depois o ratinho sente medo pela vastid\u00e3o inicial e se alivia com o fato de que, \u00e0 dist\u00e2ncia, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, as paredes, isto \u00e9, os limites, passam a se delinear \u2013 ratinho reacion\u00e1rio; agora, ele volta a se contrapor ao movimento do labirinto, uma vez que as paredes que se estreitam cada vez mais passam a coagi-lo. Al\u00e9m de sugerir que h\u00e1 uma contiguidade entre os extremos, como se a liberdade total e a coa\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria trouxessem temores e tremores parelhos, a pequena f\u00e1bula de Kafka nos leva ao \u201c\u00faltimo quarto\u201d, em cujo canto fica a ratoeira para a qual o rato se encaminha.<\/p>\n<p>Abstraiamos o conte\u00fado da micronarrativa e tentemos desenhar o trajeto patibular de Mickey Mouse. O descampado id\u00edlico do <i>G\u00eanesis<\/i> n\u00e3o tem fronteiras. O olhar do roedor n\u00e3o consegue abra\u00e7ar o horizonte. (E, se pensarmos bem, ser\u00e1 que conseguimos imaginar a no\u00e7\u00e3o do infinito sem que, no limite, coloquemos algum tipo de delimita\u00e7\u00e3o \u2013 uma cerca \u2013 para nos dar guarida?) De repente, o rato marcha \u2013 come\u00e7a a correr de medo, a bem dizer \u2013 e as paredes convergem, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda. Ora, salvo engano \u2013 e o poder bem gosta de nos ludibriar \u2013, estamos cada vez mais diante de um funil, a metade de um losango, em cujo extremo desponta a ratoeira. Ora, o ratinho revolucion\u00e1rio e reacion\u00e1rio \u00e9 provido de raz\u00e3o, s\u00f3 que o c\u00e9rebro roedor precisa das prote\u00ednas do queijo para continuar a pensar, a questionar \u2013 e a temer. Mas \u2013 e o fluido das contradi\u00e7\u00f5es kafkianas sempre desliza ao sabor de conjun\u00e7\u00f5es adversativas \u2013, se as paredes convergem unidirecionalmente, basta ao rato dar meia-volta \u2013 a Hist\u00f3ria fardada diria: \u201cvolver!\u201d \u2013 para que as paredes antes convergentes passem a divergir e a se distanciar. O mundo voltar\u00e1 a ficar vasto, o \u00c9den ser\u00e1 ent\u00e3o recuperado, mas e quanto ao medo, o irm\u00e3o mais novo do pecado original? A <i>Pequena F\u00e1bula<\/i> de Kafka seria uma est\u00f3ria sem fim, j\u00e1 que a retomada da vastid\u00e3o levaria o rato novamente \u00e0 fuga para o extremo oposto em que est\u00e1 a ratoeira, e, ao se deparar com o beco sem sa\u00edda, ele sentiria a nostalgia do para\u00edso perdido do qual fugiria ainda uma vez para logo em seguida voltar a busc\u00e1-lo \u2013 \u201cpor s\u00e9culos e s\u00e9culos, am\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p><i>Mas<\/i> eis que a criatividade de Kafka acompanha as contradi\u00e7\u00f5es irresolutas da Hist\u00f3ria e faz surgir na est\u00f3ria uma nova personagem, o bichano que esta an\u00e1lise j\u00e1 havia anunciado. Leiamos o conselho que o gato, poss\u00edvel autor de best-sellers de autoajuda, tem a dar ao roedor \u2013 e aos leitores:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea s\u00f3 precisa mudar de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por um lado, se o rato seguir o conselho do gato, logo encontrar\u00e1 a dilui\u00e7\u00e3o de seus temores e tremores no suco g\u00e1strico do est\u00f4mago felino. Por outro, se o rato degustar o queijo gorgonzola que o magnetiza sobre a ratoeira, j\u00e1 n\u00e3o haver\u00e1 mais choro e ranger de dentes. Que fazer?<\/p>\n<p>Neste momento, o leitor me permitir\u00e1 a heresia de apontar um certo anacronismo na <i>Pequena F\u00e1bula<\/i> kafkiana. O escritor tcheco complementou a coloca\u00e7\u00e3o do gato com o seguinte arremate: \u201cdisse o gato e devorou-o\u201d. Ser\u00e1 que, no atual contexto hist\u00f3rico, seria preciso dizer que o gato devorou o rato? Onde est\u00e3o as efetivas contesta\u00e7\u00f5es? Onde est\u00e1 a revolu\u00e7\u00e3o? Quando uma rede de fast food \u00e1rabe utilizou, h\u00e1 alguns anos, o mote <i>revolu\u00e7\u00e3o nos pre\u00e7os<\/i> para os <i>pre\u00e7os revolucion\u00e1rios<\/i> de suas esfihas abertas, cujos an\u00fancios eram apresentados com a boina de Che Guevara, entrevi o labirinto hist\u00f3rico em que estamos encurralados. O discurso potencialmente emancipat\u00f3rio \u00e9 cooptado como um lucrativo slogan de mercado. Ao contr\u00e1rio do que diziam os revolucion\u00e1rios de maio de 68, o capitalismo tardio sentencia que a revolu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 televisionada.<\/p>\n<p>O arremate de Kafka mostrou-se prof\u00e9tico diante do espectro nazista que, nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, j\u00e1 rondava a Europa. Hoje, no entanto, o carrasco parece ter sido introjetado, n\u00e3o sabemos muito bem onde est\u00e1 o poder \u2013 <i>quem<\/i>, ou pior, <i>o que<\/i> ele \u00e9. <i>Mas<\/i> ele nos acorda cotidianamente \u00e0s 5h \u2013 ou \u00e0s 8h, para o privil\u00e9gio dos paulistanos que moram dentro do per\u00edmetro central circundado pelas marginais. Se retirarmos a \u00faltima parte da frase que conclui a <i>Pequena F\u00e1bula<\/i>, levaremos \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias o labirinto kafkiano. Afinal, ap\u00f3s o conselho do gato, o que \u00e9 que o rato vai fazer? Fugir\u00e1 do gato e correr\u00e1 para o pat\u00edbulo da ratoeira? Tapear\u00e1 a fome e renegar\u00e1 a ratoeira apenas para correr em dire\u00e7\u00e3o ao corredor polon\u00eas da garganta do gato? Ou ser\u00e1 que, diante deste novo fim n\u00e3o finalizado, desta nova resolu\u00e7\u00e3o irresoluta que propomos, o rato n\u00e3o lan\u00e7ar\u00e1 m\u00e3o de um dos \u00faltimos redutos que (ainda) n\u00e3o foram totalmente cooptados pelo poder \u2013 a imagina\u00e7\u00e3o? Por mais ex\u00edgua e improv\u00e1vel que a escapat\u00f3ria se apresente, um final que pressuponha maior abertura daria continuidade \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o da est\u00f3ria e da Hist\u00f3ria: a possibilidade de fuga caminharia lado a lado com o prolongamento s\u00e1dico da tortura do ratinho.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que dizem os apologistas do fim da Hist\u00f3ria, a luta de classes n\u00e3o se calou. No entanto, diante da assepsia publicit\u00e1ria por que passam os discursos contestat\u00f3rios, a l\u00f3gica po\u00e9tica de Kafka nos leva a pensar a contrapelo de n\u00f3s mesmos: se o movimento da contradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica n\u00e3o for estancado e reconfigurado, continuaremos a figurar como coadjuvantes da cadeia alimentar que nos coage \u00e0 frieza, \u00e0 brutalidade e ao cinismo do entrechoque entre gato e rato, de modo que a <i>Pequena F\u00e1bula<\/i> possa receber um novo t\u00edtulo mais condigno com o prosa\u00edsmo (supostamente) despolitizado dos tempos atuais: <i>Segunda-feira<\/i>.<\/p>\n<p><b>NOTAS:<\/b><\/p>\n<p>(*) In <i>Narrativas do Esp\u00f3lio<\/i>, tradu\u00e7\u00e3o de Modesto Carone. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 138.<\/p>\n<p>(**) <i>Aforismos ou mensagens eternas<\/i>, tradu\u00e7\u00e3o de Duda Machado. S\u00e3o Paulo: Landy Editora, 2006, p. 69.<br \/>\n__________________________<\/p>\n<p><i>Fl\u00e1vio Ricardo Vassoler<\/i><i> \u00e9 mestre e doutorando em Teoria Liter\u00e1ria e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, <\/i>O Evangelho segundo Tali\u00e3o<i> (Editora Versos), ser\u00e1 publicado em abril 2013. <\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=21668&amp;boletim_id=1551&amp;componente_id=26568\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao contr\u00e1rio do que dizem os apologistas do fim da Hist\u00f3ria, a luta de classes n\u00e3o se calou. 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