{"id":32692,"date":"2013-08-12T12:00:03","date_gmt":"2013-08-12T11:00:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=32692"},"modified":"2015-05-06T08:59:59","modified_gmt":"2015-05-06T07:59:59","slug":"portugues-o-discurso-da-servidao-voluntaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/08\/portugues-o-discurso-da-servidao-voluntaria\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Discurso da Servid\u00e3o Volunt\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><i>O darwinismo social de nosso capitalismo n\u00e3o sentencia que aquilo que sobrevive e sobrepuja \u00e9 a \u00fanica for\u00e7a poss\u00edvel \u2013 e v\u00e1lida? Sendo assim, por que as v\u00edtimas deveriam se identificar com as v\u00edtimas? Daniel Balint, protagonista de Toler\u00e2ncia Zero (2001), reproduz o discurso da servid\u00e3o volunt\u00e1ria, \u201ccontanto que eu possa escarrar o meu \u00f3dio contra o outro que \u00e9 t\u00e3o impotente quanto eu mesmo\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Conhe\u00e7am Daniel Balint, protagonista do filme Toler\u00e2ncia Zero (2001), dire\u00e7\u00e3o de Henry Bean. Um judeu renegado. Um jovem. Quando ainda estava na escola, Daniel teve uma \u00e1spera discuss\u00e3o com seu professor de Teologia. Estava em jogo a natureza da f\u00e9 e do poder. A identidade de Deus. O professor discutia a passagem b\u00edblica em que Deus ordena a Abra\u00e3o que lhe ofere\u00e7a seu filho Isaac em holocausto. Os demais alunos acatam a explica\u00e7\u00e3o (chancelada) do professor. \u201cDeus queria testar Abra\u00e3o para saber se, de fato, seu cora\u00e7\u00e3o O amava sobre todas as coisas\u201d. Mas Daniel n\u00e3o aceita o serm\u00e3o repleto de contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2212 Ainda que Deus, no derradeiro momento, tenha impedido o pai de imolar o pr\u00f3prio filho; ainda que um cordeiro tenha sido posteriormente oferecido em holocausto, tudo isso demonstra que o Pai est\u00e1 mais preocupado com o temor que impinge em seus filhos do que com a f\u00e9 e o amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Escandalizado, o professor come\u00e7a a vociferar e amea\u00e7a expulsar Daniel da sala. Mas o intelecto ind\u00f4mito do jovem quer levar a iconoclastia \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2212 \u00c9 isso mesmo, Deus s\u00f3 quer que tenhamos medo! E que importa que Abra\u00e3o, ao fim e ao cabo, n\u00e3o matou Isaac? Deus lan\u00e7ou tal desafio, e no momento em que Abra\u00e3o levantou o punhal, seu cora\u00e7\u00e3o se fez impuro. Como Isaac poderia esquecer tudo aquilo? Poderia o filho perdoar algum dia ao pr\u00f3prio pai? Poderia o pai perdoar a si mesmo?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Daniel parece ressoar o abandono que outro judeu, Jesus Cristo, exalou em seus \u00faltimos momentos de crucifica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2212 Pai, por que me abandonaste?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Daniel abandonou a escola que n\u00e3o sabia lidar com suas quest\u00f5es e ang\u00fastias. Em tenra idade descobriu que a f\u00e9 e o fetichismo s\u00e3o t\u00e3o cont\u00edguos quanto o corpo e a sombra. Os espectadores s\u00f3 n\u00e3o esper\u00e1vamos tamanha convers\u00e3o passados alguns anos. No in\u00edcio de sua vida adulta, Daniel Balint come\u00e7a a militar em movimentos de extrema direita. A cabe\u00e7a raspada, os coturnos, os suspens\u00f3rios e a su\u00e1stica sob a jaqueta surrada n\u00e3o deixam d\u00favidas sobre sua nova orienta\u00e7\u00e3o neonazista. Daniel, leitor de Mein Kampf (Minha Luta), disc\u00edpulo de Adolf Schicklgruber, tamb\u00e9m conhecido como Adolf Hitler.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O redivivo epis\u00f3dio b\u00edblico envolvendo Abra\u00e3o e Isaac parece iluminar uma face obscura de Deus que a tr\u00e1gica convers\u00e3o de Daniel pretende reproduzir. Como entender que um judeu possa envergar a su\u00e1stica? Como entender que a v\u00edtima queira ser arregimentada pelo carrasco? \u201cOra\u201d, diria Daniel, \u201cDeus n\u00e3o deu cabo de seus filhos amados? Se assim \u00e9, apenas a cerca de arame farpado de Auschwitz, Dachau e Treblinka separa o amor do \u00f3dio, a vingan\u00e7a do perd\u00e3o\u201d. Nossa sociedade n\u00e3o cultua os vencedores? O darwinismo social de nosso capitalismo n\u00e3o sentencia que aquilo que sobrevive e sobrepuja \u00e9 a \u00fanica for\u00e7a poss\u00edvel \u2013 e v\u00e1lida? Sendo assim, por que as v\u00edtimas deveriam se identificar com as v\u00edtimas? (Ora, ora: o cliente nem sempre tem raz\u00e3o.) Daniel Balint reproduz o discurso da servid\u00e3o volunt\u00e1ria, \u201ccontanto que eu possa escarrar o meu \u00f3dio contra o outro que \u00e9 t\u00e3o impotente quanto eu mesmo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Daniel e seus comparsas brigam sem mais. Negros, latinos e judeus. Num restaurante kosher, cujos alimentos obedecem \u00e0 lei judaica, os neonazis, como Eva, querem comer o fruto proibido. S\u00f3 que, ali, o propriet\u00e1rio judeu, munido de um taco de baseball, inicia uma briga que vai parar diante de um juiz. Os neonazis s\u00e3o sentenciados pelo dedo em riste da democracia:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2212 Voc\u00eas podem escolher entre passar 30 dias na cadeia ou ouvir hist\u00f3rias de sobreviventes de Auschwitz. E ent\u00e3o, o que vai ser?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Pela primeira vez em suas vidas, os neonazis precisam se deparar com os efeitos concretos da barb\u00e1rie fascista. Quando gangues e fac\u00e7\u00f5es se enfrentam nas ruas e avenidas das megal\u00f3poles, o outro n\u00e3o passa de uma abstra\u00e7\u00e3o. O objeto distante do \u00f3dio. Um alvo cada vez mais pr\u00f3ximo. Agora, a trucul\u00eancia deve lidar com o sofrimento encarnado, deve escutar hist\u00f3rias daqueles que n\u00e3o conseguem se libertar do algoz da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A medida judicial me parece fundamental. H\u00e1 um fosso enorme entre fazer odes fict\u00edcias \u00e0 opress\u00e3o e assistir \u00e0 morte de um ser humano por chutes e pauladas. Na verdade, quando uma gangue lincha uma v\u00edtima estirada, toda a humanidade da v\u00edtima \u2013 e dos carrascos \u2013 j\u00e1 se evadiu. Assim, os neonazis ouvir\u00e3o relatos de estupros e afogamentos e torturas e assass\u00ednios de pessoas que h\u00e1 muito se sentem culpadas por terem sobrevivido. J\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel tratar o judeu como o esp\u00f3lio estat\u00edstico da c\u00e2mera de g\u00e1s. Ele e ela est\u00e3o ali, poderiam ser nossos vizinhos, nossos amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A medida judicial que aproxima v\u00edtimas e carrascos deveria se estender aos grandes mandat\u00e1rios que, de seus gabinetes, n\u00e3o ouvem os gritos e s\u00faplicas dos condenados da terra. Se o presidente Harry Truman conhecesse os homens e mulheres de Hiroshima e Nagasaki, talvez o bombardeiro Enola Gay n\u00e3o houvesse legado ao Jap\u00e3o sombras fosforescentes como escombros de guerra. As crian\u00e7as de Han\u00f3i n\u00e3o tomariam banho com napalm pela manh\u00e3 se John Fitzgerald Kennedy e Richard Nixon exalassem o odor dos corpos vietnamitas em decomposi\u00e7\u00e3o \u2013 corpos desfigurados pelo agente laranja despejado pelos mesmos helic\u00f3pteros hip\u00f3critas que, d\u00e9cadas depois, lan\u00e7ariam caixas de alimentos para amortizar a culpa do Ocidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Quando Balint ouve a hist\u00f3ria de um velho judeu que viu o pr\u00f3prio filho \u2013 um beb\u00ea! \u2013 ser arrancado de seus bra\u00e7os para morrer espetado pela baioneta de um soldado da tem\u00edvel SS, o jovem que outrora questionara Deus por conta de Sua brutalidade para com Abra\u00e3o e Isaac, quase \u00e0s l\u00e1grimas, s\u00f3 faz gritar:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2212 Mas o que foi que voc\u00ea fez para conter o soldado, velho? Voc\u00ea ficou assistindo \u00e0 morte de seu pr\u00f3prio filho? Por que n\u00e3o reagiu? Por que n\u00e3o o matou? Por que voc\u00ea n\u00e3o trucidou aquele assassino?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Daniel cospe as palavras com \u00f3dio, o velho pai chora copiosamente, at\u00e9 que uma sobrevivente logo ao lado questiona com todo o afinco o hero\u00edsmo de estufa do jovem Daniel.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2212 Mas, ora, como ousa?! Voc\u00ea n\u00e3o estava ali, como pode julg\u00e1-lo? Seu tolo, seu est\u00fapido! Jovens mais fortes e mais valentes do que voc\u00ea quedaram inertes em situa\u00e7\u00f5es similares. Voc\u00ea, aqui, em seu pa\u00eds rico, voc\u00ea acha que pode bancar o her\u00f3i!? S\u00f3 algu\u00e9m dentro de uma situa\u00e7\u00e3o pode julg\u00e1-la. E esse algu\u00e9m ser\u00e1 sempre o \u00faltimo a poder julg\u00e1-la. O \u00faltimo! O sobrevivente.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por um momento, Daniel se cala. \u00c9 preciso lutar contra a piedade, \u201ceu n\u00e3o quero chorar, eu n\u00e3o posso chorar!\u201d S\u00fabito, Daniel levanta a cabe\u00e7a e dispara:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2212 Mate o seu inimigo! Resista! Eis o que \u00e9 preciso fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Daniel Balint, neonazista judeu, acaba cometendo suic\u00eddio. O jovem explode uma sinagoga a que fora para rezar. \u201cMate o seu inimigo\u201d. Mate a si mesmo. \u201cOra\u201d, diria Daniel, \u201cDeus n\u00e3o deu cabo de seus filhos amados? Se assim \u00e9, apenas a cerca de arame farpado de Auschwitz, Dachau e Treblinka separa o amor do \u00f3dio, a vingan\u00e7a do perd\u00e3o\u201d. Nossa sociedade n\u00e3o cultua os vencedores? O darwinismo social de nosso capitalismo n\u00e3o sentencia que aquilo que sobrevive e sobrepuja \u00e9 a \u00fanica for\u00e7a poss\u00edvel \u2013 e v\u00e1lida? Sendo assim, por que as v\u00edtimas deveriam se identificar com as v\u00edtimas? (Ora, ora: o cliente nem sempre tem raz\u00e3o.) Daniel Balint reproduz o discurso da servid\u00e3o volunt\u00e1ria, \u201ccontanto que eu possa escarrar o meu \u00f3dio contra o outro que \u00e9 t\u00e3o impotente quanto eu mesmo\u201d.<br \/>\n_________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><i>Fl\u00e1vio Ricardo Vassoler \u00e9 escritor e professor universit\u00e1rio. Mestre e doutorando em Teoria Liter\u00e1ria e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, \u00e9 autor de O Evangelho segundo Tali\u00e3o (Editora nVersos) e organizador de Dostoi\u00e9vski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Periodicamente, atualiza o Subsolo das Mem\u00f3rias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, p\u00e1gina em que posta fragmentos de seus textos liter\u00e1rios e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=22465&amp;utm_source=emailmanager&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=Boletim_Carta_Maior__06082013\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O darwinismo social de nosso capitalismo n\u00e3o sentencia que aquilo que sobrevive e sobrepuja \u00e9 a \u00fanica for\u00e7a poss\u00edvel \u2013 e v\u00e1lida? Sendo assim, por que as v\u00edtimas deveriam se identificar com outras v\u00edtimas? Daniel Balint  reproduz o discurso da servid\u00e3o volunt\u00e1ria, \u201ccontanto que eu possa escarrar o meu \u00f3dio contra o outro que \u00e9 t\u00e3o impotente quanto eu mesmo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-32692","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32692","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32692"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32692\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32692"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32692"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32692"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}