{"id":3157,"date":"2009-11-21T00:00:00","date_gmt":"2009-11-21T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/wordpress\/2009\/11\/portuguese-uma-historia-epica-irmas-negras\/"},"modified":"2009-11-21T00:00:00","modified_gmt":"2009-11-21T00:00:00","slug":"portuguese-uma-historia-epica-irmas-negras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2009\/11\/portuguese-uma-historia-epica-irmas-negras\/","title":{"rendered":"(PORTUGUESE)  UMA HIST\u00d3RIA \u00c9PICA: IRM\u00c3S NEGRAS"},"content":{"rendered":"<p><em>A Casa Grande e a Senzala n&atilde;o foram apenas constru&ccedil;&otilde;es sociais e f&iacute;sicas, dividindo por um lado os brancos, donos do poder e por outro, os negros, feitos escravos. <br \/><\/em><br \/>Com a aboli&ccedil;&atilde;o da escravatura exteriormente desapareceram. Mas continuam presentes na mentalidade dos brancos e das elites brasileiras. <\/p>\n<p>As hierarquiza&ccedil;&otilde;es, as desigualdades sociais e os preconceitos t&ecirc;m nesta estrutura dualista sua origem e permanente realimenta&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>A vida religiosa que se insere neste caldo cultural reproduziu em suas rela&ccedil;&otilde;es internas o mesmo dualismo e as mesmas discrimina&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>Durante todo o tempo da Col&ocirc;nia os que possu&iacute;am &ldquo;sangue sujo&rdquo;, quer dizer, os que eram negros, ind&iacute;genas ou mesti&ccedil;os, n&atilde;o podiam ser padres nem religiosos. <\/p>\n<p>Al&eacute;m de puro racismo, t&iacute;pico da &eacute;poca, argumentava-se que eles jamais conseguiriam viver a castidade. <\/p>\n<p>Esta discrimina&ccedil;&atilde;o foi internalizada nestas popula&ccedil;&otilde;es desumanizadas a ponto de sequer pensarem em ser padres, religiosos ou religiosas. <\/p>\n<p>As conseq&uuml;&ecirc;ncias perduram at&eacute; os dias de hoje: a cr&ocirc;nica falta de clero aut&oacute;ctone no Brasil. <\/p>\n<p>Pelo n&uacute;mero de cat&oacute;licos, dever&iacute;amos ter pelo menos cem mil padres. Possu&iacute;mos apenas 17 mil e muitos s&atilde;o ainda estrangeiros. <\/p>\n<p>Mesmo com a revitaliza&ccedil;&atilde;o da Igreja brasileira atrav&eacute;s do processo de romaniza&ccedil;&atilde;o inaugurada no final do s&eacute;culo XIX com a vinda de congrega&ccedil;&otilde;es religiosas europ&eacute;ias, as pessoas negras ou mesti&ccedil;as continuaram sistematicamente exclu&iacute;das. <\/p>\n<p>Mas houve uma ruptura inauguradora. <\/p>\n<p>Em 1928 a Congrega&ccedil;&atilde;o das Mission&aacute;rias de Jesus Crucificado, funda&ccedil;&atilde;o genuinamente brasileira, de uma leiga piedosa Maria Villac, apoiada pelo bispo Dom Campos Barreto de Campinas, foi a primeira a abrir a porta de seus conventos a mulheres negras. <\/p>\n<p>Mesmo assim, n&atilde;o escapou da influ&ecirc;ncia da Casa Grande e da Senzala mental: houve a divis&atilde;o clara entre as oblatas, irm&atilde;s negras ou de pouca instru&ccedil;&atilde;o e as coristas, brancas e com instru&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>At&eacute; o h&aacute;bito era diferente, azul e branco para as coristas e preto para a oblatas. <\/p>\n<p>A miss&atilde;o destas que constitu&iacute;am quase a metade da Congrega&ccedil;&atilde;o, era de servir &agrave;s coristas, acompanhar seus trabalhos e assumir todas as tarefas dom&eacute;sticas de um convento, desde cozinhar, lavar a roupa at&eacute; manter a horta e cuidar da cria&ccedil;&atilde;o de animais. <\/p>\n<p>Por quarenta anos foi assim, at&eacute; que se abriu a janela do aggiornamento do Conc&iacute;lio Vaticano II (1962-1965). Aboliram-se as divis&otilde;es de tarefas, umas nos trabalhos manuais e outras na vida apost&oacute;lica. <\/p>\n<p>Como comentou Dom Odilon, bispo de Santos: &rdquo;acabou-se a escravid&atilde;o na Congrega&ccedil;&atilde;o&rdquo;. <\/p>\n<p>Esta hist&oacute;ria foi recentemente pesquisada e escrita pelas pr&oacute;prias religiosas negras sob a orienta&ccedil;&atilde;o segura do historiador PE. Jos&eacute; Oscar Beozzo com o t&iacute;tulo: &rdquo;Tecendo mem&oacute;rias, gestando o futuro: hist&oacute;ria das Irm&atilde;s Negras e Ind&iacute;genas das Mission&aacute;rias de Jesus Crucificado&rdquo;(Paulinas 2009). <\/p>\n<p>Qual &eacute; a originalidade deste livro? &Eacute; mostrar o lento despertar da consci&ecirc;ncia das irm&atilde;s negras, de sua identidade &eacute;tnica, de seus valores espec&iacute;ficos e de sua espiritualidade singular, feito de hist&oacute;rias de vida narradas por irm&atilde;s negras, hist&oacute;rias de chorar, tal o n&iacute;vel de discrimina&ccedil;&atilde;o e de humilha&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Mas o que transparece n&atilde;o &eacute; amargura ou esp&iacute;rito de revanche. <\/p>\n<p>Ao contr&aacute;rio, &eacute; o de resgate da mem&oacute;ria de tudo o que se aprendeu nessa penosa caminhada e do lan&ccedil;amento das bases para um futuro mais igualit&aacute;rio e respeitador das diferen&ccedil;as. <\/p>\n<p>Elas mostram que a identidade negra n&atilde;o precisa ser tr&aacute;gica, mas foi e pode ser &eacute;pica: feita de uma s&aacute;bia resist&ecirc;ncia e de um desabrochar lento, mas seguro de seu pr&oacute;prio caminho de liberta&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>As religiosas negras emergem como verdadeiras hero&iacute;nas e muitas delas com sinais inequ&iacute;vocos de santidade. Assim se supera uma vis&atilde;o miserabilista dos negros e negras e se real&ccedil;a sua inventividade, sua capacidade de ter alegria interior que se revela no riso e na festa, na m&uacute;sica e na dan&ccedil;a. <\/p>\n<p>Esse livro vem preencher uma lacuna na historiografia negra na &oacute;tica da vida religiosa. Ele suscita admira&ccedil;&atilde;o mais que compaix&atilde;o, vontade de conquista mais do que resigna&ccedil;&atilde;o. Sua leitura nos edifica e nos faz humanamente mais solid&aacute;rios . <\/p>\n<p>____________________________<\/p>\n<p><em>Leonardo Boff &eacute; te&oacute;logo <\/p>\n<p>&copy; 1999-2006. &laquo;PRAVDA.Ru&raquo;. No acto de reproduzir nossos materiais na &iacute;ntegra ou em parte, deve fazer refer&ecirc;ncia &agrave; PRAVDA.Ru As opini&otilde;es e pontos de vista dos autores nem sempre coincidem com os dos editores.<\/em><br \/><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/port.pravda.ru\/mundo\/20-11-2009\/28366-historiaepica-0\" ><br \/>GO TO ORIGINAL &ndash; PRAVDA.RU<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Casa Grande e a Senzala n&atilde;o foram apenas constru&ccedil;&otilde;es sociais e f&iacute;sicas, dividindo por um lado os brancos, donos do poder e por outro, os negros, feitos escravos. Com a aboli&ccedil;&atilde;o da escravatura exteriormente desapareceram. Mas continuam presentes na mentalidade dos brancos e das elites brasileiras. As hierarquiza&ccedil;&otilde;es, as desigualdades sociais e os preconceitos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[32],"tags":[],"class_list":["post-3157","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-commentary-archives"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3157","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3157"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3157\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3157"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3157"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3157"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}