{"id":26252,"date":"2013-03-04T12:00:46","date_gmt":"2013-03-04T12:00:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=26252"},"modified":"2013-03-13T15:40:39","modified_gmt":"2013-03-13T15:40:39","slug":"portugues-por-que-os-fundamentalistas-de-livre-mercado-acreditam-que-2013-sera-o-melhor-ano-de-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/03\/portugues-por-que-os-fundamentalistas-de-livre-mercado-acreditam-que-2013-sera-o-melhor-ano-de-todos\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Por Que os Fundamentalistas de Livre Mercado Acreditam Que 2013 Ser\u00e1 o Melhor Ano de Todos"},"content":{"rendered":"<p><i>\u00c9 assim que os atuais apologistas do mercado, em um sequestro ideol\u00f3gico sem precedentes, explicam a crise de 2008: n\u00e3o foi o fracasso do livre mercado que a provocou, mas sim a excessiva regula\u00e7\u00e3o estatal; o fato de que nossa economia de mercado n\u00e3o foi um verdadeiro Estado de bem-estar social, mas esteve, em vez disso, nas garras desse Estado.<\/i><\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o de natal da revista brit\u00e2nica The Spectator publicou um editorial chamado \u201cPor que 2012 foi o melhor ano de todos?\u201d (<a href=\"http:\/\/www.spectator.co.uk\/the-week\/leading-article\/8789981\/glad-tidings\/\"  target=\"_blank\">dispon\u00edvel aqui, em ingl\u00eas<\/a>). O texto criticava a ideia de que vivemos em \u201cum mundo perigoso e cruel, em que as coisas est\u00e3o ruins e ainda pioram\u201d. Eis o par\u00e1grafo de abertura: \u201cTalvez n\u00e3o pare\u00e7a, mas 2012 foi o ano mais formid\u00e1vel na hist\u00f3ria mundial. Essa afirma\u00e7\u00e3o soa algo extravagante, mas pode ser corroborada pelos fatos. Nunca houve menos fome, menos doen\u00e7as ou mais prosperidade. O ocidente permanece em um marasmo econ\u00f4mico, mas a maioria dos pa\u00edses em desenvolvimento est\u00e1 progredindo e as pessoas est\u00e3o saindo da pobreza a uma velocidade jamais registrada. Felizmente o n\u00famero de mortos pela guerra ou por doen\u00e7as naturais tamb\u00e9m est\u00e1 baixo. Estamos vivendo na idade do ouro.\u201d<\/p>\n<p>Essa mesma ideia tem sido fomentada de modo sistem\u00e1tico em uma s\u00e9rie de bestsellers, que vai de <i>Rational Optimist<\/i>, de Matt Ridley, a <i>Better Angels of Our Nature<\/i>, de Steven Pinker. Tamb\u00e9m h\u00e1 uma vers\u00e3o mais pr\u00e1tica que se costuma ouvir na m\u00eddia, principalmente nos pa\u00edses fora da Europa: crise, que crise? Vejamos os chamados pa\u00edses do BRIC \u2013 Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia e China \u2013, ou pa\u00edses como Pol\u00f4nia, Coreia do Sul, Singapura, Peru, at\u00e9 mesmo v\u00e1rios Estados da \u00c1frica subsaariana: todos est\u00e3o progredindo. Os perdedores s\u00e3o a Europa Ocidental e, at\u00e9 certo ponto, os Estados Unidos \u2013 ent\u00e3o n\u00e3o estamos lidando com uma crise global, mas simplesmente com a mudan\u00e7a do progresso, que se afasta do Ocidente. Um s\u00edmbolo poderoso dessa mudan\u00e7a n\u00e3o seria o fato de que, recentemente, muita gente de Portugal, pa\u00eds em crise profunda, est\u00e1 voltando para Mo\u00e7ambique e Angola, ex-col\u00f4nias de Portugal, mas dessa vez como imigrantes econ\u00f4micos, e n\u00e3o como colonizadores?<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo com respeito aos direitos humanos: a situa\u00e7\u00e3o na China e na R\u00fassia n\u00e3o \u00e9 melhor agora do que h\u00e1 50 anos? Descrever a crise existente como um fen\u00f4meno global, como dizem, \u00e9 uma t\u00edpica vis\u00e3o eurocentrista advinda dos esquerdistas que geralmente se orgulham de seu antieurocentrismo. Nossa \u201ccrise global\u201d, na verdade, \u00e9 um mero abalo local em uma hist\u00f3ria mais ampla do progresso geral.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso conter nossa alegria. A pergunta que deve ser feita \u00e9: se a Europa, sozinha, est\u00e1 em decl\u00ednio gradual, o que est\u00e1 substituindo sua hegemonia? A resposta \u00e9: \u201co capitalismo de valores asi\u00e1ticos\u201d \u2013 o que, obviamente, n\u00e3o tem nada a ver com o povo asi\u00e1tico e tudo a ver com a tend\u00eancia n\u00edtida e atual do capitalismo contempor\u00e2neo em limitar ou at\u00e9 mesmo suspender a democracia.<\/p>\n<p>Essa tend\u00eancia n\u00e3o contradiz de modo nenhum o t\u00e3o celebrado progresso da humanidade \u2013 ela \u00e9 sua caracter\u00edstica imanente. Todos os pensadores radicais, de Marx aos conservadores inteligentes, eram obcecados por esta quest\u00e3o: qual \u00e9 o pre\u00e7o do progresso? Marx era fascinado pelo capitalismo, pela produtividade sem precedentes que ele desencadeava; mas Marx tamb\u00e9m frisava que esse sucesso engendra antagonismos. Devemos fazer o mesmo hoje: ter em vista a face obscura do capitalismo global que fomenta revoltas.<\/p>\n<p>As pessoas se rebelam n\u00e3o quando as coisas est\u00e3o realmente ruins, mas quando suas expectativas s\u00e3o frustradas. A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa ocorreu apenas quando o rei e os nobres come\u00e7aram a perder o poder; a revolta anticomunista de 1956 na Hungria eclodiu depois que Imre Nagy j\u00e1 era primeiro-ministro h\u00e1 dois anos, depois de debates (relativamente) livres entre os intelectuais; as pessoas se rebelaram no Egito em 2011 porque houve certo progresso econ\u00f4mico sob o governo de Mubarak, dando origem a uma classe de jovens instru\u00eddos que participavam da cultura digital universal. E \u00e9 por isso que o p\u00e2nico dos comunistas chineses faz sentido: porque, no geral, as pessoas hoje est\u00e3o vivendo melhor do que h\u00e1 quarenta anos \u2013 os antagonismos sociais (entre os novos ricos e o resto) explodem e as expectativas s\u00e3o muito mais elevadas.<\/p>\n<p>Eis o problema com o desenvolvimento e o progresso: s\u00e3o sempre desiguais, d\u00e3o origem a novas instabilidades e antagonismos, geram novas expectativas que n\u00e3o podem ser correspondidas. No Egito, pouco antes da Primavera \u00c1rabe, a maioria vivia um pouco melhor do que antes, mas os padr\u00f5es pelos quais mediam sua (in)satisfa\u00e7\u00e3o eram muito mais altos.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o perder o elo entre progresso e instabilidade, \u00e9 preciso real\u00e7ar sempre como aquilo que, \u00e0 primeira vista, parece ser a realiza\u00e7\u00e3o incompleta de um projeto social na verdade sinaliza sua limita\u00e7\u00e3o imanente. Existe uma hist\u00f3ria (ap\u00f3crifa, talvez) sobre o economista keynesiano de esquerda <a href=\"http:\/\/www.guardian.co.uk\/education\/2002\/apr\/06\/socialsciences.highereducation\"  target=\"_blank\">John Galbraith<\/a>: antes de uma viagem \u00e0 URSS no final da d\u00e9cada de 1950, ele escreveu para seu amigo anticomunista Sidney Hook: \u201cN\u00e3o se preocupe, n\u00e3o me deixarei seduzir pelos sovi\u00e9ticos e voltarei para casa dizendo que eles t\u00eam socialismo!\u201d. Hook respondeu imediatamente: \u201cMas \u00e9 isso que me preocupa \u2013 que voc\u00ea volte dizendo que a URSS n\u00e3o \u00e9 socialista!\u201d. O que Hook temia era a defesa ing\u00eanua da pureza do conceito: se as coisas derem errado com a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista, isso n\u00e3o invalida a ideia em si, mas significa apenas que n\u00e3o a executamos apropriadamente. Essa mesma ingenuidade n\u00e3o \u00e9 detectada nos fundamentalistas de mercado da atualidade?<\/p>\n<p>Durante um recente debate televisivo na Fran\u00e7a, quando o fil\u00f3sofo e economista franc\u00eas Guy Sorman afirmou que a democracia e o capitalismo necessariamente andam juntos, n\u00e3o pude me negar fazer esta \u00f3bvia pergunta: \u201cMas e a China?\u201d, ao que ele me repreendeu: \u201cNa China n\u00e3o h\u00e1 capitalismo!\u201d Para o p\u00f3s-capitalista fan\u00e1tico Sorman, um pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente capitalista se n\u00e3o for democr\u00e1tico, exatamente da mesma maneira que, para os comunistas democr\u00e1ticos, o stalinismo simplesmente n\u00e3o era uma forma aut\u00eantica de comunismo.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que os atuais apologistas do mercado, em um sequestro ideol\u00f3gico sem precedentes, explicam a crise de 2008: n\u00e3o foi o fracasso do livre mercado que a provocou, mas sim a excessiva regula\u00e7\u00e3o estatal; o fato de que nossa economia de mercado n\u00e3o foi um verdadeiro Estado de bem-estar social, mas esteve, em vez disso, nas garras desse Estado. Quando rejeitamos as falhas do capitalismo de mercado como infort\u00fanios acidentais, acabamos em um \u201cprogress(ism)o\u201d que encara a solu\u00e7\u00e3o como um uso mais \u201caut\u00eantico\u201d e puro de uma no\u00e7\u00e3o, tentando assim apagar o fogo com gasolina.<\/p>\n<p>__________________________<\/p>\n<p><i>Artigo publicado originalmente no <\/i><i><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\"  target=\"_blank\">Blog da Boitempo<\/a><\/i><i>.<\/i><i><br \/>\n<\/i><br \/>\n<i>Tradu\u00e7\u00e3o: Roberto Bettoni.<\/i><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/03\/why-the-free-market-fundamentalists-think-2013-will-be-the-best-year-ever\/\" >English version<\/a><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=21676&amp;boletim_id=1552&amp;componente_id=26577\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 assim que os atuais apologistas do mercado, em um sequestro ideol\u00f3gico sem precedentes, explicam a crise de 2008: n\u00e3o foi o fracasso do livre mercado que a provocou, mas sim a excessiva regula\u00e7\u00e3o estatal; o fato de que nossa economia de mercado n\u00e3o foi um verdadeiro Estado de bem-estar social, mas esteve, em vez disso, nas garras desse Estado.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[55,146,46],"tags":[],"class_list":["post-26252","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-capitalism","category-economics","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26252","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26252"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26252\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26252"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26252"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26252"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}