{"id":28481,"date":"2013-04-29T12:00:50","date_gmt":"2013-04-29T11:00:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=28481"},"modified":"2015-05-06T12:53:09","modified_gmt":"2015-05-06T11:53:09","slug":"portugues-novo-estudo-aponta-erros-em-base-cientifica-das-politicas-de-austeridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/04\/portugues-novo-estudo-aponta-erros-em-base-cientifica-das-politicas-de-austeridade\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Novo Estudo Aponta Erros em &#8216;Base Cient\u00edfica&#8217; das Pol\u00edticas de Austeridade"},"content":{"rendered":"<p><i>Argumento de que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o perniciosa entre alta d\u00edvida p\u00fablica e crescimento do PIB, encampado por pol\u00edticos conservadores, come\u00e7a a ser derrubado na academia. Economistas da Universidade de Massachusetts acabam de publicar estudo que invalida os achados estat\u00edsticos de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, os &#8216;papas&#8217; daquela teoria. <\/i><\/p>\n<p>O influente estudo de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart sobre a rela\u00e7\u00e3o negativa entre d\u00edvida p\u00fablica e crescimento, publicado originalmente em 2010 na American Economic Review e com a vers\u00e3o preliminar no NBER, acaba de ser desbancado por economistas da Universidade de Massachusetts em Amherst.<\/p>\n<p>O estudo de Rogoff e Reinhart foi base para o tamb\u00e9m livro best seller \u201cThis Time Is Different: Eight Centuries of Financial Folly\u201d. O argumento dos autores \u00e9 o de que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o perniciosa entre alta d\u00edvida p\u00fablica e crescimento do PIB, o que foi imediatamente encampado por pol\u00edticos conservadores como justificativa cient\u00edfica para os programas de austeridade fiscal.<\/p>\n<p>Mas outro recente estudo de Thomas Herndon, Michael Ash e Robert Pollin acaba de invalidar os achados estat\u00edsticos de Rogoff e Reinhart ao mostrarem que estes cometerem \u201cerros\u201d b\u00e1sicos de metodologia, al\u00e9m de \u201cerros\u201d ao utilizarem fun\u00e7\u00f5es no Excel. Pior ainda, o \u201cerro\u201d de Rogoff e Reinhart no Excel alterou por completo a principal conclus\u00e3o do estudo de que pa\u00edses com rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida p\u00fablica sobre PIB acima dos 90% sofrem, em m\u00e9dia, crescimento negativo.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 a seguinte. Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, professores de Harvard, queriam avaliar a rela\u00e7\u00e3o entre crescimento do PIB e d\u00edvida p\u00fablica. Mas como ambos pesquisadores tem um vi\u00e9s ideol\u00f3gico evidentemente conservador, lhes interessava encontrar uma correla\u00e7\u00e3o negativa entre a raz\u00e3o d\u00edvida p\u00fablica sobre PIB e a taxa de crescimento m\u00e9dio do PIB. E este foi o resultado que eles de fato encontraram ao analisarem v\u00e1rios pa\u00edses em v\u00e1rias d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Rogoff e Reinhart separam os pa\u00edses em quatro subgrupos de acordo com a rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida p\u00fablica sobre PIB: (1) abaixo de 30%; (2) entre 30% e 60%; (3) entre 60% e 90%; (4) acima de 90%. E perceberam que o crescimento m\u00e9dio do PIB era negativo (-0.1%) para os pa\u00edses no grupo com \u00edndice de d\u00edvida sobre PIB acima de 90%. Conclu\u00edram ent\u00e3o que o ac\u00famulo de d\u00edvida p\u00fablica ocorre em detrimento do crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Rogoff e Reinhart n\u00e3o escreveram que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o causal entre d\u00edvida e contra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Limitaram-se a postular a correla\u00e7\u00e3o, sem implicar qualquer causalidade. Mas o faziam em entrevistas para jornais e para a televis\u00e3o. Fora do mundo acad\u00eamico, Rogoff e Reinhart afirmavam que de fato h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o causal entre d\u00edvida e retra\u00e7\u00e3o do crescimento.<\/p>\n<p>Nada mais prop\u00edcio para os austeros de plant\u00e3o que ansiavam por uma justifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e objetiva para a contra\u00e7\u00e3o fiscal e redu\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida-PIB. O achado foi utilizado diversas vezes no congresso dos EUA tanto por senadores como por deputados como prova cabal de que o governo deveria cortar gastos, em especial os gastos sociais.<\/p>\n<p>Mas havia uma pedra no meio do caminho. O primeiro problema foi que v\u00e1rios outros economistas tentaram replicar os resultados de Rogoff e Reinhart, todos sem sucesso. At\u00e9 que os autores tiveram que liberar seus dados e c\u00e1lculos para dois economistas da Universidade de Massachusetts em Amherst, nomeadamente Michael Ash e Robert Pollin, os quais deixaram Thomas Herndon, colega de doutorado em economia, encarregado de checar os c\u00f4mputos.<\/p>\n<p>Resulta que Herndon descobriu que Rogoff e Reinhart tinham cometido \u201cerros\u201d b\u00e1sicos ao utilizarem o Excel para calcular m\u00e9dias de crescimento do PIB, al\u00e9m de utilizarem pesos injustific\u00e1veis para as observa\u00e7\u00f5es. No estudo original, Rogoff e Reinhart excluem arbitrariamente algumas observa\u00e7\u00f5es cruciais e ainda d\u00e3o o mesmo peso para observa\u00e7\u00f5es de uma d\u00e9cada e uma observa\u00e7\u00e3o de um simples ano, o que acaba por viesar os resultados a favor da conclus\u00e3o de que mais d\u00edvida se correlaciona com menor crescimento:<\/p>\n<p><i>\u201cWe replicate Reinhart and Rogo ff (2010a and 2010b) and nd that coding errors, selective exclusion of available data, and unconventional weighting of summary statistics lead to serious errors that inaccurately represent the relationship between public debt and GDP growth among 20 advanced economies in the post-war period. <\/i><i>Our finding is that when properly calculated, the average real GDP growth rate for countries carrying a public-debt-to-GDP ratio of over 90 percent is actually 2.2 percent, not -0.1 percent as published in Reinhart and Rogoff . That is, contrary to RR, average GDP growth at public debt\/GDP ratios over 90 percent is not dramatically diff erent than when debt\/GDP ratios are lower. We also show how the relationship between public debt and GDP growth varies signi ficantly by time period and country. Overall, the evidence we review contradicts Reinhart and Rogoff \u2019s claim to have identifi ed an important stylized fact, that public debt loads greater than 90 percent of GDP consistently reduce GDP growth.\u201d<br \/>\n<\/i><br \/>\nRogoff e Reinhart, em bom portugu\u00eas, usaram uma metodologia altamente duvidosa com exclus\u00e3o seletiva de dados, manipula\u00e7\u00e3o injustific\u00e1vel dos pesos e, pior ainda, erro nos c\u00f3digos das m\u00e9dias. Se corrigidos, os resultados apontam que pa\u00edses com rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida-PIB acima de 90% crescem em m\u00e9dia 2.2% ao ano, e n\u00e3o -0.1%.<\/p>\n<p>O achado de Herndon, Ash e Pollin j\u00e1 ganhou repercuss\u00e3o internacional. Artigos no New York Times (aqui tamb\u00e9m), Businessweek, Financial Times, blog do Krugman (aqui, aqui, e aqui), Wall Street Journal, Bloomberg, Guardian etc. deram publicidade global para o fato de que as conclus\u00f5es favorecendo a austeridade fiscal se assentavam sobre c\u00e1lculos equivocados. Resulta que agora Rogoff e Reinhart j\u00e1 admitiram publicamente o \u201cerro\u201d (aqui tamb\u00e9m), mas n\u00e3o abrem m\u00e3o do argumento de que a contra\u00e7\u00e3o fiscal \u00e9 necess\u00e1ria para obter maior crescimento. Bom, neste caso a ideologia da direita vence a realidade.<\/p>\n<p>No final das contas, se utilizarmos os dados corretamente, haveria correla\u00e7\u00e3o entre d\u00edvida e crescimento? Em gr\u00e1fico obtido por Herndon, Ash e Pollin, os autores utilizam todos os dados para todos os pa\u00edses e anos originalmente usados por Rogoff e Reinhart. Aparentemente h\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o negativa entre d\u00edvida p\u00fablica e crescimento. Mas esta correla\u00e7\u00e3o \u00e9 mera apar\u00eancia, afinal a qualidade do ajuste (fitness) da regress\u00e3o \u00e9 muito baixa. Vejam como as observa\u00e7\u00f5es se espalham ao redor da regress\u00e3o, com R-quadrado = 0.04.<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o central \u00e9 o problema da causalidade. \u00c9 o aumento da d\u00edvida que causa baixo crescimento, ou o baixo crescimento do PIB que causa aumento da d\u00edvida p\u00fablica? O estudo original de Rogoff e Reinhart sugeria uma correla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o causalidade. Mas o argumento foi tomado pelos pol\u00edticos como uma evid\u00eancia que maior endividamento causa menor crescimento. Mas n\u00e3o poderia haver causalidade reversa com baixo crescimento causando aumento da d\u00edvida p\u00fablica? A teoria keynesiana nos fornece fortes raz\u00f5es te\u00f3ricas para crer que a causalidade vai do baixo crescimento para o aumento da d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Outro problema \u00e9 o do significado da raz\u00e3o estoque sobre fluxo. Ao medir d\u00edvida p\u00fablica sobre PIB estamos medindo o estoque total da d\u00edvida (em d\u00f3lares) sobre o fluxo de valor agregado em um ano (em d\u00f3lares por anos), o que nos deixa com um n\u00famero puro por ano. Al\u00e9m disso, por que usar 1 ano como refer\u00eancia de tempo para a d\u00edvida p\u00fablica? Por que n\u00e3o 10 anos? N\u00e3o h\u00e1 nada especial em utilizar d\u00edvida por ano como um bom indicador de endividamento, pois muito desta d\u00edvida \u00e9 de longo prazo.<\/p>\n<p><i>\u201cAfter all, debt (which is measured in currency units) and GDP (which is measured in currency units per unit of time) yields a ratio in units of pure time. There is nothing special about using a year as that unit. A year is the time that it takes for the earth to orbit the sun, which, except for seasonal industries like agriculture, has no particular economic significance.\u201d \u2013 Robert Shiller<\/i><\/p>\n<p>A retrata\u00e7\u00e3o p\u00fablica de Rogoff e Reinhart se resume ao argumento de que se a an\u00e1lise n\u00e3o reflete a realidade, pior para a realidade.<\/p>\n<p><i>\u201cReinhart and Rogoff have admitted to a \u201ccoding error\u201d in the spreadsheet that meant some countries were omitted from their calculations. But the economists denied they selectively omitted data or that they used a questionable methodology. [&#8230;] Reinhart and Rogoff, however, say their conclusion that there is a correlation between high debt and slow growth still holds. \u201cIt is sobering that such an error slipped into one of our papers despite our best efforts to be consistently careful,\u201d they said in a joint statement. \u201cWe do not, however, believe this regrettable slip affects in any significant way the central message of the paper or that in our subsequent work.\u201d &#8211; NYT<br \/>\n<\/i><br \/>\nAmbos continuam a defender abertamente o ajuste recessivo via pol\u00edticas de austeridade fiscal como solu\u00e7\u00e3o para o baixo crescimento. Cabe ent\u00e3o indagar sobre quem se beneficia com as pol\u00edticas de austeridade.<\/p>\n<p>Adendo:<\/p>\n<p>Para aqueles que estiverem interessados em uma an\u00e1lise econom\u00e9trica da rela\u00e7\u00e3o entre crescimento e d\u00edvida p\u00fablica, recomendo o excelente e curto artigo preparado por Arin Dube, tamb\u00e9m professor da UMass Amherst. Dube invalida a ideia de que mais d\u00edvida leva a menor crescimento, mostrando justamente o contr\u00e1rio: \u00e9 o baixo crescimento do PIB que leva ao aumento do quociente d\u00edvida p\u00fablica sobre PIB. O problema \u00e9 o baixo crescimento, n\u00e3o a alta d\u00edvida.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=21963&amp;utm_source=emailmanager&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=Boletim_Carta_Maior__27042013\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Argumento de que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o perniciosa entre alta d\u00edvida p\u00fablica e crescimento do PIB, encampado por pol\u00edticos conservadores, come\u00e7a a ser derrubado na academia. 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