{"id":31755,"date":"2013-07-15T12:00:40","date_gmt":"2013-07-15T11:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=31755"},"modified":"2015-05-06T09:00:06","modified_gmt":"2015-05-06T08:00:06","slug":"portugues-problemas-no-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/07\/portugues-problemas-no-paraiso\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Problemas no Para\u00edso"},"content":{"rendered":"<p><i>Problemas no Inferno parecem compreens\u00edveis \u2013 sabemos por que as pessoas est\u00e3o protestando na Gr\u00e9cia ou na Espanha, mas por que \u00e9 que h\u00e1 problemas no Para\u00edso, em pa\u00edses pr\u00f3speros ou que, ao menos, passam por um per\u00edodo de r\u00e1pido desenvolvimento, como a Turquia, a Su\u00e9cia e o Brasil?<\/i><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/brasilia1.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-31756\" alt=\"brasilia1\" src=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/brasilia1-300x157.jpg\" width=\"300\" height=\"157\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/brasilia1-300x157.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/brasilia1.jpg 470w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em seus textos de juventude, Marx descreveu a situa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 como aquela em que a solu\u00e7\u00e3o de problemas particulares s\u00f3 era poss\u00edvel atrav\u00e9s da solu\u00e7\u00e3o universal (revolu\u00e7\u00e3o global radical). Ali reside a f\u00f3rmula mais resumida da diferen\u00e7a entre um per\u00edodo reformista e um revolucion\u00e1rio: em um per\u00edodo reformista, a revolu\u00e7\u00e3o global continua a ser um sonho que, na melhor das hip\u00f3teses, sustenta nossas tentativas para aprovar altera\u00e7\u00f5es locais \u2013 e, no pior dos casos, impede-nos de concretizar mudan\u00e7as reais \u2013, ao passo que uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria surge quando se torna claro que apenas uma mudan\u00e7a global radical pode resolver os problemas particulares. Nesse sentido puramente formal, 1990 foi um ano revolucion\u00e1rio: tornou-se claro que as reformas parciais dos Estados comunistas n\u00e3o seriam suficientes, que era necess\u00e1rio uma ruptura global radical para resolver at\u00e9 mesmo problemas parciais (fornecimento adequado de alimentos etc.).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o onde \u00e9 que estamos, hoje, em rela\u00e7\u00e3o a essa diferen\u00e7a? Seriam os problemas e protestos dos \u00faltimos anos sinais de uma crise global que est\u00e1 gradual e inexoravelmente se aproximando, ou seriam estes apenas pequenos obst\u00e1culos que podem ser contidos, se n\u00e3o resolvidos, por meio de interven\u00e7\u00f5es precisas e espec\u00edficas? A caracter\u00edstica mais estranha e amea\u00e7adora sobre eles \u00e9 que n\u00e3o est\u00e3o explodindo apenas (ou principalmente) nos pontos fracos do sistema, mas tamb\u00e9m em lugares que eram at\u00e9 agora tidos como hist\u00f3rias de sucesso. Problemas no Inferno parecem compreens\u00edveis \u2013 sabemos por que as pessoas est\u00e3o protestando na Gr\u00e9cia ou na Espanha, mas por que \u00e9 que h\u00e1 problemas no Para\u00edso, em pa\u00edses pr\u00f3speros ou que, ao menos, passam por um per\u00edodo de r\u00e1pido desenvolvimento, como a Turquia, a Su\u00e9cia e o Brasil? Com uma retrospectiva, podemos agora ver que o \u201cproblema no Para\u00edso\u201d original foi a revolu\u00e7\u00e3o de Khomeini, no Ir\u00e3, um pa\u00eds considerado oficialmente pr\u00f3spero, na via r\u00e1pida da moderniza\u00e7\u00e3o pr\u00f3-ocidental, e principal aliado do Ocidente na regi\u00e3o. Talvez exista algo de errado com a nossa percep\u00e7\u00e3o de Para\u00edso.<\/p>\n<p>Antes das cont\u00ednuas ondas de protestos, a Turquia era quente: um modelo de economia liberal pr\u00f3spera combinado com um Islamismo moderado e de \u201crosto humano\u201d. Apta para a Europa, mostrou-se um contraste bem-vindo em rela\u00e7\u00e3o a essa Gr\u00e9cia mais \u201ceuropeia\u201d, presa em um antigo p\u00e2ntano ideol\u00f3gico e destinada \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. \u00c9 verdade que ocorreram alguns sinais amea\u00e7adores (a insistente nega\u00e7\u00e3o do holocausto arm\u00eanio, a pris\u00e3o e acusa\u00e7\u00e3o de centenas de jornalistas, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o resolvida dos curdos, as exig\u00eancias de uma grande Turquia que iria ressuscitar a tradi\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio Osman, a imposi\u00e7\u00e3o ocasional da legisla\u00e7\u00e3o religiosa etc.), mas que acabaram todos sendo considerados como pequenas manchas que n\u00e3o deveriam ter sido autorizadas a borrar a imagem internacional de um pa\u00eds em que, aparentemente, a \u00faltima coisa que se poderia esperar s\u00e3o protestos \u2013 eles simplesmente n\u00e3o deveriam ter acontecido.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o inesperado aconteceu: explodiram os protestos da Pra\u00e7a Taksim, no centro de Istambul. E hoje todo mundo j\u00e1 sabe que a transforma\u00e7\u00e3o do tal do parque que faz fronteira com a pra\u00e7a em um centro comercial n\u00e3o foi exatamente o motivo dos protestos; um mal-estar mais profundo foi ganhando for\u00e7a sob a superf\u00edcie. \u00c9 o mesmo com os protestos que eclodiram no Brasil em meados de junho: foram sim desencadeados por um pequeno aumento no pre\u00e7o do transporte p\u00fablico, mas continuaram mesmo ap\u00f3s essa medida ser revogada. Mais uma vez, os protestos explodiram em um pa\u00eds que, ao menos de acordo com os meios de comunica\u00e7\u00e3o, encontrava-se no seu \u00e1pice econ\u00f4mico, desfrutando da alta confian\u00e7a depositada em seu futuro. Somou-se ao mist\u00e9rio o fato de que os protestos foram imediatamente apoiados pela presidente Dilma Roussef, que afirmou estar \u201cencantada\u201d por eles. Sendo assim, quem s\u00e3o os verdadeiros alvos de inquieta\u00e7\u00e3o dos manifestantes sobre a corrup\u00e7\u00e3o e desintegra\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos?<\/p>\n<p>Em suma, a Turquia quente de repente se tornou uma fria. Ent\u00e3o sobre o que foram realmente os protestos? \u00c9 crucial n\u00e3o limit\u00e1-los a uma sociedade civil secular impondo-se contra um autorit\u00e1rio governo isl\u00e2mico apoiado pela maioria mu\u00e7ulmana silenciosa: o que complica a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 o car\u00e1ter anticapitalista dos protestos (privatiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico) \u2013 o eixo fundamental dos protestos turcos foi a liga\u00e7\u00e3o entre o islamismo autorit\u00e1rio e a privatiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico de livre mercado. Essa liga\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente o que torna o caso da Turquia t\u00e3o interessante e de longo alcance: os manifestantes intuitivamente sentiam que a liberdade de mercado e o fundamentalismo religioso n\u00e3o s\u00e3o mutuamente exclusivos, que podem muito bem trabalhar lado a lado \u2013 um sinal claro de que o \u201ceterno\u201d casamento entre a democracia e o capitalismo aproxima-se do div\u00f3rcio.<\/p>\n<p>Devemos evitar o essencialismo aqui: n\u00e3o existe um \u00fanico objetivo \u201creal\u201d perseguido pelos manifestantes, algo capaz de, uma vez concretizado, reduzir a sensa\u00e7\u00e3o geral de mal-estar (\u201cos protestos s\u00e3o realmente contra o capitalismo global, contra o fundamentalismo religioso, em defesa das liberdades civis e da democracia\u2026\u201d). O que a maioria das pessoas que participaram dos protestos compartilha \u00e9 um sentimento fluido de desconforto e descontentamento que sustenta e une demandas particulares. Aqui, novamente, o velho lema de Hegel de que \u201cos segredos dos antigos eg\u00edpcios eram segredos tamb\u00e9m para os pr\u00f3prios eg\u00edpcios\u201d mant\u00e9m-se plenamente: a luta pela interpreta\u00e7\u00e3o dos protestos n\u00e3o \u00e9 apenas \u201cepistemol\u00f3gica\u201d; a luta dos jornalistas e te\u00f3ricos sobre o verdadeiro teor dos protestos \u00e9 tamb\u00e9m uma luta \u201contol\u00f3gica\u201d, que diz respeito \u00e0 coisa em si, que ocorre no centro dos pr\u00f3prios protestos. H\u00e1 uma batalha acontecendo dentro dos protestos sobre o que eles representam em si: \u00e9 apenas uma luta contra a administra\u00e7\u00e3o de uma cidade corrompida? Contra o regime isl\u00e2mico autorit\u00e1rio? Contra a privatiza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos? O desfecho dessa situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 em aberto, e ser\u00e1 resultado do processo pol\u00edtico atualmente em curso.<\/p>\n<p>O mesmo vale para a dimens\u00e3o espacial dos protestos. J\u00e1 em 2011, quando uma onda de manifesta\u00e7\u00f5es estava explodindo por toda a Europa e pelo Oriente M\u00e9dio, muitos comentaristas insistiam que n\u00e3o dever\u00edamos trat\u00e1-los como momentos de um mesmo movimento de protestos globais, pois cada um deles reagia a uma situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica: no Egito, os manifestantes exigiam aquilo que as sociedades contra as quais o movimento Occupy protestava j\u00e1 tinham (a liberdade e a democracia); at\u00e9 mesmo nos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos, a Primavera \u00c1rabe no Egito e a Revolu\u00e7\u00e3o Verde no Ir\u00e3 eram fundamentalmente diferentes: enquanto o primeiro dirigia-se contra um autorit\u00e1rio regime pr\u00f3-ocidental e corrupto, o segundo condenava o autoritarismo isl\u00e2mico). \u00c9 f\u00e1cil observar como essa particulariza\u00e7\u00e3o de protestos ajuda os defensores da ordem mundial existente: n\u00e3o h\u00e1 nenhuma amea\u00e7a contra a ordem global como tal, e sim problemas locais espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Aqui, no entanto, deve-se ressuscitar o bom e velho conceito marxista de totalidade \u2013 neste caso, da totalidade do capitalismo global. O capitalismo global \u00e9 um processo complexo que afeta diversos pa\u00edses de maneiras variadas, e o que unifica tantos protestos em sua multiplicidade \u00e9 que s\u00e3o todos rea\u00e7\u00f5es contra as m\u00faltiplas facetas da globaliza\u00e7\u00e3o capitalista. A tend\u00eancia geral do capitalismo global atual \u00e9 direcionada \u00e0 expans\u00e3o do reino do mercado, combinada ao enclausuramento do espa\u00e7o p\u00fablico, \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos (sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, cultura) e ao aumento do funcionamento autorit\u00e1rio do poder pol\u00edtico. \u00c9 dentro desse contexto que os gregos protestam contra o reinado do capital financeiro internacional e contra seu pr\u00f3prio Estado clientelista, ineficiente e corrupto, cada vez menos capaz de fornecer servi\u00e7os sociais b\u00e1sicos; que os turcos protestam contra a comercializa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos e o autoritarismo religioso; que os eg\u00edpcios protestaram contra o regime autorit\u00e1rio corrupto apoiado pelas pot\u00eancias ocidentais; que os iranianos protestaram contra o fundamentalismo religioso corrupto e ineficiente etc.<\/p>\n<p>O que une esses protestos \u00e9 o fato de que nenhum deles pode ser reduzido a uma \u00fanica quest\u00e3o, pois todos lidam com uma combina\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de (pelo menos) duas quest\u00f5es: uma econ\u00f4mica, de maior ou menor radicalidade (de tem\u00e1ticas que variam de corrup\u00e7\u00e3o e inefici\u00eancia at\u00e9 outras francamente anticapitalistas), e outra pol\u00edtico-ideol\u00f3gica (que inclui desde demandas pela democracia at\u00e9 exig\u00eancias para a supera\u00e7\u00e3o da democracia multipartid\u00e1ria usual). E ser\u00e1 que o mesmo j\u00e1 n\u00e3o se aplica ao Occupy Wall Street? Sob a profus\u00e3o de (por vezes, confusas) declara\u00e7\u00f5es, o movimento Occupy sugere duas ideias b\u00e1sicas: i) o descontentamento com o capitalismo como sistema \u2013 o problema \u00e9 o sistema capitalista em si, n\u00e3o a sua corrup\u00e7\u00e3o em particular \u2013; e ii) a consci\u00eancia de que a forma institucionalizada de democracia multipartid\u00e1ria representativa n\u00e3o \u00e9 suficiente para combater os excessos capitalistas, ou seja, que a democracia tem de ser reinventada.<\/p>\n<p>Isto, \u00e9 claro, n\u00e3o significa que, uma vez que a verdadeira causa dos protestos \u00e9 o capitalismo global, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o seja sobrepor-se diretamente a ele. A alternativa de negocia\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica com problemas particulares, esperando por uma transforma\u00e7\u00e3o radical, \u00e9 falsa, pois ignora o fato de que o capitalismo global \u00e9 necessariamente inconsistente: a liberdade de mercado anda de m\u00e3os dadas com o fato de os Estados Unidos apoiarem seus pr\u00f3prios agricultores com subs\u00eddios; pregar democracia anda de m\u00e3os dadas com o apoio \u00e0 Ar\u00e1bia Saudita. Tal inconsist\u00eancia, essa necessidade de quebrar suas pr\u00f3prias regras, abre um espa\u00e7o para interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas: quando o capitalista global \u00e9 for\u00e7ado a violar suas pr\u00f3prias regras, abre-se uma oportunidade para insistir que essas mesmas regras sejam obedecidas. Isto \u00e9, exigir coer\u00eancia e consist\u00eancia em pontos estrategicamente selecionados nos quais o sistema n\u00e3o consegue se manter coerente e consistente \u00e9 uma forma de pressionar o sistema como um todo. Em outras palavras, a arte da pol\u00edtica reside em insistir em uma determinada demanda que, embora completamente \u201crealista\u201d, perturba o cerne da ideologia hegem\u00f4nica e implica uma mudan\u00e7a muito mais radical, ou seja, que embora definitivamente vi\u00e1vel e leg\u00edtima, \u00e9 de fato imposs\u00edvel. Era este o caso do projeto de sa\u00fade universal de Obama, raz\u00e3o pela qual as rea\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias foram t\u00e3o violentas .<\/p>\n<p>Um movimento pol\u00edtico nasce de alguma ideia positiva em prol da qual ele se esfor\u00e7a, mas ao longo de seu pr\u00f3rprio curso essa ideia passa por uma transforma\u00e7\u00e3o profunda (n\u00e3o apenas uma acomoda\u00e7\u00e3o t\u00e1tica, mas uma redefini\u00e7\u00e3o essencial), porque a ideia em si \u00e9 comprometida no processo, (sobre)determinada em sua materializa\u00e7\u00e3o1. Tomemos como exemplo uma revolta motivada por um pedido de justi\u00e7a: uma vez que as pessoas tornam-se de fato envolvidas, percebem que \u00e9 necess\u00e1rio muito mais para que seja feita a verdadeira justi\u00e7a do que apenas as limitadas solicita\u00e7\u00f5es com que come\u00e7aram (revoga\u00e7\u00e3o de algumas leis etc.). O problema, portanto, \u00e9: o que exatamente seria esse \u201cmuito mais\u201d? A ideia liberal-pragm\u00e1tica \u00e9 que os problemas podem ser resolvidos gradualmente, um por um (\u201cas pessoas est\u00e3o morrendo agora em Ruanda, ent\u00e3o esque\u00e7amos sobre a luta anti-imperialista e vamos apenas evitar esse massacre\u201d, ou \u201ctemos de lutar contra a pobreza e o racismo aqui e agora, sem esperar o colapso da ordem capitalista global\u201d). Recentemente, John Caputo escreveu:<\/p>\n<p><i>\u201cEu ficaria imensamente feliz caso os pol\u00edticos de extrema esquerda dos Estados Unidos fossem capazes de reformar o sistema, oferecendo servi\u00e7os de sa\u00fade universal, efetivamente redistribuindo a riqueza de forma equitativa e com um c\u00f3digo tribut\u00e1rio revisado, efetivamente restringindo o financiamento de campanha, garantindo os direitos de todos os eleitores, tratando trabalhadores migrantes humanamente, efetuando uma pol\u00edtica externa multilateral que integrasse o poder norte-americano no seio da comunidade internacional etc., ou seja, intervir sobre o capitalismo por meio de reformas s\u00e9rias e de longo alcance. [&#8230;] Se depois de tudo isso, [Alain] Badiou e Zizek se queixassem de que um monstro chamado Capital ainda nos persegue, eu tenderia a cumprimentar esse monstro com um bocejo.\u201d2<br \/>\n<\/i><br \/>\nO problema aqui n\u00e3o \u00e9 a conclus\u00e3o de Caputo de que, se pud\u00e9ssemos conseguir tudo isso dentro do capitalismo, n\u00e3o ter\u00edamos porque n\u00e3o permanecer onde estamos. O problema \u00e9 a premissa subjacente de que seja poss\u00edvel obter tudo isso dentro do capitalismo global em sua forma atual. E se os problemas de funcionamento do capitalismo enumerados por Caputo n\u00e3o s\u00e3o apenas dist\u00farbios acidentais, mas estruturalmente necess\u00e1rios? E se o sonho de Caputo for um sonho de universalidade (a ordem capitalista universal), sem sintomas, sem os pontos cr\u00edticos nos quais sua \u201cverdade reprimida\u201d mostra a pr\u00f3pria cara?<\/p>\n<p>Os protestos e revoltas atuais s\u00e3o sustentados pela sobreposi\u00e7\u00e3o de diferentes n\u00edveis, e \u00e9 esta combina\u00e7\u00e3o de propostas que representa sua for\u00e7a: eles lutam pela democracia (\u201cnormal\u201d, parlamentar) contra regimes autorit\u00e1rios; contra o racismo e o sexismo, especialmente contra o \u00f3dio dirigido a imigrantes e refugiados; pelo estado de bem-estar social contra o neoliberalismo; contra a corrup\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica e na economia (empresas que poluem o meio ambiente etc.); por novas formas de democracia que avancem al\u00e9m dos rituais multipartid\u00e1rios (participa\u00e7\u00e3o etc.); e, finalmente, questionando o sistema capitalista mundial como tal e tentando manter viva a ideia de uma sociedade n\u00e3o capitalista. Duas armadilhas existem a\u00ed, a serem evitadas: o falso radicalismo (\u201co que realmente importa \u00e9 a aboli\u00e7\u00e3o do capitalismo liberal-parlamentar, todas as outras lutas s\u00e3o secund\u00e1rias\u201d) e o falso gradualismo (\u201cno momento, temos de lutar contra a ditadura militar e por uma democracia b\u00e1sica; todos os sonhos socialistas devem ser postos de lado por enquanto\u201d). A situa\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, devidamente sobredeterminada, e devemos inquestionavelmente mobilizar aqui as velhas distin\u00e7\u00f5es mao\u00edstas entre a contradi\u00e7\u00e3o principal e as contradi\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias \u2013 isto \u00e9, os antagonismos \u2013, entre os que mais interessam no fim e os que dominam hoje. Por exemplo, h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es concretas em que insistir sobre o antagonismo principal significa perder a oportunidade e, portanto, desferir um golpe \u00e0 pr\u00f3pria luta capital.<\/p>\n<p>Somente a pol\u00edtica que leva plenamente em conta a complexidade da sobredetermina\u00e7\u00e3o merece o nome de estrat\u00e9gia pol\u00edtica. Quando temos de lidar com uma luta espec\u00edfica, a quest\u00e3o chave \u00e9: como nosso engajamento (ou a falta dele) nesta luta afetar\u00e1 as outras? A regra geral \u00e9 que quando uma revolta come\u00e7a contra um regime semidemocr\u00e1tico opressivo (como foi o caso do Oriente M\u00e9dio em 2011), \u00e9 f\u00e1cil mobilizar grandes multid\u00f5es com palavras de ordem que facilmente agradam (\u201cpela democracia\u201d, \u201ccontra a corrup\u00e7\u00e3o\u201d etc.). Mas ent\u00e3o aproximamo-nos gradualmente de escolhas mais dif\u00edceis: quando a nossa revolta \u00e9 vitoriosa em seu objetivo direto, percebemos que o que realmente nos incomodou (a nosso falta de liberdade, a humilha\u00e7\u00e3o, a corrup\u00e7\u00e3o social, a falta de perspectiva de uma vida decente) toma uma nova forma e precisamos ent\u00e3o admitir que h\u00e1 uma falha em nosso objetivo em si (por exemplo, de que a democracia \u201cnormal\u201d tamb\u00e9m pode ser uma forma de falta de liberdade), ou que devemos exigir mais do que apenas a democracia pol\u00edtica \u2013 pois a vida social e a economia tamb\u00e9m devem ser democratizadas. Em suma, o que \u00e0 primeira vista tomamos como um fracasso que s\u00f3 atingia um princ\u00edpio nobre (a liberdade democr\u00e1tica) \u00e9 afinal percebido como fracasso inerente ao pr\u00f3prio princ\u00edpio. Essa descoberta \u2013 de que o princ\u00edpio pelo qual lutamos pode ser inerentemente viciado \u2013 \u00e9 um grande passo de pedagogia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A ideologia dominante mobiliza aqui todo o seu arsenal para nos impedir de chegar a essa conclus\u00e3o radical. Seus representantes nos dizem que a liberdade democr\u00e1tica traz consigo sua pr\u00f3pria responsabilidade e que esta tem um pre\u00e7o \u2013 logo, que \u00e9 um sinal de imaturidade esperar tanto assim da democracia. Dessa forma, nos culpam por nosso fracasso: segundo eles, em uma sociedade livre somos todos capitalistas investindo na pr\u00f3pria vida, quando decidimos, por exemplo, nos focar mais em nossa educa\u00e7\u00e3o do que em divers\u00e3o para que sejamos bem sucedidos. Em sentido pol\u00edtico mais direto, os Estados Unidos perseguem coerentemente uma estrat\u00e9gia de controle de danos em sua pol\u00edtica externa, por meio da recanaliza\u00e7\u00e3o de levantes populares para formas capitalistas-parlamentares aceit\u00e1veis: foi o bem sucedido caso da \u00c1frica do Sul, ap\u00f3s a queda do regime do apartheid; nas Filipinas, depois da queda de Marcos; na Indon\u00e9sia, ap\u00f3s Suharto etc. \u00c9 aqui que a pol\u00edtica propriamente dita come\u00e7a: a quest\u00e3o \u00e9 como seguir adiante depois de finda essa primeira e entusiasmada etapa, como dar o pr\u00f3ximo passo sem sucumbir \u00e0 cat\u00e1strofe da tenta\u00e7\u00e3o \u201ctotalit\u00e1ria\u201d \u2013 como ir al\u00e9m de Mandela sem se tornar Mugabe?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que significaria isso em um caso concreto? Vamos voltar aos protestos de dois pa\u00edses vizinhos, Gr\u00e9cia e Turquia. Numa primeira abordagem, eles podem parecer totalmente diferentes: a Gr\u00e9cia est\u00e1 enroscada nas pol\u00edticas ruinosas da austeridade, enquanto a Turquia goza de um boom econ\u00f4mico e est\u00e1 emergindo como uma nova superpot\u00eancia regional. Mas se, no entanto, cada Turquia gera e cont\u00e9m sua pr\u00f3pria Gr\u00e9cia, suas pr\u00f3prias ilhas de mis\u00e9ria? Em uma de suas Elegias de Hollywood, Brecht escreveu sobre essa aldeia (como ele a chama):<\/p>\n<p><i>A aldeia de Hollywood foi planejada de acordo com a no\u00e7\u00e3o<br \/>\nQue as pessoas desse lugar fazem do C\u00e9u. Nesse lugar<br \/>\nElas chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que Deus,<br \/>\nNecessitando de um C\u00e9u e de um Inferno, n\u00e3o precisou<br \/>\nPlanejar dois estabelecimentos, mas<br \/>\nApenas um: o C\u00e9u. Que esse,<br \/>\nPara os pobres e infortunados, funciona<br \/>\nComo Inferno.<br \/>\n<\/i><\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o mesmo n\u00e3o se aplica \u00e0 aldeia global de hoje, como os casos exemplares do Qatar ou de Dubai, onde h\u00e1 glamour para os ricos e quase escravid\u00e3o para os trabalhadores imigrantes? N\u00e3o \u00e9 de se admirar, ent\u00e3o, que um olhar mais atento revele a semelhan\u00e7a subjacente entre a Turquia e a Gr\u00e9cia: privatiza\u00e7\u00f5es, fechamento de espa\u00e7os p\u00fablicos, o desmantelamento dos servi\u00e7os sociais, a ascens\u00e3o da pol\u00edtica autorit\u00e1ria (basta comparar a amea\u00e7a do fechamento da TV p\u00fablica na Gr\u00e9cia com os sinais de censura na Turquia). Nesse n\u00edvel elementar, os manifestantes gregos e turcos est\u00e3o engajados na mesma luta. O verdadeiro evento teria sido ent\u00e3o para coordenar ambas, para rejeitar as tenta\u00e7\u00f5es \u201cpatri\u00f3ticas\u201d, recusar-se a se preocupar com as preocupa\u00e7\u00f5es de outros (isto \u00e9, deixar de enxergar a Gr\u00e9cia e a Turquia como inimigos hist\u00f3ricos) e organizar manifesta\u00e7\u00f5es comuns de solidariedade.<\/p>\n<p>Talvez o pr\u00f3prio futuro dos protestos em curso dependa da capacidade de se organizar essa solidariedade global.<\/p>\n<p><b><i>NOTAS:<\/i><\/b><i><\/i><\/p>\n<p><i>1 Em seu famoso Pref\u00e1cio \u00e0 Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica (S\u00e3o Paulo, Express\u00e3o Popular, 2012), Marx escreveu que, em seu pior modo evolutivo, a humanidade s\u00f3 apresenta a si mesma tarefas que ela \u00e9 capaz de resolver. Somos tentados a inverter essa declara\u00e7\u00e3o e afirmar que a humanidade s\u00f3 apresenta para si tarefas que n\u00e3o pode resolver, desencadeando, assim, um processo imprevis\u00edvel no decurso do qual a pr\u00f3pria tarefa (objetivo) \u00e9 redefinida.<br \/>\n<\/i><\/p>\n<p><i>2 John Caputo e Gianni Vattimo, After the Death of God (Nova York, Columbia University Press, 2007), p. 124-5.<br \/>\n<\/i><\/p>\n<p><i>3 Compostas por Bertold Brecht em 1942, as elegias podem ser ouvidas no \u00e1lbum Supply and Demand, do m\u00fasico alem\u00e3o Dagmar Krause, gravado pela Hannibal Records em 1986. Fazem parte de um total de dezesseis can\u00e7\u00f5es, compostas por Kurt Weill e Hanns Eisler, e interpretadas por Krause.<br \/>\n______________________________<br \/>\n<\/i><\/p>\n<p><i>Slavoj \u017di\u017eek nasceu na cidade de Liubliana, Eslov\u00eania, em 1949. \u00c9 fil\u00f3sofo, psicanalista e um dos principais te\u00f3ricos contempor\u00e2neos. Transita por diversas \u00e1reas do conhecimento e, sob influ\u00eancia principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora cr\u00edtica cultural e pol\u00edtica da p\u00f3s-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, \u017di\u017eek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e \u00e9 um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), \u00c0s portas da revolu\u00e7\u00e3o (escritos de Lenin de 1917) (2005), A vis\u00e3o em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como trag\u00e9dia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.<\/i><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Nathalia Gonzaga.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=22323\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Problemas no Inferno parecem compreens\u00edveis \u2013 sabemos por que as pessoas est\u00e3o protestando na Gr\u00e9cia ou na Espanha, mas por que \u00e9 que h\u00e1 problemas no Para\u00edso, em pa\u00edses pr\u00f3speros ou que, ao menos, passam por um per\u00edodo de r\u00e1pido desenvolvimento, como a Turquia, a Su\u00e9cia e o Brasil?<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-31755","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31755"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31755\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}