{"id":26382,"date":"2013-03-11T12:00:20","date_gmt":"2013-03-11T12:00:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=26382"},"modified":"2013-03-22T00:35:05","modified_gmt":"2013-03-22T00:35:05","slug":"portugues-libor-a-gigantesca-transferencia-de-fundos-da-sociedade-a-bancos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/03\/portugues-libor-a-gigantesca-transferencia-de-fundos-da-sociedade-a-bancos\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Libor: A Gigantesca Transfer\u00eancia de Fundos da Sociedade a Bancos"},"content":{"rendered":"<p>O esc\u00e2ndalo da taxa Libor tem uma grande desvantagem em rela\u00e7\u00e3o a outros desmandos financeiros: a complexidade o torna mais opaco. O esc\u00e2ndalo afeta a nata da banca internacional \u2013 umas 20 entidades \u2013 que operam em tr\u00eas continentes sob nove sistemas regulat\u00f3rios diferentes em um mercado avaliado em cerca de 500 bilh\u00f5es de d\u00f3lares anuais. Em compara\u00e7\u00e3o com o golpe do financista estadunidense Bernard Madoff ou at\u00e9 com a queda do Lehman Brothers em 2008, as opera\u00e7\u00f5es para fixar uma taxa de juro de refer\u00eancia para milh\u00f5es de transa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias globais s\u00e3o um labirinto inextric\u00e1vel. Mas, por mais imperme\u00e1vel que pare\u00e7a \u00e0 primeira vista, este labirinto financeiro afeta tanto a um consumidor ingl\u00eas ou alem\u00e3o como a um brasileiro ou tailand\u00eas. Para o economista grego Costas Lapavitsas, de SOAS, Universidade de Londres, autor de \u201cCrisis in the Eurozone\u201d (Crise na zona do euro), trata-se de uma gigantesca transfer\u00eancia de fundos em n\u00edvel mundial da sociedade para os bancos.<\/p>\n<p><b><i>Este \u00e9, potencialmente, o pior esc\u00e2ndalo financeiro da hist\u00f3ria?<\/i><\/b><\/p>\n<p>H\u00e1 muitos deles, de modo que \u00e9 dif\u00edcil fazer um ranking (risos). Mas o que est\u00e1 claro \u00e9 que \u00e9 um dos mais terr\u00edveis esc\u00e2ndalos que j\u00e1 tivemos e que sup\u00f5e uma enorme transfer\u00eancia de riqueza da sociedade ao setor financeiro. E, para piorar o quadro, ocorre silenciosamente, de uma maneira oculta e opaca que a gente n\u00e3o pode compreender. A Libor \u00e9 a taxa de refer\u00eancia usada em n\u00edvel internacional para calcular a taxa de juro de empr\u00e9stimos, hipotecas, b\u00f4nus, etc. O fato de seu valor subir ou descer tem um forte impacto neste pre\u00e7o chave para o sistema financeiro que \u00e9 a taxa de juro que se paga no mercado.<\/p>\n<p><b><i>Na cobertura midi\u00e1tica, foi dito que se tratava de um caso de algumas ma\u00e7\u00e3s podres no cesto. Voc\u00ea acredita que isso se limita a uma quest\u00e3o individual ou houve uma pol\u00edtica sistem\u00e1tica dos bancos com repercuss\u00f5es em todo o sistema financeiro internacional?<\/i><\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que houve casos individuais em que grupos de operadores se coordenaram para manipular essas taxas de juro. Mas o problema \u00e9 o sistema. Este sistema permite fabricar grandes lucros para os bancos que participam da fixa\u00e7\u00e3o da taxa de juro. \u00c9 preciso entender que a Libor n\u00e3o \u00e9 um juro real. Os bancos n\u00e3o t\u00eam que utilizar essa taxa para emprestar dinheiro entre eles. A Libor \u00e9 um ponto de refer\u00eancia que se publica a cada manh\u00e3 em Londres na qual os bancos que participam declaram a taxa de juro que calculam que v\u00e3o usar em suas transa\u00e7\u00f5es. Ela \u00e9 a m\u00e9dia dessas estimativas feitas pelos bancos, que t\u00eam dois objetivos concretos para manipular essa taxa de juro. Em primeiro lugar, podem se beneficiar com a alta ou baixa da taxa no mercado de derivados. Uma alta ou baixa se refletir\u00e1 nos lucros ou perdas de um banco, dependendo de sua carteira de derivados. Em segundo lugar, h\u00e1 um incentivo para manipular a Taxa Libor para baixo para dar uma impress\u00e3o de solidez. Se um banco diz que ter\u00e1 que pagar uma alta taxa de juro para pedir emprestado, est\u00e1 dizendo que sua posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o s\u00f3lida, raz\u00e3o pela qual cobram mais juros para ele se endividar. Isso pode ser visto muito claramente em 2008 quando se detectou uma clara diverg\u00eancia entre a taxa Libor e a taxa real sob a qual ocorriam os empr\u00e9stimos interbanc\u00e1rios.<\/p>\n<p><b><i>Uma vez que essa taxa de refer\u00eancia Libor \u00e9 fixada pela manh\u00e3 em Londres, como isso afeta um consumidor no Brasil, por exemplo?<\/i><\/b><\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que os bancos ganham bilh\u00f5es de d\u00f3lares com essa manipula\u00e7\u00e3o de uma taxa que tem incid\u00eancia direta nas hipotecas, nos cart\u00f5es de cr\u00e9dito ou no mercado de a\u00e7\u00f5es de empresas ou t\u00edtulos de governos. Dada a complexidade do sistema, pode-se dizer que a imensa maioria dos que t\u00eam uma hipoteca perderam com isso, mas n\u00e3o necessariamente todos: uma pequena minoria pode ter sido beneficiada. Os portadores de a\u00e7\u00f5es de empresas ou munic\u00edpios perderam porque os bancos mantiveram a Libor mais baixa. Precisar\u00edamos de uma total transpar\u00eancia do sistema financeiro para entender o tema em toda sua dimens\u00e3o, com todos seus atalhos e duplicidades. At\u00e9 porque isso tem um impacto muito claro em n\u00edvel ideol\u00f3gico. A liberaliza\u00e7\u00e3o financeira das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas se baseou na ideia de que os pre\u00e7os t\u00eam que ser fixados de acordo com a l\u00f3gica do mercado para conseguir uma m\u00e1xima efici\u00eancia do setor. O que temos visto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 que essa premissa n\u00e3o deu os resultados que quer\u00edamos. Vimos tamb\u00e9m \u2013 e isso \u00e9 muito mais assombroso \u2013 que os pre\u00e7os n\u00e3o s\u00e3o fixados livremente. De fato, o pre\u00e7o chave do sistema financeiro, a taxa de juro, est\u00e1 manipulado, e n\u00e3o pelo Estado, mas pelo pr\u00f3prio mercado. O resultado \u00e9 que os indiv\u00edduos, as empresas e at\u00e9 o governo est\u00e3o subsidiando os lucros dos bancos.<\/p>\n<p><b><i>Um caso que j\u00e1 est\u00e1 nos tribunais \u00e9 o da municipalidade estadunidense de Baltimore. O que sabemos desse caso? Como se deu a manipula\u00e7\u00e3o?<\/i><\/b><\/p>\n<p>Neste caso, ela \u00e9 bastante clara. Baltimore investiu parte de seu dinheiro em t\u00edtulos e recebeu menos do que teria recebido por causa da manipula\u00e7\u00e3o feita pelos bancos da Taxa Libor, que fez com que os t\u00edtulos valessem menos.<\/p>\n<p><b><i>Como se transporta isso para o n\u00edvel de na\u00e7\u00f5es, com a emiss\u00e3o de t\u00edtulos do Brasil, da Argentina ou da Gr\u00e9cia na atual crise da zona do euro?<\/i><\/b><\/p>\n<p>Tudo depende de como a taxa de juro nacional est\u00e1 vinculada a da Libor. Como devedores podem inclusive se beneficiar porque a Libor era mais baixa. Mas se participavam em transa\u00e7\u00f5es em derivados, podem ter perdido dinheiro. \u00c9 muito complexo. No caso da Gr\u00e9cia tamb\u00e9m \u00e9 muito dif\u00edcil dizer se o pa\u00eds foi afetado pela Libor. Em algumas transa\u00e7\u00f5es de 2001 e 2002, que envolveram o Goldman Sachs que usou derivados para disfar\u00e7ar o peso de sua d\u00edvida, \u00e9 poss\u00edvel que a Libor tenha prejudicado a Gr\u00e9cia. Mas isso exigiria uma investiga\u00e7\u00e3o detalhada. A quest\u00e3o \u00e9 que tudo isso acaba de estourar e se precisa de muita transpar\u00eancia que, neste momento, n\u00e3o existe. O primeiro requisito seria que os bancos abrissem suas contas para submet\u00ea-las a um controle minucioso.<\/p>\n<p><b><i>J\u00e1 ocorreram algumas multas muito altas em tr\u00eas casos e vir\u00e3o outras \u00e0 medida que avance a investiga\u00e7\u00e3o. Esse processe se esgota aqui?<\/i><\/b><\/p>\n<p>As multas servem para que os bancos n\u00e3o abram suas contas a um exame detalhado. \u00c9 isso o que est\u00e1 em jogo agora, Os bancos se negam a aceitar uma responsabilidade institucional em uma a\u00e7\u00e3o ilegal. Para determinar esta responsabilidade, \u00e9 necess\u00e1rio poder examinar suas contas. No momento, creio que isso s\u00f3 poderia acontecer se um juiz das cortes dos Estados Unidos orden\u00e1-lo como parte de uma demanda legal.<\/p>\n<p><b><i>Enquanto isso, em meio a todo esse esc\u00e2ndalo, ainda estamos usando a Libor. O organismo regulador brit\u00e2nico, a FSA, prop\u00f4s uma s\u00e9rie de reformas e retirou, em setembro, o poder da Associa\u00e7\u00e3o de Bancos neste processo. Isso significa o fim da manipula\u00e7\u00e3o daqui em diante?<\/i><\/b><\/p>\n<p>As reformas prop\u00f5em que os indiv\u00edduos que participem na fixa\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o sejam autorizados pela FSA e reduzem o n\u00famero de moedas e tipos de contratos nos quais a Libor ser\u00e1 usada como refer\u00eancia. Mas n\u00e3o se exigir\u00e1 dos bancos que eles fa\u00e7am seus neg\u00f3cios com base na Libor que eles pr\u00f3prios calculam. Ou seja, o incentivo para manipular a taxa segue presente. O pr\u00f3prio Adam Smith dizia que, quando os operadores econ\u00f4micos se reuniam privadamente, \u201ca conversa terminava com uma conspira\u00e7\u00e3o para subir os pre\u00e7os\u201d. Creio que a \u00fanica maneira de terminar com a manipula\u00e7\u00e3o \u00e9 com uma interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica na fixa\u00e7\u00e3o destes juros, seja atrav\u00e9s do Banco Central ou por algum outro mecanismo p\u00fablico.<\/p>\n<p><i>Tradu\u00e7\u00e3o: Marco Aur\u00e9lio Weissheimer<\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=21689&amp;boletim_id=1555&amp;componente_id=26645\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o economista grego Costas Lapavitsas, da Universidade de Londres, autor de \u201cCrisis in the Eurozone\u201d (Crise na zona do euro), o esc\u00e2ndalo da manipula\u00e7\u00e3o da taxa Libor envolve uma gigantesca transfer\u00eancia de fundos em n\u00edvel mundial da sociedade para os bancos.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[65,51,53,55,139,146,46],"tags":[],"class_list":["post-26382","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-anglo-america","category-europe","category-latin-america-and-the-caribbean","category-capitalism","category-justice","category-economics","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26382","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26382"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26382\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26382"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26382"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26382"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}