{"id":28795,"date":"2013-05-20T12:00:40","date_gmt":"2013-05-20T11:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=28795"},"modified":"2015-05-06T12:53:04","modified_gmt":"2015-05-06T11:53:04","slug":"portugues-o-que-fazer-com-o-seu-dinheiro-o-discurso-de-autoajuda-em-manchetes-de-capa-de-jornais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/05\/portugues-o-que-fazer-com-o-seu-dinheiro-o-discurso-de-autoajuda-em-manchetes-de-capa-de-jornais\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Que Fazer com o Seu Dinheiro: O Discurso de Autoajuda em Manchetes de Capa de Jornais"},"content":{"rendered":"<p><i>Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado em Letras<\/i><\/p>\n<p><i>A autora \u00e9 jornalista e editora executiva do jornal Folha de Pernambuco [Brasil]. Tem como objeto de pesquisa manchetes jornal\u00edsticas. Possui gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo pela Universidade Cat\u00f3lica de Pernambuco e especializa\u00e7\u00e3o em Pr\u00e1ticas Discursivas pela Faculdade Frassinetti do Recife (Fafire). Atualmente participa do desenvolvimento do projeto de reforma gr\u00e1fica e editorial do jornal Folha de Pernambuco.<\/i><\/p>\n<p>Apresenta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Este trabalho tem o objetivo de investigar a presen\u00e7a do discurso de autoajuda nas manchetes de capa de jornais que tratam sobre finan\u00e7as pessoais. Vivemos em um mundo no qual o consumismo \u00e9 tema em v\u00e1rios tipos de m\u00eddia. E n\u00e3o s\u00f3 o consumismo material, mas tamb\u00e9m o imaterial. Ter uma vida financeira saud\u00e1vel ou ter uma vida mais longa e com sa\u00fade, ou ainda reter a vivacidade da juventude por mais tempo s\u00e3o assuntos que assistimos com regularidade serem veiculados na m\u00eddia.<\/p>\n<p>E essa divulga\u00e7\u00e3o se faz atrav\u00e9s de promessas, de dicas, de aconselhamentos do t\u00e3o comum \u201ccomo fazer\u201d. Por conta dessa percep\u00e7\u00e3o, decidimos, \u00e0 luz da An\u00e1lise Cr\u00edtica do Discurso, analisar os enunciados jornal\u00edsticos principais da capa, incluindo como complemento suas respectivas reportagens, que tratam sobre um desses assuntos: a orienta\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n<p>Pretendemos demonstrar as rela\u00e7\u00f5es interdiscursivas entre os enunciados sobre finan\u00e7as pessoais e as manchetes de capa de jornais. Identificamos nas manchetes marcas que d\u00e3o pistas de um discurso de orienta\u00e7\u00e3o ao leitor e de suposi\u00e7\u00e3o de que este precisa de aconselhamento. Para isso, comparamos os enunciados jornal\u00edsticos com enunciados de livros de autoajuda e, por fim, entendemos o direcionamento ideol\u00f3gico e discursivo que permeia essas manchetes. Partimos de tr\u00eas hip\u00f3teses que foram confirmadas:<\/p>\n<p><b>Hip\u00f3tese 1 &#8211;<\/b> As manchetes de capas de jornais referentes a finan\u00e7as pessoais colocam o leitor como respons\u00e1vel pelo seu sucesso ou fracasso financeiro e ao mesmo tempo tamb\u00e9m o constr\u00f3i como um dependente de orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Hip\u00f3tese 2 &#8211;<\/b> Nessas manchetes h\u00e1 a presen\u00e7a de um discurso de autoajuda, que diz ao leitor a forma como ele deve gerir o pr\u00f3prio dinheiro.<\/p>\n<p><b>Hip\u00f3tese 3 &#8211;<\/b> Essa orienta\u00e7\u00e3o ao leitor sobre a gest\u00e3o do dinheiro mostra-se linguisticamente atrav\u00e9s de enunciados positivos, mas subliminarmente carregam um teor impositivo.<\/p>\n<p>Foram examinadas as manchetes de capa dos tr\u00eas jornais de grande circula\u00e7\u00e3o em Pernambuco, no per\u00edodo entre janeiro de 2011 a janeiro de 2012. Identificamos um total de 23 manchetes voltadas para finan\u00e7as pessoais, que comp\u00f5em o nosso <i>corpus<\/i>, sendo 12 do Diario de Pernambuco, 5 do Jornal do Commercio e 6 da Folha de Pernambuco.<\/p>\n<p>A escolha do per\u00edodo de janeiro a janeiro deveu-se ao fato de que a m\u00eddia em geral possui, al\u00e9m das not\u00edcias do cotidiano, uma agenda de pautas fixas, como festas de fim de ano, carnaval, pagamento de impostos, d\u00e9cimo terceiro, restitui\u00e7\u00e3o de imposto de renda etc. Por conta disso, escolhemos um intervalo entre um m\u00eas de um ano e o mesmo m\u00eas do outro ano para, assim, englobarmos todos os eventos fixos e o notici\u00e1rio comum em um per\u00edodo noticioso sim\u00e9trico.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m escolhemos dois livros de autores brasileiros, escritos em l\u00edngua portuguesa, classificados como de autoajuda. As obras s\u00e3o: <i>O sucesso n\u00e3o ocorre por acaso<\/i> e <i>Casais inteligentes enriquecem juntos,<\/i> de Lair Ribeiro e Gustavo Cerbasi, respectivamente. Esses autores foram mencionados no cap\u00edtulo sobre o discurso de autoajuda<a title=\"\" href=\"#_edn1\">[i]<\/a>. Julgamos essas obras pertinentes para a compara\u00e7\u00e3o com os enunciados jornal\u00edsticos porque se tratam de autores representativos no universo da autoajuda, cujos textos configuram-se como um par\u00e2metro para o g\u00eanero.<\/p>\n<p><b>An\u00e1lise<\/b><\/p>\n<p><b>Primeira etapa: conselhos e orienta\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>Uma das principais caracter\u00edsticas das narrativas de autoajuda \u00e9 o aconselhamento, ou seja, o ato de dar ou pedir conselhos. Sobre esse aspecto, partilhamos do racioc\u00ednio de Fairclough (2001) sobre o fato de o aconselhamento ser um colonizador de muitas ordens institucionais de discurso. A nosso ver, a autoajuda e a m\u00eddia tamb\u00e9m s\u00e3o afetadas por essa coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A maneira de orientar e at\u00e9 de julgar o leitor &#8211; endividado ou n\u00e3o &#8211; remete a enunciados marcados por express\u00f5es como \u201cdicas para&#8230;\u201d, \u201ccomo + verbo no infinitivo\u201d, \u201cSaiba como&#8230;\u201d, entre outros tipos de modaliza\u00e7\u00e3o orientadora. Sobre o aconselhamento, consideramos o senso comum partilhado de que se trata do ato de aconselhar, que tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de manifesta\u00e7\u00e3o de poder por parte do agente da a\u00e7\u00e3o de aconselhamento.<\/p>\n<p>Examinando a defini\u00e7\u00e3o no Houaiss encontramos ainda a descri\u00e7\u00e3o de que o aconselhamento trata-se do ato ou efeito de pedir ou dar conselhos, orienta\u00e7\u00e3o e recomenda\u00e7\u00e3o<a title=\"\" href=\"#_edn2\">[ii]<\/a>. E o substantivo <i>conselho<\/i>, no mesmo dicion\u00e1rio, remete a \u201copini\u00e3o, ensino ou aviso ao que cabe fazer\u201d <a title=\"\" href=\"#_edn3\">[iii]<\/a>. Portanto, o aconselhamento pode ser tanto o ato de dar um conselho ou dar um aviso, depende do contexto em que o enunciado acontece.<\/p>\n<p>De uma forma geral, percebemos tanto nas manchetes quanto nos trechos dos livros de autoajuda ora\u00e7\u00f5es t\u00e1citas e assertivas, que tamb\u00e9m remetem a aconselhamento e orienta\u00e7\u00e3o. Vejamos essas amostras:<\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline;\">Manchetes de capa:<\/span><\/b><\/p>\n<p><b>Prepare o bolso<\/b><\/p>\n<p><i>(Diario de Pernambuco, 17.02.2011)<\/i><\/p>\n<p><b>Fam\u00edlia inteira deve planejar gastos da casa<\/b><\/p>\n<p><i>(Jornal do Commercio, 01.01.2012)<\/i><\/p>\n<p><b>Gastos. Use o cart\u00e3o sem d\u00edvidas<\/b><\/p>\n<p><i>(Folha de Pernambuco, 23.10.2011)<\/i><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline;\">Trechos de autoajuda:<\/span><\/b><\/p>\n<p><b>Melhore sua autoestima. Semelhante atrai semelhante<\/b><\/p>\n<p><i>(RIBEIRO, 1999, p. 65)<\/i><\/p>\n<p><b>Pensem da seguinte forma: se hoje voc\u00eas recebem de heran\u00e7a uma casa avaliada em R$ 100.000,00, qual \u00e9 a melhor escolha: vende-la ou alug\u00e1-la a terceiros?<\/b><\/p>\n<p><i>(CERBASI, 2004, p. 52)<\/i><b><\/b><\/p>\n<p>Os enunciados acima apresentam em comum a disponibiliza\u00e7\u00e3o de conselhos e orienta\u00e7\u00f5es para o alcance de uma vida melhor. Nas manchetes de capa, identificamos a presen\u00e7a de verbos no imperativo afirmativo: <i>\u2018prepare\u2019<\/i>, <i>\u2018deve\u2019<\/i>, <i>\u2018use\u2019<\/i>, tornando os enunciados assertivos e voltados para um direcionamento do destinat\u00e1rio. Essa assertividade \u00e9, como diz Fairclough (2001), uma forma de modaliza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma prefer\u00eancia no discurso da m\u00eddia por modaliza\u00e7\u00f5es categ\u00f3ricas, determinantes, afirmativas. No entanto, para n\u00e3o se tornarem impositivas, s\u00e3o atenuadas por promessas de sucesso.<\/p>\n<p>Na primeira manchete \u2013 <i>\u201cPrepare o bolso\u201d<\/i> -, a modaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 impositiva por conta do verbo no imperativo, mas sua for\u00e7a se transforma em conselho quando a segunda parte do enunciado remete a algo com o qual muita gente se preocupa: o bolso. Sendo assim, \u201co bolso\u201d funciona como uma esp\u00e9cie de atenuante do enunciado, conferindo ao mesmo uma promessa e um caminho para resolver ou evitar um problema financeiro.<\/p>\n<p>Na segunda manchete \u2013 <i>\u201cFam\u00edlia inteira deve planejar os gastos da casa\u201d<\/i> -, esse atenuante est\u00e1 no substantivo <i>\u2018fam\u00edlia\u2019<\/i>, que traz em si uma carga positiva de uni\u00e3o, de tranquilidade que precisa ser conquistada com todos ajudando, culminando na organiza\u00e7\u00e3o financeira. E esse controle \u00e9 o objetivo prometido pelo enunciado.<\/p>\n<p>Em <i>\u201cGastos. Use o cart\u00e3o sem d\u00edvidas\u201d<\/i> h\u00e1, no substantivo \u2018gastos\u2019, uma modaliza\u00e7\u00e3o de alerta, de cuidado quanto ao controle do consumo. A assertividade do enunciado demonstra que este \u00e9 direcionado a um destinat\u00e1rio que precisa de orienta\u00e7\u00e3o para n\u00e3o estourar o limite do cart\u00e3o mas, ao mesmo tempo, coloca-o como uma pessoa capaz de gerir o pr\u00f3prio dinheiro com alguns conhecimentos que a mat\u00e9ria se prop\u00f5e a transmitir.<\/p>\n<p>Nos trechos de autoajuda, tamb\u00e9m percebemos essa modaliza\u00e7\u00e3o categ\u00f3rica e assertiva sob o aspecto de um aconselhamento determinante para ser bem sucedido. Vejamos o trecho de Ribeiro (1999):<\/p>\n<p><b>Melhore sua autoestima. Semelhante atrai semelhante<\/b><\/p>\n<p><i>(RIBEIRO, 1999, p. 65)<\/i><\/p>\n<p>Esse conselho \u00e9 apresentado sob a condu\u00e7\u00e3o de um verbo no imperativo, cuja modaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m caracteriza a orienta\u00e7\u00e3o, o aconselhamento. Baseados em Koch (2007) podemos dizer que se trata de uma modaliza\u00e7\u00e3o facultativa\/obrigat\u00f3ria, j\u00e1 que o destinat\u00e1rio tem a op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o seguir os conselhos.<\/p>\n<p>Em <i>\u201cPensem da seguinte forma: se hoje voc\u00eas recebem de heran\u00e7a uma casa avaliada em R$ 100.000,00, qual \u00e9 a melhor escolha: vend\u00ea-la ou alug\u00e1-la a terceiros?\u201d<\/i> O verbo pensar no imperativo coloca o autor como um orientador que vai revelar o que deve ser feito numa situa\u00e7\u00e3o como esta. O modo imperativo do verbo tamb\u00e9m suscita ainda que o leitor pense no que fazer e considere o que o autor vai sugerir.<\/p>\n<p>Tanto nos trechos das manchetes quanto nos de autoajuda do <i>corpus<\/i> examinado identificamos uma modaliza\u00e7\u00e3o veladamente impositiva com o objetivo de orientar. H\u00e1 tamb\u00e9m, no contexto em que se apresentam, a constru\u00e7\u00e3o dominante de um destinat\u00e1rio que precisa de aconselhamento e possui certo descontrole nas finan\u00e7as pessoais ou n\u00e3o sabe gerenci\u00e1-las corretamente. E, por conta desse julgamento, os enunciados apresentam-se como salvadores, como indicadores de atitudes que devem ser tomadas em rela\u00e7\u00e3o ao dinheiro.<\/p>\n<p>Examinemos agora este outro enunciado:<\/p>\n<p><b>Mulheres no vermelho<\/b><\/p>\n<p><i>(Diario de Pernambuco, 03.01.2011)<\/i><\/p>\n<p>Podemos perceber, no enunciado acima, a presen\u00e7a do verbo \u2018estar\u2019 impl\u00edcita no enunciado, que \u00e9 visualizado no nosso exame como <i>\u201cMulheres (est\u00e3o) no vermelho\u201d.<\/i>\u00a0 O verbo <i>\u2018estar\u2019<\/i> na terceira pessoa singular do presente do afirmativo indica uma situa\u00e7\u00e3o de categoriza\u00e7\u00e3o t\u00e1cita e assertiva, julgando que as mulheres <b><i>est\u00e3o<\/i><\/b><i> <\/i>endividadas. Tamb\u00e9m constitui, portanto, o objeto da reportagem como um leitor endividado e que precisa de orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A nosso ver, essa constru\u00e7\u00e3o das mulheres como endividadas est\u00e1 ancorada no senso comum naturalizado de que pessoas do sexo feminino gastam demais. Recorrendo a Fairclough (1989), lembramos que uma ideia cristalizada \u00e9 uma forma de domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica porque possibilita a manuten\u00e7\u00e3o das desigualdades, mas esta domina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 pass\u00edvel de questionamento. O (pre) conceito de que as mulheres gostam de gastar enquadra-se nesse racioc\u00ednio.<\/p>\n<p>Sendo constru\u00eddas como endividadas, as mulheres tamb\u00e9m s\u00e3o categorizadas como indiv\u00edduos que n\u00e3o sabem gerir o dinheiro e necessitam de ajuda para tal, ideia que permeia os livros de autoajuda. Tanto nos enunciados de autoajuda quanto nas manchetes jornal\u00edsticas percebemos uma orienta\u00e7\u00e3o que julga e um julgamento que visa ajudar, colocando o leitor como respons\u00e1vel pelo seu sucesso ou fracasso, j\u00e1 que ele \u201cpode\u201d agir e, assim, contrair d\u00edvidas, solucion\u00e1-las ou evit\u00e1-las. Essa constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de que mulheres gastam demais tamb\u00e9m foi identificada no livro de Cerbasi (2004). Destacamos esse trecho:<\/p>\n<p><b><i>Estabelecer objetivos de longo prazo passa a ser um problema, porque quem n\u00e3o participa das finan\u00e7as n\u00e3o percebe as metas serem atingidas gradativamente. Ir\u00e1 notar apenas o sacrif\u00edcio no momento do desembolso, como ocorreu com Sandra:<\/i><\/b><\/p>\n<p><i>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Denis e Sandra conviviam havia meses com recursos restritos. A cada compra no supermercado, D\u00eanis pedia \u00e0 esposa que controlasse os gastos, pois o or\u00e7amento estava apertado. Dizia que a infla\u00e7\u00e3o estava engolindo o sal\u00e1rio. Tamanhas foram as restri\u00e7\u00f5es que Sandra ficou meses sem conseguir comprar uma pe\u00e7a de roupa. [&#8230;]. (CERBASI, 2004, p. 31)<\/i><\/p>\n<p>A mulher, no caso Sandra, \u00e9 constru\u00edda como algu\u00e9m que n\u00e3o sabe controlar o or\u00e7amento simplesmente porque n\u00e3o se interessa no assunto: <i>\u201cEstabelecer objetivos de longo prazo passa a ser um problema, porque quem n\u00e3o participa das finan\u00e7as n\u00e3o percebe as metas serem atingidas gradativamente. Ir\u00e1 notar apenas o sacrif\u00edcio no momento do desembolso, como ocorreu com Sandra:[&#8230;]\u201d<\/i>. Ou seja, Sandra \u00e9 tomada como um exemplo de quem n\u00e3o estabelece objetivos para alcan\u00e7ar metas financeiras.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Sandra tamb\u00e9m \u00e9 constitu\u00edda ideologicamente como integrante do grupo das mulheres que gastam demais: \u201c<i>A cada compra no supermercado, D\u00eanis pedia \u00e0 esposa que controlasse os gastos [&#8230;]\u201d<\/i>. E Sandra, ainda por cima, gasta com o que \u00e9 julgado pelo enunciador como frivolidades: \u201c<i>Tamanhas foram as restri\u00e7\u00f5es que Sandra ficou meses sem conseguir comprar uma pe\u00e7a de roupa.\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o de que roupa seria uma frivolidade ocorreu a partir da confronta\u00e7\u00e3o entre um termo anterior que as pessoas t\u00eam que comprar obrigatoriamente: os produtos de supermercado. Desse modo, fazer supermercado est\u00e1 se contrapondo a comprar roupas. E esta \u00e9 sup\u00e9rflua em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele, de acordo com a constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica dos enunciados apresentados.<\/p>\n<p><b>Segunda etapa: a intertextualidade<\/b><\/p>\n<p>A pr\u00e1tica discursiva focaliza os processos de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e consumo do texto atrav\u00e9s, respectivamente, da intertextualidade das cadeias intertextuais e da coer\u00eancia. Nesta etapa, vamos analisar o <i>corpus<\/i> sob a \u00f3tica da intertextualidade. Observamos, primeiramente, que h\u00e1 uma maneira regular notada nas amostras, sempre com afirma\u00e7\u00f5es de incentivo, visando, atrav\u00e9s da persuas\u00e3o, fazer com que haja uma ades\u00e3o do leitor ao que est\u00e1 proposto na reportagem.<\/p>\n<p>A intertextualidade \u00e9 a presen\u00e7a, expl\u00edcita ou impl\u00edcita, de elementos de outros textos em um texto. Adotamos, como exposto no cap\u00edtulo A An\u00e1lise Cr\u00edtica do Discurso (ACD), a intertextualidade para ambas as suas formas: manifesta e oculta. A intertextualidade pode ocorrer atrav\u00e9s da cita\u00e7\u00e3o de um texto em outro texto de forma expl\u00edcita, ou seja, com as mesmas palavras da fonte, e tamb\u00e9m de maneira indireta, que \u00e9 quando o autor do texto coloca com suas palavras o que a fonte disse.<\/p>\n<p>Esse tipo de intertextualidade \u00e9 muito comum no discurso jornal\u00edstico, onde encontramos uma infinidade de reportagens com cita\u00e7\u00e3o entre aspas, nas quais s\u00e3o utilizadas as palavras do entrevistado, e tamb\u00e9m cita\u00e7\u00f5es de forma indireta, que \u00e9 quando o jornalista elabora, com suas palavras, o pensamento do entrevistado. Ocorre, nesta forma espec\u00edfica de intertextualidade, a par\u00e1frase, recurso metadiscursivo que, como diz Fairclough (2001), confere ao produtor do texto uma posi\u00e7\u00e3o de controle sobre o que est\u00e1 sendo dito, alertando que essa posi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 ilus\u00f3ria, porque o produtor tamb\u00e9m est\u00e1 constitu\u00eddo pelo discurso ao qual adere.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m, dentro da intertextualidade, a manifesta\u00e7\u00e3o em um texto de textos de ordens discursivas diversas. No caso do discurso jornal\u00edstico, a ele est\u00e3o inter-relacionados outros, como reflete Charaudeau (2006), a exemplo dos discursos publicit\u00e1rio, did\u00e1tico e cient\u00edfico. Nossa proposta \u00e9 demonstrar que o discurso de autoajuda tamb\u00e9m se manifesta intertextualmente no discurso jornal\u00edstico.<\/p>\n<p>Para isso, vamos comparar uma manchete de capa de cada jornal, j\u00e1 exposta na primeira etapa &#8211; com trechos de suas respectivas reportagens -, a textos dos livros de autoajuda de Cerbasi (2004) e Ribeiro (1999).\u00a0 Identificaremos, nessa compara\u00e7\u00e3o, a interrela\u00e7\u00e3o dos discursos jornal\u00edstico e de autoajuda. Utilizaremos, para este fim, a intertextualidade, elemento central da pr\u00e1tica discursiva, e os paradigmas do discurso de autoajuda colocados por R\u00fcdiger (1996), que s\u00e3o os relatos m\u00edstico, asc\u00e9tico e ego\u00edsta. Entendemos a manifesta\u00e7\u00e3o desses paradigmas da autoajuda nos textos jornal\u00edsticos como uma forma de intertextualidade e por isso vamos esmiu\u00e7ar a an\u00e1lise dos textos nesta etapa do estudo.<\/p>\n<p><b>Aposentadoria. Prepare-se para o futuro<\/b><\/p>\n<p><i>(DP, 09.06.2011)<\/i><\/p>\n<p>Como todo t\u00edtulo jornal\u00edstico, esta manchete cria uma expectativa no leitor. A aposentadoria \u00e9 inevit\u00e1vel e, assim sendo, precisamos, conforme o enunciado, preparar-nos para quando chegar o momento de parar de trabalhar ou reduzir o ritmo cotidiano. Com esta manchete, o jornal coloca-se como a ponte entre o problema \u2013 a inseguran\u00e7a financeira na aposentadoria &#8211; e a solu\u00e7\u00e3o \u2013 um envelhecimento sem redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica de recursos.<\/p>\n<p>E posicionando-se dessa forma, adere ao relato ego\u00edsta, cuja meta \u00e9 ser essencial ao outro e influenci\u00e1-lo a ponto de que este outro \u2013 no caso o leitor \u2013 perceba-o como um ve\u00edculo que divulga n\u00e3o s\u00f3 conte\u00fados noticiosos, mas que se preocupa com temas que afetam as pessoas.<\/p>\n<p>Identificamos tamb\u00e9m a presen\u00e7a dos tr\u00eas paradigmas do discurso de autoajuda no suti\u00e3 da manchete de capa e em v\u00e1rios trechos da reportagem a qual a mesma refere-se:<\/p>\n<p><b>Suti\u00e3 da manchete de capa:<\/b><\/p>\n<p><i>Os brasileiros est\u00e3o despreparados financeiramente para a aposentadoria. \u00c9 o que revela um estudo realizado com 17 mil pessoas de 17 pa\u00edses, sendo 1.027 no pa\u00eds. O mais preocupante \u00e9 que 25% sequer sabem qual ser\u00e1 a sua principal fonte de renda e 10% presumem que o rendimento do trabalho vai sustenta-lo na velhice. O que fazer para mudar a cultura e o brasileiro alcan\u00e7ar a sua aposentadoria?<\/i><\/p>\n<p>Observemos que no trecho acima h\u00e1, logo no primeiro per\u00edodo, um julgamento: <i>\u201cOs brasileiros est\u00e3o despreparados financeiramente para a aposentadoria.\u201d<\/i> Esse julgamento atrav\u00e9s de uma afirma\u00e7\u00e3o fatalista e assertiva torna o enunciado importante, que merece aten\u00e7\u00e3o de quem o l\u00ea, o que nos remete ao relato ego\u00edsta, que objetiva a ades\u00e3o do outro ao seu discurso atrav\u00e9s da estima. Similar a este, encontramos o seguinte trecho em Cerbasi (2004):<\/p>\n<p><i>Mas, se manter um plano de independ\u00eancia financeira n\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o complexo, por que grande parte das pessoas falha ao tentar p\u00f4r em pr\u00e1tica essas regras?(p. 33)<\/i><\/p>\n<p>O texto coloca o indiv\u00edduo como uma pessoa que n\u00e3o consegue desenvolver um plano de independ\u00eancia financeira. No entanto, para fazer com que essa ideia n\u00e3o seja digerida dessa forma, o autor atenua a ora\u00e7\u00e3o trazendo um elemento positivo logo na primeira parte \u2013 <i>\u201cmanter um plano de independ\u00eancia financeira n\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o complexo\u201d<\/i> \u2013 antecedido pela conjun\u00e7\u00e3o <i>\u201cmas\u201d<\/i>, que cria a expectativa de que vem a seguir uma resposta a este questionamento, mas de car\u00e1ter ocultamente negativo: <i>\u201cpor que grande parte das pessoas falha ao tentar p\u00f4r em pr\u00e1tica essas regras?\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>O verbo <i>\u201cfalhar\u201d<\/i>, no presente do afirmativo, confere assertividade ao enunciado, determinando que as pessoas, na sua maioria, n\u00e3o acertam ao planejar um futuro mais tranquilo financeiramente, no entanto, se continuarem a leitura do livro, provavelmente v\u00e3o saber o motivo dos seus erros e poder consert\u00e1-los. \u00c9 o que promete a obra. Isso traduz a preocupa\u00e7\u00e3o do enunciador em ser estimado pelo seu leitor, o que nos permite relacionar o texto ao relato ego\u00edsta.<\/p>\n<p>No texto da reportagem, identificamos em v\u00e1rios momentos a presen\u00e7a dos paradigmas da autoajuda e tamb\u00e9m algumas constru\u00e7\u00f5es oracionais que se assemelham a par\u00e1frases de textos em Cerbasi (2004). Na reportagem, a ora\u00e7\u00e3o <i>\u201cO que fazer para mudar a cultura e o brasileiro planejar a sua aposentadoria?<\/i>\u201d guarda uma rela\u00e7\u00e3o de par\u00e1frase com Cerbasi (2004, p. 33) em <i>\u201cpor que grande parte das pessoas falha ao tentar p\u00f4r em pr\u00e1tica essas regras?\u201d<\/i>. As duas ora\u00e7\u00f5es trazem uma promessa de resposta, de revela\u00e7\u00e3o sobre algo que se tenha de fazer para conseguir ter tranquilidade financeira.<\/p>\n<p>A partir do intert\u00edtulo<a title=\"\" href=\"#_edn4\">[iv]<\/a> da reportagem, identificamos tamb\u00e9m relatos m\u00edstico e asc\u00e9tico, cujos enunciados tamb\u00e9m mant\u00eam uma esp\u00e9cie de par\u00e1frase com textos de Cerbasi (2004). Vejamos:<\/p>\n<p><b>Trecho da reportagem da manchete:<\/b><\/p>\n<p><i>Por isso \u00e9 importante estabelecer objetivos de curto, m\u00e9dio prazo e longo prazo, compreender a atual situa\u00e7\u00e3o financeira e <b>ter um plano financeiro para<\/b> <b>atingir as suas metas<\/b><\/i>.<\/p>\n<p><b>Trecho em Cerbasi (2004):<\/b><\/p>\n<p><i>Voc\u00eas podem, hoje, <b>escolher pelo menos n\u00e3o ter dificuldades financeiras<\/b>, que muitas vezes desencadeiam ouros tipos de problema.<\/i> (p. 69)<\/p>\n<p>O relato asc\u00e9tico, aquele cuja narrativa pressup\u00f5e que o indiv\u00edduo precisa pensar e agir positivamente para obter o sucesso, est\u00e1 presente tanto na reportagem quanto no texto de Cerbasi (2004). Neste, \u201cescolher pelo menos n\u00e3o ter dificuldades financeiras\u201d implica em um esfor\u00e7o pr\u00f3prio, o que tamb\u00e9m ocorre em \u201c[&#8230;] ter um plano financeiro para atingir as suas metas\u201d, no texto da reportagem.<\/p>\n<p>De acordo com o relato m\u00edstico, podemos dizer que o indiv\u00edduo \u00e9 a origem dos seus problemas e tamb\u00e9m das solu\u00e7\u00f5es tanto para \u201c<i>atingir as suas metas\u201d <\/i>para a aposentadoria (segundo a reportagem) quanto<i> \u201cpara escolher n\u00e3o ter dificuldades financeiras\u201d<\/i> (CERBASI, 2004).<\/p>\n<p><b>Como comprar sua casa em tempos de pre\u00e7o alto<\/b><\/p>\n<p><i>(JC, 06.02.2011)<\/i><\/p>\n<p>A manchete da capa adere ao relato ego\u00edsta da autoajuda porque \u00e9 colocada como um manual de instru\u00e7\u00f5es, uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o para quem ainda n\u00e3o tem um teto pr\u00f3prio. A composi\u00e7\u00e3o <i>como + verbo no infinitivo <\/i>\u00e9 uma estrutura que possibilita o car\u00e1ter instrucional do enunciado, muito comum nos textos de autoajuda, como nos dois exemplos abaixo, o que faz com que seja uma rela\u00e7\u00e3o intertextual entre o discurso jornal\u00edstico e o de autoajuda.<\/p>\n<p><b>Como lidar com a mesada<\/b><\/p>\n<p>(CERBASI, 2004, p 96)<\/p>\n<p><b>Como resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de gastar<\/b><\/p>\n<p>(CERBASI, 2004, p. 132)<\/p>\n<p>Na estrutura sint\u00e1tica do texto da reportagem, tamb\u00e9m observamos uma similaridade com textos de autoajuda atrav\u00e9s da coloca\u00e7\u00e3o de argumentos via ora\u00e7\u00f5es subordinadas adverbiais condicionais, destacadas em negrito. Essas ora\u00e7\u00f5es, que indicam uma condi\u00e7\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 proposto na ora\u00e7\u00e3o principal, expressam a polaridade de conte\u00fados positivos e negativos, assim como ocorre nos textos de autoajuda. Vejamos:<\/p>\n<p><b>Trecho de reportagem da manchete<\/b><\/p>\n<p><b><i>Se voc\u00ea encontrou um im\u00f3vel que lhe agrade e tem condi\u00e7\u00f5es de fazer um bom neg\u00f3cio hoje<\/i><\/b><i>, fa\u00e7a. <b>Se preferir juntar dinheiro para esperar os pre\u00e7os baixarem<\/b>, vai fazer um p\u00e9ssimo neg\u00f3cio, segundo construtoras e imobili\u00e1rias. <\/i><\/p>\n<p><b>(JC, 06.02.2011)<\/b><\/p>\n<p>Em <i>\u201cSe voc\u00ea encontrou um im\u00f3vel que lhe agrade e tem condi\u00e7\u00f5es de fazer um bom neg\u00f3cio hoje, fa\u00e7a\u201d<\/i> temos como ora\u00e7\u00e3o principal de conte\u00fado positivo o sintagma \u201cfa\u00e7a\u201d, remetendo \u00e0 a\u00e7\u00e3o de compra do im\u00f3vel. E a ora\u00e7\u00e3o <i>\u201cSe voc\u00ea encontrou um im\u00f3vel que lhe agrade e tem condi\u00e7\u00f5es de fazer um bom neg\u00f3cio hoje\u201d<\/i>, introduzida pela conjun\u00e7\u00e3o \u2018se\u2019, \u00e9 adverbial condicional e carrega tamb\u00e9m um conte\u00fado positivo: encontra um im\u00f3vel compat\u00edvel com as condi\u00e7\u00f5es financeiras.<\/p>\n<p>J\u00e1 as ora\u00e7\u00f5es subsequentes completam o efeito de sentido do texto, que \u00e9 de alertar para a execu\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o \u2013 no caso a compra do im\u00f3vel -, apontando para o risco de a orienta\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser seguida. Em \u201c<i>Se preferir juntar dinheiro para esperar os pre\u00e7os baixarem, vai fazer um p\u00e9ssimo neg\u00f3cio, segundo construtoras e imobili\u00e1rias\u201d<\/i> temos como ora\u00e7\u00e3o subordinada adverbial condicional um termo que aparentemente seria positivo &#8211; \u201c<i>Se preferir juntar dinheiro [&#8230;]\u201d, <\/i>mas no qual logo aparece o seu sentido negativo com o que est\u00e1 expresso de forma assertiva na ora\u00e7\u00e3o principal: \u201c[&#8230;] <i>vai fazer um p\u00e9ssimo neg\u00f3cio.\u201d<\/i><\/p>\n<p>Ao compararmos a reportagem com trechos de autoajuda, fica evidente a similaridade lingu\u00edstica e discursiva entre ambos atrav\u00e9s tamb\u00e9m desses tipos de ora\u00e7\u00f5es. Vejamos alguns exemplos em Ribeiro (1999):<\/p>\n<p><b><i>Se voc\u00ea n\u00e3o tiver outras metas na vida al\u00e9m do dinheiro<\/i><\/b><i>, acaba escravizado pela obsess\u00e3o de ganh\u00e1-lo. (p.107)<\/i><\/p>\n<p><b><i>Se voc\u00ea mudar<\/i><\/b><i>, o mundo muda com voc\u00ea. (p. 55)<\/i><\/p>\n<p>Em ambos os excertos em Ribeiro (1999), tamb\u00e9m constatamos a presen\u00e7a de ora\u00e7\u00f5es subordinadas adverbiais condicionais, destacadas em negrito. Assim como no trecho selecionado da reportagem, essas ora\u00e7\u00f5es visam alertar o indiv\u00edduo e orient\u00e1-lo no sentido de incentiv\u00e1-lo a realizar algo do qual obtenha sucesso.\u00a0 Sempre mostrando o lado positivo \u2013 como ter outras metas de vida ou mudar interiormente, conforme sugerido respectivamente nos dois excertos \u2013 e o aspecto negativo: tornar-se escravo do dinheiro \u2013 no primeiro eunciado &#8211; e estagnar por falta de mudan\u00e7a \u2013 sentido oculto do segundo enunciado.<\/p>\n<p>Outra similaridade com o discurso de autoajuda \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o de exemplos de sucesso, como forma de levar o indiv\u00edduo a pensar que se algu\u00e9m &#8211; que estaria em igual ou pior situa\u00e7\u00e3o do que ele &#8211; conseguiu algo, ele tamb\u00e9m conseguir\u00e1.<\/p>\n<p>Ou tamb\u00e9m que se algu\u00e9m era desacreditado e venceu, tamb\u00e9m poder\u00e1 vencer. Essa estrat\u00e9gia narrativa faz parte da caracter\u00edstica de incentivo presente no discurso de autoajuda, que no material jornal\u00edstico aparece como exemplos de pessoas que enfrentaram dificuldades, mas, geralmente, as hist\u00f3rias t\u00eam finais felizes. Vejamos esses dois trechos selecionados na reportagem, em Ribeiro (1999) e em Cerbasi (2004) para a compara\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><b>Trecho da reportagem:<\/b><\/p>\n<p><b><i>O funcion\u00e1rio p\u00fablico Jorge Chaves quer comprar um novo apartamento<\/i><\/b><i>, <span style=\"text-decoration: underline;\">mas n\u00e3o consegue encontrar uma oferta que caiba no bolso.<\/span> [&#8230;] A renda de Jorge Chaves e de sua esposa, J\u00falia Vilela, que tamb\u00e9m \u00e9 funcion\u00e1ria p\u00fablica, aumentou nos \u00faltimos dois anos. Mas n\u00e3o o bastante que garantisse um poder de comprar compat\u00edvel. <b><span style=\"text-decoration: underline;\">O casal juntou dinheiro para dar uma entrada maior<\/span><\/b><span style=\"text-decoration: underline;\">, <\/span><span style=\"text-decoration: underline;\">mas ter\u00e1 que fazer um financiamento banc\u00e1rio. <\/span><b><span style=\"text-decoration: underline;\">Hoje eles j\u00e1 moram em um im\u00f3vel pr\u00f3prio na Rua dos Navegantes.<\/span><\/b><\/i><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">(<\/span>Como comprar sua casa em tempos de pre\u00e7o alto. Jornal do Commercio, 06.02.2011)<\/p>\n<p><b>Trecho em Ribeiro (1999):<\/b><\/p>\n<p><b><i>Thomas Edison, inventor da l\u00e2mpada incandescente e da vitrola, entre outras coisas, estudou durante tr\u00eas meses<\/i><\/b><i> e <span style=\"text-decoration: underline;\">sua professora mandou-o embora, dizendo que ele era oligofr\u00eanico, que n\u00e3o tinha intelig\u00eancia para os estudos. Ele parou de estudar.<\/span> <b><span style=\"text-decoration: underline;\">Mas hoje quase tudo o que n\u00f3s fazemos depende direta ou indiretamente da descoberta de Thomas Edison.<\/span><\/b> (p. 23)<\/i><\/p>\n<p>Trecho em Cerbasi (2004):<\/p>\n<p><i>O estabelecimento de compromissos por escrito ajuda a evitar as compras por impulso. <b>A partir de seu casamento, M\u00e1rcia e M\u00edlton come\u00e7aram a poupar cerca de 25% de sua renda com o objetivo de conquistar a independ\u00eancia financeira<\/b>. [&#8230;] <span style=\"text-decoration: underline;\">Em duas oportunidades eles quase ca\u00edram na tenta\u00e7\u00e3o de desistir de seu objetivo. Eles n\u00e3o conseguiriam poupar 25% da renda, mas apenas 16%<\/span> [&#8230;] Refazendo os c\u00e1lculos, o casal notou que precisaria ser um pouco mais seletivo em seus investimentos, pois seria necess\u00e1rio obter rendimentos m\u00e9dios de 0,7% ao m\u00eas l\u00edquidos para alcan\u00e7ar o objetivo. [&#8230;]<b> <span style=\"text-decoration: underline;\">Aplicaram t\u00e3o bem seu conhecimento que recentemente, ao completar 42 anos, M\u00edlton fazia coment\u00e1rios sobre o bem-estar de terem acumulado R$ 750.000,00.<\/span><\/b><\/i><\/p>\n<p>Em todos os trechos em negrito, h\u00e1 a sinaliza\u00e7\u00e3o de que vai ser contada uma hist\u00f3ria de sucesso para asseverar o que vem sendo dito anteriormente. Na reportagem, h\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o em mostrar casos de pessoas comuns que passaram por problemas financeiros. Em Ribeiro (1999), Thomas Edison, uma figura hist\u00f3rica da ci\u00eancia, \u00e9 referenciado no est\u00e1gio em que ainda era uma pessoa considerada \u2018comum\u2019, ou seja, um garoto, que ainda frequentava a escola. E em Cerbasi (2004) \u00e9 citado um exemplo de um casal que se assemelha bastante ao casal trazido na reportagem: que tinham dificuldades, mas ascenderam financeiramente.<\/p>\n<p>Nos trechos com sublinhado simples \u00e9 colocado o lado negativo, as dificuldades que os indiv\u00edduos passaram, como forma de mostrar que todos enfrentam problemas na vida. Na reportagem, \u00e9 mostrado que o casal encontrou dificuldades em achar um im\u00f3vel pelo qual tivesse condi\u00e7\u00f5es de pagar. Dificuldade tamb\u00e9m teve o casal exemplificado em Cerbasi (2004), que n\u00e3o conseguia poupar o necess\u00e1rio para alcan\u00e7ar o objetivo que tinham em comum: a independ\u00eancia financeira. E Thomas Edison, referenciado por Ribeiro (1999), enfrentou o r\u00f3tulo de oligofr\u00eanico, uma defici\u00eancia que atinge o comportamento intelectual.<\/p>\n<p>Nos trechos em sublinhado tracejado aparece o sucesso que as pessoas alcan\u00e7aram ao transpor seus limites e dificuldades. O casal da reportagem conseguiu o im\u00f3vel pr\u00f3prio; Thomas Edison consagrou-se inventor da l\u00e2mpada, do fon\u00f3grafo, do projetor de cinema, al\u00e9m de ter aperfei\u00e7oado o telefone<a title=\"\" href=\"#_edn5\">[v]<\/a>; e M\u00e1rcia e M\u00edlton, conforme Cerbasi (2004) conclui, acumulou uma grande reserva financeira. Todos tiveram um final feliz e suas hist\u00f3rias foram transformadas em exemplos e promessas de sucesso.<\/p>\n<p>A partir das identifica\u00e7\u00f5es feitas, propomos uma tipologia do discurso de autoajuda. Essa tipologia tamb\u00e9m pode ser aplicada nos enunciados jornal\u00edsticos sobre finan\u00e7as pessoais:<\/p>\n<p><b>A\u00c7\u00c3O DISCURSIVA 1:<\/b> exemplo de dificuldade<\/p>\n<p><b>A\u00c7\u00c3O DISCURSIVA 2:<\/b> orienta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><b>A\u00c7\u00c3O DISCURSIVA 3:<\/b> for\u00e7a de vontade<\/p>\n<p><b>A\u00c7\u00c3O RESULTANTE: <\/b>supera\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>No caso da reportagem anunciada pela manchete, a supera\u00e7\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ada a partir da ades\u00e3o do indiv\u00edduo \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es que s\u00e3o dadas ao longo do texto. O exemplo abaixo \u00e9 o lead, par\u00e1grafo de abertura da reportagem. Nele, identificamos uma promessa de sucesso e uma ades\u00e3o do jornalista ao discurso do especialista e tamb\u00e9m ao do leitor em potencial. Vejamos:<\/p>\n<p><i>\u00c0 primeira vista, parece imposs\u00edvel. <span style=\"text-decoration: underline;\">Quem est\u00e1 juntando dinheiro para comprar o primeiro im\u00f3vel ou trocar o que j\u00e1 tem por um maior acha dif\u00edcil de acreditar.<\/span> <b><span style=\"text-decoration: underline;\">Mas, segundo construtoras e imobili\u00e1rias, \u00e9 bom preparar o bolso, pois os apartamentos no Grande Recife, sobretudo na capital, ainda v\u00e3o ficar mais caros<\/span>. Em 2010, a valoriza\u00e7\u00e3o j\u00e1 atingiu percentuais que em m\u00e9dia ficaram em torno de 35%. <\/b>\u00c9 claro que em casos especiais, o aumento foi bem maior. Para 2011, a proje\u00e7\u00e3o m\u00ednima de aumento \u00e9 de 10%. Mas alguns im\u00f3veis que j\u00e1 est\u00e3o caros podem aumentar bem mais. <span style=\"text-decoration: underline;\">A not\u00edcia \u00e9 encarada com um certo ceticismo. A primeira pergunta que vem \u00e0 mente do consumidor comum \u00e9: onde as construtoras v\u00e3o arranjar tanta gente com dinheiro para comprar tanto apartamento? <\/span>Mas, infelizmente, todos os astros se alinharam para garantir a carestia imobili\u00e1ria. <b>Ent\u00e3o, se voc\u00ea encontrou um im\u00f3vel que lhe agrade e tem condi\u00e7\u00f5es de fazer um bom neg\u00f3cio hoje,<span style=\"text-decoration: underline;\"> fa\u00e7a.<\/span><\/b> <b><span style=\"text-decoration: underline;\">Se preferir juntar dinheiro para esperar os pre\u00e7os baixarem, vai fazer um p\u00e9ssimo neg\u00f3cio, segundo construtoras e imobili\u00e1rias. <\/span><\/b><\/i><\/p>\n<p><b>(Como comprar sua casa em tempos de pre\u00e7o alto. <\/b>Jornal do Commercio, 06.02.2011)<\/p>\n<p>Nos excertos destacados em sublinhado simples, h\u00e1 a ades\u00e3o do jornalista ao discurso do leitor:<\/p>\n<p><i><span style=\"text-decoration: underline;\">Quem est\u00e1 juntando dinheiro para comprar o primeiro im\u00f3vel ou trocar o que j\u00e1 tem por um maior acha dif\u00edcil de acreditar.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"text-decoration: underline;\">A not\u00edcia \u00e9 encarada com um certo ceticismo. A primeira pergunta que vem \u00e0 mente do consumidor comum \u00e9: onde as construtoras v\u00e3o arranjar tanta gente com dinheiro para comprar tanto apartamento?<\/span><\/i><\/p>\n<p>Essa ades\u00e3o traz o leitor para a reportagem, com o objetivo de se tornar essencial a ele, o que alinha-se ao relato ego\u00edsta da autoajuda. Nos trechos destacados em sublinhado tracejado, o jornalista credita suas afirma\u00e7\u00f5es \u00e0s fontes e faz isso duas vezes no lead, no in\u00edcio e no final do par\u00e1grafo, cujas express\u00f5es est\u00e3o sublinhadas:<\/p>\n<p><b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">Mas, segundo construtoras e imobili\u00e1rias, \u00e9 bom preparar o bolso, pois os apartamentos no Grande Recife, sobretudo na capital, ainda v\u00e3o ficar mais caros.<\/span><\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">Se preferir juntar dinheiro para esperar os pre\u00e7os baixarem, vai fazer um p\u00e9ssimo neg\u00f3cio, segundo construtoras e imobili\u00e1rias.<\/span><\/i><\/b><\/p>\n<p>Ao citar indiretamente o que disseram representantes de construtoras e imobili\u00e1rias, o jornalista adere e concorda com o discurso deles e os utiliza para construir o seu, alertando e orientando quanto \u00e0 compra do im\u00f3vel. Em outra parte do lead, como em v\u00e1rios momentos do texto, constatamos uma ades\u00e3o t\u00e3o marcante, que o discurso do jornalista chega a se misturar com o discurso das fontes, como se fossem originados de apenas uma pessoa:<\/p>\n<p><b><i>Em 2010, a valoriza\u00e7\u00e3o j\u00e1 atingiu percentuais que em m\u00e9dia ficaram em torno de 35%.<\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i>Ent\u00e3o, se voc\u00ea encontrou um im\u00f3vel que lhe agrade e tem condi\u00e7\u00f5es de fazer um bom neg\u00f3cio hoje, fa\u00e7a.<\/i><\/b><\/p>\n<p>Essas informa\u00e7\u00f5es acima n\u00e3o poderiam ser dadas a partir das ideias do pr\u00f3prio jornalista. Precisaria de algu\u00e9m com autoridade no assunto, um especialista, para que o rep\u00f3rter pudesse apropriar-se dela e construir o seu texto. Tanto essa ades\u00e3o, quanto a utiliza\u00e7\u00e3o de exemplos positivos e a presen\u00e7a de ora\u00e7\u00f5es subordinadas adverbiais, observadas nesta e em outras amostras examinadas no momento da pesquisa s\u00e3o formas de intertextualidade com o discurso de autoajuda.<\/p>\n<p>No caso da ades\u00e3o especificamente, o jornalista, ao concordar e referendar as palavras do especialista, assume tamb\u00e9m indiretamente o car\u00e1ter de julgamento do indiv\u00edduo e da constru\u00e7\u00e3o do mesmo como algu\u00e9m que precisa de orienta\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 caracter\u00edstico de um discurso que foca o aconselhamento.<\/p>\n<p><b>Gastos. Use o cart\u00e3o sem d\u00edvidas<\/b><\/p>\n<p><i>\u00a0(Folha de Pernambuco, 23.10.2011)<\/i><\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b>A manchete n\u00e3o traz um suti\u00e3, mas no texto-legenda da foto verificamos esse foco em mostrar uma pessoa vencedora. A personagem da foto \u00e9 um exemplo de sucesso e, assim como ocorre nos livros de autoajuda, a hist\u00f3ria dela \u00e9 usada para mostrar que, com algumas atitudes, todo mundo consegue comprar sem se endividar. O texto-legenda diz o seguinte:<\/p>\n<p><b>COM <\/b>a chegada da temporada de compras de final de ano, todo cuidado \u00e9 pouco com os gastos. Saiba o momento certo de usar ou n\u00e3o o cart\u00e3o. E n\u00e3o fa\u00e7a d\u00edvidas impag\u00e1veis. Dione, por exemplo, gasta R$ 6 mil em presentes, mas faz o controle das despesas e consegue equilibrar o or\u00e7amento (Economia p\u00e1gs. 1 e 4)<\/p>\n<p>O pequeno texto j\u00e1 d\u00e1 o tom sobre em que a reportagem vai ser centrada: em alerta e orienta\u00e7\u00e3o. Em <i>\u201cCom a chegada da temporada de compras de final de ano, todo cuidado \u00e9 pouco com os gastos\u201d<\/i>, o enunciador coloca uma situa\u00e7\u00e3o-problema, criando a expectativa no leitor de que \u00e9 preciso atentar para o que est\u00e1 sendo discutido: o cuidado com os gastos. Essa estrat\u00e9gia tamb\u00e9m se observa em textos de autoajuda, como em:<\/p>\n<p><i>\u201c\u2018Voc\u00ea n\u00e3o entende, eu tenho muitos problemas\u2019, \u2018Voc\u00ea n\u00e3o pode imaginar os problemas que eu tenho na vida&#8230;\u2019, \u2018\u00c9 f\u00e1cil para voc\u00ea dizer essas coisas bonitas sobre a vida e o sucesso, porque n\u00e3o tem os problemas que eu tenho!\u2019. Muitos se lamentam assim, e v\u00eaem (sic.) tudo fechado \u00e0 sua frente, por causa dos problemas que s\u00e3o obrigados a enfrentar. De fato, a vida \u00e9 um problema atr\u00e1s do outro. A diferen\u00e7a \u00e9 como voc\u00ea encara o problema e aprende com ele.\u201d<\/i> (RIBEIRO, 1999, p. 134)<\/p>\n<p>Assim como no texto jornal\u00edstico, o trecho em Ribeiro (1999) traz um alerta e uma orienta\u00e7\u00e3o. No caso do autor de autoajuda, o objetivo \u00e9 mostrar como enfrentar os problemas da vida. Ou seja, a situa\u00e7\u00e3o-problema criada pelo autor \u00e9 justamente como enfrentar as dificuldades e, para isso, \u00e9 posta, assim como no texto-legenda jornal\u00edstico, uma expectativa que anuncia a indica\u00e7\u00e3o de conselhos para aquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No texto jornal\u00edstico h\u00e1 o uso do imperativo afirmativo e negativo, orientando o leitor: <i>\u201c<b>Saiba <\/b>o momento certo de usar ou n\u00e3o o cart\u00e3o. E <b>n\u00e3o fa\u00e7a<\/b> d\u00edvidas impag\u00e1veis.\u201d<\/i> Essa imposi\u00e7\u00e3o \u00e9 atenuada pelo conselho que \u00e9 dado, o qual traz palavras positivas &#8211; <i>\u201cmomento certo\u201d<\/i> &#8211; e negativas, mas com promessa de positividade porque s\u00e3o colocadas como forma de admitir e resolver o problema, que \u00e9 evitar <i>\u201cd\u00edvidas impag\u00e1veis\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>A manchete de capa tamb\u00e9m faz o uso do imperativo e se apropria de uma palavra aparentemente negativa &#8211; <i>\u201cGastos\u201d<\/i> &#8211; para em seguida torn\u00e1-la positiva com a promessa de que o controle \u00e9 poss\u00edvel: <i>\u201cUse o cart\u00e3o sem d\u00edvidas\u201d<\/i>. O sintagma <i>\u201csem d\u00edvidas\u201d<\/i> funciona como um elemento que confere positividade a todo o enunciado. Vejamos as estruturas semelhantes que encontramos nos textos de autoajuda, comparando com a manchete jornal\u00edstica:<\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline;\">Manchete jornal\u00edstica<\/span><\/b><\/p>\n<p><b>Gastos. Use o cart\u00e3o sem d\u00edvidas<\/b><b><\/b><\/p>\n<p><i>\u00a0(Folha de Pernambuco, 23.10.2011)<\/i><b><\/b><\/p>\n<p><b>Elemento negativo &#8211; <\/b><i>\u2018Gastos\u2019<\/i><\/p>\n<p><b>Estrutura que torna o enunciado positivo &#8211;<\/b> <i>\u2018Use o cart\u00e3o sem d\u00edvidas\u2019<\/i><\/p>\n<p><b><span style=\"text-decoration: underline;\">Trechos de autoajuda<\/span><\/b><\/p>\n<p><i>\u201cComo resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de gastar\u201d<\/i><\/p>\n<p>(CERBASI, 2004, p. 132)<\/p>\n<p><b>Elemento negativo &#8211; <\/b><i>\u00a0\u201ctenta\u00e7\u00e3o de gastar\u201d<\/i><\/p>\n<p><b>Estrutura que torna o enunciado positivo &#8211; <\/b><i>\u201cComo resistir\u201d<\/i><\/p>\n<p><i>\u201cTrabalhe seus pontos fortes que o resto se fortalece\u201d<\/i><\/p>\n<p>(RIBEIRO, 1999, p. 67)<\/p>\n<p><b>Elemento negativo &#8211; <\/b><i>\u00a0\u201cque o resto se fortalece\u201d <\/i>(representa os \u201cpontos fracos\u201d, ocultado no enunciado)<\/p>\n<p><b>Estrutura que torna o enunciado positivo &#8211; <\/b><i>\u201cTrabalhe seus pontos fortes\u201d<\/i><\/p>\n<p><i>\u201cPense grande\u201d<\/i><\/p>\n<p>(RIBEIRO, 1999, p. 111)<\/p>\n<p><b>Elemento negativo &#8211; <\/b><i>\u00a0\u201cpensar pequeno\u201d <\/i>\u00a0(sentido oculto no enunciado)<\/p>\n<p><b>Estrutura que torna o enunciado positivo &#8211; <\/b><i>\u201cPense grande\u201d<\/i><\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b>O texto-legenda da manchete tamb\u00e9m possui a utiliza\u00e7\u00e3o de exemplos de sucesso, recurso narrativo bastante comum tamb\u00e9m nos textos de autoajuda. Em \u201c<i>Dione, por exemplo, gasta R$ 6 mil em presentes, mas faz o controle das despesas e consegue equilibrar o or\u00e7amento\u201d<\/i> percebemos o pren\u00fancio de que vai haver na reportagem a orienta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma prova de que \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar o que o texto promete: o controle dos gastos e o equil\u00edbrio das d\u00edvidas.<\/p>\n<p>Os enunciados jornal\u00edsticos sobre finan\u00e7as pessoais aqui estudados e os textos de autoajuda guardam entre si, portanto, pontos em comum. Tanto as manchetes quanto os enunciados de autoajuda colocam o seu destinat\u00e1rio como respons\u00e1vel pela sua vida e capaz de evitar e sanar problemas que venha a adquirir. \u00c9 considerado capaz de resolver seus problemas, mas com a necess\u00e1ria orienta\u00e7\u00e3o de uma autoridade no assunto.<\/p>\n<p>Os enunciados de autoajuda dizem abertamente como o leitor deve fazer para conseguir \u00eaxito. A estrutura \u201ccomo + verbo no infinitivo\u201d, por exemplo, remete a um guia de instru\u00e7\u00f5es. Na manchete jornal\u00edstica, esse grau de orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 atenuado para garantir credibilidade ao ve\u00edculo, cujo pilar discursivo \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o noticiosa. No entanto, a estrutura n\u00e3o prescinde do car\u00e1ter de orienta\u00e7\u00e3o e, para tal, usa estruturas presentes em textos de autoajuda, como o verbo no imperativo.<\/p>\n<p>Tanto a manchete jornal\u00edstica quantos os enunciados de autoajuda mostram um direcionamento e prometem sucesso atrav\u00e9s de uma orienta\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 feita atrav\u00e9s de enunciados positivos: \u201cUse o cart\u00e3o sem d\u00edvidas\u201d, \u201c{&#8230;] resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de gastar\u201d, \u201cPense grande\u201d. No entanto, carregam tamb\u00e9m um teor impositivo, visto que tamb\u00e9m possuem uma mensagem oculta de que o indiv\u00edduo s\u00f3 poder\u00e1 alcan\u00e7ar sucesso no que \u00e9 proposto se seguir as orienta\u00e7\u00f5es dadas.<b> <\/b><\/p>\n<p>Agora vamos identificar na reportagem a qual a manchete remete a presen\u00e7a de uma caracter\u00edstica marcante do discurso de autoajuda: a orienta\u00e7\u00e3o. Encontramos conte\u00fados desse tipo nas mais diversas produ\u00e7\u00f5es intelectuais humanas: no cinema, na m\u00fasica, na m\u00eddia etc. Vejamos alguns trechos da reportagem principal da manchete <i>\u201cGastos. Use o cart\u00e3o sem d\u00edvidas\u201d<\/i> <i>(Folha de Pernambuco, 23.10.2011) <\/i>para verificar essa regularidade e, em seguida, comparar com os textos de autoajuda.<\/p>\n<p><b>Reportagem \u201cFim de ano: olho aberto nas finan\u00e7as\u201d<\/b><\/p>\n<p><b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">Comprar produtos em promo\u00e7\u00e3o, com anteced\u00eancia e em estabelecimentos alternativos, \u00e9 a dica do consultor financeiro Augusto Sab\u00f3ia para que os gastos de fim de ano n\u00e3o pesem tanto no bolso.<\/span><\/i><\/b> <span style=\"text-decoration: underline;\">\u201cO ideal \u00e9 comprar a partir de janeiro e usar a criatividade. Em sebos, por exemplo, pode-se encontrar bons livros a R$ 2\u201d, diz. <\/span><\/p>\n<p><b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">Quanto \u00e0s formas de pagamento, ele recomenda que os consumidores, sempre que poss\u00edvel, realizem o pagamento \u00e0 vista.<\/span><\/i><\/b> <span style=\"text-decoration: underline;\">\u201cNem considere cheque especial ou cart\u00e3o de cr\u00e9dito para pagar essas despesas, pois a taxa de juros \u00e9 alt\u00edssima\u201d, afirma.<\/span><\/p>\n<p><b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">Em rela\u00e7\u00e3o ao parcelamento de compras, a contadora e diretora do Grupo VO Trade, Simone Domingues, destaca que pode sair mais barato pedir empr\u00e9stimo pessoal em um banco e pagar \u00e0 vista.<\/span><\/i><\/b><b> <\/b>\u201c<span style=\"text-decoration: underline;\">\u00c9 comum que a loja cobre uma corre\u00e7\u00e3o pelo financiamento da compra. Al\u00e9m disso, os juros de cart\u00e3o de cr\u00e9dito s\u00e3o mais caros\u201d, explica. <\/span><\/p>\n<p>Nos trechos destacados em sublinhado tracejado percebemos a ades\u00e3o do jornalista ao discurso do especialista. O rep\u00f3rter cita de forma indireta os conselhos que o especialista d\u00e1 e, indiretamente, busca orientar o leitor. Em seguida, nos trechos em sublinhado simples, o jornalista finaliza a argumenta\u00e7\u00e3o com as palavras da fonte citadas de forma direta, atrav\u00e9s do recurso das aspas, dando uma orienta\u00e7\u00e3o expl\u00edcita.<\/p>\n<p>Na mat\u00e9ria vinculada \u00e0 reportagem principal tamb\u00e9m h\u00e1 essa ideia de orienta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do Procon, \u00f3rg\u00e3o que regula as rela\u00e7\u00f5es de consumo e observamos ainda que os posicionamentos do jornalista e da especialista consultada s\u00e3o os mesmos quanto ao que o cidad\u00e3o deve fazer. Vejamos:<\/p>\n<p><b>Procon vai ensinar a controlar despesas<\/b><\/p>\n<p><b><i><span style=\"text-decoration: underline;\">Para muitos, a chegada de dezembro representa uma boa oportunidade de presentear pessoas queridas. Por\u00e9m, o que preocupa diante da grande demanda pelas compras \u00e9 gastar al\u00e9m do que se tem e a falta de controle de despesas e d\u00edvidas depois das festas. Diante desse cen\u00e1rio, o Procon Recife abrir\u00e1 inscri\u00e7\u00f5es, neste fim de ano, para o curso gratuito de Educa\u00e7\u00e3o Financeira para o Consumo.<\/span><\/i><\/b><b> <\/b>\u201cO objetivo principal da atividade \u00e9 discutir temas relacionados ao controle de despesas e d\u00edvidas, al\u00e9m de orientar o consumidor ao n\u00e3o endividamento, fazendo com que ele n\u00e3o se perca nas contas\u201d, explica a diretora do \u00f3rg\u00e3o, Cleide Torres.<\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b>No trecho em sublinhado tracejado, o jornalista exp\u00f5e o contexto da mat\u00e9ria, que \u00e9 a chegada das festas de fim de ano, e aponta para um costume tradicional, que \u00e9 o de presentear as pessoas. Em seguida, ele adere ao discurso da especialista ao citar, de forma indireta, que \u201c<i>o que preocupa diante da grande demanda pelas compras \u00e9 gastar al\u00e9m do que se tem e a falta de controle de despesas e d\u00edvidas depois das festas.\u201d <\/i><\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o ser dito explicitamente a quem preocupa o ato de gastar al\u00e9m das possibilidades, essa revela\u00e7\u00e3o vem no trecho subsequente, quando ele afirma que \u201c<i>Diante desse cen\u00e1rio, o Procon Recife abrir\u00e1 inscri\u00e7\u00f5es, neste fim de ano, para o curso gratuito de Educa\u00e7\u00e3o Financeira para o Consumo.\u201d<\/i> Ou seja, quem se preocupa \u00e9 o Procon, mas a ades\u00e3o do jornalista ao discurso da fonte est\u00e1 t\u00e3o pr\u00f3xima que se torna quase que impercept\u00edvel o discurso de um e de outro quando o texto n\u00e3o traz as aspas. Desse modo, ambos, tanto o jornalista quanto a fonte, acabam executando a tarefa de orientar o leitor.<\/p>\n<p>Nos textos de autoajuda, essa regularidade de orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 mais evidente por conta da publica\u00e7\u00e3o ser abertamente direcionada para esse fim. Mesmo assim, percebemos uma similaridade muito pr\u00f3xima com os textos jornal\u00edsticos, no tocante ao objetivo de orientar. Comparemos um dos trechos jornal\u00edsticos analisados acima com um trecho de autoajuda:<\/p>\n<p><b>Trecho jornal\u00edstico (Folha de Pernambuco):<\/b><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Comprar produtos em promo\u00e7\u00e3o, com anteced\u00eancia e em estabelecimentos alternativos, \u00e9 a dica do consultor financeiro Augusto Sab\u00f3ia para que os gastos de fim de ano n\u00e3o pesem tanto no bolso. \u201cO ideal \u00e9 comprar a partir de janeiro e usar a criatividade. Em sebos, por exemplo, pode-se encontrar bons livros a R$ 2\u201d, diz.<\/span><\/p>\n<p><b>Trecho de autoajuda:<\/b><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Para conseguir rendimentos melhores, o investidor tem de recorrer a ativos de risco, como a\u00e7\u00f5es. Em alguns meses voc\u00eas perceber\u00e3o que obter algo em torno de 1% ao m\u00eas no mercado de a\u00e7\u00f5es requer estrat\u00e9gias simples: basta adquirir certa experi\u00eancia, acompanhar as not\u00edcias e acreditar nas empresas mais s\u00f3lidas. (CERBASI, 2004, p. 45)<\/span><\/p>\n<p>Em ambos os trechos, a \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 o estilo do texto. No jornal\u00edstico, o enunciador n\u00e3o pode tomar abertamente para si as palavras da fonte como se fosse o autor delas. Por isso, recorre ao discurso indireto e o direto, com o uso das aspas.<\/p>\n<p>Em Cerbasi (2004), o pr\u00f3prio autor \u00e9 a fonte de um livro que se prop\u00f5e a ensinar os casais a poupar dinheiro e conquistar uma independ\u00eancia financeira. O autor j\u00e1 tem a autoridade no assunto por ser especialista, o que n\u00e3o ocorre no texto jornal\u00edstico, j\u00e1 que o rep\u00f3rter precisa recorrer ao especialista. No entanto, em ambos os casos os especialistas adotam a postura da orienta\u00e7\u00e3o, que confere ao tema a proposta de ajudar quem est\u00e1 precisando de conselhos no tocante \u00e0s quest\u00f5es financeiras.<\/p>\n<p><b>Terceira etapa: a pr\u00e1tica social<\/b><\/p>\n<p>Como o pr\u00f3prio Fairclough (2001) coloca, n\u00e3o h\u00e1 um procedimento fixo de se fazer an\u00e1lise de discurso. De acordo com ele, o estudo pode ser realizado de formas diversas, a depender da natureza e dos objetivos da investiga\u00e7\u00e3o. A pr\u00e1tica social \u00e9 a inst\u00e2ncia que abriga os outros elementos do modelo tridimensional proposto pelo te\u00f3rico e adotado neste trabalho, que s\u00e3o a pr\u00e1tica discursiva e o texto, e nos oferece um panorama geral do contexto do qual o objeto de estudo faz parte.<\/p>\n<p>Entendemos, a partir de Fairclouhg (2001), que as rela\u00e7\u00f5es discursivas est\u00e3o marcadas tamb\u00e9m por rela\u00e7\u00f5es sociais. Claro que seria imposs\u00edvel analisar um objeto discursivo sem debru\u00e7ar-se sobre cada uma das tr\u00eas dimens\u00f5es. Um m\u00ednimo de divis\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio para garantir clareza na exposi\u00e7\u00e3o dos dados e, pelas considera\u00e7\u00f5es expostas acima, iniciamos a nossa an\u00e1lise pela pr\u00e1tica social.<\/p>\n<p>As manchetes de capa de jornal s\u00e3o um problema social porque est\u00e3o sempre propondo \u00e0 audi\u00eancia um pensamento ideologicamente constitu\u00eddo, a partir de uma estrutura hegem\u00f4nica, que \u00e9 a m\u00eddia. Os jornais analisados valem-se desse cen\u00e1rio social e aderem ao discurso do \u201ccomo fazer\u201d nas abordagens sobre finan\u00e7as pessoais, colocando-se para o leitor muito mais que intermediadores da solu\u00e7\u00e3o dos problemas, mas conselheiros que ajudam a quem precisa de orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E fazem isso amparados no senso comum de que a m\u00eddia possui o poder da verdade e de esclarecer os fatos e assuntos dos mais variados interesses. Apesar disso, entendemos que a m\u00eddia n\u00e3o tem o poder de cristalizar esse senso comum em ideologia porque j\u00e1 h\u00e1 movimentos da sociedade no sentido de question\u00e1-la. H\u00e1 uma desigualdade de poder entre m\u00eddia e leitor, que ocupam as posi\u00e7\u00f5es de orientador e orientado, respectivamente, mas essa desigualdade n\u00e3o imobiliza o indiv\u00edduo, n\u00e3o o torna um mero joguete midi\u00e1tico.<\/p>\n<p>As manchetes sobre finan\u00e7as pessoais t\u00eam pontos em comum com a matriz social do discurso de autoajuda e reproduzem essa ordem discursiva da autoajuda em v\u00e1rios dos seus enunciados. Isso evidenciou mais um discurso com o qual a m\u00eddia se comunica incessantemente, pelo menos no tocante aos enunciados sobre finan\u00e7as pessoais: a autoajuda. Por aderir ao discurso do especialista, que julga e orienta quem tem problemas financeiros, os enunciados midi\u00e1ticos sobre finan\u00e7as pessoais s\u00e3o t\u00e3o semelhantes aos textos de orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim como na literatura de orienta\u00e7\u00e3o, as manchetes jornal\u00edsticas tamb\u00e9m consideram o indiv\u00edduo como necessitado de aconselhamento e respons\u00e1vel por sua boa ou m\u00e1 condi\u00e7\u00e3o financeira de vida. Mesmo sendo o respons\u00e1vel, a m\u00eddia, assim como a literatura de autoajuda, considera que esse indiv\u00edduo \u00e9 capaz de sair das dificuldades se empreender esfor\u00e7os pessoais e seguir as orienta\u00e7\u00f5es que lhe s\u00e3o dadas.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m papeis sociais da m\u00eddia e do leitor que s\u00e3o exercidos com regularidade. E isso faz com que haja um senso comum partilhado com regras definidas sobre os atores sociais. Sob o aspecto microssociol\u00f3gico, podemos dizer que de um lado h\u00e1 o jornalista, que forma uma ideia sobre quem vai ler o seu texto. De outro lado h\u00e1 o leitor, aquele constitu\u00eddo tanto pelo jornalista, como pelo especialista consultado para a mat\u00e9ria sobre orienta\u00e7\u00e3o financeira. E h\u00e1 tamb\u00e9m a pessoa-exemplo, ou seja, algu\u00e9m cuja hist\u00f3ria vai servir de par\u00e2metro para exemplificar o que a mat\u00e9ria est\u00e1 mostrando.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel visualizar esse perfil microssociol\u00f3gico ao verificarmos detalhadamente o agir dos atores sociais envolvidos nas reportagens sobre finan\u00e7as pessoais. H\u00e1 o especialista em finan\u00e7as pessoais. Este det\u00e9m a autoridade de dizer o que \u00e9 adequado ou n\u00e3o fazer com o dinheiro e tem o poder de julgar se o uso de um recurso para determinado fim est\u00e1 ou n\u00e3o conveniente com a capacidade financeira do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>O outro ator \u00e9 o jornalista, que articula as informa\u00e7\u00f5es prestadas pelo especialista e procura dar a elas o tom jornal\u00edstico, ou seja, identificar no material os valores-not\u00edcia que podem ser ressaltados para que o assunto torne-se atrativo \u00e0 audi\u00eancia. Outro ator \u00e9 a pessoa-exemplo, que est\u00e1 endividada ou com as finan\u00e7as sadias.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria financeira dessa pessoa \u00e9 utilizada para compor a reportagem, geralmente confirmando o que est\u00e1 sendo afirmado pelo especialista cuja posi\u00e7\u00e3o, muito comumente, recebe a ades\u00e3o do jornalista. Este adere tamb\u00e9m ao discurso da pessoa-exemplo quando ela est\u00e1 dentro dos padr\u00f5es ideais descritos pelo especialista, sobre ser algu\u00e9m controlado financeiramente.<\/p>\n<p>Por isso, afirmamos que a ades\u00e3o do jornalista ao especialista \u00e9 muito mais frequente e comum nas amostras analisadas do que \u00e0s pessoas-exemplo. Isso pode ser explicado pelo fato de o especialista ter a autoridade de versar sobre o tema, conferindo \u00e0s pessoas-exemplo o papel de coadjuvantes desse processo noticioso. Estas s\u00e3o utilizadas com o prop\u00f3sito de passar pelo julgamento do especialista como controladas ou n\u00e3o financeiramente. Esses tr\u00eas elementos \u2013 o especialista, o jornalista e a pessoa-exemplo \u2013 integram o perfil microssociol\u00f3gico analisado.<\/p>\n<p>Percebamos que o leitor \u00e9, nesse caso, formado e julgado por dois atores efetivos na produ\u00e7\u00e3o da not\u00edcia: o jornalista e o especialista, que \u00e9 a fonte. As pessoas-exemplo, que s\u00e3o as hist\u00f3rias de quem conseguiu organizar-se financeiramente, s\u00e3o uma representa\u00e7\u00e3o do leitor na reportagem, justamente para criar uma aproxima\u00e7\u00e3o do conte\u00fado com a vida real.<\/p>\n<p>Tanto as manchetes quanto os textos das reportagens sofrem transforma\u00e7\u00f5es que se alternam entre par\u00e1frases das ideias do especialista consultado e o posicionamento do jornalista que redigiu a mat\u00e9ria. Ora o jornalista adere ao que o especialista diz, ora se distancia para afirmar, atrav\u00e9s de um personagem da reportagem, um caso de sucesso, sempre culminando no incentivo para o leitor endividado tamb\u00e9m conseguir a fa\u00e7anha de equilibrar as contas.<\/p>\n<p>Apesar dessa varia\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es, essa pr\u00f3pria altern\u00e2ncia \u00e9 relativamente est\u00e1vel. Ou seja, sempre percebemos constru\u00eddo nos enunciados e nos textos um leitor endividado e um leitor equilibrado. Talvez esta seja uma estrat\u00e9gia discursiva midi\u00e1tica que obede\u00e7a \u00e0 tentativa de atender a uma audi\u00eancia heterog\u00eanea, ou seja, pessoas endividadas ou equilibradas financeiramente. As primeiras s\u00e3o colocadas como desorganizadas e as \u00faltimas, como o seu oposto, tornando-se os exemplos ideais para sistematizar os argumentos a favor da gest\u00e3o do dinheiro pessoal.<\/p>\n<p>Argumentamos que isso j\u00e1 se configura como uma pr\u00e1tica social vigente e naturalizada, empreendida pelos organismos midi\u00e1ticos como forma de manterem a postura de orientadores. Com isso, o jornal consegue arregimentar o interesse de um p\u00fablico diversificado financeiramente, atrav\u00e9s de uma postura orientacional, mas, implicitamente, julgadora. Ao mesmo tempo em que orienta, aponta erros que fazem com que as pessoas se descontrolem financeiramente. Essa oscila\u00e7\u00e3o de posicionamento nos parece constituir o perfil macrossociol\u00f3gico das amostras analisadas.<\/p>\n<p>O papel da m\u00eddia e o papel do leitor constitui uma rela\u00e7\u00e3o de poder que estabelece ser a m\u00eddia o condutor e o leitor, o conduzido. Aquela exerce o poder sobre este. Trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o que est\u00e1 inscrita na estrutura social midi\u00e1tica e \u00e9 afetada pelas rela\u00e7\u00f5es de poder. De um lado, a m\u00eddia &#8211; o poder dominante. O leitor, na outra ponta, \u00e9 aquele a quem \u00e9 oferecido conte\u00fados provenientes de fontes ditas confi\u00e1veis e com credibilidade.<\/p>\n<p>Essa polariza\u00e7\u00e3o afeta as rela\u00e7\u00f5es de poder entre a m\u00eddia e o leitor, tornando-as hegem\u00f4nicas, j\u00e1 que o leitor tamb\u00e9m pode rejeitar o que est\u00e1 sendo produzindo pela m\u00eddia. Essa rejei\u00e7\u00e3o pode vir acompanhada de a\u00e7\u00f5es punitivas, como o questionamento das not\u00edcias atrav\u00e9s da internet, que tem nas redes sociais o seu maior ve\u00edculo, e tamb\u00e9m do envio de cr\u00edticas para os organismos midi\u00e1ticos, embora esse recurso, consideramos, tenha menos repercuss\u00e3o do que a a\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>As manchetes de capa de jornais est\u00e3o, portanto, inseridas numa rede de pr\u00e1ticas que se situam no \u00e2mbito midi\u00e1tico e trazem consigo todas as nuances relativas a esse meio. Os enunciados s\u00e3o constru\u00eddos a partir de uma rede de pr\u00e1ticas jornal\u00edsticas, que mant\u00eam com outros elementos sociais uma rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica, quase se confundindo entre si.<\/p>\n<p>Isso se deve ao fato de a m\u00eddia ser um territ\u00f3rio onde se manifestam e s\u00e3o produzidas estruturas h\u00edbridas, pensamentos diversos e conflitantes entre si. A m\u00eddia \u00e9 uma arena de lutas ideol\u00f3gicas e tamb\u00e9m de reprodu\u00e7\u00e3o de conceitos e (pr\u00e9) conceitos que buscam a todo tempo, sobre qualquer assunto, se fazerem enxergar como essenciais, verdadeiros e imparciais.<\/p>\n<p>A regularidade das manchetes sobre finan\u00e7as pessoais \u00e9 um efeito do \u201creclame\u201d que esse tipo de assunto requer. H\u00e1 um calend\u00e1rio financeiro fixo e outro vol\u00e1til o qual \u00e9 utilizado pelas m\u00eddias para produzir conte\u00fado considerado relevante. Como calend\u00e1rio fixo, pode-se citar o d\u00e9cimo-terceiro sal\u00e1rio, a restitui\u00e7\u00e3o do Imposto de Renda, o pagamento do IPVA, do IPTU etc.<\/p>\n<p>Como calend\u00e1rio financeiro vol\u00e1til, h\u00e1 as orienta\u00e7\u00f5es que a m\u00eddia faz atrav\u00e9s de especialistas sobre as v\u00e1rias formas de lidar com o dinheiro: como aplicar na poupan\u00e7a; como ganhar dinheiro com o mercado de a\u00e7\u00f5es; como economizar nas compras do m\u00eas; como fazer um or\u00e7amento sem se endividar etc. Por toda essa regularidade de assuntos trazidos pela m\u00eddia, em suas diversas plataformas, pode-se perceber que h\u00e1 certa demanda da sociedade, que consome esse tipo de informa\u00e7\u00e3o com car\u00e1ter de orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>CONCLUS\u00d5ES<\/b><\/p>\n<p>Identificamos neste trabalho semelhan\u00e7as discursivas entre as manchetes de capa de jornais sobre finan\u00e7as pessoais e os textos de autoajuda. Tanto as manchetes sobre finan\u00e7as pessoais quanto os enunciados de autoajuda possuem um car\u00e1ter orientacional porque constituem em seus enunciados um leitor que necessita de aconselhamento, de direcionamento.<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo em que enxergam a audi\u00eancia como um ser que precisa de orienta\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m a motiva, constituindo os seus componentes como pessoas que s\u00e3o capazes de, seguindo as orienta\u00e7\u00f5es, conseguirem sucesso. \u00c9 a cultura do \u201cvoc\u00ea consegue se souber como fazer\u201d. Verificamos nas manchetes de jornais essas duas constru\u00e7\u00f5es da audi\u00eancia, o que confirma a nossa primeira hip\u00f3tese:<\/p>\n<p><b>Hip\u00f3tese 1 &#8211;<\/b> As manchetes de capas de jornais referentes a finan\u00e7as pessoais colocam o leitor como respons\u00e1vel pelo seu sucesso ou fracasso financeiro e ao mesmo tempo tamb\u00e9m o constr\u00f3i como um dependente de orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o determinantes para essa constata\u00e7\u00e3o tantos os enunciados modalizados por ora\u00e7\u00f5es assertivas, como tamb\u00e9m aqueles focados para a orienta\u00e7\u00e3o ao leitor como, respectivamente, em <i>\u201cPrepare o bolso\u201d<b> <\/b><\/i><a title=\"\" href=\"#_edn6\"><b><b>[vi]<\/b><\/b><\/a><b> <\/b>e <i>\u201cGastos. Use o cart\u00e3o sem d\u00edvidas\u201d<\/i><a title=\"\" href=\"#_edn7\">[vii]<\/a>. Tamb\u00e9m a presen\u00e7a nas manchetes de enunciados modalizados com verbos no imperativo, que configuram uma caracter\u00edstica marcante nos textos de autoajuda, deu pistas sobre a semelhan\u00e7a discursiva dos conte\u00fados jornal\u00edsticos com os textos de orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apresentamos v\u00e1rios exemplos como <i>\u201cFam\u00edlia inteira deve planejar gastos da casa\u201d<\/i><a title=\"\" href=\"#_edn8\">[viii]<\/a> e <i>\u201cEvite d\u00edvidas nas viagens de f\u00e9rias\u201d<\/i><a title=\"\" href=\"#_edn9\">[ix]<\/a>. Este \u00faltimo, inclusive, foi mostrado a partir da ag\u00eancia, passivizando o destinat\u00e1rio da mensagem j\u00e1 que o enunciador, oculto, exerce atrav\u00e9s do verbo no imperativo o papel de voz da consci\u00eancia do leitor. Encontramos ainda v\u00e1rios excertos que notificam o uso comum do verbo no imperativo esbo\u00e7ando uma orienta\u00e7\u00e3o nos enunciados jornal\u00edsticos.<\/p>\n<p>A comprova\u00e7\u00e3o da primeira hip\u00f3tese, constatando a constitui\u00e7\u00e3o de um leitor necessitado de orienta\u00e7\u00e3o e respons\u00e1vel pelo seu \u00eaxito, tornou poss\u00edvel a confirma\u00e7\u00e3o da segunda, que se refere \u00e0 presen\u00e7a de um discurso de autoajuda nas manchetes de capa de jornais sobre finan\u00e7as pessoais, conforme citada a seguir:<\/p>\n<p><b>Hip\u00f3tese 2 &#8211;<\/b> Nessas manchetes h\u00e1 a presen\u00e7a de um discurso de autoajuda, que diz ao leitor a forma como ele deve gerir o pr\u00f3prio dinheiro.<\/p>\n<p>Mais uma vez, as semelhan\u00e7as lingu\u00edsticas e discursivas dos textos jornal\u00edsticos com os de autoajuda nos possibilitaram a confirma\u00e7\u00e3o da hip\u00f3tese acima. Essas semelhan\u00e7as foram encontradas em todas as manchetes do <i>corpus<\/i> assim como nos textos das reportagens \u00e0s quais elas remetem.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos elementos j\u00e1 apresentados \u2013 ora\u00e7\u00f5es assertivas e verbos nos imperativo \u2013 observarmos o compartilhamento em ambos os discursos de express\u00f5es do tipo <i>\u201ccomo + verbo no infinitivo\u201d<\/i>, comum nos textos de autoajuda e tamb\u00e9m bastante presentes nos textos jornal\u00edsticos a exemplo de: <i>\u201cComo comprar sua casa em tempos de pre\u00e7o alto\u201d <\/i><a title=\"\" href=\"#_edn10\">[x]<\/a>.<\/p>\n<p>Ainda no campo das semelhan\u00e7as lingu\u00edsticas, observamos o uso de ora\u00e7\u00f5es subordinadas condicionais adverbiais, muito comuns nos textos de autoajuda, que expressam uma condi\u00e7\u00e3o e acabam orientando o leitor tamb\u00e9m sobre as implica\u00e7\u00f5es em n\u00e3o seguir aquele aconselhamento.<\/p>\n<p>No campo das semelhan\u00e7as discursivas, os paradigmas dos relatos de autoajuda, elencados por R\u00fcdiger (1996), a identifica\u00e7\u00e3o de enunciados motivacionais e de incentivo e o uso de exemplos de sucesso que tornaram poss\u00edveis mais confirma\u00e7\u00f5es. Em rela\u00e7\u00e3o aos paradigmas, identificamos a presen\u00e7a dos mesmos nas manchetes de capa como tamb\u00e9m em textos das reportagens, reafirmando uma regularidade discursiva em todas as partes do <i>corpus<\/i>.<\/p>\n<p>Os paradigmas dos textos de autoajuda referem-se aos relatos m\u00edstico, asc\u00e9tico e ego\u00edsta. Uma vez que j\u00e1 foram apresentados e discutidos no cap\u00edtulo anterior, vamos apenas relembrar aqui uma das manchetes em que identificamos e discutimos um destes paradigmas, que foi em <i>\u201cComo organizar suas finan\u00e7as\u201d <a title=\"\" href=\"#_edn11\"><b>[xi]<\/b><\/a><\/i>. Este enunciado traz a ideia de que o controle financeiro depende da atitude do indiv\u00edduo, concep\u00e7\u00e3o central do relato m\u00edstico: a solu\u00e7\u00e3o e o problema est\u00e3o no interior de cada pessoa.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o de enunciados motivacionais e a utiliza\u00e7\u00e3o de exemplos de sucesso, t\u00e3o comuns nos textos de autoajuda, tamb\u00e9m foram encontradas nos enunciados jornal\u00edsticos. As manchetes <i>\u201cEscape das d\u00edvidas\u201d <a title=\"\" href=\"#_edn12\"><b>[xii]<\/b><\/a><\/i> e <i>\u201cEntre em 2012 no azul\u201d <a title=\"\" href=\"#_edn13\"><b>[xiii]<\/b><\/a><\/i> foram dois exemplos sobre enunciados que trazem uma orienta\u00e7\u00e3o, mas s\u00e3o modalizados incentivando o leitor a conseguir alcan\u00e7ar o objetivo trazido pela reportagem.<\/p>\n<p>Sobre a utiliza\u00e7\u00e3o de exemplos de sucesso, trouxemos para a an\u00e1lise trechos que representam a regularidade encontrada em todo o material examinado. Nas reportagens sobre finan\u00e7as pessoais sempre h\u00e1 a hist\u00f3ria de algu\u00e9m que estava com problemas e conseguiu resolv\u00ea-los ou que sempre foi uma pessoa controlada financeiramente e, por conta disso, serve de modelo para os que querem ter uma boa rela\u00e7\u00e3o com o dinheiro.<\/p>\n<p>Nos textos de autoajuda utilizados como par\u00e2metro comparativo, observamos tamb\u00e9m a utiliza\u00e7\u00e3o de exemplo em Cerbasi (2004) e em Ribeiro (1999). No primeiro, em muitos trechos, n\u00e3o foi poss\u00edvel identificar se eram provenientes de casos reais ou se tratavam de casais hipot\u00e9ticos cujas hist\u00f3rias foram criadas para fazer o leitor compreender a situa\u00e7\u00e3o real. Ribeiro (1999) utilizou-se de exemplos reais de personagens hist\u00f3ricos, como Thomas Edison, e tamb\u00e9m de supostos indiv\u00edduos, no entanto, deixava isso claro nos seus textos.<\/p>\n<p>A terceira e \u00faltima hip\u00f3tese do nosso estudo, consequ\u00eancia das duas anteriores, considera que:<\/p>\n<p><b>Hip\u00f3tese 3 &#8211;<\/b> Essa orienta\u00e7\u00e3o ao leitor sobre a gest\u00e3o do dinheiro mostra-se linguisticamente atrav\u00e9s de enunciados positivos, mas subliminarmente carregam um teor impositivo.<\/p>\n<p>Observamos que as manchetes jornal\u00edsticas analisadas evidenciam uma orienta\u00e7\u00e3o e um direcionamento ao leitor. No entanto, essa nuance de aconselhamento tamb\u00e9m oculta uma imposi\u00e7\u00e3o, porque diz ao destinat\u00e1rio o que ele deve fazer para alcan\u00e7ar bons resultados.<\/p>\n<p>Podemos afirmar, com base em todas as caracter\u00edsticas discutidas nesse trabalho, que os enunciados jornal\u00edsticos sobre finan\u00e7as pessoais t\u00eam o objetivo claro de orientar, mas oculta nessa orienta\u00e7\u00e3o uma imposi\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de julgar o leitor como algu\u00e9m que n\u00e3o pode gerir sozinho a sua vida e precisa de conselhos, tamb\u00e9m diz a ele o que e como deve fazer. Podemos observar essa imposi\u00e7\u00e3o velada em todos os enunciados das amostras.<\/p>\n<p>A confirma\u00e7\u00e3o das tr\u00eas hip\u00f3teses nos possibilitou tamb\u00e9m raciocinar sobre a matriz social do discurso jornal\u00edstico no tocante aos enunciados sobre finan\u00e7as pessoais. Identificamos que as manchetes de capa analisadas, juntamente com suas respectivas reportagens, inscrevem-se na matriz social do discurso de autoajuda no tocante \u00e0s caracter\u00edsticas mais marcantes deste: a orienta\u00e7\u00e3o e o incentivo ao sucesso.<\/p>\n<p>Ressaltamos que as reflex\u00f5es feitas neste trabalho n\u00e3o t\u00eam o objetivo de julgar o trabalho da m\u00eddia ou dos autores de livros classificados como de autoajuda. Visam, de fato, proporcionar ao leitor a oportunidade de enxergar que organismos hegem\u00f4nicos constituem os indiv\u00edduos de acordo com os seus interesses. A m\u00eddia e o mercado liter\u00e1rio, campos aqui trazidos atrav\u00e9s do <i>corpus<\/i> avaliado, t\u00eam seu objetivos de audi\u00eancia e para isso recorrem a estrat\u00e9gias discursivas e mercadol\u00f3gicas para sobreviverem no mercado capitalista.<\/p>\n<p>O que os cidad\u00e3os que lidam com esses conte\u00fados precisam, a nosso ver, \u00e9 tamb\u00e9m tomarem consci\u00eancia desses movimentos de cunho eminentemente ideol\u00f3gico e constitu\u00edrem-se, cada vez mais, como seres sociais capazes de enxergar o que n\u00e3o est\u00e1 escrito nem nas entrelinhas. Com esse trabalho esperamos ter contribu\u00eddo para incentivar reflex\u00f5es sobre uma das in\u00fameras partes da vida social, que \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica.<\/p>\n<p>Somos conscientes da import\u00e2ncia cada vez maior do indiv\u00edduo ter entendimento do mundo que o cerca e daquele mundo que \u00e9 constru\u00eddo atrav\u00e9s de relatos das mais variadas naturezas, como s\u00e3o os relatos jornal\u00edsticos. Isso n\u00e3o significa que os enunciados jornal\u00edsticos sobre finan\u00e7as pessoais n\u00e3o estabele\u00e7am simultaneamente semelhan\u00e7as com outros discursos \u2013 como o publicit\u00e1rio e o did\u00e1tico, por exemplo. Julgamos ser a intertextualidade na m\u00eddia um assunto detentor de uma infinidade de op\u00e7\u00f5es de investiga\u00e7\u00e3o nos trabalhos acad\u00eamicos. \u00c9 uma janela que sempre est\u00e1 aberta a diferentes olhares.<\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p>ANTUNES, Irand\u00e9. A coes\u00e3o do texto. In:______. <b>Lutar com palavras<\/b>. 4 ed. S\u00e3o Paulo: Par\u00e1bola Editorial, 2005, p. 43\u201361.<\/p>\n<p>ARRUDA, Maria; PIRES, Maria. <b>Ideologia<\/b>. In: Temas de Filosofia. 1 ed. S\u00e3o Paulo: Moderna, 2005, p. 143\u2013153.<\/p>\n<p>BAKHTIN, Mikhail. <b>Marxismo e Filosofia da Linguagem.<\/b> 13 ed. S\u00e3o Paulo: Hucitec, 2009. 203 p.<\/p>\n<p>BAUMANN, Zygmunt. <b>Vida L\u00edquida.<\/b> 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. 210 p.<\/p>\n<p>BRUNELLI, Anna. <b>O sucesso est\u00e1 em suas m\u00e3os: <\/b>an\u00e1lise do discurso de auto-ajuda. Universidade Estadual de Campinas, 2004. Campinas, S\u00e3o Paulo; [s.n.]. Tese de doutorado. Orientador: S\u00edrio Possenti. 164 p. Dispon\u00edvel em: http:\/\/migre.me\/al4pS. Acesso em: 14.08.2012.<\/p>\n<p>BUTLER-BOWDON, Tom. <b>50 cl\u00e1ssicos de auto-ajuda: <\/b>50 livros inspiradores para transformar sua vida. 1 ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2006. 300 p.<\/p>\n<p>CARVALHO, Nelly. <b>Publicidade de medicamentos<\/b>: verdades e fal\u00e1cias. Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), 2005. Dispon\u00edvel em: <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/migre.me\/cbzMQ\" >http:\/\/migre.me\/cbzMQ<\/a>. Acesso em: 27.11.2012. 7 p.<\/p>\n<p>CERBASI, Gustavo. <b>Casais inteligentes enriquecem juntos.<\/b> 66 ed. S\u00e3o Paulo: Editora Gente, 2004. 164 p.<\/p>\n<p>CHARAUDEAU, Patrick. <b>Discurso pol\u00edtico.<\/b> 2. ed. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2011. 328 p.<\/p>\n<p>______. <b>Linguagem e discurso.<\/b> 2. ed. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2010. 256 p.<\/p>\n<p>______. <b>O discurso das m\u00eddias.<\/b> 2. ed. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2006. 283 p.<\/p>\n<p>EAGLETON, Terry. O que \u00e9 ideologia?. In: <b>Ideologia: uma introdu\u00e7\u00e3o<\/b>. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp\/Boitempo, 1997. p. 15-40.<\/p>\n<p>FAIRCLOUGH, Norman. <b>Critical Discourse Analysis. <\/b>Londres: Longman, 1995. 265 p.<\/p>\n<p>______. <b>Discurso e mudan\u00e7a social.<\/b> 1. ed. Bras\u00edlia: Editora Universidade de Bras\u00edlia, 2001. 316 p.<\/p>\n<p>______. <b>Language and Power. <\/b>1. ed. Londres\/New York: Longman, 1989. 259 p.<\/p>\n<p>FALCONE, Karina. <b>(Des)legitima\u00e7\u00e3o: a\u00e7\u00f5es discursivo-cognitivas para o processo de categoriza\u00e7\u00e3o social.<\/b> 2008. p. 52-54. Tese (Doutorado em Lingu\u00edstica) \u2013 Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Letras, Universidade Federal de Pernambuco.<\/p>\n<p>FOUCAULT, Michel. <b>A Arqueologia do Saber. <\/b>7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2009. 236 p.<\/p>\n<p>______. <b>A Ordem do Discurso.<\/b> S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1996. 23 p.<\/p>\n<p>GOMES DE MATOS, Francisco. <b>Pedagogia da positividade.<\/b> ed. n\/d. Recife: Editora Universit\u00e1ria da UFPE, 1996. 127 p.<\/p>\n<p>KOCH, Ingedore. <b>A inter-a\u00e7\u00e3o pela linguagem.<\/b> 10 ed. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2007. 134 p.<\/p>\n<p>______. <b>Argumenta\u00e7\u00e3o e linguagem.<\/b> 13 ed. S\u00e3o Paulo: Editora Cortez, 2011. 239 p.<\/p>\n<p>______ In: XAVIER, Ant\u00f4nio; CORTEZ, Suzana (Orgs.). <b>Conversas com linguistas:<\/b> virtudes e controv\u00e9rsias da lingu\u00edstica. 2. ed. Rio de Janeiro: Par\u00e1bola Editorial, 2005. P. 123-129.<\/p>\n<p>______. O verbo poder numa gram\u00e1tica comunicativa do portugu\u00eas. In: <b>Cadernos PUC: Arte e Linguagem<\/b>. S\u00e3o Paulo: Cortez, 1981. vol. 8. p. 103-113.<\/p>\n<p>LENE, H\u00e9rica. O jornalismo de economia e a ditadura militar no Brasil: impulso e desenvolvimento. <b>Revista Famecos.<\/b> Porto Alegre, v. 17, n. 2, p. 24-32, maio\/agosto, 2010.<\/p>\n<p>MARCUSCHI, Luiz. <b>Lingu\u00edstica de texto: <\/b>o que \u00e9 e como se faz<b>. <\/b>ed. n\/d. Recife: UFPE, 1983. 63 p.<\/p>\n<p>MARTHE, Marcelo. O alto-astral da auto-ajuda. <b>Revista Veja<\/b>, S\u00e3o Paulo, 13 de novembro de 2002. Dispon\u00edvel em: http:\/\/migre.me\/awibX. Acesso em: 16 de agosto de 2012.<\/p>\n<p>N\u00d3RA, Gabriela. <b>Sobre a consolida\u00e7\u00e3o do modelo de editorias nos jornais impressos. <\/b>Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2008. Dispon\u00edvel em: <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/migre.me\/bAIA5\" >http:\/\/migre.me\/bAIA5<\/a>. Acesso em: 24.10.2012.<\/p>\n<p>PEDROSA, Cleide. <b>An\u00e1lise Cr\u00edtica do Discurso: <\/b>uma proposta para an\u00e1lise cr\u00edtica da linguagem. C\u00edrculo Fluminense de Estudos Filol\u00f3gicos e Lingu\u00edsticos, 2008. Dispon\u00edvel em: <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/migre.me\/8tSqV\" >http:\/\/migre.me\/8tSqV<\/a>. Acesso em: 30.03.2012.<\/p>\n<p>PENA, Felipe. <b>Teoria do Jornalismo.<\/b> 2. ed. S\u00e3o Paulo: Contexto. 2008. 235 p.<\/p>\n<p>PINTO, Ci\u00e7a Alves. <b>Livro dos Prov\u00e9rbios, ditados, ditos populares e anexins<\/b>. S\u00e3o Paulo: Editora SENAC, 2000. p. 9-58.<\/p>\n<p>REBOUL, Olivier. <b>O Slogan<\/b>. ed [s\/d]. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1975. p. 1-36.<\/p>\n<p>RESENDE, Viviane; RAMALHO, Viviane. An\u00e1lise de discurso cr\u00edtica, do modelo tridimensional \u00e0 articula\u00e7\u00e3o entre pr\u00e1ticas: implica\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-metodol\u00f3gicas. <b>Linguagem em (Dis)curso<\/b>. Tubar\u00e3o-SC, v. 5, n.1, p. 185-207, jul.\/dez. 2004.<\/p>\n<p>RIBEIRO, Lair. <b>O sucesso n\u00e3o ocorre por acaso.<\/b> ed [s\/d]. S\u00e3o Paulo: Moderna, 1999. 182 p.<\/p>\n<p>R\u00dcDIGER, Francisco. <b>Literatura de auto-ajuda e individualismo:<\/b> contribui\u00e7\u00e3o ao estudo da subjetividade na cultura de massa contempor\u00e2nea. Porto Alegre: Ed. Universidade\/UFRGS, 1996. p. 33-70.<\/p>\n<p>TRAQUINA, Nelson. <b>Teorias do Jornalismo: <\/b>a tribo jornal\u00edstica \u2013 uma comunidade interpretativa transnacional \u2013 vol. II. Florian\u00f3polis: Insular, 2. ed., 2008. 213 p.<\/p>\n<p>VAN DIJK, Teun. <b>Discurso e poder.<\/b> 1 ed. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2008. p. 114-131.<\/p>\n<p>______. Estruturas da not\u00edcia na imprensa. In: ______. <b>Cogni\u00e7\u00e3o, discurso e intera\u00e7\u00e3o. <\/b>ed. n\/d. S\u00e3o Paulo: Contexto. 1992. p. 122-157.<\/p>\n<p>WODAK, Ruth. Do que trata a ACD \u2013 um resumo de sua hist\u00f3ria, conceitos importantes e seus desenvolvimentos. <b>Linguagem em (Dis)curso<\/b>. LemD &#8211; Tubar\u00e3o, v. 4, n.especial, p. 223-246. 2004.<\/p>\n<p><b>NOTAS:<\/b><\/p>\n<div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref2\">[ii]<\/a> Dispon\u00edvel em: http:\/\/migre.me\/b5VSW<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref3\">[iii]<\/a> Dispon\u00edvel em: http:\/\/migre.me\/b5VWC<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref4\">[iv]<\/a> Pequeno t\u00edtulo colocado no meio do texto com a fun\u00e7\u00e3o de introduzir um assunto relativo ao tema e arejar visualmente a p\u00e1gina. Dispon\u00edvel em: http:\/\/bit.ly\/P9z6DO. Organiza\u00e7\u00e3o: professor Marconi Oliveira Silva.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref5\">[v]<\/a> Fonte: Superinteressante, ed. 15, dez\/1998. Dispon\u00edvel em: http:\/\/migre.me\/be4FD. Acesso em: 19\/10\/2012.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref6\">[vi]<\/a> Diario de Pernambuco, 17.02.2011.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref7\">[vii]<\/a> Folha de Pernambuco, 23.10.2011.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref8\">[viii]<\/a> Jornal do Commercio, 01.01.2012.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref9\">[ix]<\/a> Diario de Pernambuco, 26.12.2011.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref10\">[x]<\/a> Jornal do Commercio, 06.02.2011.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref11\">[xi]<\/a> Diario de Pernambuco, 27.06.2011.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref12\">[xii]<\/a> Diario de Pernambuco, 29.01.2011.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref13\">[xiii]<\/a> Folha de Pernambuco, 18.12.2011.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado em Letras<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[180,53,146,46],"tags":[],"class_list":["post-28795","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-brics","category-latin-america-and-the-caribbean","category-economics","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28795","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28795"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28795\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28795"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28795"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28795"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}