{"id":2893,"date":"2009-10-04T00:00:00","date_gmt":"2009-10-04T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/wordpress\/2009\/10\/portuguese-noam-chomsky-america-latina-e-hoje-o-lugar-mais-estimulante-do-mundo\/"},"modified":"2009-10-04T00:00:00","modified_gmt":"2009-10-04T00:00:00","slug":"portuguese-noam-chomsky-america-latina-e-hoje-o-lugar-mais-estimulante-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2009\/10\/portuguese-noam-chomsky-america-latina-e-hoje-o-lugar-mais-estimulante-do-mundo\/","title":{"rendered":"(PORTUGUESE)  NOAM CHOMSKY: AM\u00c9RICA LATINA \u00c9 HOJE O LUGAR MAIS ESTIMULANTE DO MUNDO"},"content":{"rendered":"<p><em>Em entrevista ao La Jornada, Noam Chomsky fala sobre a Am&eacute;rica Latina, definindo-a como uma das &uacute;nicas regi&otilde;es do mundo onde h&aacute; uma resist&ecirc;ncia real ao poder do imp&eacute;rio. &quot;Pela primeira vez em 500 anos h&aacute; movimentos rumo a uma verdadeira independ&ecirc;ncia e separa&ccedil;&atilde;o do mundo imperial. Pa&iacute;ses que historicamente estiveram separados est&atilde;o come&ccedil;ando a se integrar. Esta integra&ccedil;&atilde;o &eacute; um pr&eacute;-requisito para a independ&ecirc;ncia. Historicamente, os EUA derrubaram um governo ap&oacute;s outro; agora j&aacute; n&atilde;o podem faz&ecirc;-lo&quot;, diz Chomsky.<br \/><\/em><br \/>A Am&eacute;rica Latina &eacute; hoje o lugar mais estimulante do mundo, diz Noam Chomsky. H&aacute; aqui uma resist&ecirc;ncia real ao imp&eacute;rio; n&atilde;o existem muitas regi&otilde;es das quais se possa dizer o mesmo. Entrevistado pelo La Jornada, um dos intelectuais dissidentes mais relevantes de nossos tempos assinala que a esperan&ccedil;a e a mudan&ccedil;a anunciada por Barack Obama &eacute; uma ilus&atilde;o, j&aacute; que s&atilde;o as institui&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o os indiv&iacute;duos que determinam o rumo da pol&iacute;tica. Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, o que Obama representa, para Chomsky, &eacute; um giro da extrema direita rumo ao centro da pol&iacute;tica tradicional dos Estados Unidos. <\/p>\n<p>Presente no M&eacute;xico para celebrar os 25 anos de La Jornada, o autor de mais de cem livros, ling&uuml;ista, cr&iacute;tico antiimperialista, analista do papel desempenhado pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o na fabrica&ccedil;&atilde;o do consenso, explica como a guerra &agrave;s drogas iniciou nos EUA como parte de uma ofensiva conservadora contra a revolu&ccedil;&atilde;o cultural e a oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; invas&atilde;o do Vietn&atilde;. Apresentamos a seguir a &iacute;ntegra das declara&ccedil;&otilde;es de Chomsky ao La Jornada: <\/p>\n<p>A Am&eacute;rica Latina &eacute; hoje o lugar mais estimulante do mundo. Pela primeira vez em 500 anos h&aacute; movimentos rumo a uma verdadeira independ&ecirc;ncia e separa&ccedil;&atilde;o do mundo imperial. Pa&iacute;ses que historicamente estiveram separados est&atilde;o come&ccedil;ando a se integrar. Esta integra&ccedil;&atilde;o &eacute; um pr&eacute;-requisito para a independ&ecirc;ncia. Historicamente, os EUA derrubaram um governo ap&oacute;s outro; agora j&aacute; n&atilde;o podem faz&ecirc;-lo. <\/p>\n<p>O Brasil &eacute; um exemplo interessante. No princ&iacute;pio dos anos 60, os programas de (Jo&atilde;o) Goulart n&atilde;o eram t&atilde;o diferentes dos de Lula. Naquele caso, o governo de Kennedy organizou um golpe de Estado militar. Assim, o estado de seguran&ccedil;a nacional se propagou por toda a regi&atilde;o como uma praga. Hoje em dia, Lula &eacute; o cara bom, ao qual procuram tratar bem, em rea&ccedil;&atilde;o aos governos mais militantes na regi&atilde;o. Nos EUA, n&atilde;o se publicam os coment&aacute;rios favor&aacute;veis de Lula a Chavez ou a Evo Morales. Eles s&atilde;o silenciados porque n&atilde;o s&atilde;o o modelo. <\/p>\n<p>H&aacute; um movimento em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; unifica&ccedil;&atilde;o regional. Come&ccedil;am a se formar institui&ccedil;&otilde;es que, se ainda n&atilde;o funcionam plenamente, come&ccedil;am a existir, como &eacute; o caso do Mercosul e da Unasul. <\/p>\n<p>Outro caso not&aacute;vel na regi&atilde;o &eacute; o da Bol&iacute;via. Depois do referendo, houve uma grande vit&oacute;ria e tamb&eacute;m uma subleva&ccedil;&atilde;o bastante violenta nas prov&iacute;ncias da Meia Lua, onde est&atilde;o os governadores tradicionais, brancos. Dezenas de pessoas morreram. Houve uma reuni&atilde;o regional em Santiago do Chile, onde se expressou um grande apoio a Morales e uma firme condena&ccedil;&atilde;o &agrave; viol&ecirc;ncia, o que foi respondido pelo presidente boliviano com uma declara&ccedil;&atilde;o importante. <\/p>\n<p>Ele disse que era a primeira vez na hist&oacute;ria da Am&eacute;rica Latina, desde a conquista europ&eacute;ia, que os povos tomaram o destino de seus pa&iacute;ses em suas pr&oacute;prias m&atilde;os sem o controle de um poder estrangeiro, ou seja, Washington. Essa declara&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi publicada nos EUA. <\/p>\n<p>A Am&eacute;rica Central est&aacute; traumatizada pelo terror da era Reagan. N&atilde;o &eacute; muito o que ocorre nesta regi&atilde;o. Os EUA seguem tolerando o golpe militar em Honduras, ainda que seja significativo que n&atilde;o possa apoi&aacute;-lo abertamente. <\/p>\n<p>Outra mudan&ccedil;a, ainda que acidentada, &eacute; a supera&ccedil;&atilde;o da patologia na Am&eacute;rica Latina, provavelmente a regi&atilde;o mais desigual do mundo. &Eacute; uma regi&atilde;o muito rica, sempre governada por uma pequena elite europeizada, que n&atilde;o assume nenhuma responsabilidade com o resto de seus respectivos pa&iacute;ses. Isso pode ser visto em coisas muito simples, como o fluxo internacional de bens e capitais. Na Am&eacute;rica Latina a fuga de capitais &eacute; quase igual &agrave; d&iacute;vida. <\/p>\n<p>O contraste com a &Aacute;sia oriental &eacute; muito impactante. Aquela regi&atilde;o, muito mais pobre, teve um desenvolvimento econ&ocirc;mico muito mais substantivo e os ricos est&atilde;o submetidos a mecanismos de controle. N&atilde;o h&aacute; fuga de capitais; na Cor&eacute;ia do Sul, por exemplo, ele &eacute; castigado com a pena de morte. O desenvolvimento econ&ocirc;mico l&aacute; &eacute; relativamente igualit&aacute;rio. <\/p>\n<p>O enfraquecimento do controle dos EUA <\/p>\n<p>Havia duas formas tradicionais pelas quais os EUA controlavam a Am&eacute;rica Latina. Uma era o uso da viol&ecirc;ncia; a outra, o estrangulamento econ&ocirc;mico. Ambas foram debilitadas. <\/p>\n<p>Os controles econ&ocirc;micos s&atilde;o agora mais fracos. V&aacute;rios pa&iacute;ses se liberaram do Fundo Monet&aacute;rio Internacional atrav&eacute;s da colabora&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m foram diversificadas as a&ccedil;&otilde;es entre os pa&iacute;ses do Sul, processo no qual a rela&ccedil;&atilde;o do Brasil com a &Aacute;frica do Sul e a China desempenhou um fator importante. Esses pa&iacute;ses passaram a enfrentar alguns problemas internos sem a poderosa interven&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos. <\/p>\n<p>A viol&ecirc;ncia n&atilde;o terminou. Ocorreram tr&ecirc;s golpes de Estado neste in&iacute;cio de s&eacute;culo XXI. O venezuelano, abertamente apoiado pelos EUA, foi revertido, e agora Washington tem que recorrer a outros meios para subverter o governo, entre eles, ataques midi&aacute;ticos e apoio a grupos dissidentes. O segundo foi no Haiti, onde a Fran&ccedil;a e os EUA depuseram o governo e enviaram o presidente para a &Aacute;frica do Sul. O terceiro, em Honduras, foi de um tipo misto. <\/p>\n<p>A Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos (OEA) assumiu uma postura firme e a Casa Branca teve que segui-la e proceder com muita cautela e lentid&atilde;o. O FMI acaba de aprovar um enorme empr&eacute;stimo a Honduras, que substitui a redu&ccedil;&atilde;o da ajuda do governo dos EUA. No passado, estes eram assuntos rotineiros. Agora, essas medidas (a viol&ecirc;ncia e o estrangulamento econ&ocirc;mico) ficaram debilitadas. <\/p>\n<p>Os Estados Unidos est&atilde;o reagindo e dando passos para remilitarizar a regi&atilde;o. A Quarta Frota, dedicada &agrave; Am&eacute;rica Latina, que tinha sido desmantelada nos anos 1950, foi retomada, e as bases militares na Col&ocirc;mbia s&atilde;o um tema importante. <\/p>\n<p>A ilus&atilde;o de Obama <\/p>\n<p>A elei&ccedil;&atilde;o de Barack Obama gerou grandes expectativas de mudan&ccedil;a para a Am&eacute;rica Latina. Mas s&atilde;o ilus&otilde;es. Sim, h&aacute; uma mudan&ccedil;a, mas o giro &eacute; porque o governo de Bush foi t&atilde;o ao extremo do espectro pol&iacute;tico estadunidense que qualquer coisa que se movesse iria para o centro. De fato, o pr&oacute;prio Bush, em seu segundo per&iacute;odo, foi menos extremista. Desfez-se de alguns de seus colaboradores mais arrogantes e suas pol&iacute;ticas foram mais moderadamente centristas. E Obama, de maneira previs&iacute;vel, continua com esta tend&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>Tivemos um giro rumo &agrave; posi&ccedil;&atilde;o tradicional. Mas qual &eacute; essa tradi&ccedil;&atilde;o? Kennedy, por exemplo, foi um dos presidentes mais violentos do p&oacute;s-guerra. Woodrow Wilson foi o maior intervencionista do s&eacute;culo XX. O centro n&atilde;o &eacute; pacifista nem tolerante. De fato, Wilson foi quem se apoderou da Venezuela, tirando os ingleses de l&aacute;, em fun&ccedil;&atilde;o da descoberta de petr&oacute;leo. Apoiou um ditador brutal. E dali seguiu rumo ao Haiti e &agrave; Rep&uacute;blica Dominicana. Enviou os &ldquo;marines&rdquo; e praticamente destruiu o Haiti. Deixou nestes pa&iacute;ses guardas nacionais e ditadores brutais. Kennedy fez o mesmo. Obama &eacute; um regresso ao centro. <\/p>\n<p>A hist&oacute;ria se repete com o tema de Cuba, onde, por mais de meio s&eacute;culo, os EUA se envolveram em uma guerra, desde que a ilha ganhou sua independ&ecirc;ncia. No princ&iacute;pio, esta guerra foi bastante violenta, especialmente com Kennedy, quando houve terrorismo e estrangulamento econ&ocirc;mico, ao qual a maioria da popula&ccedil;&atilde;o estadunidense se op&otilde;e. Durante d&eacute;cadas, quase dois ter&ccedil;os da popula&ccedil;&atilde;o tem estado a favor da normaliza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es, mas isso n&atilde;o est&aacute; na agenda pol&iacute;tica. <\/p>\n<p>As manobras de Obama rumaram em dire&ccedil;&atilde;o ao centro; suspendeu algumas das medidas mais extremas do modelo de Bush, o que at&eacute; foi apoiado por boa parte da comunidade cubano-estadunidense. Moveu-se um pouco em dire&ccedil;&atilde;o ao centro, mas deixou muito claro que n&atilde;o haver&aacute; maiores mudan&ccedil;as. <\/p>\n<p>As &ldquo;reformas&rdquo; de Obama <\/p>\n<p>O mesmo ocorre na pol&iacute;tica interna. Os assessores de Obama durante a campanha foram muito cuidadosos em n&atilde;o deix&aacute;-lo comprometer-se com nada. As consignas foram &ldquo;a esperan&ccedil;a&rdquo; e &ldquo;a mudan&ccedil;a, uma mudan&ccedil;a na qual acreditar&rdquo;. Qualquer ag&ecirc;ncia de publicidade teria feito com que essas fossem as consignas, pois 80% do pa&iacute;s pensavam que este andava por trilhos equivocados. McCain dizia coisas parecidas, mas Obama era mais agrad&aacute;vel, mais f&aacute;cil de vender como produto. As campanhas s&atilde;o s&oacute; assuntos de t&eacute;cnica de mercado; assim entendem a si mesmas. Estavam vendendo a &ldquo;marca Obama&rdquo; em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; &ldquo;marca McCain&rdquo;. &Eacute; dram&aacute;tico ver essas ilus&otilde;es, tanto fora como dentro dos EUA. <\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, quase todas as promessas feitas no &acirc;mbito de reforma trabalhista, de sa&uacute;de e energia ficaram quase anuladas. Por exemplo, o sistema de sa&uacute;de &eacute; uma cat&aacute;strofe. &Eacute; provavelmente o &uacute;nico pa&iacute;s no mundo onde n&atilde;o h&aacute; uma garantia b&aacute;sica de aten&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica. Os custos s&atilde;o astron&ocirc;micos, quase o dobro de qualquer outro pa&iacute;s industrializado. Qualquer pessoa que tenha a cabe&ccedil;a no lugar sabe qual &eacute; a consequ&ecirc;ncia de um sistema de sa&uacute;de privado. As empresas n&atilde;o procuram sa&uacute;de, mas sim lucro. <\/p>\n<p>&Eacute; um sistema altamente burocratizado, com muita supervis&atilde;o, alt&iacute;ssimos custos administrativos, onde as companhias de seguros t&ecirc;m formas sofisticadas de evitar o pagamento de ap&oacute;lices, mas n&atilde;o h&aacute; nada na agenda de Obama para fazer algo a respeito. Houve algumas propostas &ldquo;light&rdquo;, como, por exemplo, &ldquo;a op&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica&rdquo;, que acabou anulada. Se algu&eacute;m ler a imprensa de neg&oacute;cios, encontrar&aacute; que a capa da Business Week reportava que as seguradoras estavam celebrando a sua vit&oacute;ria. <\/p>\n<p>Foram realizadas campanhas muito exitosas contra esta reforma, organizadas pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e pela ind&uacute;stria para mobilizar segmentos extremistas da popula&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um pa&iacute;s onde &eacute; f&aacute;cil mobilizar as pessoas com o medo e colocar na cabe&ccedil;a delas todo tipo de id&eacute;ias loucas, como a de que Obama vai matar as suas av&oacute;s. Assim, conseguiram reverter propostas legislativas j&aacute; por si d&eacute;beis. Se, de fato, tivesse ocorrido um compromisso real no Congresso e na Casa Branca, isso n&atilde;o teria prosperado, mas os pol&iacute;ticos estavam mais ou menos de acordo. <\/p>\n<p>Obama acaba de fazer um acordo secreto com as companhias farmac&ecirc;uticas para assegurar-lhes que n&atilde;o far&aacute; esfor&ccedil;os governamentais para regular o pre&ccedil;o dos medicamentos. Os EUA s&atilde;o o &uacute;nico pa&iacute;s no mundo ocidental onde n&atilde;o se permite que o governo use seu poder de compra para negociar o pre&ccedil;o dos medicamentos. Cerca de 85% da popula&ccedil;&atilde;o se op&otilde;em, mas isso n&atilde;o significa diferen&ccedil;a alguma, at&eacute; que todos vejam que n&atilde;o s&atilde;o os &uacute;nicos que se op&otilde;em a estas medidas. <\/p>\n<p>A ind&uacute;stria petroleira anunciou que vai utilizar as mesmas t&aacute;ticas para derrotar qualquer projeto legislativo de reforma energ&eacute;tica. Se os Estados Unidos n&atilde;o implantarem controles firmes sobre as emiss&otilde;es de di&oacute;xido de carbono, o aquecimento global destruir&aacute; a civiliza&ccedil;&atilde;o moderna. <\/p>\n<p>O jornal Financial Times assinalou com raz&atilde;o que se houvesse uma esperan&ccedil;a de que Obama pudesse ter mudado as coisas, agora seria surpreendente que cumprisse minimamente suas promessas. A raz&atilde;o &eacute; que ele n&atilde;o queria mudar tanto assim as coisas. &Eacute; uma criatura daqueles que financiaram sua campanha: as institui&ccedil;&otilde;es financeiras, institui&ccedil;&otilde;es de energia, empresas. <\/p>\n<p>Tem a apar&ecirc;ncia do bom mo&ccedil;o, seria uma boa companhia para o jantar, mas isso &eacute; insuficiente para mudar a pol&iacute;tica; afeta-a muito pouco, na verdade. Sim, h&aacute; mudan&ccedil;a, mas &eacute; de um tipo um pouco mais suave. A pol&iacute;tica prov&eacute;m das institui&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o &eacute; feita por indiv&iacute;duos. E as institui&ccedil;&otilde;es s&atilde;o muito est&aacute;veis e muito poderosas. Certamente, encontram a melhor maneira de enfrentar os acontecimentos. <\/p>\n<p>Mais do mesmo <\/p>\n<p>Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o est&atilde;o um pouco surpresos de que esteja regressando para o ponto onde sempre esteve. Reportam, &eacute; dif&iacute;cil n&atilde;o faz&ecirc;-lo, mas o fato &eacute; que as institui&ccedil;&otilde;es financeiras se pavoneiam de que tudo est&aacute; ficando igual a antes. Ganharam. Goldman Sachs nem sequer tenta esconder que depois de ter arruinado a economia est&aacute; entregando generosos b&ocirc;nus a seus executivos. Creio que no trimestre passado reportou os lucros mais altos de sua hist&oacute;ria. Se fossem um pouquinho mais inteligentes tentariam esconder isso. <\/p>\n<p>Isso se deve ao fato de que Obama est&aacute; respondendo aqueles que apoiaram sua campanha: o setor financeiro. Basta olhar quem ele escolheu para sua equipe econ&ocirc;mica. Seu primeiro assessor foi Robert Rubin, respons&aacute;vel pela derroga&ccedil;&atilde;o de uma lei que regulava o setor financeiro, o que beneficiou muito a Goldman Sachs; assim mesmo, ele se converteu em diretor do Citigroup, fez uma fortuna e saiu justo a tempo, antes do desastre. <\/p>\n<p>Larry Summers, a principal figura respons&aacute;vel pelo bloqueio de toda regula&ccedil;&atilde;o dos instrumentos financeiros ex&oacute;ticos, agora &eacute; o principal assessor econ&ocirc;mico da Casa Branca. E Timothy Geithner, que como presidente do Federal Reserve de Nova York, supervisionava o que ocorre, &eacute; o secret&aacute;rio de Tesouro. <\/p>\n<p>Uma reportagem recente examinou alguns dos principais assessores econ&ocirc;micos de Obama. Concluiu-se que grande parte deles n&atilde;o deveria estar na equipe de assessoria do presidente, mas sim enfrentando demandas legais, pois estiveram envolvidos em manejos irregulares de contabilidade e em outros assuntos que detonaram a crise. <\/p>\n<p>Por quanto tempo podem se manter as ilus&otilde;es? Os bancos est&atilde;o agora melhor do que antes. Primeiro receberam um enorme resgate do governo e dos contribuintes e utilizaram esses recursos para se fortalecerem. S&atilde;o maiores do que nunca, pois absorveram os mais fracos. Ou seja, est&aacute; se assentando a base para a pr&oacute;xima crise. Os grandes bancos est&atilde;o se beneficiando com uma ap&oacute;lice de seguros do governo que se chama &ldquo;demasiado grande para quebrar&rdquo;. <\/p>\n<p>Caso voc&ecirc; seja um banco enorme ou uma grande casa de investimentos, &eacute; demasiado importante para fracassar. Se voc&ecirc; &eacute; o Goldman Sachs ou o Citigroup, n&atilde;o pode fracassar porque isso derrubaria toda a economia. Por isso podem fazer empr&eacute;stimos de risco, para ganhar muito dinheiro, e se algo d&aacute; errado, o governo se encarregar&aacute; do resgate. <\/p>\n<p>A guerra contra o narcotr&aacute;fico <\/p>\n<p>A guerra contra a droga, que se espalha por v&aacute;rios pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina, entre eles o M&eacute;xico, tem velhos antecedentes. Revitalizada por Nixon, foi um esfor&ccedil;o para superar os efeitos da guerra do Vietn&atilde;, nos EUA. A guerra foi um fator que levou a uma importante revolu&ccedil;&atilde;o cultural nos anos 60, a qual civilizou o pa&iacute;s: direitos da mulher, direitos civis. Ou seja, democratizou o territ&oacute;rio, aterrorizando as elites. A &uacute;ltima coisa que desejavam era a democracia, os direitos da popula&ccedil;&atilde;o, etc., raz&atilde;o pela qual lan&ccedil;aram uma enorme contraofensiva. Parte dela foi a guerra contra as drogas. <\/p>\n<p>Ela foi desenhada para transportar a concep&ccedil;&atilde;o da guerra do Vietn&atilde;: do que n&oacute;s est&aacute;vamos fazendo aos vietnamitas ao que eles n&atilde;o estavam fazendo a n&oacute;s. O grande tema no final dos anos 60 nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, inclusive os liberais, foi que a guerra do Vietn&atilde; foi uma guerra contra os EUA. Os vietnamitas estavam destruindo nosso pa&iacute;s com drogas. Foi um mito fabricado pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o nos filmes e na imprensa. <\/p>\n<p>Inventou-se a hist&oacute;ria de um ex&eacute;rcito cheio de soldados viciados em drogas que, ao regressar para casa, converteram-se em delinquentes, aterrorizando nossas cidades. Sim, havia uso de drogas entre os militares, mas n&atilde;o era muito diferente do que existia em outros setores da sociedade. Foi um mito fabricado. &Eacute; disso que se tratava a guerra contra as drogas. Assim se mudou a concep&ccedil;&atilde;o da guerra do Vietn&atilde;, transformando-a em uma guerra na qual n&oacute;s &eacute;ramos as v&iacute;timas. <\/p>\n<p>Isso se encaixou muito bem com as campanhas em favor da lei e da ordem. Dizia-se que nossas cidades se desgarravam por causa do movimento anti-guerra e dos rebeldes culturais, e que por isso era preciso impor a lei e a ordem. Ali cabia a guerra contra a droga. <\/p>\n<p>Reagan ampliou-a de maneira significativa. Nos primeiros anos de sua administra&ccedil;&atilde;o intensificou-se a campanha, acusando os comunistas de promover o consumo de drogas. No in&iacute;cio dos anos 80, os funcion&aacute;rios que levavam a s&eacute;rio a guerra contra as drogas descobriram um incremento significativo e inexplic&aacute;vel de fundos em bancos do sul da Fl&oacute;rida. Lan&ccedil;aram uma campanha para det&ecirc;-lo. A Casa Branca interveio e suspendeu a campanha. <\/p>\n<p>Quem o fez? George Bush pai, neste per&iacute;odo o encarregado da guerra contra as drogas. Foi quando a taxa de pris&otilde;es aumentou de maneira significativa, principalmente a pris&atilde;o de negros. Agora o n&uacute;mero de prisioneiros per capita &eacute; o mais alto do mundo. No entanto, a taxa de criminalidade &eacute; quase igual a dos outros pa&iacute;ses. &Eacute; um controle sobre parte da popula&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um assunto de classe. <\/p>\n<p>A guerra contra as drogas, como outras pol&iacute;ticas, promovidas tanto por liberais como por conservadores, &eacute; uma tentativa para controlar a democratiza&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as sociais. <\/p>\n<p>H&aacute; alguns dias, o Departamento de Estado emitiu sua certifica&ccedil;&atilde;o de coopera&ccedil;&atilde;o na luta contra as drogas. Os tr&ecirc;s pa&iacute;ses que foram &ldquo;descertificados&rdquo; s&atilde;o Myamar, uma ditadura militar &ndash; n&atilde;o importa, est&aacute; apoiada por empresas petroleiras ocidentais -, Venezuela e Bol&iacute;via, que s&atilde;o inimigos dos EUA. Nem M&eacute;xico, nem Col&ocirc;mbia, nem Estados Unidos, em todos os quais h&aacute; narcotr&aacute;fico. <\/p>\n<p>Um lugar interessante <\/p>\n<p>O elemento central do neoliberalismo &eacute; a liberaliza&ccedil;&atilde;o dos mercados financeiros, que torna vulner&aacute;veis os pa&iacute;ses que t&ecirc;m investimentos estrangeiros. Se um pa&iacute;s n&atilde;o pode controlar sua moeda e a fuga de capitais, est&aacute; sob o controle dos investidores estrangeiros. Eles podem destruir uma economia se n&atilde;o gostarem de algo que esse pa&iacute;s faz. Essa &eacute; outra forma de controlar povos e for&ccedil;as sociais, como os movimentos oper&aacute;rios. <\/p>\n<p>S&atilde;o rea&ccedil;&otilde;es naturais de um empresariado muito concentrado, com grande consci&ecirc;ncia de classe. Claro que h&aacute; resist&ecirc;ncia, mas fragmentada e pouco organizada e por isso podem seguir promovendo pol&iacute;ticas &agrave;s quais a maioria da popula&ccedil;&atilde;o se op&otilde;e. &Agrave;s vezes isso chega ao extremo. <\/p>\n<p>O setor financeiro est&aacute; o mesmo que antes; as seguradoras de sa&uacute;de ganharam com a reforma de sa&uacute;de, as empresas de energia ganharam com a reforma do setor, os sindicatos perderam com a reforma trabalhista e, certamente, a popula&ccedil;&atilde;o dos EUA e do mundo perde porque a destrui&ccedil;&atilde;o da economia &eacute; grave por si mesma. Se o meio ambiente &eacute; destru&iacute;do, os que mais sofrer&atilde;o ser&atilde;o os pobres. Os ricos sobreviver&atilde;o aos efeitos do aquecimento global. <\/p>\n<p>Por isso a Am&eacute;rica Latina &eacute; um dos lugares no mundo hoje verdadeiramente interessantes. &Eacute; um dos lugares onde h&aacute; uma verdadeira resist&ecirc;ncia a tudo isso. At&eacute; onde chegar&aacute;? N&atilde;o se sabe. N&atilde;o me surpreenderia com um giro &agrave; direita nas pr&oacute;ximas elei&ccedil;&otilde;es na Am&eacute;rica Latina. Mesmo assim, ter&aacute; se conseguido um avan&ccedil;o que assenta as bases para algo mais. N&atilde;o h&aacute; muitos lugares no mundo dos quais se possa dizer o mesmo. <br \/><em><br \/>Tradu&ccedil;&atilde;o: Katarina Peixoto <\/em><br \/><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/port.pravda.ru\/mundo\/29-09-2009\/28058-noamchomsky-0\" ><br \/>GO TO ORIGINAL &ndash; PRAVDA.RU<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista ao La Jornada, Noam Chomsky fala sobre a Am&eacute;rica Latina, definindo-a como uma das &uacute;nicas regi&otilde;es do mundo onde h&aacute; uma resist&ecirc;ncia real ao poder do imp&eacute;rio. &quot;Pela primeira vez em 500 anos h&aacute; movimentos rumo a uma verdadeira independ&ecirc;ncia e separa&ccedil;&atilde;o do mundo imperial. 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