{"id":30756,"date":"2013-06-24T12:00:57","date_gmt":"2013-06-24T11:00:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=30756"},"modified":"2015-05-06T09:00:12","modified_gmt":"2015-05-06T08:00:12","slug":"portugues-nossos-sonhos-nao-cabem-no-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/06\/portugues-nossos-sonhos-nao-cabem-no-capitalismo\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) \u201cNossos Sonhos N\u00e3o Cabem no Capitalismo\u201d"},"content":{"rendered":"<p><i>Para Fernando Meirelles, reconstru\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica exige superar l\u00f3gicas que associam felicidade e sucesso a consumo e acumula\u00e7\u00e3o sem fim.<\/i><\/p>\n<p>\u2013<\/p>\n<p><i>Avan\u00e7ou de modo not\u00e1vel, nos \u00faltimos anos, a sensa\u00e7\u00e3o de que o peso do poder econ\u00f4mico est\u00e1 desfigurando a democracia, a ponto de lev\u00e1-la ao colapso. Um n\u00famero crescente de pensadores, ativistas, cidad\u00e3os comuns d\u00e1-se conta de fen\u00f4menos como a mercantiliza\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es e a institucionaliza\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de influ\u00eancia. Envolvidos em disputas eleitorais cada vez mais caras, partidos e governantes comprometem-se profundamente com os interesses de grupos empresariais que nutrem suas campanhas pol\u00edticas.<\/i><\/p>\n<p><i>O dinheiro oferecido pelos financiadores \u00e9 visto como um investimento e cobrado ao longo de cada dia de mandato. Com tal intensidade que muitos j\u00e1 n\u00e3o creem que seja poss\u00edvel adotar pol\u00edticas contr\u00e1rias aos interesses do poder econ\u00f4mico associado \u00e0 pol\u00edtica; e que mesmo decis\u00f5es simples e de bom senso elementar \u2013 como a reconstru\u00e7\u00e3o de uma malha ferrovi\u00e1ria no Brasil, ou a instala\u00e7\u00e3o de redes de ciclovias eficazes nas cidades \u2013 n\u00e3o saem do papel. Mas, se o diagn\u00f3stico \u00e9 conhecido, as alternativas rareiam. Como excluir da pol\u00edtica o Poder Corruptor?<\/i><\/p>\n<p><i>O cineasta Fernando Meirelles formulou uma hip\u00f3tese provocadora, em entrevista que concedeu \u00e0 jornalista In\u00eas Castilho, condutora da s\u00e9rie de di\u00e1logos sobre <\/i><i><a href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2012\/08\/29\/caminhos-para-a-politica-cidada-no-seculo-21\/\"  target=\"_blank\">Pol\u00edtica Cidad\u00e3<\/a><\/i><i>, produzida pelo <\/i><i><a href=\"http:\/\/www.ideafix.com.br\/\"  target=\"_blank\">Instituto de Pesquisas Ideafix<\/a><\/i><i>, por solicita\u00e7\u00e3o do\u00a0<\/i><i><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/2012\/08\/29\/nossos-sonhos-nao-cabem-no-capitalismo\/www.idsbrasil.net\"  target=\"_blank\">Instituto <\/a><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/2012\/08\/29\/nossos-sonhos-nao-cabem-no-capitalismo\/www.idsbrasil.net\"  target=\"_blank\">Democracia e Sustentabilidade<\/a><\/i><i> (IDS)<\/i><i>. Suas respostas sugerem que uma nova pol\u00edtica e um novo sistema econ\u00f4mico vir\u00e3o juntos. Ou seja, o que vivemos \u00e9 o desgaste geral de nossas formas de socializa\u00e7\u00e3o \u2013 um conjunto de rela\u00e7\u00f5es que envolve produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os, formas de decis\u00e3o coletiva, hierarquias concretas e simb\u00f3licas. Para super\u00e1-las ser\u00e1 necess\u00e1rio levar muito adiante certas transforma\u00e7\u00f5es culturais que j\u00e1 est\u00e3o se dando.<\/i><\/p>\n<p><i>Meirelles destaca a tens\u00e3o entre pol\u00edtica institucional (restrita aos \u201cgabinetes e restaurantes\u201d) e o intenso desejo de participa\u00e7\u00e3o da sociedade (\u201csou muito mais convocado, como cidad\u00e3o, que cinco anos atr\u00e1s\u201d). Ele lembra que n\u00e3o se trata apenas de discurso: atitudes transformadoras est\u00e3o se multiplicando em todo o mundo. No entanto, esbarram em obst\u00e1culos estruturais: \u201ca l\u00f3gica do dinheiro \u00e9 produzir sempre mais\u201d e a dos pol\u00edticos \u201cesgota-se em mandatos de quatro anos\u201d. Nenhum poder importa-se com as \u201cperspectivas de longo prazo\u201d, necess\u00e1rias para preservar a vida.<\/i><\/p>\n<p><i>Caber\u00e1 \u00e0 pr\u00f3pria sociedade, conclui Meirelles, estabelecer uma ruptura. N\u00e3o se trata da velha f\u00f3rmula de tomada do poder de Estado \u2013 mas da \u201cdific\u00edlima e demorada transforma\u00e7\u00e3o das nossas vidas\u201d. S\u00f3 a empreenderemos, no entanto, se soubermos que se trata de construir um novo sistema: \u201ca l\u00f3gica do capitalismo (\u2026) poderia fazer algum sentido (\u2026) num mundo que n\u00e3o \u00e9 mais o nosso\u201d. A supera\u00e7\u00e3o desta l\u00f3gica implicar\u00e1, entre outros passos, \u201cvalorizar bens n\u00e3o-materiais: educa\u00e7\u00e3o, esporte, cultura, ci\u00eancia \u2013 atividades humanas que n\u00e3o consomem o planeta e preenchem mais a alma que a busca desesperada pela reposi\u00e7\u00e3o de bens\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>A entrevista completa de Fernando Meirelles, que abre nossa s\u00e9rie, vem a seguir. <\/i><\/p>\n<p><b>Qual sua percep\u00e7\u00e3o sobre a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do brasileiro?<\/b><\/p>\n<p>A pol\u00edtica no Brasil ainda \u00e9 feita muito nos gabinetes e restaurantes, tem um qu\u00ea de futebol, o interesse pelo jogo de poder entre os partidos vem antes do debate das ideias. Isso \u00e9 muito frustrante para quem tenta acompanhar nossos homens p\u00fablicos. A boa not\u00edcia \u00e9 que, com o crescimento das redes sociais, a participa\u00e7\u00e3o popular tamb\u00e9m tende a crescer e o processo pol\u00edtico, a ficar mais transparente. A mobiliza\u00e7\u00e3o popular pela Ficha Limpa e contra o C\u00f3digo Florestal demonstraram que a popula\u00e7\u00e3o come\u00e7a a ter mais peso nas decis\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p><b>Que temas voc\u00ea acha que mobilizam a sociedade brasileira, hoje?<\/b><\/p>\n<p>A falta de transpar\u00eancia dos partidos e do governo vem mobilizando a sociedade, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil ser corrupto, hoje. A preocupa\u00e7\u00e3o com quest\u00f5es ambientais tamb\u00e9m mostra ser um forte tema para a mobliza\u00e7\u00e3o social. Isso j\u00e1 havia sido sentido com a expressiva vota\u00e7\u00e3o que teve a Marina Silva na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o \u00e0 presid\u00eancia e foi refor\u00e7ado agora, no processo de vota\u00e7\u00e3o e veto parcial do C\u00f3digo Florestal, que contou com abaixo-assinado de 2 milh\u00f5es de pessoas. Isso entre outras manifesta\u00e7\u00f5es, incluindo a cria\u00e7\u00e3o de sites especializados, transmiss\u00e3o ao vivo do congresso etc.<\/p>\n<p><b>Que formas o cidad\u00e3o comum tem de atuar politicamente?<\/b><\/p>\n<p>Passei anos sem receber nenhum abaixo-assinado, agora semanalmente sou chamado a me posicionar sobre os mais diferentes temas, internos e externos. Sinto-me hoje muito mais convocado, como cidad\u00e3o, do que cinco anos atr\u00e1s, e estimula saber que muitos desses movimentos populares est\u00e3o dando resultado. Est\u00e1 a\u00ed a primevera no norte da \u00c1frica que n\u00e3o nos deixa mentir.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea v\u00ea alguma particularidade quanto ao jovem?<\/b><\/p>\n<p>Os jovens talvez tenham menos interesse em pol\u00edtica do que quem l\u00ea jornal e tem o h\u00e1bito de se manter informado, mas est\u00e3o cada vez mais plugados, gra\u00e7as \u00e0s redes sociais. A era dos Sarneys, dos coron\u00e9is que trabalham em segredo, est\u00e1 acabando.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea acha que a pol\u00edtica institucional d\u00e1 conta da democracia?<\/b><\/p>\n<p>Sinto que os partidos n\u00e3o representam a vontade da popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o trabalham para o Estado nem para o bem do pa\u00eds \u2013 trabalham prioritariamente para se manter no poder. N\u00e3o saberia inventar outro sistema, mas percebo que este n\u00e3o d\u00e1 conta da complexidade do mundo de hoje. O ex-presidente Lula declarou recentemente em um programa de TV que aceitaria se candidatar novamente \u00e0 presid\u00eancia, para que o PSDB n\u00e3o ocupasse o lugar. Essa declara\u00e7\u00e3o infeliz resume a quest\u00e3o: o poder pol\u00edtico \u00e9 um jogo que se vence ou se perde, e \u00e9 isso que mobiliza seus participantes \u2013 o pa\u00eds vem depois, quando vem. Outro aspecto que tem me chamado a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que, por estarmos todos muito mais ligados, praticamente n\u00e3o h\u00e1 mais poder local. Um prefeito que n\u00e3o trabalhe com os outros prefeitos da regi\u00e3o n\u00e3o consegue fazer seu trabalho direito. Pa\u00edses que n\u00e3o integrem \u00f3rg\u00e3os internacionais nos quais se debatam os interesses comuns ficam de m\u00e3os atadas.<\/p>\n<p><b>Os anos 60 marcaram \u00e9poca, politicamente. O que mudou de l\u00e1 pra c\u00e1?<\/b><\/p>\n<p>Nos anos 60 o mundo estava dividido entre esquerda e direita, estava-se do lado de c\u00e1 ou do lado de l\u00e1. Quando voc\u00ea polariza, o jogo fica mais acess\u00edvel e mais apaixonante, vira um Fla-Flu. Depois tivemos o per\u00edodo em que a nossa sociedade foi convidada a se calar, e ent\u00e3o o mundo ficou muito mais complexo. Hoje a esquerda \u00e9 apoiada, por exemplo, pelo Jos\u00e9 Sarney e pelo Aldo Rebelo \u2013 este, um comunista que vota com os ruralistas. Tudo \u00e9 mais confuso, mais impenetr\u00e1vel. O pensamento e as f\u00f3rmulas de governan\u00e7a dos anos 60 n\u00e3o cabem mais no mundo de hoje.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea percebe uma mudan\u00e7a de valores, dos anos 60 pra c\u00e1?<\/b><\/p>\n<p>Um grande valor hoje, praticamente inexistente 40 anos atr\u00e1s, \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es ambientais. H\u00e1 40 anos o planeta era inesgot\u00e1vel, ainda estava sendo conquistado. Hoje temos a percep\u00e7\u00e3o de que vivemos num planeta onde os recursos s\u00e3o finitos e, pior, est\u00e3o se esgotando rapidamente. A grande descoberta em termos de valor \u00e9 entendermos a necessidade de pararmos de pensar como na\u00e7\u00f5es e passarmos a pensar como planeta. A ideia de soberania nacional vai aos poucos sendo revista, ou relativizada. A interdepend\u00eancia global \u00e9 um dado inquestion\u00e1vel. Se queimarmos a Amaz\u00f4nia, n\u00e3o chover\u00e1 no Sul e vai haver seca no centro do Brasil, o carbono liberado vai acelerar o aquecimento do planeta, geleiras ir\u00e3o derreter, rios que dependem delas deixar\u00e3o de ser formados, popula\u00e7\u00f5es ficar\u00e3o sem suas fontes de alimentos. Tudo est\u00e1 ligado. N\u00e3o t\u00ednhamos essa no\u00e7\u00e3o 40 anos atr\u00e1s. Hoje sabemos que o degelo da Groenl\u00e2ndia vai afetar imensamente a vida de enorme popula\u00e7\u00e3o na \u00c1sia que vive \u00e0 beira-mar. Essas quest\u00f5es bateram \u00e0 nossa porta e j\u00e1 est\u00e3o nos atropelando. Apenas cegos, c\u00ednicos ou oportunistas se recusam a enxergar.<\/p>\n<p><b>Um par\u00eantese: a despeito disso tudo, existem 69 povos isolados ind\u00edgenas no Brasil.<\/b><\/p>\n<p>Sim, pequenas aldeias devidamente localizadas e demarcadas com GPS. Esses \u00edndios podem n\u00e3o estar nos vendo, mas sabemos exatamente onde eles est\u00e3o, quantos s\u00e3o, e fotos deles est\u00e3o dispon\u00edveis para qualquer um no Google Earth. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que, se um dia suas terras nos interessarem para a constru\u00e7\u00e3o de barragens hidrel\u00e9tricas, por exemplo, em pouco tempo estar\u00e1 justificada a invas\u00e3o. Este roteiro n\u00e3o \u00e9 novo, ainda se repete depois de 500 anos de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><b>Quanto ao exerc\u00edcio da cidadania, voc\u00ea percebe mudan\u00e7as?<\/b><\/p>\n<p>Est\u00e1 na moda falar em cidadania, ser respons\u00e1vel pelo coletivo, mas estamos longe de uma no\u00e7\u00e3o verdadeira de que nossos atos afetam a vida do pr\u00f3ximo e precisam ser repensados. Em alguns lugares onde tenho trabalhado sinto que a no\u00e7\u00e3o de se viver numa comunidade est\u00e1 bem mais incorporada do que aqui. Tenho um caso recente. Estava em Toronto e fui almo\u00e7ar na casa de um produtor amigo. Ele serviu salada e depois tinha uma lentilha, pois sabe que sou vegetariano. Quando foi trocar meu prato, falei: \u201cN\u00e3o precisa, pode deixar\u201d. Ele respondeu de bate-pronto: \u201cN\u00e3o tem problema porque eu espero a m\u00e1quina encher, n\u00e3o vou gastar mais \u00e1gua lavando mais este prato\u201d. Eu havia pensado em ficar com o prato para aproveitar o molhinho de azeite, mas a no\u00e7\u00e3o de que seus atos podem repercutir na vida dos outros, de que a \u00e1gua \u00e9 um bem coletivo, est\u00e1 t\u00e3o impregnada que ele nem entendeu minha inten\u00e7\u00e3o. No Brasil ainda estamos longe desta no\u00e7\u00e3o de cidadania. Mas est\u00e1 melhorando.<\/p>\n<p><b>Alguma articula\u00e7\u00e3o ou movimento social, no Brasil e fora dele, chamou sua aten\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos tempos?<\/b><\/p>\n<p>Sim, os movimentos ambientalistas que questionam o nosso modelo de desenvolvimento, o business as usual. O impressionante \u00e9 que os jornais comemoram o crescimento do consumo ou da economia como se isso ainda fosse saud\u00e1vel. H\u00e1 movimentos mostrando que precisamos urgentemente fazer uma curva na hist\u00f3ria e buscar outros modelos de desenvolvimento. Os movimentos que lidam com estas quest\u00f5es s\u00e3o os mais importantes, hoje. Infelizmente nossos homens p\u00fablicos trabalham com a perspectiva de futuro de tr\u00eas ou quatro anos, que \u00e9 o quanto duram seus mandatos. Dif\u00edcil construir um mundo sem perspectiva de longo ou longu\u00edssimo prazo. Estamos amea\u00e7ados justamente por essa l\u00f3gica.<\/p>\n<p><b>E como fica a quest\u00e3o do consumo diante disso? O seu, o meu, o nosso?<\/b><\/p>\n<p>Temos que mudar nosso padr\u00e3o de consumo, rapidamente. Esta mudan\u00e7a precisaria ser como uma mobiliza\u00e7\u00e3o de guerra, na qual todos entendessem que precisam abrir m\u00e3o de alguma coisa para poder prosseguir. Tenho feito mudan\u00e7as nesse sentido na minha vida, mas talvez s\u00f3 quando os efeitos da car\u00eancia de recursos baterem \u00e0 nossa porta \u00e9 que mudaremos de fato nossas vidas. A l\u00f3gica do dinheiro como motor da sociedade \u00e9 t\u00e3o perversa quanto dif\u00edcil de ser alterada. Sabemos, por exemplo, que h\u00e1 falta de alimento no mundo, e sabemos tamb\u00e9m que 40% do alimento produzido \u00e9 desperdi\u00e7ado no processo de produ\u00e7\u00e3o, transporte, comercializa\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o para o consumo. Contudo, quando olhamos para esta quest\u00e3o, a maneira de atac\u00e1-la \u00e9 sempre o aumento da produ\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o o uso racional do que j\u00e1 existe. Para quem produz, transporta ou comercializa alimentos, o desperd\u00edcio \u00e9 boa not\u00edcia, pois significa maior demanda, mais renda. A racionaliza\u00e7\u00e3o do uso dos recursos \u00e9 a nova economia de que o mundo precisa.<\/p>\n<p>Li recentemente um editorial do Estad\u00e3o [jornal O Estado de S.Paulo] no qual o Washington Novaes [jornalista e ambientalista] comentava o gosto dos governos pelas grandes obras. Dava exemplos de como pequenas medidas poderiam ser mais eficazes, mais racionais, falava de outra maneira de pensar a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade. Um dos exemplos era a not\u00edcia de que a Caixa Econ\u00f4mica Federal, a partir de agora, n\u00e3o vai mais financiar moradias em lugares onde n\u00e3o houver \u00e1gua e esgoto dispon\u00edveis. \u00c9 uma loucura pensar que at\u00e9 ontem o Estado financiava moradias que usavam os rios como esgoto. O texto falava sobre desperd\u00edcio e trazia dados interessantes: no Brasil desperdi\u00e7amos 40% da \u00e1gua usada, e o estado de S\u00e3o Paulo vai fazer uma reformula\u00e7\u00e3o para desperdi\u00e7armos 24%. No Jap\u00e3o desperdi\u00e7am-se 3%. Seguindo a mesma l\u00f3gica, o pensamento dominante quando se fala em \u00e1gua \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de novas barragens, novos reservat\u00f3rios, tratar mais \u00e1gua. Pensa-se sempre em novas obras, e no entanto h\u00e1 muita brecha para a racionaliza\u00e7\u00e3o. Temos que chegar ao ponto em que 100% do que \u00e9 produzido possa ser reciclado, mas isso demanda uma mudan\u00e7a cultural inimagin\u00e1vel.<\/p>\n<p><b>Essa mudan\u00e7a \u00e9 compat\u00edvel com o capitalismo?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o, a l\u00f3gica do capitalismo \u00e9 expandir, crescer. Isso poderia fazer algum sentido num mundo inesgot\u00e1vel e infinito, mas j\u00e1 sabemos que n\u00e3o \u00e9 mais o nosso. Um novo modelo de desenvolvimento implica uma dific\u00edlima e demorada transforma\u00e7\u00e3o nas nossas vidas. Ela vir\u00e1 com mais ou menos dor. A quest\u00e3o que os capitalistas colocam \u00e9: se vamos consumir menos, para onde vai o trabalho e a atividade humana? Uma resposta \u00e9 que o trabalho pode migrar da \u00e1rea de produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo para \u00e1reas como educa\u00e7\u00e3o, cultura, servi\u00e7os. A aspira\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es, hoje, \u00e9 por bens de consumo, roupas, autom\u00f3veis. A mudan\u00e7a cultural necess\u00e1ria \u00e9 passarmos a valorizar bens n\u00e3o materiais. Educa\u00e7\u00e3o, esporte, m\u00fasica, ci\u00eancia s\u00e3o atividades humanas que n\u00e3o consomem tanto o planeta e preenchem mais a alma do que a busca desesperada pela reposi\u00e7\u00e3o de bens, que \u00e9 uma das principais raz\u00f5es pelas quais se trabalha e se vive, hoje.<\/p>\n<p><b>Ao longo da hist\u00f3ria, v\u00e1rios movimentos sociais lutaram pela liberdade. Voc\u00ea acha que a liberdade ainda \u00e9 uma quest\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>Claro que \u00e9. A plena liberdade pol\u00edtica \u00e9 desfrutada por apenas uma parcela da popula\u00e7\u00e3o mundial. Mas, mais do que a liberdade de influir nas decis\u00f5es que afetam a pr\u00f3pria vida, a pobreza \u00e9 o maior limitador da liberdade humana. Sem justi\u00e7a social n\u00e3o h\u00e1 liberdade, e a injusti\u00e7a social ainda \u00e9 dominante no planeta. Em todos os pa\u00edses encontraremos diferen\u00e7as entre ricos e pobres, maiores ou menores, mas n\u00e3o h\u00e1 lugar onde a diferen\u00e7a seja t\u00e3o grande quanto no planeta Terra como um todo. A diferen\u00e7a entre pa\u00edses com altas taxas de consumo e pa\u00edses sem margem para desfrutar de alguma autonomia \u00e9 mais brutal do que qualquer diferen\u00e7a interna entre os que t\u00eam e os que n\u00e3o t\u00eam. Um pa\u00eds que consome sozinho 25% dos recursos do mundo inexoravelmente estar\u00e1 tolhendo a liberdade de outros.<\/p>\n<p><b>Que outros direitos e valores h\u00e1 a serem conquistados, hoje?<\/b><\/p>\n<p>Creio que a no\u00e7\u00e3o de que somos parte de uma mesma humanidade e de que dependemos um do outro, que afetamos a vida do outro, precisa ser mais bem compreendida. Mais do que nunca, estamos todos conectados. A dona K\u00e1tia Abreu [senadora pelo PSD-TO, l\u00edder da bancada ruralista do congresso] ainda n\u00e3o entendeu que a expans\u00e3o das fronteiras agr\u00edcolas na Amaz\u00f4nia, que ela defende, vai gerar seca e derrubar a produ\u00e7\u00e3o de soja de sua fazenda em Campos Lindos, no Tocantins.<\/p>\n<p><b>Ao mesmo tempo em que descobrimos essa interdepend\u00eancia, vivemos um individualismo exacerbado.<\/b><\/p>\n<p>Pode parecer paradoxal, mas n\u00e3o creio que a busca de uma identidade ou da pr\u00f3pria individualidade seja conflitante com a no\u00e7\u00e3o de pertencer a uma grande comunidade global. Todos queremos ter uma cara, deixar de ser invis\u00edveis, mas ao mesmo tempo vejo mais pessoas engajadas em lutas e num pensamento de cardume. A compreens\u00e3o de que somos uma s\u00f3 esp\u00e9cie passa pelo autoconhecimento.<\/p>\n<p><b>Como voc\u00ea v\u00ea as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es coexistindo nesse planeta cada vez menor?<\/b><\/p>\n<p>Menor e mais r\u00e1pido, vale lembrar. Meus netos ir\u00e3o viver num mundo muito diferente do meu. Passei a inf\u00e2ncia em um mundo natural ainda em expans\u00e3o, onde a manteiga era feita na fazenda e a fruta, colhida no p\u00e9. Onde meu av\u00f4 dizia que \u201cdesde que o mundo \u00e9 mundo as coisas s\u00e3o assim e assim ficar\u00e3o\u201d. Meus netos v\u00e3o viver num mundo onde as transforma\u00e7\u00f5es acontecem a cada bimestre, um mundo que \u00e9 como uma aldeia, totalmente conectado e sem muitas fronteiras, onde a busca pelo crescimento perder\u00e1 o sentido. Segundo o \u00faltimo Censo, a popula\u00e7\u00e3o brasileira parou de crescer e j\u00e1 come\u00e7a a envelhecer.<\/p>\n<p>Sem popula\u00e7\u00e3o em crescimento, o esfor\u00e7o para suprir bens e alimento para quem est\u00e1 chegando deve ser deslocado para o esfor\u00e7o de distribuir melhor os bens, alimentos e energia j\u00e1 dispon\u00edveis. Nessas condi\u00e7\u00f5es, me parece mais f\u00e1cil organizar a sociedade. Mas a possibilidade de termos que conviver com popula\u00e7\u00f5es refugiadas da fome, da falta de \u00e1gua, do aumento do n\u00edvel do mar, assim como os desafios para mudarmos nossa matriz energ\u00e9tica ou conseguirmos manter a produ\u00e7\u00e3o de alimentos com menos \u00e1gua, coloca no futuro variantes tais que qualquer tentativa de previs\u00e3o se torna quase um exerc\u00edcio de adivinha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ha outro aspecto, a velocidade do novo mundo. Quando penso em futuro sempre me sinto enganado. Prometeram que a tecnologia iria libertar o homem, dar-lhe mais tempo para cuidar do esp\u00edrito e para o lazer, mas aconteceu o contr\u00e1rio. Viramos prisioneiros das m\u00e1quinas. Antes eu sa\u00eda do trabalho \u00e0s 7 da noite e s\u00f3 voltava no dia seguinte. Hoje, conectado, me vejo respondendo emails e trabalhando em qualquer hora e lugar. Todo mundo recebe solicita\u00e7\u00f5es de trabalho durante o almo\u00e7o, nos finais de semana. A tecnologia nos transformou em trabalhadores compulsivos. Nem nas f\u00e9rias nos desconectamos dessas maravilhas tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<p><b>Mas talvez o trabalho fosse mais separado do lazer.<\/b><\/p>\n<p>No meu caso, trabalho e lazer s\u00e3o praticamente a mesma coisa. Mas sei que sou um caso raro e, mesmo assim, gostaria de ter um tempo em que pudesse virar o disco. Para quem tem fun\u00e7\u00f5es que exigem mais esfor\u00e7o e menos criatividade, a tecnologia realmente veio para diminuir os prazos e roubar o tempo que se tem para desfrutar da vida e ser feliz.<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea v\u00ea a possibilidade de uma governan\u00e7a global?<\/b><\/p>\n<p>Ser\u00e1 inevit\u00e1vel. O rio Ganges ou o Amarelo, e a popula\u00e7\u00e3o que eles alimentam, n\u00e3o dependem de decis\u00f5es da \u00cdndia ou da China para continuarem a correr. Eles dependem do corte e emiss\u00e3o de carbono no mundo todo, da preserva\u00e7\u00e3o das florestas que ainda existem, de modo que o planeta n\u00e3o se aque\u00e7a mais e as geleiras do Himalaia, que os alimentam, continuem a se formar anualmente. Como esses, h\u00e1 muitos outros exemplos de problemas cujas decis\u00f5es nacionais, nos pa\u00edses onde podem ser tomadas, n\u00e3o conseguem mais dar conta. Creio que tentativas de governan\u00e7a global como a do Mercosul ou da Zona do Euro s\u00e3o ensaios para um mundo em que as decis\u00f5es precisam ser compartilhadas. A ONU n\u00e3o funciona muito bem porque os Estados Unidos, apesar de serem seu maior financiador, n\u00e3o respeitam muito suas decis\u00f5es. Mas a tend\u00eancia \u00e9 cada vez mais organiza\u00e7\u00f5es globais passarem a ter mais influ\u00eancia no mundo. Precisamos urgentemente de organiza\u00e7\u00f5es que regulem as quest\u00f5es ambientais no planeta. Nada mais razo\u00e1vel, dada a nossa interdepend\u00eancia.<\/p>\n<p>_________________________<\/p>\n<p><i>Fernando Meirelles \u00e9 um arquiteto que passou a dirigir programas independentes para TV nos anos 1980, comerciais nos anos 1990 e finalmente longa-metragens no s\u00e9culo XXI. Seus longa-metragens s\u00e3o: O Menino Maluquinho 2 &#8211; A Aventura(1998), Dom\u00e9sticas(2000), Cidade de Deus(2002), nomeado para 4 Oscars, incluindo o de melhor diretor, e The Constant Gardener(2004), nomeado para 4 Oscars tamb\u00e9m. &#8220;Ensaio Sobre a Cegueira&#8221;, estreou no Brasil em Setembro de 2008. Seu \u00faltimo longa, &#8220;360&#8221;, estreou em 2012.<\/i><i><\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/2012\/08\/29\/nossos-sonhos-nao-cabem-no-capitalismo\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Fernando Meirelles, reconstru\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica exige superar l\u00f3gicas que associam felicidade e sucesso a consumo e acumula\u00e7\u00e3o sem fim.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[61,62,180,53,55,148,146,206,169,203,46],"tags":[],"class_list":["post-30756","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-environment","category-media","category-brics","category-latin-america-and-the-caribbean","category-capitalism","category-history","category-economics","category-coops-cooperation-sharing","category-trade","category-development","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30756","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30756"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30756\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30756"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30756"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30756"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}