{"id":29257,"date":"2013-06-03T12:00:27","date_gmt":"2013-06-03T11:00:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=29257"},"modified":"2015-05-06T12:52:58","modified_gmt":"2015-05-06T11:52:58","slug":"portugues-europa-vive-catastrofe-social-e-esquerda-deve-enfrentar-capital-financeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/06\/portugues-europa-vive-catastrofe-social-e-esquerda-deve-enfrentar-capital-financeiro\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) &#8220;Europa Vive Cat\u00e1strofe Social e Esquerda Deve Enfrentar Capital Financeiro&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><i>Em entrevista \u00e0 Carta Maior, o economista portugu\u00eas Francisco Lou\u00e7\u00e3 adverte para a situa\u00e7\u00e3o de cat\u00e1strofe social em v\u00e1rios pa\u00edses europeus que coloca o mundo frente a uma situa\u00e7\u00e3o perigosa. &#8220;A primeira grande depress\u00e3o, nos anos 30, produziu o fascismo, o nazismo e a guerra. Estamos come\u00e7ando a viver uma segunda grande depress\u00e3o&#8221;. Para Lou\u00e7\u00e3, a luta central da esquerda hoje \u00e9 contra o capital financeiro que se julga imune \u00e0 democracia e est\u00e1 escravizando pa\u00edses e povos.<\/i><\/p>\n<div id=\"attachment_29260\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/foto_mat_42024.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-29260\" class=\"size-medium wp-image-29260\" alt=\"Francisco Lou\u00e7\u00e3\" src=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/foto_mat_42024-300x185.jpg\" width=\"300\" height=\"185\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/foto_mat_42024-300x185.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/foto_mat_42024.jpg 470w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-29260\" class=\"wp-caption-text\">Francisco Lou\u00e7\u00e3<\/p><\/div>\n<p><b>Porto Alegre<\/b> &#8211; A Europa j\u00e1 come\u00e7a a viver uma situa\u00e7\u00e3o de cat\u00e1strofe social que coloca o mundo inteiro frente a uma situa\u00e7\u00e3o muito perigosa. Quando houve a primeira grande depress\u00e3o, nos anos 30, ela produziu o fascismo, o nazismo e a guerra. Estamos come\u00e7ando a viver uma segunda grande depress\u00e3o. Em alguns pa\u00edses, como Portugal, Gr\u00e9cia e outros, estamos no nono trimestre de recess\u00e3o, no terceiro ano consecutivo de recess\u00e3o. E ela \u00e9 muito mais profunda agora do que aquela que se seguiu imediatamente ap\u00f3s a crise dos subprime em 2008, e est\u00e1 come\u00e7ando a atingir os pa\u00edses centrais. Estamos, portanto, diante de um quadro perigos\u00edssimo do ponto de vista social e pol\u00edtico. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 do economista e pol\u00edtico portugu\u00eas, Francisco Lou\u00e7\u00e3, dirigente do Bloco de Esquerda, uma das principais for\u00e7as que luta contra as pol\u00edticas de austeridade que instauraram a recess\u00e3o e o desemprego em v\u00e1rios pa\u00edses europeus.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 Carta Maior, Lou\u00e7\u00e3 fala da dimens\u00e3o dram\u00e1tica que a crise come\u00e7a a assumir no continente europeu e aponta o que considera os principais desafios para a esquerda: a luta contra o capital financeiro e contra a l\u00f3gica que transformou a d\u00edvida soberana de pa\u00edses em elemento de acumula\u00e7\u00e3o de capital. A esquerda, defende Lou\u00e7\u00e3, precisa saber que o seu eixo estrat\u00e9gico \u00e9 atacar o sistema financeiro.<\/p>\n<p>\u201cO sistema financeiro gera a d\u00edvida n\u00e3o s\u00f3 como uma forma de explora\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica do trabalho, mas como uma forma transversal de criar, sobre toda sociedade, uma no\u00e7\u00e3o de culpa, de culpa do pa\u00eds, da popula\u00e7\u00e3o, uma no\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um texto da juventude de Marx, <i>\u201cBanca e cr\u00e9dito\u201d<\/i>, em que ele diz que a rela\u00e7\u00e3o entre devedor e credor \u00e9 a forma mais violenta de aliena\u00e7\u00e3o, porque representa a coisifica\u00e7\u00e3o da pessoa como dinheiro. Creio que estamos caminhando neste sentido\u201d.<\/p>\n<p>Lou\u00e7\u00e3 falou sobre esses temas, dia 21 de maio, no Sindicato dos Banc\u00e1rios de Porto Alegre, em um debate sobre a crise do capitalismo na Europa, promovido pelos mandatos do deputado estadual Raul Pont e da vereadora Sofia Cavedon, do PT. Antes disso, concedeu essa entrevista \u00e0 Carta Maior.<\/p>\n<p><b>Carta Maior<\/b>: <i>Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de Portugal no atual cen\u00e1rio de crise vivido na Europa? E qual a compara\u00e7\u00e3o que pode se estabelecer com o quadro da Gr\u00e9cia?<\/i><\/p>\n<p><b>Francisco Lou\u00e7\u00e3<\/b>: Portugal completou, em maio, dois anos de interven\u00e7\u00e3o da chamada \u201ctroika\u201d (Fundo Monet\u00e1rio Internacional, Comiss\u00e3o Europeia e Banco Central Europeu). A Gr\u00e9cia, em contrapartida, completou tr\u00eas anos. Nos dois casos, o resultado \u00e9 uma cat\u00e1strofe social. A austeridade foi aplicada por meio de um grande aumento dos impostos sobre o trabalho e, sobretudo, pela via da redu\u00e7\u00e3o do apoio social aos desempregados, do investimento p\u00fablico na sa\u00fade, da degrada\u00e7\u00e3o da escola p\u00fablica. Em Portugal, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade s\u00e3o servi\u00e7os p\u00fablicos de grande dimens\u00e3o, prest\u00edgio social e apoio democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e9cia, o desemprego entre os jovens j\u00e1 ultrapassa os 50%; em Portugal, ultrapassa os 40%. E \u00e9 preciso considerar tamb\u00e9m que na outra metade, entre os jovens que est\u00e3o conseguindo trabalhar, mais de 60% est\u00e3o em empregos totalmente prec\u00e1rios, o que caminha na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria da tradi\u00e7\u00e3o contratual de regula\u00e7\u00e3o do trabalho na Europa. \u00c9 um trabalho muito mal pago e por per\u00edodos muito curtos. Essa grande mudan\u00e7a na estrutura social \u00e9 o resultado direto de dois ou tr\u00eas anos do programa de austeridade.<\/p>\n<p>Esse programa provoca uma recess\u00e3o e a diminui\u00e7\u00e3o da receita fiscal, ou seja, um aumento do d\u00e9ficit, o que leva a medidas suplementares de reorganiza\u00e7\u00e3o social, de engenharia social para aumentar a transfer\u00eancia de rendimentos da popula\u00e7\u00e3o para a renda financeira que \u00e9 d\u00edvida, ou do trabalho para a renda do capital.<\/p>\n<p>Um dos objetivos mais importantes dessa pol\u00edtica tem sido atingir o sistema da previd\u00eancia social, tanto no sentido de diminuir o pagamento das pens\u00f5es quanto no de aumentar a idade da aposentadoria e prolongar o tempo de trabalho. Essa disputa sobre o tempo do trabalho e sobre o sal\u00e1rio do trabalhador pensionista tornou-se o centro de toda a estrat\u00e9gia desta nova organiza\u00e7\u00e3o da economia. O desemprego geral na Gr\u00e9cia, na Espanha e em Portugal atingiu um recorde hist\u00f3rico. Em n\u00fameros reais, \u00e9 mais de 22% em Portugal. Mas o efeito conjugado dessas pol\u00edticas n\u00e3o atinge s\u00f3 os pa\u00edses mediterr\u00e2neos, mas tamb\u00e9m outros pa\u00edses como a It\u00e1lia. Considerando apenas It\u00e1lia e Espanha j\u00e1 temos a\u00ed duas das maiores economias do mundo. A It\u00e1lia e a Espanha, junto com outros pa\u00edses perif\u00e9ricos como Gr\u00e9cia, Irlanda e Portugal, representam juntos cerca de 6% do produto mundial, o que \u00e9 um peso enorme, com efeitos muito grandes sobre a Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Essa pol\u00edtica tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e1 provocando uma recess\u00e3o no conjunto da Uni\u00e3o Europeia. A Fran\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 em recess\u00e3o t\u00e9cnica (segundo trimestre consecutivo de recess\u00e3o) e a Alemanha entrar\u00e1 em recess\u00e3o t\u00e9cnica em poucos meses. Nove dos dezessete pa\u00edses da zona euro est\u00e3o em recess\u00e3o e \u00e9 prov\u00e1vel que, at\u00e9 o fim do ano, quase todos estejam em recess\u00e3o, com alguns apresentando um risco muito grande. O risco maior talvez seja o da Holanda, que \u00e9 uma extens\u00e3o econ\u00f4mica da Alemanha e uma extens\u00e3o pol\u00edtica do governo da senhora Merkel, mas cujo grau de endividamento das fam\u00edlias \u00e9 t\u00e3o grande que provoca uma instabilidade no sistema financeiro.<\/p>\n<p>A novidade na Europa \u00e9 que a recess\u00e3o instalou a crise nos pa\u00edses que provocavam a recess\u00e3o, nos pa\u00edses que dirigiam a pol\u00edtica de austeridade. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um problema dos pa\u00edses do sul, mas sim do conjunto da Uni\u00e3o Europeia. Isso talvez seja o elemento mais grave do cen\u00e1rio atual pelo efeito de contamina\u00e7\u00e3o que apresenta sobre algumas das maiores economias.<\/p>\n<p><b>Carta Maior<\/b>: <i>Diante desse cen\u00e1rio, como \u00e9 que se mant\u00e9m ainda essa pol\u00edtica de austeridade? Qual o discurso oficial para justificar esse caminho?<\/i><\/p>\n<p><b>Francisco Lou\u00e7\u00e3<\/b>: O discurso oficial consiste em afirmar que a d\u00edvida \u00e9 uma culpa e que, se h\u00e1 desemprego, \u00e9 preciso baixar o sal\u00e1rio, mesmo que o sal\u00e1rio seja muito baixo. \u00c9 o discurso neoliberal de sempre. A redu\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio \u00e9 a vari\u00e1vel que permite relan\u00e7ar a acumula\u00e7\u00e3o, porque a rentabilidade da empresa aumenta na medida em que o sal\u00e1rio baixa, e relan\u00e7ar o ajuste fiscal no conjunto da economia.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia concreta \u00e9 totalmente contradit\u00f3ria com essa teoria grotesca. A experi\u00eancia prova que a redu\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio reduz a procura, aumenta o d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio e a crise como um todo. Ou seja, essa pol\u00edtica aumenta a d\u00edvida, que era o objetivo de corre\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica. Ao inv\u00e9s de reduzir a d\u00edvida, aumenta. A l\u00f3gica social dessas pol\u00edticas \u00e9 explicada pela domina\u00e7\u00e3o do capital financeiro. Para o capital financeiro, a d\u00edvida p\u00fablica soberana dos pa\u00edses europeus passou a ser a garantia da rentabilidade de longo prazo das aplica\u00e7\u00f5es dos excedentes financeiros. Isso ocorreu h\u00e1 vinte anos na Am\u00e9rica Latina e na \u00c1frica, e agora ocorre na Europa.<\/p>\n<p>O mercado da d\u00edvida p\u00fablica passou a ser a garantia de rentabilidade. J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais os mercados futuros de mat\u00e9rias-primas, de alimentos, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 mais o mercado imobili\u00e1rio que provocou a crise dos subprime nos Estados Unidos. O mercado da d\u00edvida p\u00fablica tem uma grande vantagem do ponto de vista do capital financeiro: ele tem a seguran\u00e7a de uma rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de domina\u00e7\u00e3o muito forte e, portanto, garante durante um per\u00edodo longo \u2013 pelo menos dez anos \u2013 uma extra\u00e7\u00e3o financeira sobre os impostos dos pa\u00edses que ficam condicionados a um juro muito elevado e submetidos a uma vulnerabilidade perante o sistema financeiro. \u00c9, portanto, uma renda garantida e produzida na rela\u00e7\u00e3o de Estado para Estado.<\/p>\n<p>O processo que estamos vendo agora \u00e9 a grande recomposi\u00e7\u00e3o do capital financeiro depois da crise dos subprime nos Estados Unidos, o enorme poder que o sistema financeiro tem, mesmo sobre os bancos comerciais, e a subordina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos governos, da socialdemocracia e da direita europeias ao receitu\u00e1rio neoliberal e a essas pol\u00edticas agressivas do rentismo financeiro sobre as popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><b>Carta Maior<\/b>: <i>Quais s\u00e3o as consequ\u00eancias pol\u00edticas da aplica\u00e7\u00e3o dessa l\u00f3gica no plano econ\u00f4mico e financeiro? No caso da Gr\u00e9cia, tivemos um partido de esquerda diferente da socialdemocracia que quase chegou ao poder. Na Fran\u00e7a, os socialistas chegaram ao poder acenando com algum tipo de mudan\u00e7a, que at\u00e9 agora n\u00e3o se confirmou. Por outro lado, em alguns pa\u00edses temos o crescimento de partidos nacionalistas de extrema-direita. Do ponto de vista da esquerda, o resultado de tudo isso n\u00e3o parece ser nada bom&#8230;<\/i><\/p>\n<p><b>Francisco Lou\u00e7\u00e3<\/b>: Qualquer trag\u00e9dia social \u00e9 muito prejudicial \u00e0 esquerda. Qualquer desagrega\u00e7\u00e3o social, destrui\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos, qualquer diminui\u00e7\u00e3o da democracia \u00e9 prejudicial \u00e0 esquerda. A privatiza\u00e7\u00e3o dos hospitais p\u00fablicos em Madri \u00e9 uma diminui\u00e7\u00e3o da democracia para todos os efeitos. Qualquer recuo social desse tipo \u00e9 sempre muito prejudicial \u00e0 esquerda. Mas as situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o bem diferentes. H\u00e1 um grande ascenso da extrema direita nazista na Gr\u00e9cia e h\u00e1 uma recomposi\u00e7\u00e3o das direitas e de v\u00e1rios populismos, incluindo um certo populismo \u00e0 esquerda, como o de Beppe Grillo, na It\u00e1lia, e o renascimento de Berlusconi como for\u00e7a dominante na direita italiana.<\/p>\n<p>J\u00e1 na Espanha, h\u00e1 uma desagrega\u00e7\u00e3o do regime, um ascenso da Esquerda Unida, que j\u00e1 tem cerca de 15% nas pesquisas, e uma queda do Partido Popular, que \u00e9 o partido hist\u00f3rico da direita espanhola, e tamb\u00e9m da socialdemocracia. Ambos est\u00e3o com cerca de 20% nas pesquisas. Talvez o fen\u00f4meno mais particular da Espanha \u00e9 a grande desagrega\u00e7\u00e3o e pulveriza\u00e7\u00e3o do sistema eleitoral, dado o peso de nacionalidades como Catalunha, Pa\u00eds Basco e Gal\u00edcia.<\/p>\n<p>A Gr\u00e9cia \u00e9 o pa\u00eds que apresentou a alternativa de esquerda mais forte. O Syriza representou 27% dos votos, apenas 2% menos que o partido de direita que ganhou a elei\u00e7\u00e3o. E hoje, nas pesquisas, continua mantendo esse protagonismo popular. Se houver um governo de esquerda na Gr\u00e9cia \u00e9 porque o Syriza ganhou e conseguiu construir uma coliga\u00e7\u00e3o para romper com a troika. Do ponto de vista pol\u00edtico, tem a proposta mais avan\u00e7ada, \u00e9 o partido mais consistente do ponto de vista estrat\u00e9gico e t\u00e1tico e \u00e9 a for\u00e7a mais polarizadora da sociedade. \u00c9 o caso onde a experi\u00eancia da desagrega\u00e7\u00e3o produziu uma for\u00e7a que a esquerda deu corpo e resposta social e integrou, assimilou e comp\u00f4s uma grande frente pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Do outro lado, o partido da direita, a Nova Democracia, de Samaras, fez uma coliga\u00e7\u00e3o com dois grupos que v\u00eam da esquerda, o Pasok (Partido Socialista) e a Nova Democracia (que, ali\u00e1s, \u00e9 uma cis\u00e3o do Syriza, ocorrida h\u00e1 muitos anos), dois grupos socialdemocratas. H\u00e1 tr\u00eas anos, o Pasok tinha 40% das prefer\u00eancias de voto na Gr\u00e9cia. Hoje est\u00e1 com menos de 6%. A sua participa\u00e7\u00e3o em um governo comprometido com a destrui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e sob a lideran\u00e7a da direita provocou uma cat\u00e1strofe eleitoral numa longa e profunda tradi\u00e7\u00e3o social que tinha a socialdemocracia grega. Papandreu ainda \u00e9 o presidente da Segunda Internacional, mas \u00e9 uma mera sombra no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A Gr\u00e9cia \u00e9 um caso de grande polariza\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o social onde a esquerda aparece com a proposta de um governo que possa romper com a troika e anular uma parte da d\u00edvida para recuperar a soberania grega, e onde o centro e a direita v\u00e3o se desfazendo neste contexto.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a \u00e9 um caso diferente, pois come\u00e7ou agora a entrar em recess\u00e3o e tem pol\u00edticas de austeridade, mas nada que se compare \u00e0 experi\u00eancia de cat\u00e1strofe social vivida pela Gr\u00e9cia. A Fran\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 um pa\u00eds muito politizado, com uma esquerda pol\u00edtica muito forte. A Frente de Esquerda, que juntou v\u00e1rias for\u00e7as de esquerda em torno de Jean-Luc M\u00e9lenchon, fez 10 milh\u00f5es de votos, cerca de 10% do eleitorado, e representou uma alternativa muito forte na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o francesa. Hollande ganhou com a promessa de fazer da Fran\u00e7a um parceiro mais forte dentro da Uni\u00e3o Europeia para se contrapor \u00e0s vis\u00f5es mais neoliberais e autorit\u00e1rias de Merkel, mais especificamente para corrigir o tratado or\u00e7ament\u00e1rio europeu, que obriga a destrui\u00e7\u00e3o do Estado social, das pol\u00edticas p\u00fablicas na sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e previd\u00eancia social, pela via da restri\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria. Foi uma desilus\u00e3o completa.<\/p>\n<p>Um ano depois, Hollande n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o presidente franc\u00eas que perdeu popularidade mais depressa no primeiro ano de seu mandato, como enfraqueceu o papel da Fran\u00e7a no quadro da Uni\u00e3o Europeia, como um contraponto a Alemanha. Hoje, a Fran\u00e7a \u00e9 um pa\u00eds menor no contexto da Uni\u00e3o Europeia porque obedece sem fazer nenhum combate. A desilus\u00e3o com Hollande e o Partido Socialista franc\u00eas \u00e9 muito forte neste contexto.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m alguns fatores de desagrega\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no cen\u00e1rio europeu. O Partido Democr\u00e1tico italiano, antigo Partido Comunista que representa hoje a Segunda Internacional na It\u00e1lia, fez uma alian\u00e7a com Berlusconi e est\u00e1 se aproximando cada vez mais desse horizonte da austeridade e de ataque social.<\/p>\n<p>S\u00f3 haver\u00e1 renascimento de uma esquerda forte na Uni\u00e3o Europeia, como existe em alguns pa\u00edses como Gr\u00e9cia, Portugal, Espanha e Fran\u00e7a, se ela for capaz de protagonizar uma alternativa que proponha um governo que enfrente o capital financeiro e possa romper com a troika e recompor uma pol\u00edtica social.<\/p>\n<p><b>Carta Maior<\/b>: <i>O mais pr\u00f3ximo disso hoje seria a Gr\u00e9cia?<\/i><\/p>\n<p><b>Francisco Lou\u00e7\u00e3<\/b>: Certamente. Na Gr\u00e9cia \u00e9 onde h\u00e1 um partido em melhores condi\u00e7\u00f5es do ponto de vista da popularidade e eleitoral para conseguir essa iniciativa. Mas a trag\u00e9dia social que se vive \u00e9 t\u00e3o forte que pode haver mudan\u00e7as muito r\u00e1pidas. O erro na It\u00e1lia \u00e9 uma esquerda que foi para o centro, aceitou pol\u00edticas de destrui\u00e7\u00e3o social, perdendo credibilidade e autoridade. Perdeu seu patrim\u00f4nio pol\u00edtico de esquerda e n\u00e3o polarizou o pa\u00eds. \u00c9 isso que permite nomes como Beppe Grillo ou mesmo Berlusconi terem um protagonismo t\u00e3o importante. O grande problema na It\u00e1lia \u00e9 que o centro n\u00e3o \u00e9 moderado, mas muito radical em sua defesa do neoliberalismo. \u00c9 um centro agressivo e destruidor. N\u00f3s precisamos de uma esquerda que se contraponha a isso.<\/p>\n<p>H\u00e1 movimentos sociais na Europa, como os indignados na Espanha, em Portugal onde houve recentemente (15 de mar\u00e7o) uma manifesta\u00e7\u00e3o com um milh\u00e3o de pessoas nas ruas (cerca de 10% da popula\u00e7\u00e3o), um fen\u00f4meno social e popular gigantesco. A esquerda contra a troika representa hoje cerca de 20%, o que ainda n\u00e3o \u00e9 suficiente para protagonizar um governo, mas \u00e9 suficiente para formar uma for\u00e7a pol\u00edtica muito importante.<\/p>\n<p><b>Carta Maior<\/b>: <i>Neste contexto de crise, quais s\u00e3o os riscos que corre a Uni\u00e3o Europeia?<\/i><\/p>\n<p><b>Francisco Lou\u00e7\u00e3<\/b>: O risco mais forte, no curto prazo, \u00e9 o euro, que \u00e9 s\u00f3 uma parte da Uni\u00e3o Europeia, incluindo 17 pa\u00edses de um total de 27. A estrutura do euro foi concebida para favorecer a Alemanha como um imp\u00e9rio financeiro. A Alemanha j\u00e1 era o maior exportador do mundo e uma grande pot\u00eancia industrial e pol\u00edtica, mas o centro da finan\u00e7a ainda era a City de Londres. O euro permitiu a Alemanha transformar Frankfurt n\u00e3o s\u00f3 no centro de controle da Uni\u00e3o Europeia por meio do Banco Central Europeu, como tamb\u00e9m em um centro financeiro de primeiro plano. Isso foi um grande refor\u00e7o do poder pol\u00edtico que Merkel protagonizou. Mas isso foi feito com um euro que distorce a economia, prejudica muitos pa\u00edses e cria um efeito domin\u00f3 de descontrole social e de crise social que n\u00e3o para.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o autoritarismo do governo de Merkel e do governo da Uni\u00e3o Europeia os leva a cometer erros muito evidentes. A forma como trataram Chipre \u00e9 um exemplo disso. Chipre \u00e9 uma economia muito pequena, representando 0,2% da economia europeia. No entanto, ao atingirem a confian\u00e7a no sistema banc\u00e1rio em Chipre, disseram aos depositantes nos bancos espanh\u00f3is e italianos que eles podem sofrer um imposto-surpresa sobre os seus dep\u00f3sitos. Isso ataca a confian\u00e7a no sistema banc\u00e1rio que \u00e9 uma base fundamental do sistema capitalista. Isso teve um efeito domin\u00f3 muito forte no conjunto da Uni\u00e3o Europeia, o que prova, ali\u00e1s, a estupidez e a arrog\u00e2ncia dessa dire\u00e7\u00e3o europeia. Portanto, os riscos de desagrega\u00e7\u00e3o s\u00e3o fortes.<\/p>\n<p>Se a Uni\u00e3o Europeia e o euro n\u00e3o reduzirem o peso da d\u00edvida pela via de uma mutualiza\u00e7\u00e3o ou de alguma outra medida, a desagrega\u00e7\u00e3o do euro \u00e9 muito prov\u00e1vel e pode afetar n\u00e3o apenas os pequenos pa\u00edses do Mediterr\u00e2neo, mas tamb\u00e9m alguns pa\u00edses importantes. A Espanha seria o primeiro. No dia em que um pa\u00eds sair do euro, os mercados financeiros apostar\u00e3o sobre qual ser\u00e1 o pr\u00f3ximo. Assim, a Gr\u00e9cia sair do euro n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o para a crise que se imp\u00f4s ao povo grego, mas representa um risco para toda a zona euro e para a Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Sob a \u00e9gide dessas pol\u00edticas neoliberais, a Uni\u00e3o Europeia promove a privatiza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro, que em grande parte era p\u00fablico, gera a privatiza\u00e7\u00e3o da previd\u00eancia social, que era p\u00fablica, do sistema de sa\u00fade, que \u00e9 um mercado important\u00edssimo para o capital financeiro. Vender sa\u00fade \u00e9 o melhor neg\u00f3cio que se pode ter porque, quem precisa de sa\u00fade, pagar\u00e1 qualquer pre\u00e7o por isso. A procura n\u00e3o est\u00e1 condicionada. Todos os recursos de uma fam\u00edlia s\u00e3o direcionados a salvar uma crian\u00e7a se ela tiver um problema de sa\u00fade. A chantagem sobre a vida das pessoas \u00e9 absoluta. \u00c9 por isso que o neoliberalismo insiste tanto em entrar nesse mercado.<\/p>\n<p><b>Carta Maior<\/b>: <i>Voc\u00ea disse que as situa\u00e7\u00f5es de desagrega\u00e7\u00e3o social vividas hoje na Europa n\u00e3o ajudam em nada a esquerda. H\u00e1 alguns anos, durante um debate no F\u00f3rum Social Mundial, em Porto Alegre, voc\u00ea defendeu que a esquerda precisava ter ideias fortes para combater o neoliberalismo. Quais s\u00e3o essas ideias fortes de que a esquerda precisa para enfrentar o que est\u00e1 acontecendo na Europa?<\/i><\/p>\n<p><b>Francisco Lou\u00e7\u00e3<\/b>: Quando houve a primeira grande depress\u00e3o, nos anos 30, ela produziu o fascismo, o nazismo e a guerra. Estamos come\u00e7ando a viver uma segunda grande depress\u00e3o. Em alguns pa\u00edses, como Portugal, Gr\u00e9cia e outros, estamos no nono trimestre de recess\u00e3o, no terceiro ano consecutivo de recess\u00e3o. E ela \u00e9 muito mais profunda agora do que aquela que se seguiu imediatamente ap\u00f3s a crise dos subprime em 2008, e est\u00e1 come\u00e7ando a atingir os pa\u00edses centrais. Estamos, portanto, diante de um quadro perigos\u00edssimo do ponto de vista social e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Neste contexto, a quest\u00e3o decisiva no curto prazo \u00e9 o combate \u00e0 d\u00edvida. Creio que a\u00ed a esquerda precisa de ideias muito fortes. Ela precisa saber que o seu eixo estrat\u00e9gico \u00e9 atacar o sistema financeiro. O sistema financeiro gera a d\u00edvida n\u00e3o s\u00f3 como uma forma de explora\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica do trabalho, mas como uma forma transversal de criar, sobre toda sociedade, uma no\u00e7\u00e3o de culpa, de culpa do pa\u00eds, da popula\u00e7\u00e3o, uma no\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um texto da juventude de Marx, \u201cBanca e cr\u00e9dito\u201d, em que ele diz que a rela\u00e7\u00e3o entre devedor e credor \u00e9 a forma mais violenta de aliena\u00e7\u00e3o, porque representa a coisifica\u00e7\u00e3o da pessoa como dinheiro. Creio que estamos caminhando neste sentido.<\/p>\n<p>O sistema financeiro internacional tem a particularidade de estar totalmente protegido da democracia. Os governos podem ser substitu\u00eddos, sob a condi\u00e7\u00e3o de que, qualquer governo, obede\u00e7a ao sistema financeiro, cobrando de seu povo o custo da d\u00edvida crescente. O ponto mais forte da ideia que a esquerda deve defender \u00e9 a recupera\u00e7\u00e3o da soberania da democracia como capacidade de decis\u00e3o sobre o tempo. A d\u00edvida n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 explora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m significa retirar das pessoas a possibilidade de escolher o tempo, de viver o futuro. N\u00e3o h\u00e1 futuro quando a d\u00edvida determina toda a pol\u00edtica de uma sociedade, quando determina o empobrecimento de uma sociedade.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o problema do desemprego jovem \u00e9 t\u00e3o importante. O que vemos hoje na sociedade sob o dom\u00ednio das ideias liberais \u00e9 que n\u00e3o deve haver contrato de trabalho, que os sindicatos devem ter um papel residual, que as rela\u00e7\u00f5es sociais contratuais devem desaparecer e ser precarizadas.<\/p>\n<p>Essas ideias fortes do liberalismo s\u00f3 podem ser enfrentadas com ideias muito fortes \u00e0 esquerda. N\u00f3s sabemos que nosso alvo \u00e9 o capital financeiro e que o rastro de destrui\u00e7\u00e3o que esse capital est\u00e1 deixando tem como ponto de apoio a certeza de que \u00e9 imune \u00e0 democracia. Esse contra-ataque tem que ter como ponto de partida um governo de esquerda. \u00c9 preciso que haja governos de esquerda comprometidos com a luta contra o liberalismo. Governos que nas\u00e7am do ressurgimento de uma esquerda leal, fiel aos seus compromissos e ao seu povo, e que n\u00e3o dependa da socialdemocracia. Precisamos de uma esquerda socialista, da luta social e popular que possa tomar como bandeira essa vontade de conseguir uma maioria para um governo de esquerda totalmente comprometido com a ruptura com o liberalismo e com a finan\u00e7a. Isso significa uma luta de alt\u00edssimo n\u00edvel e intensidade. Significa pol\u00edtica dura que precisa de enorme sustento social, consci\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o social. \u00c9 disso que n\u00f3s precisamos.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=22109&amp;utm_source=emailmanager&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=Boletim_Carta_Maior__27052013\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista \u00e0 Carta Maior, o economista portugu\u00eas Francisco Lou\u00e7\u00e3 adverte para a situa\u00e7\u00e3o de cat\u00e1strofe social em v\u00e1rios pa\u00edses europeus que coloca o mundo frente a uma situa\u00e7\u00e3o perigosa. &#8220;A primeira grande depress\u00e3o, nos anos 30, produziu o fascismo, o nazismo e a guerra. Estamos come\u00e7ando a viver uma segunda grande depress\u00e3o&#8221;. 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