{"id":2856,"date":"2009-09-28T00:00:00","date_gmt":"2009-09-28T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/wordpress\/2009\/09\/portuguese-favelas-brasileiras-na-midia\/"},"modified":"2009-09-28T00:00:00","modified_gmt":"2009-09-28T00:00:00","slug":"portuguese-favelas-brasileiras-na-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2009\/09\/portuguese-favelas-brasileiras-na-midia\/","title":{"rendered":"(PORTUGUESE)  FAVELAS BRASILEIRAS NA M\u00cdDIA"},"content":{"rendered":"<p><em>Uma Hist&oacute;ria de Estere&oacute;tipos<br \/><\/em><br \/><em>1. Introdu&ccedil;&atilde;o<br \/><\/em><br \/>A palavra &ldquo;favela&rdquo;, no Brasil, n&atilde;o &eacute; somente usada para indicar os bairros mais pobres dos centros urbanos do pa&iacute;s. Ela tem em si uma conota&ccedil;&atilde;o negativa, j&aacute; que serve tamb&eacute;m para descrever qualquer lugar &ldquo;de mau aspecto&rdquo; ou uma &ldquo;situa&ccedil;&atilde;o que se considera desagrad&aacute;vel ou desorganizada&rdquo;, conforme defini&ccedil;&atilde;o do Dicion&aacute;rio Houaiss da L&iacute;ngua Portuguesa (Houaiss &amp; Villar, 2001).<\/p>\n<p>Isto indica claramente a posi&ccedil;&atilde;o desvantajosa que as favelas ocupam no imagin&aacute;rio popular brasileiro, para o qual elas representam muito mais que um simples fen&ocirc;meno social. Assim, al&eacute;m de servirem de lar, em geral, para camadas mais pobres da popula&ccedil;&atilde;o e receberem pouca ou nenhuma aten&ccedil;&atilde;o do Estado no que diz respeito &agrave; infraestrutura e servi&ccedil;os b&aacute;sicos, as favelas se tornam um alvo f&aacute;cil para os estere&oacute;tipos: s&atilde;o freq&uuml;entemente associadas &agrave; pobreza, ignor&acirc;ncia, baixa escolaridade, enfermidade, insalubridade e, em especial, criminalidade. Esta vis&atilde;o distorcida tem um efeito profundo, pois acaba criando um pesado estigma sobre seus moradores, que enfrentam uma dupla exclus&atilde;o social: n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o gozam de plena cidadania (j&aacute; que n&atilde;o t&ecirc;m acesso integral aos servi&ccedil;os do Estado), como tamb&eacute;m s&atilde;o tachados de marginais &ndash; ou seja, ficam &agrave; margem da sociedade. <\/p>\n<p>&Eacute; ineg&aacute;vel que as favelas s&atilde;o zonas afetadas por exemplos di&aacute;rios de viol&ecirc;ncia direta, conforme estatisticamente se observa ou se pode ver nos notici&aacute;rios. No entanto, o mesmo senso comum que vincula a imagem de um &ldquo;morador de favela&rdquo; &agrave; de um &ldquo;criminoso&rdquo; n&atilde;o &eacute; capaz de perceber que a grande maioria daqueles que habitam as favelas s&atilde;o cidad&atilde;os comuns e trabalhadores sem rela&ccedil;&atilde;o com o crime. Esse racioc&iacute;nio tamb&eacute;m n&atilde;o consegue enxergar a liga&ccedil;&atilde;o entre criminosos oriundos de favelas e ricos chef&otilde;es de &ldquo;fam&iacute;lias tradicionais&rdquo;, que comandam vastos grupos de crime organizado e recrutam seus &ldquo;soldados&rdquo; entre as camadas pobres da sociedade brasileira. <\/p>\n<p>Por &uacute;ltimo, e mais importante, essa vis&atilde;o estereotipada invisibiliza o fato de que a viol&ecirc;ncia direta no Brasil afeta, mais que ningu&eacute;m, aos pr&oacute;prios trabalhadores pobres (especialmente os negros ou mulatos) que vivem nas favelas &ndash; segundo relat&oacute;rio do Programa das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Desenvolvimento, estas s&atilde;o as t&iacute;picas v&iacute;timas da criminalidade no pa&iacute;s (PNUD, 2005).<\/p>\n<p>Estes estere&oacute;tipos, no entanto, n&atilde;o s&atilde;o um fen&ocirc;meno recente. Eles s&atilde;o decorrentes de um longo processo de marginaliza&ccedil;&atilde;o das favelas e seus moradores por parte do Estado, dos sucessivos governos locais e federais e das classes mais abastadas. E, ao longo da Hist&oacute;ria, um dos principais meios de gera&ccedil;&atilde;o, difus&atilde;o e manuten&ccedil;&atilde;o das id&eacute;ias que associam as favelas &agrave; criminalidade tem sido a imprensa brasileira.<\/p>\n<p>Ao basear sua cobertura nos mecanismos daquilo que Jake Lynch e Annabel McGoldrick (2005, 2007) classificam de &ldquo;Jornalismo de Guerra&rdquo; &ndash; ou seja, a cobertura linear, que s&oacute; narra eventos sem considerar seu contexto; que prioriza fontes oficiais em detrimento dos cidad&atilde;os comuns; que credita a viol&ecirc;ncia ao suposto barbarismo de quem a comete; e que s&oacute; enxerga o dualismo em uma disputa, uma luta do &ldquo;bem&rdquo; contra o &ldquo;mal&rdquo; &ndash;, a m&iacute;dia no Brasil vem ajudando a perpetuar os estere&oacute;tipos sobre as favelas.<\/p>\n<p>Este ensaio pretende justamente demonstrar esta equa&ccedil;&atilde;o ao analisar a cobertura da imprensa brasileira sobre as favelas e seus moradores sob a lente dos conceitos do &ldquo;Peace Journalism&rdquo; [&ldquo;Jornalismo para a Paz&rdquo;] defendidos por Lynch e McGoldrick (2005, 2007).<\/p>\n<p>Para tal, primeiramente contextualizaremos as favelas no Brasil, apresentando suas caracter&iacute;sticas, descrevendo sua gente e oferecendo um breve hist&oacute;rico. Tamb&eacute;m apresentaremos a imprensa brasileira, abordando sua rela&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica com as favelas. Para uma an&aacute;lise mais detalhada desta rela&ccedil;&atilde;o, tomaremos como exemplo a cobertura dos confrontos ocorridos no in&iacute;cio de fevereiro de 2009 entre a Pol&iacute;cia Militar e os moradores de Parais&oacute;polis (a segunda maior favela da cidade de S&atilde;o Paulo). <\/p>\n<p>Buscaremos, num primeiro momento, destacar o vocabul&aacute;rio usado para descrever os moradores desta favela e os confrontos ocorridos. Tamb&eacute;m tentaremos identificar os enfoques e as contradi&ccedil;&otilde;es da cobertura. Posteriormente, destacaremos da cobertura dos eventos de Parais&oacute;polis as linhas gerais pelas quais se d&aacute; a atual rela&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia com as favelas, demonstrando como um retrato parcial e sem equil&iacute;brio contribui para a manuten&ccedil;&atilde;o da imagem negativa das mesmas, naquilo que constitui um claro exemplo de viol&ecirc;ncia cultural, como proposto por Galtung (1996:2-8).<\/p>\n<p><strong>2. Contextualiza&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>2.1. As Favelas<br \/><\/strong><br \/>Formalmente, o que define uma favela no Brasil &eacute; o fato de que suas casas s&atilde;o constru&iacute;das sem autoriza&ccedil;&atilde;o legal, ou seja, que seus moradores n&atilde;o possuem t&iacute;tulo de propriedade nem das constru&ccedil;&otilde;es, nem dos terrenos que estas ocupam. Informalmente, no entanto, s&atilde;o reconhecidas por ser um conjunto de casas constru&iacute;das sem planejamento e com pouco ou nenhum acesso a servi&ccedil;os p&uacute;blicos b&aacute;sicos, como luz, &aacute;gua encanada e saneamento. <\/p>\n<p>Elas variam muito em tamanho, podendo ser constitu&iacute;das por alguns casebres de madeira onde vivem algumas dezenas de fam&iacute;lias; ou por in&uacute;meras quadras de casas de alvenaria e ruas asfaltadas, abrigando centenas de milhares de pessoas. Muitas se localizam em periferias de dif&iacute;cil acesso, a quil&ocirc;metros do centro das cidades. Outras ocupam &aacute;reas onde geralmente n&atilde;o h&aacute; especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria, como encostas de morros, beiras de c&oacute;rregos polu&iacute;dos, &aacute;reas alag&aacute;veis, redondezas de lix&otilde;es e &aacute;reas vazias sob viadutos.<\/p>\n<p>No entanto, naquilo que constitui um dos maiores paradoxos sociais do Brasil, as favelas tamb&eacute;m se encontram encravadas em meio a bairros tradicionais &ndash; muitas vezes de alt&iacute;ssimo padr&atilde;o &ndash; margeadas por avenidas com muito tr&aacute;fego, grandes lojas, ag&ecirc;ncias banc&aacute;rias, o que lhes oferece uma fachada de &ldquo;quase normalidade&rdquo;. Por tr&aacute;s da apar&ecirc;ncia habitual, por&eacute;m, esconde uma rede de vielas tortuosas, onde s&atilde;o erguidas casas humildes, de tijolos expostos, lata ou madeira, que crescem verticalmente devido &agrave; falta de espa&ccedil;o.<\/p>\n<p>Hoje, algumas possuem um m&iacute;nimo de infraestrutura b&aacute;sica e status legal, recebendo as mesmas benesses dos bairros tradicionais: numera&ccedil;&atilde;o das casas e servi&ccedil;o postal, asfaltamento, postos de sa&uacute;de. Paradoxalmente, tamb&eacute;m &eacute; poss&iacute;vel encontrar em seu interior verdadeiras &ldquo;mans&otilde;es&rdquo;, fruto do progresso financeiro de seus propriet&aacute;rios e da legaliza&ccedil;&atilde;o dos seus lotes &ndash; medida que os governos locais tomam ocasionalmente como forma de inclus&atilde;o social.<\/p>\n<p>O quadro geral, no entanto, &eacute; desolador. Com o crescimento da ind&uacute;stria e do setor de servi&ccedil;os vivido pelos Brasil nas &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas, houve um aumento do fluxo migrat&oacute;rio das zonas rurais para as urbanas. Este deslocamento n&atilde;o foi acompanhado de pol&iacute;ticas de absor&ccedil;&atilde;o desta popula&ccedil;&atilde;o ao mercado de trabalho, o que acarretou a ocupa&ccedil;&atilde;o ilegal de novas &aacute;reas sem infraestrutura e o conseq&uuml;ente surgimento de novas favelas (Costa Mattos, 2007). <\/p>\n<p><strong>2.2. Os Moradores das Favelas<br \/><\/strong><br \/>As favelas s&atilde;o habitadas pelas camadas mais pobres da popula&ccedil;&atilde;o brasileira, constitu&iacute;da por uma popula&ccedil;&atilde;o migrante, sa&iacute;da das zonas mais pobres do pa&iacute;s em busca de trabalho nas principais cidades. Em sua maioria, gente com baixa escolaridade, sem emprego formal ou com um trabalho formal n&atilde;o-qualificado. Sua m&eacute;dia salarial &eacute; consideravelmente inferior &agrave; do restante dos bairros. <\/p>\n<p>Em 2007, o governo brasileiro se viu for&ccedil;ado, por erro no modelo estat&iacute;stico, a rever os n&uacute;meros oficiais de moradores destas zonas &ndash; elevando-os de 6,4 para 12,3 milh&otilde;es de pessoas, distribu&iacute;dos em 3,2 milh&otilde;es de domic&iacute;lios (Folha de S. Paulo, 2009b). Ao mesmo tempo, a ONU divulgou um estudo que estabelecia a popula&ccedil;&atilde;o das favelas brasileiras em 52,3 milh&otilde;es de pessoas em 2005 (UN-Habitat, 2006).<\/p>\n<p><strong>2.3. As Origens das Favelas<br \/><\/strong><br \/>As favelas s&atilde;o um fen&ocirc;meno complexo, surgido como conseq&uuml;&ecirc;ncia de muitos fatores ao longo da hist&oacute;ria. Em suas origens, no entanto, podemos encontrar duas raz&otilde;es principais: a aboli&ccedil;&atilde;o da escravatura, em 1888 (o que torna o Brasil o &uacute;ltimo pa&iacute;s do mundo a ter recha&ccedil;ado esta pr&aacute;tica); e o crescimento industrial das principais cidades do pa&iacute;s, em especial o Rio de Janeiro, &agrave; &eacute;poca capital nacional (Costa Mattos, 2007). <\/p>\n<p>&Eacute; preciso considerar que a aboli&ccedil;&atilde;o da escravatura n&atilde;o foi t&atilde;o benevolente quanto parece, j&aacute; que este ato governamental n&atilde;o veio acompanhado de nenhuma medida que visasse incluir socialmente ou ao menos dar uma vida digna aos ex-escravos &ndash; em sua maioria, negros vindos da &Aacute;frica ou nascidos como posse de um fazendeiro. Deste modo, esta enorme popula&ccedil;&atilde;o foi jogada &agrave;s ruas e deixada &agrave; pr&oacute;pria sorte, sem ter meios legais de se inserir na sociedade, conseguir trabalho formal, ganhar seu sustento e poder pagar ou construir sua moradia. <\/p>\n<p>A esta situa&ccedil;&atilde;o somou-se a atra&ccedil;&atilde;o que a incipiente ind&uacute;stria de cidades como Rio de Janeiro e S&atilde;o Paulo exercia no fim do s&eacute;culo XIX. Como estes n&uacute;cleos urbanos n&atilde;o tinham estrutura para acomodar novos moradores, a sa&iacute;da encontrada pelos ex-escravos foi ocupar o entorno destas cidades, dando in&iacute;cio ao crescimento desordenado das favelas e a seu hist&oacute;rico de abandono e acosso por parte das autoridades.<\/p>\n<p>Hoje em dia, ap&oacute;s o crescimento exponencial das grandes cidades brasileiras, as favelas foram absorvidas pelo n&uacute;cleo urbano formal, abrindo caminho para imagens urbanas paradoxais, nas quais arranha-c&eacute;us modernos dividem a paisagem com barracos. <\/p>\n<p><strong>2.4. A M&iacute;dia Brasileira<br \/><\/strong><br \/>No outro lado da equa&ccedil;&atilde;o que este ensaio pretende analisar se encontra a imprensa nacional. Os grandes nomes dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o empresas de grande porte, caracterizadas, por&eacute;m, por terem administra&ccedil;&atilde;o familiar e capital fechado. <\/p>\n<p>O maior grupo nacional de comunica&ccedil;&otilde;es &eacute; a Rede Globo, dona do canal de TV mais rico e visto do pa&iacute;s (TV Globo); do jornal O Globo e da R&aacute;dio Globo, ambos de influ&ecirc;ncia nacional; da revista semanal &Eacute;poca; do popular portal de internet Globo.com; e de in&uacute;meras outras opera&ccedil;&otilde;es no Brasil e no exterior. <\/p>\n<p>O segundo grupo de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; o Grupo Abril, propriet&aacute;rio de in&uacute;meros t&iacute;tulos impressos, incluindo a revista semanal mais influente do pa&iacute;s, a Veja. Al&eacute;m destas empresas, existe tamb&eacute;m o Grupo Folha, dono do jornal de maior circula&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s (a Folha de S. Paulo) e sua vers&atilde;o na internet (Folha Online); do maior jornal financeiro (o Valor Econ&ocirc;mico); e do maior portal de internet do pa&iacute;s (o UOL). Concorrendo diretamente pelo mercado nacional tamb&eacute;m est&aacute; o Grupo Estado, que imprime o influente jornal O Estado de S. Paulo (Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Jornais, 2007). <\/p>\n<p>O setor de comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil enfrenta uma grave crise financeira h&aacute; anos, com profundo endividamento e quebras. Em 2002, uma mudan&ccedil;a na Constitui&ccedil;&atilde;o permitiu a participa&ccedil;&atilde;o de capital estrangeiro na administra&ccedil;&atilde;o das empresas do setor, at&eacute; um limite de 30%, fato at&eacute; ent&atilde;o proibido por se considerar a imprensa nacional um setor estrat&eacute;gico para o Brasil. Posteriormente, argumentando-se que s&oacute; uma grande inje&ccedil;&atilde;o de capital salvaria a m&iacute;dia nacional de sua crise e evitaria sua venda a grupos estrangeiros (Observat&oacute;rio da Imprensa, 2003), o governo do rec&eacute;m-eleito Presidente Lu&iacute;s In&aacute;cio Lula da Silva preparou, em 2004, uma linha de cr&eacute;dito de R$ 5 bilh&otilde;es para o setor, sem que houvesse ampla discuss&atilde;o sobre o tema. O acordo gerou desconforto quanto &agrave; depend&ecirc;ncia da m&iacute;dia em rela&ccedil;&atilde;o ao governo (Jornal da Universidade, 2002).<\/p>\n<p><strong>2.5. Rela&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia com as favelas<br \/><\/strong><br \/>A rela&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia com as favelas e seus moradores &eacute; marcada por um longo hist&oacute;rico de estereotipia. J&aacute; em 1909, ao tratar da povoa&ccedil;&atilde;o que deu origem ao termo favela, um dos principais jornais de ent&atilde;o no Rio de Janeiro dizia:<\/p>\n<p>&ldquo;&Eacute; o lugar onde reside a maior parte dos valentes da nossa terra, e que, exatamente por isso &ndash; por ser o esconderijo da gente disposta a matar, por qualquer motivo, ou, at&eacute; mesmo, sem motivo algum &ndash;, n&atilde;o tem o menor respeito ao C&oacute;digo Penal nem &agrave; Pol&iacute;cia&rdquo; (Costa Mattos, 2007)<\/p>\n<p>Segundo Costa Mattos, essa reportagem demonstra a predisposi&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia em rela&ccedil;&atilde;o aos moradores de favelas. &ldquo;A percep&ccedil;&atilde;o social da viol&ecirc;ncia urbana nas favelas vem de muito tempo, assim como o estigma imposto aos seus habitantes&rdquo; (2007). Chalhoub (1996:22) define bem a impress&atilde;o que persistia no Brasil &agrave; &eacute;poca: &ldquo;os pobres carregam v&iacute;cios, os v&iacute;cios produzem os malfeitores, os malfeitores s&atilde;o perigosos &agrave; sociedade; juntando os extremos da cadeia, temos a no&ccedil;&atilde;o de que os pobres s&atilde;o, por defini&ccedil;&atilde;o, perigosos&rdquo;. <\/p>\n<p>Costa Mattos (2007) ainda observa que as representa&ccedil;&otilde;es negativas sobre as favelas s&atilde;o oriundas &ldquo;de uma campanha desenvolvida pela grande imprensa carioca &ndash; na &eacute;poca imersa nos ideais de progresso e civiliza&ccedil;&atilde;o &ndash;, com o intuito de normatizar a sociedade em quest&atilde;o&rdquo;. Segundo a l&oacute;gica da imprensa, as favelas inspiravam &ldquo;vis&otilde;es que iam da desordem &agrave; selvageria [e] n&atilde;o teria vez na cidade moderna e europ&eacute;ia projetada pelas classes dominantes&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>3. Estudo de caso<br \/><\/strong><br \/>Essa mesma predisposi&ccedil;&atilde;o por parte da imprensa se mant&eacute;m at&eacute; os dias de hoje. Para observar a persist&ecirc;ncia desta vis&atilde;o estereotipada sobre as favelas, analisaremos a cobertura da m&iacute;dia paulistana sobre os eventos ocorridos no dia 2 de fevereiro de 2009, em S&atilde;o Paulo, quando um grupo de pessoas entrou em confronto com a Pol&iacute;cia Militar dentro da favela de Parais&oacute;polis &ndash; a segunda maior de S&atilde;o Paulo, com 80 mil moradores distribu&iacute;dos em uma &aacute;rea de 0,8 km2. <\/p>\n<p>Ao cair da tarde, os manifestantes bloquearam uma avenida e algumas ruas que d&atilde;o acesso &agrave; favela com pneus em chamas, peda&ccedil;os de madeira e entulho. A Pol&iacute;cia foi at&eacute; o local para desbloquear as ruas e houve confrontos. Os enfrentamentos, que duraram algumas horas, terminaram com o desbloqueio das ruas e o an&uacute;ncio, por parte do governo do Estado de S&atilde;o Paulo (que controla a Pol&iacute;cia), da perman&ecirc;ncia de centenas de policiais na &aacute;rea por tempo indeterminado, patrulhando ostensivamente a &aacute;rea, em a&ccedil;&atilde;o incomum para o cotidiano paulistano.<\/p>\n<p>Os primeiros relatos escritos do evento come&ccedil;aram nas vers&otilde;es online dos principais ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o. Contando com poucos detalhes sobre a situa&ccedil;&atilde;o, a n&atilde;o ser a descri&ccedil;&atilde;o dos policiais que acudiam ao local, logo de in&iacute;cio, os sites destacaram desde o princ&iacute;pio: &ldquo;moradores da favela da Zona Sul incendiaram carros e impediram o tr&acirc;nsito na regi&atilde;o&rdquo; (Estadao.com.br, 2009a). As men&ccedil;&otilde;es aos &ldquo;moradores&rdquo; supostamente envolvidos e ao &ldquo;tr&acirc;nsito ruim&rdquo; puderam ser observadas em outros sites tamb&eacute;m e foram reproduzidas nas vers&otilde;es impressas do dia seguinte.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m no dia seguinte, as reportagens come&ccedil;aram a apresentar explica&ccedil;&otilde;es para a manifesta&ccedil;&atilde;o. Havia v&aacute;rias vers&otilde;es: &ldquo;[os manifestantes] est&atilde;o descontentes com a morte de um morador, dizem que era um rapaz de fam&iacute;lia&rdquo;, &ldquo;dois policiais [que se diziam &ldquo;donos da favela&rdquo;] (&#8230;) podem ser o alvo principal dos protestos&rdquo;, &ldquo;a manifesta&ccedil;&atilde;o [pode] estar relacionada &agrave; troca do comandante [do policiamento local]&rdquo; (O Estado de S. Paulo, 2009a), &ldquo;(&#8230;) [a manifesta&ccedil;&atilde;o foi] uma rea&ccedil;&atilde;o de moleques ligados ao crime, que acabou fugindo do controle&rdquo; (Jornal da Tarde, 2009a). <\/p>\n<p>Apesar das mais variadas vers&otilde;es, o motivo mais aceito para os eventos de 2 de fevereiro foi um, divulgado pela Pol&iacute;cia: o protesto teria sido encomendado pelo chefe do tr&aacute;fico local, em repres&aacute;lia &agrave; morte de outro traficante e &agrave; pris&atilde;o de seu cunhado (O Estado de S. Paulo, 2009a; Veja S&atilde;o Paulo, 2009; Folha de S. Paulo, 2009c). Assim, a Pol&iacute;cia acreditava ter motivos para afirmar que o protesto tinha sido &ldquo;premeditado&rdquo;. <\/p>\n<p>Em todos os relatos do dia seguinte, TV, jornais e sites divulgaram v&iacute;deos e fotografias expl&iacute;citas dos confrontos e descreveram em min&uacute;cia o armamento usado por ambos os lados em conflito. Reportagem da Folha de S. Paulo descrevia em detalhes as t&aacute;ticas da Pol&iacute;cia, al&eacute;m do n&uacute;mero de policiais, batalh&otilde;es, cavalos, e at&eacute; mesmo cachorros usados para avan&ccedil;ar dentro da favela sitiada. As reportagens iam fazendo uma contagem sucessiva de feridos, at&eacute; que o n&uacute;mero se estabilizou em quatro policiais baleados, mas divergiu em rela&ccedil;&atilde;o aos moradores feridos a tiros &ndash; algumas reportagens (Folha de S. Paulo, 2009a) citam apenas um, enquanto outras (Veja S&atilde;o Paulo, 2009; O Estado de S. Paulo, 2009b), citam dois. <\/p>\n<p>O principal foco de aten&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, foi direcionado &agrave; resposta da Pol&iacute;cia aos eventos. Sob o t&iacute;tulo &ldquo;Ap&oacute;s tumulto, PM inicia &lsquo;asfixia&rsquo; em favela&rdquo;, a Folha de S. Paulo, maior jornal do pa&iacute;s, repetiu as palavras do secret&aacute;rio da Seguran&ccedil;a P&uacute;blica de S&atilde;o Paulo, que prometia reprimir novas manifesta&ccedil;&otilde;es e prender os respons&aacute;veis. A opera&ccedil;&atilde;o desencadeada pela Pol&iacute;cia foi chamada de &ldquo;Satura&ccedil;&atilde;o&rdquo;, enquanto o protesto freq&uuml;entemente assumiu o car&aacute;ter de &ldquo;guerra urbana&rdquo; (Folha de S. Paulo, 2009f). Al&eacute;m disso, foi un&acirc;nime chamar a opera&ccedil;&atilde;o de &ldquo;ocupa&ccedil;&atilde;o da favela&rdquo;.<\/p>\n<p>Os manifestantes foram indiscriminadamente chamados de &ldquo;moradores&rdquo;, enquanto que algumas reportagens iam um pouco al&eacute;m, qualificando-os &ldquo;delinq&uuml;entes&rdquo; (Veja S&atilde;o Paulo, 2009). Os eventos do dia 2 de fevereiro viraram &ldquo;vandalismo&rdquo;, &ldquo;desrespeito &agrave; ordem p&uacute;blica&rdquo;, &ldquo;desordens&rdquo;, &ldquo;viol&ecirc;ncias&rdquo;, &ldquo;momentos de horror e medo&rdquo; (Veja S&atilde;o Paulo, 2009; Estadao.com.br, 2009a). Foi &ldquo;assustador&rdquo;, segundo um jornalista de Veja S&atilde;o Paulo. <\/p>\n<p>Contudo, os ve&iacute;culos procuram enriquecer a cobertura com mat&eacute;rias que tentavam explicar o que &eacute; Parais&oacute;polis e sua gente. Mencionaram que a favela &ldquo;est&aacute; em zona campe&atilde; de desemprego&rdquo; em S&atilde;o Paulo e ofereceram dados que indicam o baixo grau de escolaridade e a baixa renda m&eacute;dia mensal da popula&ccedil;&atilde;o da favela (Folha de S. Paulo, 2009d). Outros preferiram observar que l&aacute; h&aacute; &ldquo;botecos, muitos botecos&rdquo; (Veja S&atilde;o Paulo, 2009).<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, algumas reportagens se focaram nos vizinhos mais ricos da favela. &quot;Tirar a favela dali &eacute; imposs&iacute;vel. Eu at&eacute; gostaria, mas n&atilde;o &eacute; realista&quot;, disse uma delas, que classificou a manifesta&ccedil;&atilde;o de &ldquo;traumatizante&rdquo;. Outra vizinha se dizia favor&aacute;vel a bloquear as ruas dos bairros ricos para evitar a circula&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o-moradores. Citou-se tamb&eacute;m que an&uacute;ncios imobili&aacute;rios apagavam a favela digitalmente das fotos da regi&atilde;o (Folha de S. Paulo, 2009g).<\/p>\n<p>Ao longo da cobertura, as fontes de informa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o primeiramente os membros da Pol&iacute;cia ou da Secretaria de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica: coron&eacute;is, secret&aacute;rios, delegados. A maior parte das reportagens n&atilde;o logrou apresentar depoimentos dos moradores. Quando o faziam, ou recorriam ao presidente da associa&ccedil;&atilde;o de moradores ou apresentavam cita&ccedil;&otilde;es de an&ocirc;nimos que, segundo publicaram, preferiam n&atilde;o se identificar (Folha de S. Paulo, 2009d, 2009h; Estadao.com.br, 2009a).<\/p>\n<p>Entre o terceiro e o quarto dia ap&oacute;s os confrontos, surgiram algumas men&ccedil;&otilde;es ao fato de que a Pol&iacute;cia n&atilde;o conseguia progredir nas investiga&ccedil;&otilde;es para encontrar uma raz&atilde;o para o ocorrido, apesar das explica&ccedil;&otilde;es iniciais aparentemente certeiras: &ldquo;Pol&iacute;cia admite que est&aacute; na estaca zero&rdquo;, destacou o Jornal da Tarde, que atribuiu o fracasso &agrave; &ldquo;lei do sil&ecirc;ncio&rdquo; dos moradores, que se recusariam a denunciar os respons&aacute;veis (Jornal da Tarde, 2009b). <\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, as reportagens citaram que quatro policiais envolvidos na morte de um morador no dia anterior &agrave; manifesta&ccedil;&atilde;o seriam afastados pelo comando da Pol&iacute;cia. Mat&eacute;rias mencionaram o advogado de alguns moradores afirmando que os agentes eram &ldquo;uns assassinos&rdquo; (Jornal da Tarde, 2009b). Tamb&eacute;m citaram outras fontes an&ocirc;nimas para dizer que a popula&ccedil;&atilde;o reclamava da trucul&ecirc;ncia destes policiais (Folha de S. Paulo, 2009i; Folhaonline.com.br, 2009). Quase passou despercebido o &ldquo;boato&rdquo; sobre um desaparecido &ndash; um &ldquo;trabalhador honesto&rdquo; que teria testemunhado a morte de um morador no dia anterior, crime considerado estopim dos protestos (Folha de S. Paulo, 2009a).<\/p>\n<p>No s&aacute;bado, 7 de fevereiro, a cobertura terminou abruptamente, sem que os dois maiores jornais de S&atilde;o Paulo (Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo) apresentassem uma reportagem sequer sobre o tema. N&atilde;o houve men&ccedil;&atilde;o alguma &agrave; continuidade da presen&ccedil;a da Pol&iacute;cia em Parais&oacute;polis, ao dia-a-dia dos moradores ou ao fato de que corrup&ccedil;&atilde;o ou abuso de poder policial podiam estar por tr&aacute;s dos eventos do dia 2 de fevereiro.<\/p>\n<p><strong>4. An&aacute;lise cr&iacute;tica<br \/><\/strong><br \/>Ao observarmos detalhadamente o caso do protesto de Parais&oacute;polis, podemos apontar algumas linhas gerais na cobertura jornal&iacute;stica que n&atilde;o se restringem somente aos eventos do dia 2 de fevereiro de 2009. Pelo contr&aacute;rio: s&atilde;o quest&otilde;es que se baseiam num mesmo padr&atilde;o de enfoque das favelas e sua gente, padr&atilde;o este que, como apontado por Costa Mattos (2006), vem h&aacute; mais de um s&eacute;culo transmitindo, refor&ccedil;ando e perpetuando estere&oacute;tipos sobre os moradores das favelas como delinq&uuml;entes. <\/p>\n<p>&Eacute; um caso de viol&ecirc;ncia cultural, que acaba logrando a equipara&ccedil;&atilde;o das favelas a um territ&oacute;rio estranho dentro da unidade territorial brasileira, relegando seus moradores &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;os de segunda classe no Brasil.<\/p>\n<p>Entre os padr&otilde;es que se podem observar na cobertura aqui analisada e na postura geral da imprensa diante das favelas est&atilde;o os pontos a seguir:<\/p>\n<p><strong>Associa&ccedil;&atilde;o imediata dos moradores com manifestantes e com o tr&aacute;fico<br \/><\/strong><br \/>Desde o princ&iacute;pio os ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o titubeiam em destacar que &ldquo;moradores&rdquo; s&atilde;o os respons&aacute;veis pela manifesta&ccedil;&atilde;o &ndash; que, importante mencionar, tamb&eacute;m &eacute; qualificada por in&uacute;meros adjetivos que a identificam imediatamente como contraven&ccedil;&atilde;o. Mesmo que n&atilde;o tenha havido nenhuma pris&atilde;o ou depoimento de algu&eacute;m que assumisse a autoria do bloqueio &agrave;s ruas, a origem dos manifestantes &eacute; a favela, segundo a l&oacute;gica das reportagens. <\/p>\n<p>Mais grave ainda &eacute; a confusa busca por uma explica&ccedil;&atilde;o para o ocorrido, que aponta para todos os lados, mas acaba convergindo para uma vers&atilde;o oficial da Pol&iacute;cia Militar: a de que o protesto foi premeditado e ordenado por um dos l&iacute;deres do PCC (Primeiro Comando da Capital), organiza&ccedil;&atilde;o criminosa com forte presen&ccedil;a no tr&aacute;fico de drogas e roubo a bancos. <\/p>\n<p>Ao validar de imediato as fontes policiais &ndash; que depois acabaram se contradizendo, admitindo se encontrarem perdidas e investigando at&eacute; mesmo a corrup&ccedil;&atilde;o de seus pr&oacute;prios membros como poss&iacute;vel causa do protesto &ndash;, a m&iacute;dia criou uma nefasta conex&atilde;o manifestantes-moradores-traficantes, que seguiu sem questionamentos at&eacute; o fim. Esta &eacute; a mesma l&oacute;gica que habita o senso comum brasileiro, n&atilde;o s&oacute; no caso de Parais&oacute;polis, mas de modo geral no tratamento pela imprensa de assuntos ligados &agrave;s favelas desde o s&eacute;culo XIX (Costa Mattos, 2006). <\/p>\n<p>Note-se ainda que as explica&ccedil;&otilde;es que ligavam o protesto &agrave; resposta de &ldquo;bandidos liderados por um chef&atilde;o do crime organizado&rdquo; &agrave; morte de um morador j&aacute; invalidavam de antem&atilde;o a legitimidade da manifesta&ccedil;&atilde;o, porque tal pessoa n&atilde;o era nada mais que &ldquo;um ladr&atilde;o&rdquo; (Folha de S. Paulo, 2009a; O Estado de S. Paulo, 2009a; Veja S&atilde;o Paulo, 2009). <\/p>\n<p><strong>Aus&ecirc;ncia de voz para os moradores das favelas<br \/><\/strong><br \/>Uma marca das reportagens sobre os temas ligados &agrave;s favelas &eacute; a aus&ecirc;ncia completa ou a falta de legitimidade das declara&ccedil;&otilde;es dos moradores. Quando eles s&atilde;o citados, surgem como an&ocirc;nimos ou gente que s&oacute; fornece o primeiro nome por medo de repres&aacute;lias, dando declara&ccedil;&otilde;es desencontradas, sem relev&acirc;ncia ou vazias, que ocupam posi&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria nas mat&eacute;rias. Ainda pior &eacute; quando essas mesmas declara&ccedil;&otilde;es soltas s&atilde;o manipuladas na constru&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria para corroborar a explica&ccedil;&atilde;o oficial sobre os fatos, como se nota na Folha de S. Paulo (2009a). <\/p>\n<p>Todos os escal&otilde;es da Pol&iacute;cia e do governo t&ecirc;m espa&ccedil;o de destaque nas reportagens, dando declara&ccedil;&otilde;es que chegam a virar manchetes. O problema dessa postura, no entanto, &eacute; que ela deixa de fora as pessoas que vivem na pele o conflito (Lynch &amp; McGoldrick, 2007:255). E, como nota Lederach (1997:84, nossa tradu&ccedil;&atilde;o) &ldquo;(&hellip;) [estas] pessoas s&atilde;o negligenciadas e desempoderadas porque ou n&atilde;o representam o poder &lsquo;oficial&rsquo; (&hellip;), ou s&atilde;o descartadas por serem parciais ou emocionalmente afetadas demais pelo conflito&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>Desumaniza&ccedil;&atilde;o das favelas e seus moradores<br \/><\/strong><br \/>As hist&oacute;rias apresentadas pela imprensa paulistana giram em torno de poucos temas: a viol&ecirc;ncia dos confrontos do dia 2 de fevereiro e suas conex&otilde;es com o crime; a inconveni&ecirc;ncia dos confrontos para a &ldquo;ordem p&uacute;blica&rdquo; e para os vizinhos mais abastados; e a resposta das autoridades ao ocorrido. No entanto, o que raramente se observa &eacute; a percep&ccedil;&atilde;o de como os eventos em Parais&oacute;polis afetaram as vidas dos locais &ndash; ou seja, o aspecto humano da hist&oacute;ria. <\/p>\n<p>Enquanto descrevem-se em detalhe o armamento, os atos de viol&ecirc;ncia, as estrat&eacute;gias da Pol&iacute;cia e as complica&ccedil;&otilde;es do tr&acirc;nsito na regi&atilde;o, h&aacute; uma ou duas linhas para as dificuldades que os moradores de modo geral enfrentaram durante os confrontos. No dia dos eventos, um morador foi alvejado por esperar o filho sobre o telhado de sua casa. Milhares de pessoas ficaram sem transporte urbano, interrompido por ordem das empresas que temiam que seus ve&iacute;culos fossem depredados, e tiveram que voltar a p&eacute; para casa. Ao chegarem, foram impedidas pela Pol&iacute;cia de entrar na favela, enquanto sua fam&iacute;lia esperava, dentro de casa e sob fogo cruzado, que os confrontos terminassem. <\/p>\n<p>Nos dias seguintes, ouviu-se falar de casos de espancamento e de moradores sendo revistados at&eacute; seis vezes por dia, enquanto a Pol&iacute;cia buscava em v&atilde;o os respons&aacute;veis. Todas hist&oacute;rias de gente que viveu os conflitos na pele naqueles dias &ndash; e, possivelmente, em muitas outras vezes. <\/p>\n<p>Todas deixaram de ser ouvidas porque existe uma suposi&ccedil;&atilde;o t&aacute;cita de que a viol&ecirc;ncia &eacute; algo normal na vida das favelas, que por sua vez &eacute; um inc&ocirc;modo na vida &ldquo;normal&rdquo; da cidade. Contraditoriamente, no entanto, dedicaram-se mat&eacute;rias inteiras aos &ldquo;traumas&rdquo; dos vizinhos de classe alta, que assistiam os confrontos pela TV.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, ao n&atilde;o contemplar em nenhum momento a possibilidade de apresentar um contexto para os eventos presenciados em Parais&oacute;polis, a id&eacute;ia que a imprensa passa &eacute; de que atos de tamanha selvageria s&oacute; poderiam ser causados por &ldquo;gente b&aacute;rbara&rdquo; &ndash; e, portanto, inumanas. Lynch &amp; McGoldrick lembram, por&eacute;m, que estas &ldquo;s&atilde;o explica&ccedil;&otilde;es essencialistas para a viol&ecirc;ncia. Elas carregam uma sugest&atilde;o intr&iacute;nseca de que os perpetradores s&atilde;o &lsquo;assim mesmo&rsquo;, dando vaz&atilde;o a posturas e &oacute;dios que vem de dentro deles&rdquo; (2005:64, it&aacute;lico no texto original, nossa tradu&ccedil;&atilde;o).<\/p>\n<p><strong>Foco na viol&ecirc;ncia gratuita e justifica&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia<br \/><\/strong><br \/>Como de costume tamb&eacute;m, as reportagens capricharam nas descri&ccedil;&otilde;es detalhadas dos armamentos, das barricadas, dos palavr&otilde;es, dos confrontos, da maneira como as pessoas se feriram no protesto, da futura rea&ccedil;&atilde;o truculenta da Pol&iacute;cia, muitas vezes usando jarg&atilde;o policial &ndash; ou seja, todos os distintos aspectos da viol&ecirc;ncia. Insistiram em falar o n&uacute;mero de feridos e, depois que a contagem se estabilizou, em repetir a informa&ccedil;&atilde;o constantemente. Observa-se, no entanto, que a men&ccedil;&atilde;o aos moradores feridos sumiu das reportagens, enquanto que os policiais feridos viraram manchete (&ldquo;Moradores enfrentam pol&iacute;cia em favela; 3 PMs s&atilde;o baleados&rdquo; (Folha de S. Paulo, 2009a). <\/p>\n<p>Ali&aacute;s, sequer se chegou a um acordo sobre o n&uacute;mero de feridos (a Folha falou em 4 e O Estado e a Veja, em 6). Independentemente disso, por&eacute;m, eles viraram apenas uma cifra mencionada no rodap&eacute; da not&iacute;cia. N&atilde;o houve a preocupa&ccedil;&atilde;o de acompanhar os casos e as hist&oacute;rias pessoais por tr&aacute;s de cada ocorr&ecirc;ncia &ndash; humanizando assim a estat&iacute;stica.<\/p>\n<p>Como notam Lynch &amp; McGoldrick (2005, 2007), a postura de apenas se ouvir fontes oficiais legitima as sa&iacute;das militares, operacionais e com uso de for&ccedil;a como as &uacute;nicas poss&iacute;veis e aceit&aacute;veis para se lidar com estas situa&ccedil;&otilde;es, quando &eacute; sabido que isto &eacute; uma fal&aacute;cia. Medidas n&atilde;o-violentas n&atilde;o s&oacute; s&atilde;o poss&iacute;veis como vem sendo aplicadas com sucesso em muitas situa&ccedil;&otilde;es similares, como demonstra a atua&ccedil;&atilde;o de 54 ONGs na pr&oacute;pria favela de Parais&oacute;polis.<\/p>\n<p><strong>Dualismo<br \/><\/strong><br \/>A cobertura jornal&iacute;stica dos eventos em Parais&oacute;polis se baseou numa divis&atilde;o simples do mundo: favela versus &ldquo;cidade normal&rdquo;, pobres versus ricos, pol&iacute;cia versus bandido, ordem versus baderna. &Eacute; como se os eventos do dia 2 de fevereiro fossem um confronto de um &ldquo;ex&eacute;rcito da ordem&rdquo; contra um &ldquo;ex&eacute;rcito do crime&rdquo;.<\/p>\n<p>No entanto, no caso tratado neste ensaio, as partes envolvidas (como as pr&oacute;prias reportagens inadvertidamente deixam transparecer) v&atilde;o muito al&eacute;m dos manifestantes e das autoridades. Elas envolvem moradores, pequenos criminosos, o PCC (ou quem diz pertencer a esta organiza&ccedil;&atilde;o criminosa), trabalhadores, a associa&ccedil;&atilde;o de moradores, o governo municipal (respons&aacute;vel pela infraestrutura), o governo estadual (respons&aacute;vel pelo policiamento), ONGs, a classe m&eacute;dia que emprega moradores de Parais&oacute;polis, a classe m&eacute;dia que compra drogas na favela, a pol&iacute;cia que reprime, a pol&iacute;cia envolvida no tr&aacute;fico de drogas, etc. Esta &eacute; a complexidade do quadro quando tratamos de rela&ccedil;&otilde;es sociais t&atilde;o m&uacute;ltiplas. <\/p>\n<p>O problema com essa vis&atilde;o essencialista e simplificadora da viol&ecirc;ncia &eacute; que &ldquo;os conflitos s&atilde;o conceitualizados como dualistas, um jogo entre duas partes que termina empatado em zero. (&#8230;) Sendo a derrota impens&aacute;vel, cada parte tem um incentivo pronto para tentar ainda mais ganhar &ndash; ou seja, ampliar o conflito&rdquo; (Lynch &amp; McGoldrick, 2007:258, nossa tradu&ccedil;&atilde;o). Neste caso, n&atilde;o se pode esperar que aconte&ccedil;a nada mais que a pr&oacute;pria viol&ecirc;ncia.<br \/><strong><br \/>Voz &agrave; divis&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de invalidar e ignorar os depoimentos dos moradores da favela, a imprensa dedica mat&eacute;rias inteiras &agrave;s impress&otilde;es dos vizinhos ricos de Parais&oacute;polis.&nbsp; Eles se afetam com o que chamam de &ldquo;transtornos&rdquo; e se assustam com a &ldquo;baderna&rdquo;. <\/p>\n<p>As reportagens d&atilde;o espa&ccedil;o a quem fala abertamente em invisibilizar ou extirpar a favela. A realidade, por&eacute;m, &eacute; que as favelas est&atilde;o indiretamente dentro dos bairros tradicionais, em todos os condom&iacute;nios e zonas de classes m&eacute;dia e alta, representadas por seus moradores, que atendem em supermercados, bares e lojas, limpam as casas, recepcionam clientes, manobram carros, vigiam propriedades alheias, dirigem &ocirc;nibus, etc. <\/p>\n<p>Assim, as favelas j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o mais aquele &ldquo;bairro das classes perigosas&rdquo;, mas uma parte integrante da vida cotidiana daqueles que consomem a imprensa brasileira. Elas s&atilde;o personificadas diariamente por trabalhadores que movimentam o pa&iacute;s e realizam os trabalhos imprescind&iacute;veis que n&atilde;o exigem qualifica&ccedil;&atilde;o. As classes abastadas n&atilde;o t&ecirc;m a quem recorrer sen&atilde;o &agrave;s favelas, ou teriam elas mesmas que fazer tais servi&ccedil;os.<\/p>\n<p>No caso abordado neste ensaio, a imprensa interrompeu sua cobertura abruptamente sem ao menos fazer um balan&ccedil;o sobre os fatos apurados. No entanto, n&atilde;o teve problemas em apresentar uma hip&oacute;tese &ndash; a de que os protestos foram uma repres&aacute;lia do chefe do tr&aacute;fico local, devido &agrave; morte de outro bandido &ndash; que nem mesmo a pr&oacute;pria Pol&iacute;cia p&ocirc;de confirmar, deixando a impress&atilde;o de que realmente n&atilde;o importavam quais as motiva&ccedil;&otilde;es do epis&oacute;dio. <\/p>\n<p>A raz&atilde;o para isso provavelmente pode ser resumida neste trecho: &ldquo;O mais importante agora, por&eacute;m, para os moradores e vizinhos, &eacute; que a paz volte a Parais&oacute;polis&rdquo;, diz a reportagem (Veja S&atilde;o Paulo, 2009). Ou seja, que tudo volte &agrave; normalidade: os moradores da favela retomem sua condi&ccedil;&atilde;o de &ldquo;gar&ccedil;ons, bab&aacute;s, porteiros e empregadas dom&eacute;sticas&rdquo;, como mencionado no mesmo artigo, sofrendo as mis&eacute;rias da vida de um cidad&atilde;o de segunda categoria, enquanto que seus vizinhos ricos voltam seu papel de patr&otilde;es, desejando o fim do &ldquo;inc&ocirc;modo&rdquo;. &Eacute; a &ldquo;vida normal&rdquo; das favelas. A viol&ecirc;ncia &eacute; simplesmente dada como certa. E p&aacute;gina virada.<\/p>\n<p><strong>5.Conclus&atilde;o<br \/><\/strong><br \/>Os violentos confrontos ocorridos no dia 2 de fevereiro de 2009 na favela de Parais&oacute;polis, em S&atilde;o Paulo, s&atilde;o um pequeno recorte do cotidiano das favelas brasileiras. Da mesma maneira, a cobertura da m&iacute;dia paulistana tamb&eacute;m &eacute; um pequeno resumo da rela&ccedil;&atilde;o que a imprensa mant&eacute;m, h&aacute; mais de 100 anos, com as favelas e sua gente.<\/p>\n<p>O que se nota na an&aacute;lise dos enfoques e das contradi&ccedil;&otilde;es da cobertura apresentada neste ensaio &eacute; uma vis&atilde;o parcial dos fatos, que tende &agrave; generaliza&ccedil;&atilde;o grosseira de qualificar os moradores das favelas como bandidos em qualquer situa&ccedil;&atilde;o em que haja o rompimento da ordem. <\/p>\n<p>A distor&ccedil;&atilde;o da imagem das favelas se d&aacute; por meio das insinua&ccedil;&otilde;es da &ldquo;inevit&aacute;vel&rdquo; rela&ccedil;&atilde;o das favelas com o crime; da falta de apura&ccedil;&atilde;o correta dos fatos, explica&ccedil;&otilde;es e vers&otilde;es da hist&oacute;ria; da falta de aten&ccedil;&atilde;o com o ponto de vista e as hist&oacute;rias dos moradores; da linguagem simplista e dualista, que s&oacute; v&ecirc; viol&ecirc;ncia sem sentido nos eventos descritos, sem se preocupar em investigar suas causas contextuais; da aten&ccedil;&atilde;o excessiva &agrave; palavra das autoridades e dos cidad&atilde;os &ldquo;de bem&rdquo;.<\/p>\n<p>Parece que, na l&oacute;gica da imprensa, as favelas s&atilde;o coisificadas, transformadas em uma entidade herm&eacute;tica. Assim, n&atilde;o podemos distinguir entre seus milhares de moradores &ndash; sejam trabalhadores ou n&atilde;o, mulheres ou homens, idosos ou jovens. De acordo com este enfoque, as favelas reagem sempre da mesma maneira quando interagem com o &ldquo;mundo exterior&rdquo;: com viol&ecirc;ncia, brutalidade, barbarismo. Por fim, esta argumenta&ccedil;&atilde;o parece demonstrar que as favelas t&ecirc;m um car&aacute;ter trai&ccedil;oeiro, pois, segundo esta &ldquo;l&oacute;gica&rdquo;, elas receberiam aten&ccedil;&atilde;o por parte do Estado e das ONGs e trabalho por parte dos vizinhos ricos, mas retribuiriam com viol&ecirc;ncia e criminalidade.<\/p>\n<p>A abordagem da imprensa aos temas ligados &agrave;s favelas configura um perverso mecanismo institucionalizado de viol&ecirc;ncia cultural, que ajuda a criar uma esp&eacute;cie de &ldquo;casta inferior&rdquo; de cidad&atilde;os, ref&eacute;ns da fal&aacute;cia de que crime e pobreza s&atilde;o indissoci&aacute;veis. Com isso, delega-se aos moradores das favelas o estigma de serem p&aacute;rias, que, al&eacute;m das priva&ccedil;&otilde;es estruturais de educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de, emprego e bem-estar, s&atilde;o culturalmente transformados em criminosos pela m&iacute;dia de massa. <\/p>\n<p>Ao Brasil que busca se fortalecer economicamente e alcan&ccedil;ar uma posi&ccedil;&atilde;o de lideran&ccedil;a no mundo, resta ainda uma enorme d&iacute;vida social, acentuada, entre muitas outras raz&otilde;es, pelo trabalho de estereotipia exercido pela m&iacute;dia. Portanto, as mudan&ccedil;as nesta situa&ccedil;&atilde;o de conflito urbano generalizado, potencializada pela viol&ecirc;ncia estrutural, certamente passam pela transforma&ccedil;&atilde;o radical da imagem negativa das favelas, tal qual ela &eacute; gerada e mantida pela imprensa brasileira.<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/><strong>BIBLIOGRAFIA:<\/p>\n<p>LIVROS:<\/strong><\/p>\n<p>CHALHOUB, Sidney (1996). Cidade Febril: corti&ccedil;os e epidemias na corte imperial. Companhia das Letras, S&atilde;o Paulo, p. 22.<\/p>\n<p>COSTA MATTOS, Romulo (2006). A &ldquo;Aldeia do Mal&rdquo;: O Morro da Favela e a constru&ccedil;&atilde;o social das favelas durante a Primeira Rep&uacute;blica. N&atilde;o publicado.<\/p>\n<p>_______________________ (2007). &ldquo;Aldeias do mal&rdquo;, in Revista de Hist&oacute;ria da Biblioteca Nacional, Ano 3, N&uacute;mero 25, p. 28.<\/p>\n<p>GALTUNG, Johan (1996): Peace by peaceful means &ndash; Peace and conflict, development and civilization. Londres\/Thousand Oaks\/New Delhi, Sage Publications, pp. 2-8.<\/p>\n<p>HOUAISS, Ant&ocirc;nio &amp; VILLAR, Mauro de Salles (2001). Dicion&aacute;rio Houaiss da l&iacute;ngua portuguesa. Editora Objetiva, Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>LEDERACH, John Paul (1997). Building Peace &ndash; Sustainable Reconciliation in Divided Societies, United States Institute of Peace Press, Washington, p. 84. <\/p>\n<p>LYNCH, Jake &amp; MCGOLDRICK, Annabel (2005), Peace Journalism, Hawthorn Press, Stroud (Reino Unido).<\/p>\n<p>___________________________________ (2007), &ldquo;Peace Journalism&rdquo;, in Handbook of Peace and Conflict Studies, eds. Webel, C. &amp; Galtung, J., Routledge, Londres\/Nova York, pp. 248-263.<\/p>\n<p>PNUD (2005). Relat&oacute;rio de Desenvolvimento Humano do PNUD 2005: Racismo, pobreza e viol&ecirc;ncia. http:\/\/www.pnud.org.br\/rdh\/destaques\/index.php?lay=inst&amp;id=dtq#d2005b, acessado em 10-7-2009.<\/p>\n<p>UN-HABITAT (2006). The state of the world&#8217;s cities report 2006\/2007 : the millennium development goals and urban sustainability : 30 years of shaping the habitat agenda: Earthscan, Londres.<\/p>\n<p><strong><br \/>REPORTAGENS:<\/strong><\/p>\n<p>ASSOCIA&Ccedil;&Atilde;O NACIONAL DE JORNAIS (2007). &ldquo;Maiores jornais do Brasil&rdquo;, http:\/\/www.anj.org.br\/a-industria-jornalistica\/jornais-no-brasil\/maiores-jornais-do-brasil, acessado em 16-2-2009.<\/p>\n<p>ESTADAO.COM.BR (2009a). &ldquo;Moradores e PMs se confrontam na favela Parais&oacute;polis, em SP&rdquo;, http:\/\/www.estadao.com.br\/cidades\/not_cid317108,0.htm, acessado em 16-2-2009.<\/p>\n<p>_________________ (2009b). &ldquo;Parais&oacute;polis cresceu ignorada pelo poder p&uacute;blico&rdquo;, http:\/\/www.estadao.com.br\/cidades\/not_cid317767,0.htm, acessado em 16-2-2009.<\/p>\n<p>FOLHA DE S. PAULO (2009a). &ldquo;Moradores enfrentam pol&iacute;cia em favela; 3 PMs s&atilde;o baleados&rdquo;, http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/cotidian\/ff0302200901.htm, acessado em 18-2-2009.<\/p>\n<p>___________________ (2009b). &ldquo;Popula&ccedil;&atilde;o nas favelas dobra ap&oacute;s governo revisar c&aacute;lculo&rdquo;, http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/cotidiano\/ult95u311892.shtml, acessado em 18-2-2009.<\/p>\n<p>___________________ (2009c). &ldquo;Preso ordenou tumulto em Parais&oacute;polis, diz pol&iacute;cia&rdquo;, http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/cotidian\/ff0602200917.htm, acessado em 18-2-2009.<\/p>\n<p>___________________ (2009d). &ldquo;Favela est&aacute; em zona campe&atilde; de desemprego&rdquo;, http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/cotidian\/ff0302200902.htm, acessado em 18-2-2009.<\/p>\n<p>___________________ (2009e). &ldquo;Barricada tinha at&eacute; Kombi em chamas&rdquo;, http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/cotidian\/ff0302200908.htm, acessado em 18-2-2009.<\/p>\n<p>___________________ (2009f). &ldquo;Ap&oacute;s tumulto, PM inicia &lsquo;asfixia&rsquo; em favela&rdquo;, http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/cotidian\/ff0402200910.htm, acessado em 18-2-2009.<\/p>\n<p>___________________ (2009g). &ldquo;Rodeada por bairros ricos, Parais&oacute;polis mant&eacute;m rela&ccedil;&atilde;o d&uacute;bia com vizinhos&rdquo;, http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/cotidian\/ff0402200912.htm, acessado em 18-2-2009.<\/p>\n<p>___________________ (2009h). &ldquo;Ontem foi dia de boataria em Parais&oacute;polis&rdquo;, http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/cotidian\/ff0402200913.htm, acessado em 18-2-2009.<\/p>\n<p>___________________ (2009i). &ldquo;&lsquo;Protesto fugiu ao controle&rsquo;, dizem moradores&rdquo;,<br \/>http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/cotidian\/ff0502200910.htm, acessado em 18-2-2009.<\/p>\n<p>FOLHAONLINE.COM.BR (2009). &ldquo;Moradores de Parais&oacute;polis criticam a&ccedil;&atilde;o da PM; assista&rdquo;, http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/videocasts\/ult10038u499060.shtml, acessado em 18-2-2009.<\/p>\n<p>JORNAL DA TARDE (2009a). &ldquo;Pol&iacute;cia apura se ordem para conflito em favela veio da pris&atilde;o&rdquo;, http:\/\/www.estadao.com.br\/cidades\/not_cid317899,0.htm, acessado em 20-2-2009.<\/p>\n<p>__________________ (2009b). &ldquo;Investiga&ccedil;&atilde;o em Parais&oacute;polis n&atilde;o avan&ccedil;a&rdquo;, http:\/\/www.estadao.com.br\/cidades\/not_cid318623,0.htm, acessado em 18-2-2009.<\/p>\n<p>JORNAL DA UNIVERSIDADE (2002). &ldquo;Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o se abrem ao capital externo&rdquo;, http:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/outubro2002\/pag07.html, acessado em 18-2-2009.<\/p>\n<p>OBSERVAT&Oacute;RIO DA IMPRENSA (2003). &ldquo;Um Proer para a m&iacute;dia&rdquo;, http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos\/iq140520031.htm, acessado em 16-2-2009.<\/p>\n<p>O ESTADO DE S. PAULO (2009a). &ldquo;Vandalismo e confronto deixam favela de Parais&oacute;polis sitiada&rdquo;, http:\/\/www.estadao.com.br\/estadaodehoje\/20090203\/not_imp317328,0.php, acessado em 16-2-2009.<\/p>\n<p>VEJA S&Atilde;O PAULO (2009). &ldquo;Uma cidade chamada Parais&oacute;polis&rdquo;, http:\/\/vejasaopaulo.abril.com.br\/revista\/vejasp\/edicoes\/2099\/cidade-chamada-paraisopolis-420147.html, acessado em 19-2-2009.<\/p>\n<p>_______________________<\/p>\n<p><em>Martim S Silveira &eacute; um jornalista brasileiro. Atualmente &eacute; mestrando no programa de Estudos Internacionais em Paz, Conflitos e Desenvolvimento da C&aacute;tedra UNESCO de Filosofia para a Paz, na Espanha.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma Hist&oacute;ria de Estere&oacute;tipos1. Introdu&ccedil;&atilde;oA palavra &ldquo;favela&rdquo;, no Brasil, n&atilde;o &eacute; somente usada para indicar os bairros mais pobres dos centros urbanos do pa&iacute;s. Ela tem em si uma conota&ccedil;&atilde;o negativa, j&aacute; que serve tamb&eacute;m para descrever qualquer lugar &ldquo;de mau aspecto&rdquo; ou uma &ldquo;situa&ccedil;&atilde;o que se considera desagrad&aacute;vel ou desorganizada&rdquo;, conforme defini&ccedil;&atilde;o do Dicion&aacute;rio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[32],"tags":[],"class_list":["post-2856","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-commentary-archives"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2856","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2856"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2856\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2856"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2856"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2856"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}