{"id":2783,"date":"2009-09-11T00:00:00","date_gmt":"2009-09-11T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/wordpress\/2009\/09\/portuguese-da-guerra\/"},"modified":"2009-09-11T00:00:00","modified_gmt":"2009-09-11T00:00:00","slug":"portuguese-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2009\/09\/portuguese-da-guerra\/","title":{"rendered":"(PORTUGUESE)  DA GUERRA"},"content":{"rendered":"<p><em>Soa absolutamente c&ocirc;mica e desnecess&aacute;ria a justificativa de que as novas bases militares dos EUA, na Col&ocirc;mbia, tem a ver com o combate ao narcotr&aacute;fico.<br \/><\/em><br \/>Entre 1495 e 1975, as Grandes Pot&ecirc;ncias estiveram em guerra durante 75% do tempo, come&ccedil;ando uma nova guerra a cada sete ou oito anos. Mesmo nos anos mais pac&iacute;ficos deste per&iacute;odo, entre 1816 e 1913, estas&nbsp; pot&ecirc;ncias fizeram cerca de 100 guerras coloniais. <\/p>\n<p>E ao contr&aacute;rio das expectativas, a cada novo s&eacute;culo, as guerras foram mais intensas e violentas do que no s&eacute;culo anterior. (J. Levy, &ldquo;War in the modern Great Power System&rdquo;, Ky Lexington, 1983) Por isso, se pode dizer que as guerras foram a principal atividade dos estados nacionais europeus, durante seus cinco s&eacute;culos de exist&ecirc;ncia, e agora de novo, o s&eacute;culo XXI j&aacute; come&ccedil;ou sob o signo das armas. <\/p>\n<p>Mas apesar disto, segue sendo um tabu falar e analisar objetivamente o papel das guerras na forma&ccedil;&atilde;o, na evolu&ccedil;&atilde;o e no futuro do sistema inter-estatal capitalista, que foi &ldquo;inventado&rdquo; pelos europeus, nos s&eacute;culos XVI e XVII, e s&oacute; se transformou num fen&ocirc;meno universal, no s&eacute;culo XX. Talvez, porque seja muito doloroso aceitar que as guerras n&atilde;o s&atilde;o m fen&ocirc;meno excepcional, nem decorrem de uma &ldquo;necessidade econ&ocirc;mica&rdquo;. Ou porque seja muito dif&iacute;cil de entender que elas seguir&atilde;o existindo, mesmo que n&atilde;o ocorram enfrentamentos at&ocirc;micos entre as Grandes Pot&ecirc;ncias, porque&nbsp; elas n&atilde;o precisam ser travadas para cumprir seu &ldquo;papel&rdquo; dentro do sistema inter-estatal. Basta que sejam planejadas de forma complementar e competitiva.<br \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;<br \/>A primeira vista, tudo isto parece meio absurdo e paradoxal. Mas tudo fica mais claro quando se olha para o come&ccedil;o desta hist&oacute;ria, e se entende que o sistema mundial em que vivemos, foi uma conquista progressiva dos primeiros estados nacionais europeus. E desde os seus primeiros passos, este sistema nunca mais deixou de se expandir, &ldquo;liderado&rdquo; pelo crescimento competitivo e imperial de suas Grandes Pot&ecirc;ncias, que lutam permanentemente para manter ou avan&ccedil;ar sua posi&ccedil;&atilde;o relativa dentro do sistema. <\/p>\n<p>Por isto, tem raz&atilde;o o cientista pol&iacute;tico norte-americano, John Mearsheimer, quando diz que &ldquo;as Grandes Pot&ecirc;ncias t&ecirc;m um comportamento agressivo n&atilde;o porque elas queiram, mas porque elas t&ecirc;m que buscar acumular mais poder se quiserem maximizar suas probabilidades de sobreviv&ecirc;ncia, porque o sistema internacional cria incentivos poderosos para que os estados estejam sempre procurando oportunidades de ganhar mais poder &agrave;s custas dos seus rivais&#8230;&rdquo;. (Mearsheimer, &ldquo;The tragedy of the great powers&rdquo;, 2001: 21). <br \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;<br \/>Neste processo competitivo, a guerra, ou a amea&ccedil;a da guerra, foi o principal instrumento estrat&eacute;gico utilizado pelos estados nacionais, para&nbsp; acumular poder e definir a hierarquia mundial. E as potencias vencedoras &#8211; que se transformaram em &ldquo;l&iacute;deres&rdquo; do sistema &#8211; foram as que conseguiram conquistar e manter o controle monop&oacute;lico das &ldquo;tecnologias sens&iacute;veis&rdquo;, de uso militar. <\/p>\n<p>Por sua vez, esta competi&ccedil;&atilde;o pela ponta tecnol&oacute;gica, e pelo controle monop&oacute;lico dos demais recursos b&eacute;licos, deu origem &agrave; uma din&acirc;mica autom&aacute;tico e progressivo, de prepara&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua para as guerras. Numa disputa que aponta todo o tempo, na dire&ccedil;&atilde;o de um&nbsp; imp&eacute;rio &uacute;nico e universal. Mas, paradoxalmente, este imp&eacute;rio n&atilde;o poder&aacute; ser alcan&ccedil;ado sem que o&nbsp; sistema mundial perca sua capacidade conjunta de seguir se expandindo. Por que? Porque a vit&oacute;ria e a constitui&ccedil;&atilde;o de um imp&eacute;rio mundial seria sempre a vit&oacute;ria de um estado nacional espec&iacute;fico. <\/p>\n<p>Daquele estado que fosse capaz de impor sua vontade e monopolizar o poder, at&eacute; o limite do desaparecimento dos seus competidores. Se isto acontecesse, entretanto, acabaria a competi&ccedil;&atilde;o entre os estados, e neste caso, os estados n&atilde;o teriam como seguir aumentando o seu pr&oacute;prio poder. Ou seja, neste sistema inter-estatal inventado pelos europeus, a exist&ecirc;ncia de advers&aacute;rios &eacute; indispens&aacute;vel para que haja expans&atilde;o e acumula&ccedil;&atilde;o de poder, e a prepara&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua para a guerra &eacute; o fator que ordena o pr&oacute;prio sistema. <\/p>\n<p>Assim mesmo, como a &ldquo;pot&ecirc;ncia l&iacute;der&rdquo; tamb&eacute;m precisa seguir acumulando poder, para manter sua posi&ccedil;&atilde;o relativa, ela mesma acaba atropelando as institui&ccedil;&otilde;es e os acordos internacionais que&nbsp; ajudou a criar num momento anterior Ela &eacute; quem tem maior poder relativo dentro do sistema, e por isto, ela &eacute; que acaba sendo, quase sempre, a grande desestabilizadora de qualquer ordem internacional estabelecida.<br \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;<br \/>Agora bem, a prepara&ccedil;&atilde;o para a guerra, e as pr&oacute;prias guerras, nunca impediram a complementaridade econ&ocirc;mica e a integra&ccedil;&atilde;o comercial e financeira, entre todos os estados envolvidos nos conflitos. Pelo contr&aacute;rio, a mutua depend&ecirc;ncia econ&ocirc;mica sempre foi uma pe&ccedil;a essencial da pr&oacute;pria competi&ccedil;&atilde;o. &Agrave;s vezes, predominou o conflito, &agrave;s vezes a complementaridade, mas foi esta &ldquo;dial&eacute;tica&rdquo; que se transformou no verdadeiro motor pol&iacute;tico-econ&ocirc;mico do sistema inter-estatal capitalista, e no grande segredo da vit&oacute;ria europ&eacute;ia, sobre o resto do mundo, a partir do s&eacute;culo XVII.<br \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;<br \/>Entre 1650 e 1950, a Inglaterra participou de 110 guerras aproximadamente, dentro e fora da Europa, ou seja, em m&eacute;dia, uma &agrave; cada tr&ecirc;s anos&nbsp; E entre 1783 e 1991, os Estados Unidos participaram de cerca de 80 guerras, dentro e fora da Am&eacute;rica, ou seja, em m&eacute;dia, tamb&eacute;m, uma a cada tr&ecirc;s anos. ((M. Coldfelter, &ldquo;Warfare and armed conflicts&rdquo;, MacFarland, Londres, 2002). Como resultado, neste in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI, os Estados Unidos tem acordos militares com cerca de 130 pa&iacute;ses, ao redor do mundo, e mant&eacute;m mais de 700 bases militares, fora do seu territ&oacute;rio. <\/p>\n<p>E assim mesmo, devem seguir se expandindo &#8211; independente de qual seja o seu governo &#8211; sem precisar ferir necessariamente o Direito Internacional, e sem precisar dar explica&ccedil;&otilde;es a ningu&eacute;m. Por isto, soa absolutamente c&ocirc;mica e desnecess&aacute;ria a justificativa de que as novas bases militares dos EUA, na Col&ocirc;mbia, tem a ver com o combate ao narcotr&aacute;fico e a guerrilha local, assim como os argumentos que associam a instala&ccedil;&atilde;o do escudo anti-m&iacute;sseis dos EUA, na fronteira com a R&uacute;ssia, com o controle e&nbsp; bloqueio de foguetes iranianos. <\/p>\n<p>Como soa rid&iacute;cula, neste contexto, a evoca&ccedil;&atilde;o do &ldquo;princ&iacute;pio b&aacute;sico da n&atilde;o inger&ecirc;ncia&rdquo;, na defesa das decis&otilde;es colombianas, polacas ou checas. Neste &ldquo;jogo&rdquo; n&atilde;o h&aacute; limites e por mais lament&aacute;vel que seja, os &ldquo;neutros&rdquo; s&atilde;o&nbsp; irrelevantes ou sucumbem, e s&oacute; lhes restam duas alternativas, para os&nbsp; que n&atilde;o aceitam aliar-se ou submeter-se &agrave; potencia expansiva: no caso dos mais fracos, protestar; e no caso dos demais, defender-se. <\/p>\n<p>______________________ <br \/><em><br \/>Jos&eacute; Lu&iacute;s&nbsp; Fiori &eacute; professor titular do Instituto de Economia da UFRJ<\/em><br \/><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/v01\/agencia\/analise\/da-guerra\" ><br \/>GO TO ORIGINAL &ndash; BRASIL DE FATO<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Soa absolutamente c&ocirc;mica e desnecess&aacute;ria a justificativa de que as novas bases militares dos EUA, na Col&ocirc;mbia, tem a ver com o combate ao narcotr&aacute;fico.Entre 1495 e 1975, as Grandes Pot&ecirc;ncias estiveram em guerra durante 75% do tempo, come&ccedil;ando uma nova guerra a cada sete ou oito anos. 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