{"id":28432,"date":"2013-05-13T12:00:54","date_gmt":"2013-05-13T11:00:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=28432"},"modified":"2015-05-06T12:53:06","modified_gmt":"2015-05-06T11:53:06","slug":"portugues-mafalda-e-a-poderosa-critica-de-valores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/05\/portugues-mafalda-e-a-poderosa-critica-de-valores\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Mafalda e a Poderosa Cr\u00edtica de Valores"},"content":{"rendered":"<p><i>Argentina e universal, personagem de Quino segue jovem aos 50: sua ironia permanece viva, numa sociedade cada vez mais desigual.<\/i><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/mafalda.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-28433 alignright\" alt=\"mafalda\" src=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/mafalda.jpg\" width=\"240\" height=\"160\" \/><\/a>Dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m que n\u00e3o conhe\u00e7a uma baixinha argentina chamada<i> Mafalda. <\/i>Seja como souvenir, estampando camisas e cartazes do movimento estudantil, ou atrav\u00e9s dos j\u00e1 cl\u00e1ssicos livros-colet\u00e2nea, a quase \u201ccinquentona\u201d menina insiste em se fazer presente. Apesar da curta trajet\u00f3ria (1964 a 1973), trata-se da personagem de hist\u00f3rias em quadrinhos (hq\u2019s) mais popular da Argentina e uma das mais conhecidas no mundo.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitos pensam, <i>Mafalda <\/i>n\u00e3o foi contempor\u00e2nea da ditadura do triunvirato Videla, Massera e Agosti, conhecida como <i>Proceso de Reorganizaci\u00f3n Nacional <\/i>(1976-1983) \u2013 um dos seis golpes civil-militares pelos quais aquele pa\u00eds passou no s\u00e9culo XX, com um saldo de cerca de trinta mil mortos\/desaparecidos. A personagem de Quino\u201cnasceu\u201d na conturbada d\u00e9cada de 1960, durante o governo de <i>Arturo Umberto Illia <\/i>(1963-1966), derrubado por outro golpe \u2013 a chamada <i>Revolu\u00e7\u00e3o Argentina,<\/i>que colocou no poder os generais Ongan\u00eda, Levingston e Lanusse<i>. <\/i>Mais exatamente, o \u201cnascimento\u201d de <i>Mafalda<\/i> se d\u00e1 no mesmo ano em que no Brasil \u00e9 deflagrado o Golpe que duraria vinte e um anos.<\/p>\n<p>Em seu curto per\u00edodo de vida, Mafalda e sua turma (ela s\u00f3 \u201cexiste\u201d a partir das rela\u00e7\u00f5es que constr\u00f3i com a fam\u00edlia e com os amigos <i>Manolito, Miguelito, Susanita, Felipe, Libertad <\/i>) \u201cassistiram\u201d a in\u00fameros acontecimentos significativos \u2013 a ca\u00e7a aos comunistas p\u00f3s-Revolu\u00e7\u00e3o Cubana; as ditaduras civil-militares na Am\u00e9rica do Sul, tamb\u00e9m com forte inger\u00eancia estadunidense; o assassinato de l\u00edderes como Martin Luther King (em 1968) e Malcom X (em 1965), bem como o de Che Guevara (1967), na Bol\u00edvia, com participa\u00e7\u00e3o da CIA; o Maio de 1968 na Fran\u00e7a, sob o lema \u201ca imagina\u00e7\u00e3o no poder\u201d, que incendiou a juventude; o Festival de Woodstock (1969), com seu pacifismo \u00e0 moda <i>flower power <\/i>; a Primavera de Praga, que tentou construir uma democracia socialista na Tchecoslov\u00e1quia de Dubcek; a derrota estadunidense no Vietn\u00e3, \u00e0 custa de milhares de vidas dos dois lados; a elei\u00e7\u00e3o de Salvador Allende no Chile (1970), a chegada do homem (estadunidense) \u00e0 Lua (em 1969), no contexto da corrida espacial com a URSS; o fim dos Beatles (fato que sem d\u00favida afetou profundamente Mafalda\u2026) e o tricampeonato da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol no M\u00e9xico (o que tamb\u00e9m n\u00e3o deve ter agradado os conterr\u00e2neos da \u201cbaixinha\u201d), ambos em 1970.<\/p>\n<p><b>Mafalda na aula de Hist\u00f3ria<\/b><\/p>\n<p>At\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, as hist\u00f3rias em quadrinhos \u201centravam\u201d na escola pela \u201cporta dos fundos\u201d e, na universidade, ap\u00f3s um pedido de desculpas. Eram considerados uma subarte, uma subliteratura, representando uma linguagem \u201cmenor\u201d e assumindo um car\u00e1ter apenas de brincadeira. Felizmente, muita coisa mudou nestes \u00faltimos trinta anos no que diz respeito ao olhar acad\u00eamico sobre as hq\u2019s.<\/p>\n<p>A criticidade na aula de Hist\u00f3ria \u00e9 requisito fundamental, bem como a associa\u00e7\u00e3o entre processos hist\u00f3ricos e a identifica\u00e7\u00e3o de rupturas e perman\u00eancias ao longo do tempo. <i>Mafalda <\/i>faz isso a todo instante: analisa criticamente a realidade, sem buscar uma pretensa neutralidade. (Esse \u00e9 outro requisito importante nos debates realizados numa aula de Hist\u00f3ria: tomar partido.) Ela n\u00e3o aceita o mundo que \u201crecebeu\u201d e o questiona constantemente. Ora tem atitudes de uma crian\u00e7a \u201ct\u00edpica\u201d (que tem medo, depende dos pais, \u00e9 ing\u00eanua\u2026), ora age como uma crian\u00e7a excepcional (n\u00e3o no sentido de superdotada) e constr\u00f3i belas met\u00e1foras, \u201csaindo\u201d da dimens\u00e3o do concreto que caracteriza a crian\u00e7a em seus anos iniciais. L\u00facida, cr\u00edtica, consegue discutir a Guerra do Vietn\u00e3, por exemplo, e muitas vezes colocar os adultos em situa\u00e7\u00f5es embara\u00e7osas.<\/p>\n<p>Em minha disserta\u00e7\u00e3o, defendida em 2011 no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da UERJ, intitulada \u201cMafalda na aula de Hist\u00f3ria: a cr\u00edtica aos elementos caracter\u00edsticos da sociedade burguesa e a constru\u00e7\u00e3o coletiva de sentidos contra-hegem\u00f4nicos\u201d, analisei <i>Mafalda <\/i>buscando investigar como \u00e9 poss\u00edvel, a partir da baixinha argentina, \u201ctocar\u201d em elementos basilares do tipo de sociedade da qual fazemos parte, grosso modo, h\u00e1 mais de duzentos anos: o individualismo, a democracia burguesa, o est\u00edmulo ao consumo, a valoriza\u00e7\u00e3o do lucro, a propriedade privada, o progresso, o livre-com\u00e9rcio, a naturaliza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, a desumaniza\u00e7\u00e3o e a competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como professor da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (Ensinos Fundamental e M\u00e9dio) e do Ensino Superior, a experi\u00eancia com hq\u2019s tem sido muito rica. Como um apaixonado por <i>Mafalda<\/i>, gosto de us\u00e1-la em provas, debates, trabalhos, tentando \u201cextrair\u201d ao m\u00e1ximo sua criticidade, suas indaga\u00e7\u00f5es diante de um mundo confuso e \u201cao contr\u00e1rio\u201d. O curioso \u00e9 que <i>Mafalda \u2013 <\/i>uma personagem crian\u00e7a que n\u00e3o foi produzida pensando no p\u00fablico infantil \u2013 dialoga com diferentes faixas et\u00e1rias. A partir dela \u00e9 poss\u00edvel, por exemplo, tanto debater a democracia grega com o sexto ano como problematizar o conceito de aliena\u00e7\u00e3o, a partir da m\u00eddia e do consumo, com uma turma de gradua\u00e7\u00e3o em Pedagogia. Eis as tiras usadas nesses casos:<\/p>\n<p>As hq\u2019s s\u00e3o recursos poderosos, ferramentas importantes na rela\u00e7\u00e3o de ensinar-aprender. E <i>Mafalda \u00e9 <\/i>um exemplo paradigm\u00e1tico, dada a atualidade da cr\u00edtica e o alcance da narrativa tecida pelo artista argentino. Todavia, \u00e9 fundamental lembrar que as hq\u2019s sozinhas n\u00e3o tornam uma aula mais ou menos atraente, tampouco transmitem um conte\u00fado em toda a sua integridade.<\/p>\n<p><b>A genialidade de Quino<\/b><\/p>\n<p>Quino \u00e9 um dos artistas mais completos que surgiram em <i>nuestra America. <\/i>Embora <i>Mafalda<\/i> n\u00e3o tenha sido editada na forma de gibi (como a <i>Turma da M\u00f4nica, <\/i>por exemplo), seja datada (trata da Guerra Fria, das ditaduras na Am\u00e9rica Latina, etc.) e tenha durado apenas sete anos, a personagem fez e continua a fazer sucesso, tendo sido traduzida em pa\u00edses como Jap\u00e3o, Noruega, Austr\u00e1lia \u2013 sociedades muito distintas das existentes em nosso continente.<\/p>\n<p>O enorme alcance da obra de Quino (cuja genialidade vai muito al\u00e9m de <i>Mafalda <\/i>) deve-se ao fato de que o artista argentino abordou quest\u00f5es \u201cpermanentes\u201d, como a da liberdade ou da soberania de um povo, por exemplo. Esta talvez seja a marca fundamental de um g\u00eanio \u2013 seja Beethoven, Dostoi\u00e9vski ou\u2026 Quino.<\/p>\n<p>Ao responder pergunta sobre se \u00e9 poss\u00edvel modificar algo atrav\u00e9s do humor, Quino certa vez afirmou: \u201cN\u00e3o. Acho que n\u00e3o. Mas ajuda. \u00c9 aquele pequeno gr\u00e3o de areia com o qual contribu\u00edmos para que as coisas mudem\u201d.<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2013\/04\/26\/mafalda-e-a-poderosa-critica-de-valores\/#sdfootnote1sym\" ><sup>1<\/sup><\/a>N\u00e3o tenho d\u00favidas de que <i>Mafalda <\/i>e sua turma representam importantes \u201cgr\u00e3os de areia\u201d na constru\u00e7\u00e3o de outras leituras\/interpreta\u00e7\u00f5es de nossa realidade, e logo, no limite, na constru\u00e7\u00e3o de um outro mundo poss\u00edvel e necess\u00e1rio.<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias:<\/b><\/p>\n<p>QUINO. <i>Toda Mafalda<\/i>. Rio de Janeiro: Martins Fontes Editora, 2002.<\/p>\n<p>REBU\u00c1, Eduardo. <i>Mafalda na aula de Hist\u00f3ria: a cr\u00edtica aos elementos caracter\u00edsticos da sociedade burguesa e a constru\u00e7\u00e3o coletiva de sentidos contra-hegem\u00f4nicos. <\/i>Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado. Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro \u2013 ProPEd\/UERJ. Rio de Janeiro, 2011.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2013\/04\/26\/mafalda-e-a-poderosa-critica-de-valores\/#sdfootnote1anc\" >1<\/a> Em entrevista traduzida para o portugu\u00eas pelo site <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.mafalda.net\/\" >http:\/\/www.mafalda.net\/<\/a> (sem data).<\/p>\n<p>______________________<\/p>\n<p><i>Carlos Eduardo Rebu\u00e1 Oliveira,<\/i><i>\u00a0licenciado em Hist\u00f3ria pela UFF, mestre e doutorando em Educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 professor de ensino superior e da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica nas redes p\u00fablica e privada.<\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2013\/04\/26\/mafalda-e-a-poderosa-critica-de-valores\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Argentina e universal, personagem de Quino segue muito jovem aos 50, porque seu sarcasmo fere capitalismo muito al\u00e9m da superf\u00edcie e sua ironia permanece viva, numa sociedade cada vez mais desigual.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62,167,46],"tags":[],"class_list":["post-28432","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-media","category-arts","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28432","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28432"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28432\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}