{"id":33850,"date":"2013-09-23T12:00:45","date_gmt":"2013-09-23T11:00:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=33850"},"modified":"2015-05-06T08:59:03","modified_gmt":"2015-05-06T07:59:03","slug":"portugues-celso-amorim-precisamos-nos-preparar-para-evitar-uma-guerra-cibernetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/09\/portugues-celso-amorim-precisamos-nos-preparar-para-evitar-uma-guerra-cibernetica\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Celso Amorim: \u201cPrecisamos Nos Preparar Para Evitar Uma Guerra Cibern\u00e9tica\u201d"},"content":{"rendered":"<p><i>Ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, no governo Lula, e ministro da Defesa, no governo Dilma, Celso Amorim, em entrevista ao jornal P\u00e1gina\/12, explica por que a Am\u00e9rica do Sul necessita de uma vis\u00e3o comum sobre a defesa baseada na coopera\u00e7\u00e3o e na preserva\u00e7\u00e3o dos recursos naturais. E tamb\u00e9m o que fazer diante de uma guerra cibern\u00e9tica. &#8220;Estamos pensando em realizar um grande esfor\u00e7o na \u00e1rea da defesa cibern\u00e9tica&#8221;, anuncia. <\/i><\/p>\n<p>Aos 71 anos, o ministro de Defesa Celso Amorim registra um recorde em sua hist\u00f3ria. Em 2009, quando era chanceler de Lula, a revista norte-americana <i>Foreign Policy<\/i> o chamou de \u201co melhor ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do mundo\u201d. De viagem pela Argentina, onde firmou um acordo com seu colega Agust\u00edn Rossi para ampliar o trabalho conjunto, dialogou com a P\u00e1gina\/12 na resid\u00eancia do novo embaixador brasileiro Everton Vieira Vargas.<\/p>\n<p><b><i>\u2013Voc\u00ea \u00e9 ministro de Defesa, foi chanceler do presidente Itamar Franco e nos dois mandatos de Lula. O Brasil tem uma doutrina de defesa. Que rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 entre essa doutrina e a da Unasul, expressa nos documentos do Conselho Sul-americano de Defesa? Quais as diferen\u00e7as, as semelhan\u00e7as e os pontos comuns?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013 Unasul \u00e9 uma dimens\u00e3o importante de nossa pol\u00edtica de defesa, o que n\u00e3o quer dizer que outros pa\u00edses n\u00e3o possam ter vis\u00f5es diferentes. Em nossa regi\u00e3o \u2013 e quando falo de regi\u00e3o me refiro a Am\u00e9rica do Sul \u2013 n\u00f3s achamos que deve reger a coopera\u00e7\u00e3o. A coopera\u00e7\u00e3o \u00e9 a melhor forma de dissuas\u00e3o. Portanto, todos os trabalhos da Unasul sobre cria\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a, de coopera\u00e7\u00e3o industrial, de exerc\u00edcios comuns, t\u00eam para n\u00f3s um grande valor.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero interpretar os demais pa\u00edses, mas acho que, se a coopera\u00e7\u00e3o vale para o Brasil, tamb\u00e9m \u00e9 valiosa para os outros pa\u00edses. Quando se discute temas globais no mundo, o fato de que nossa regi\u00e3o seja pac\u00edfica \u00e9 um valor a favor extraordin\u00e1rio. Quando se fala da competitividade e se fala da capacidade de atra\u00e7\u00e3o de investimentos, se trata de uma vantagem formid\u00e1vel para a paz. E isso tamb\u00e9m nos d\u00e1 grande autoridade para falar de outros problemas no mundo. O Conselho Sul-americano de Defesa da Unasul \u00e9 uma dimens\u00e3o importante. Mas al\u00e9m disso acho que temos em comum uma s\u00e9rie de interesses.<\/p>\n<p>Talvez o mais evidente de todos seja a defesa dos recursos naturais. Somos uma regi\u00e3o muito rica em energia, em capacidade de produ\u00e7\u00e3o de alimentos, em \u00e1gua doce, em biodiversidade&#8230; Tamb\u00e9m somos uma regi\u00e3o muito diversificada, desde o tr\u00f3pico mais equatorial at\u00e9 a Tierra del Fuego.<\/p>\n<p>Contamos com oceanos dos dois lados. Tudo isso nos constitui como uma regi\u00e3o que deve ter uma vis\u00e3o comum de defesa.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Uma defesa comum?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria. O necess\u00e1rio \u00e9 a vis\u00e3o comum. \u00c9 o trabalho que tamb\u00e9m queremos desenvolver no Conselho Sul-americano de Defesa. Por isso estimulamos a cria\u00e7\u00e3o de uma escola sul-americana de defesa. Temos pontos comuns evidentes, como os que mencionei antes. Tamb\u00e9m queremos encarar o monitoramento de nossas \u00e1reas especiais. Para o Brasil, a Amaz\u00f4nia \u00e9 uma zona \u00f3bvia para cuidar, mas ao mesmo tempo falo do mar territorial ou de regi\u00f5es especiais, que s\u00e3o fatores que podem propiciar uma coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Fala do Atl\u00e2ntico Sul e o lit\u00edgio das Malvinas dentro do Atl\u00e2ntico Sul?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013 Bom, tem a ver com o Atl\u00e2ntico Sul. Nossa posi\u00e7\u00e3o sobre as Malvinas \u00e9 muito conhecida e n\u00e3o tenho necessidade de repeti-la. Defendemos sempre os direitos argentinos e uma solu\u00e7\u00e3o negociada. Mas o Atl\u00e2ntico Sul, al\u00e9m do problema muito importante das Malvinas, apresenta outros problemas muito importantes. H\u00e1 estradas chave. Chave para a Argentina, claro, mas como ministro de Defesa do Brasil falo de que uma propor\u00e7\u00e3o enorme de nosso com\u00e9rcio exterior vai pelo Atl\u00e2ntico. E nossos provedores de petr\u00f3leo, porque ainda n\u00e3o conseguimos o auto abastecimento e tamb\u00e9m h\u00e1 diferentes tipos de petr\u00f3leo cru, s\u00e3o a Nig\u00e9ria, a Angola, a Arg\u00e9lia&#8230; O transporte, em todos os casos, passa pelo Atl\u00e2ntico Sul.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, como voc\u00ea sabe, o Brasil tem uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima com a \u00c1frica. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que cobra mais e mais import\u00e2ncia, o que nos leva a ter uma maior presen\u00e7a cultural e econ\u00f4mica. Outra raz\u00e3o mais, ent\u00e3o, para preocuparmo-nos com o Atl\u00e2ntico Sul. Agora, queremos garantir a seguran\u00e7a do Atl\u00e2ntico Sul justamente com os pa\u00edses do Atl\u00e2ntico Sul. Do ponto de vista geopol\u00edtico, \u00e9 natural a coopera\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses da costa ocidental da \u00c1frica e dos pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul. Todos conformam a zona de paz do Atl\u00e2ntico Sul. Por estes dias realizaremos, no Brasil, um semin\u00e1rio muito importante em Salvador, Bahia. A Argentina participar\u00e1 com um conferencista. Por isso queremos manter o Atl\u00e2ntico Sul como zona de paz, de coopera\u00e7\u00e3o, livre de armas de destrui\u00e7\u00e3o massiva.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Ministro, eu mencionei a palavra \u201cdefesa\u201d e em sua resposta voc\u00ea incluiu a palavra \u201crecursos\u201d. De quem a Am\u00e9rica do Sul deve defender seus recursos? De riscos potenciais ou h\u00e1 uma identifica\u00e7\u00e3o precisa?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma identifica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Ao menos no caso do Brasil, n\u00e3o temos inimigos. Talvez seja assim por fortuna hist\u00f3rica, ou pela diplomacia do passado. N\u00e3o sei&#8230; Temos rela\u00e7\u00f5es muito boas com as diferentes pot\u00eancias. Mas \u00e9 suficiente que algu\u00e9m olhe a hist\u00f3ria, por um lado, ou por outro lado que olhe os estudos sobre a prospectiva dos recursos naturais no futuro, para pensar que h\u00e1 eventualidades que podem acontecer. Devemos estar preparados para refutar qualquer tentativa de alcan\u00e7ar um alvo, de qualquer lugar que venha. E nisso entra a necessidade de ter capacidade de dissuas\u00e3o. Por isso disse que dentro da regi\u00e3o, dentro da Am\u00e9rica do Sul e talvez isso valha para outros pa\u00edses como os da \u00c1frica, tem que considerar que em um mundo global e, ainda que n\u00e3o tenhamos nenhum inimigo declarado ou n\u00e3o declarado, devemos ter uma pol\u00edtica de dissuas\u00e3o.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 A dissuas\u00e3o \u00e9 para que sequer chegue a existir um inimigo?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013 Exato. \u00c9 uma forma muito inteligente de ver a quest\u00e3o. Quando algu\u00e9m se prepara para se defender, desestimula ataques de outros pa\u00edses que possam, em alguma situa\u00e7\u00e3o, achar que necessitam algo. Do etanol, que o Brasil produz, para dar um exemplo. De \u00e1gua doce, que h\u00e1 nos aqu\u00edferos. A dissuas\u00e3o far\u00e1 com que, antes de tent\u00e1-lo, algu\u00e9m pense duas vezes.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Quais s\u00e3o as principais linhas de desenvolvimento de armamentos que o governo de Dilma Rousseff se prop\u00f5e desdobrar?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013Temos tr\u00eas \u00e1reas consideradas estrat\u00e9gicas. Uma \u00e9 a nuclear, com o plano de desenvolver o submarino de propuls\u00e3o nuclear. O Brasil tem a costa atl\u00e2ntica mais longa do mundo. Acho que mais longa ainda que a costa argentina. A descoberta e explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal, das jazidas petrol\u00edferas a muita profundidade, valorizam ainda mais a costa. Uma vigil\u00e2ncia eficaz s\u00f3 pode ser feita por um submarino que possa ficar muito tempo embaixo da \u00e1gua. Outro plano estrat\u00e9gico \u00e9 o espacial. Inclui a capacidade de lan\u00e7amento e tamb\u00e9m sat\u00e9lites. Est\u00e1 a cargo da For\u00e7a A\u00e9rea. O terceiro aspecto estrat\u00e9gico, muito atual, \u00e9 a defesa cibern\u00e9tica. N\u00e3o o digo eu sozinho. Se voc\u00ea l\u00ea an\u00e1lises e coment\u00e1rios de gente das grandes pot\u00eancias \u2013 e n\u00e3o quero particularizar \u2013 ver\u00e1 sua tese. N\u00f3s n\u00e3o queremos guerra, claro, mas eles dizem que, se houvesse uma guerra, essa guerra do futuro seria cibern\u00e9tica. Inclusive para evitar uma guerra desse tipo h\u00e1 que estar preparado.<\/p>\n<p>Estamos pensando em realizar um grande esfor\u00e7o na \u00e1rea da defesa cibern\u00e9tica. J\u00e1 antes de 2010 haviam equipes trabalhando nisso, mas depois dessa data criamos um Centro de Defesa Cibern\u00e9tica com base no ex\u00e9rcito mas que serve tamb\u00e9m \u00e0s outras for\u00e7as. J\u00e1 atuou em situa\u00e7\u00f5es pontuais, n\u00e3o compar\u00e1veis ao ataque de uma pot\u00eancia estrangeira.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Atuou em tarefas de preven\u00e7\u00e3o?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013Sim, por exemplo durante a c\u00fapula do Rio + 20, na Copa das confedera\u00e7\u00f5es, na visita do papa Francisco&#8230; Deteve v\u00e1rios ataques cibern\u00e9ticos. Obviamente s\u00e3o ataques de hackers, algo incompar\u00e1vel com o que pode acontecer em uma situa\u00e7\u00e3o de conflito em grande escala.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Esses ataques s\u00e3o compar\u00e1veis com a intercep\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00f5es e mensagens da presidenta e seus conselheiros?<\/i><\/b><\/p>\n<p>Voc\u00ea pode fazer a compara\u00e7\u00e3o que desejar.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 A intercep\u00e7\u00e3o foi um ataque?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o o caracterizaria desse modo, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o tenha sido uma intrus\u00e3o para colher dados. \u00c9 como se voc\u00ea me perguntasse se a espionagem \u00e9 o mesmo que a guerra. Nesses casos estamos, de certo modo, no limite. Um limite que n\u00e3o se pode passar. Mas quando se fala de defesa cibern\u00e9tica se pensa mais em um ataque do tipo do que pode realmente afetar todo um sistema. O sistema el\u00e9trico, o sistema de controle dos aeroportos&#8230; V\u00e1rias coisas&#8230; Um ataque assim pode gerar o efeito de uma arma de destrui\u00e7\u00e3o massiva.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Como uma sabotagem de amplo alcance.<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013 Pode ser. Mas isso n\u00e3o diminui a import\u00e2ncia da tentativa de colher informa\u00e7\u00e3o, um tema que tem v\u00e1rios aspectos. Envolve a invas\u00e3o de privacidade quando se trata de cidad\u00e3os. Ou o que tem a ver com recursos naturais e com a tecnologia para obt\u00ea-los. Tudo isso \u00e9 preocupante. N\u00e3o tenho o detalhe das explica\u00e7\u00f5es que meu colega recebeu do ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, ou seja que n\u00e3o posso comentar em detalhe.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Ao comparar sua gest\u00e3o com Lula e a gest\u00e3o dos dois chanceleres de Dilma, h\u00e1 uma intensidade diferente na rela\u00e7\u00e3o do Brasil com o resto da Am\u00e9rica do Sul e com a Argentina em particular?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013Deixo esse tipo de quest\u00f5es para os analistas. Eu tenho meu trabalho de ministro. Mas lhe digo que as prioridades continuam sendo as mesmas. N\u00e3o tenho nenhuma raz\u00e3o para acreditar que a intensidade seja diferente. \u00c9 a mesma. H\u00e1 estilos que dependem das pessoas, mas os estilos n\u00e3o marcam diferen\u00e7as de fundo.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Deixando de lado, como forma de analisar as coisas, o sentimento de irmandade, a solidariedade ou os atos generosos, em que conv\u00e9m ao interesse nacional brasileiro uma alian\u00e7a s\u00f3lida com a Argentina e com o resto dos pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 muito dif\u00edcil separar a conveni\u00eancia dos sentimentos fraternos e da solidariedade. Inclusive \u00e9 dif\u00edcil separ\u00e1-la da generosidade. Quando era chanceler, disse muitas vezes que dev\u00edamos ser generosos porque assim defender\u00edamos tamb\u00e9m nossos interesses a longo prazo. Temos interesse em manter boas rela\u00e7\u00f5es com nossos vizinhos. E com a Argentina, pa\u00eds com o qual as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais intensas, com mais raz\u00e3o. Houve uma pequena queda em 2012, mas entre 2000 e 2011 as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras \u00e0 Argentina passaram de dois bi a mais de vinte bilh\u00f5es de d\u00f3lares. As importa\u00e7\u00f5es da Argentina n\u00e3o cresceram tanto, mas tamb\u00e9m aumentaram muito. Pensemos que no interc\u00e2mbio \u00e9 importante a presen\u00e7a de bens manufaturados. Tamb\u00e9m registramos um crescimento do com\u00e9rcio com outros pa\u00edses da regi\u00e3o. Isso n\u00e3o tem a ver com o interesse nacional? Claro. Mas quando Ra\u00fal Alfons\u00edn e Jos\u00e9 Sarney se aproximaram , o interesse econ\u00f4mico existia. Entretanto, ao mesmo tempo era um instrumento para a consolida\u00e7\u00e3o da paz, a elimina\u00e7\u00e3o das rivalidades, que talvez n\u00e3o fossem t\u00e3o reais, mas imagin\u00e1rias, ainda que o imagin\u00e1rio na pol\u00edtica tem sua import\u00e2ncia&#8230;<\/p>\n<p><b><i>\u2013E estavam as corridas at\u00f4micas paralelas.<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013 Fico muito orgulhoso pois, antes de ocupar a Chancelaria, pude ser o negociador principal para a contabilidade e o controle nuclear entre a Argentina e o Brasil.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 A Ag\u00eancia Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013A negocia\u00e7\u00e3o e o acordo bilateral foi o que possibilitou a Abacc.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Ministro, um dos desafios que o Brasil e a Argentina enfrentam, cada um a seu modo, \u00e9 o perigo de reprimariza\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o com terceiros pa\u00edses. A China, por exemplo. Se a rela\u00e7\u00e3o comercial se baseia em exportar mineral de ferro ou soja e se essa exporta\u00e7\u00e3o gera divisas imprescind\u00edveis para o Brasil e a Argentina, como se consegue a combina\u00e7\u00e3o justa de equil\u00edbrio e contradi\u00e7\u00e3o?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013Tamb\u00e9m exportamos avi\u00f5es \u00e0 China. E os avi\u00f5es s\u00e3o de alta tecnologia. Sem falar da China em particular, em geral com o mundo que exportamos e que importamos \u00e9 algo que deve preocupar-nos. Queremos uma inser\u00e7\u00e3o com muito valor agregado. Eu n\u00e3o diminuiria tanto o valor das exporta\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas. Hoje, dentro da agricultura, h\u00e1 muita tecnologia. Isso d\u00e1 valor agregado, ainda que seja menos \u00f3bvio.<\/p>\n<p>O Brasil acaba de superar pela primeira vez os Estados Unidos em soja. S\u00f3 foi poss\u00edvel, n\u00e3o por subven\u00e7\u00f5es ao produtor, como fazem os Estados Unidos, e sim por grandes investimentos em tecnologia. A soja deixou de ser poss\u00edvel s\u00f3 em climas temperados. Dito isso, acho que nossa coopera\u00e7\u00e3o seria muito importante. Por que, em lugar de discutir como compete uma geladeira feita no Brasil com outra feita na Argentina, n\u00e3o fazemos uma geladeira juntos? Mas volto ao meu tema, como ministro. Podemos fazer muitas coisas juntos em Defesa. N\u00f3s temos um conceito original de avi\u00e3o de transporte. Mas muitas partes importantes ser\u00e3o fabricadas na Argentina. O KC390, que pode substituir os H\u00e9rcules, \u00e9 um exemplo. Podemos vend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero entrar em terrenos sociais, onde me sento menos firme, mas penso que n\u00e3o apenas \u00e9 quest\u00e3o de vender bens aliment\u00edcios ou minerais. Tamb\u00e9m se trata de saber utilizar os recursos que se obt\u00e9m dessas exporta\u00e7\u00f5es para investir em planos de alta tecnologia. H\u00e1 toda uma complexidade por indagar.<\/p>\n<p>De todos modos, n\u00e3o acho que nossa economia v\u00e1 se reprimarizar, mas admito que \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o a considerar. Enquanto isso, temos muito que fazer juntos. O exemplo \u00e9 o reator nuclear. Ao melhor, algum dia podemos vend\u00ea-lo, tamb\u00e9m. Voc\u00eas j\u00e1 venderam algo \u00e0 Austr\u00e1lia, n\u00e3o? Os avi\u00f5es do Brasil, talvez com alguma contribui\u00e7\u00e3o importante da Argentina, podem tamb\u00e9m ser vendidos. Continuamos aprendendo dos avan\u00e7os que voc\u00eas alcan\u00e7aram em radares. A\u00ed vejo outro campo de coopera\u00e7\u00e3o. Trabalhemos em tudo isso. A defesa tem um alto poder de indu\u00e7\u00e3o em investimentos de valor tecnol\u00f3gico. E nem falar de outras \u00e1reas que a Argentina levantou, com raz\u00e3o, na Unasul, como os medicamentos.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Que rela\u00e7\u00e3o tem a produ\u00e7\u00e3o de medicamentos com a defesa?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013 Os medicamentos s\u00e3o necess\u00e1rios para os soldados. Se trata de corpora\u00e7\u00f5es onde vive muita gente junta e as doen\u00e7as podem difundir-se.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Qual \u00e9 o maior fator de instabilidade concreta que v\u00ea hoje no mundo? S\u00edria, Oriente M\u00e9dio?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013Seria dif\u00edcil olhar a S\u00edria, e a S\u00edria dentro do Oriente M\u00e9dio, e n\u00e3o preocupar-se. Tampouco diria que a quest\u00e3o dos recursos est\u00e1 ausente do conflito, ainda que haja outras raz\u00f5es tamb\u00e9m: l\u00ednguas, culturas&#8230; Mas tamb\u00e9m os recursos t\u00eam grande import\u00e2ncia. Seria ing\u00eanuo supor o contr\u00e1rio. A interven\u00e7\u00e3o no Iraque se deveu \u00e0s armas qu\u00edmicas que \u2013 como ficou demonstrado depois \u2013 n\u00e3o existiam. Saddam Hussein era um ditador, mas n\u00e3o era o \u00fanico ditador no mundo. Por que foi eleito Saddam Hussein? Porque al\u00e9m de ser um ditador tinha petr\u00f3leo. No Brasil tamb\u00e9m nos causa preocupa\u00e7\u00e3o a instabilidade em alguns pa\u00edses africanos. Acho que a \u00c1frica est\u00e1 avan\u00e7ando inclusive em termos de mudan\u00e7as de governo e evolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, ainda com todas as imperfei\u00e7\u00f5es que t\u00eam os processos pol\u00edticos quando rec\u00e9m come\u00e7am. Mas para n\u00f3s, quest\u00f5es que inicialmente pareciam mais afastadas, mas que tamb\u00e9m tinham a ver com recursos, como a quest\u00e3o da L\u00edbia, terminaram com uma desestabiliza\u00e7\u00e3o que afetou o Mali e depois o litoral ocidental da \u00c1frica, com o que voltamos \u00e0 problem\u00e1tica do Atl\u00e2ntico Sul. Um Estado falido, para usar o vocabul\u00e1rio internacional, sempre \u00e9 um fator de instabilidade. Mas hoje, naturalmente, o foco de instabilidade parece muito concentrado no Oriente M\u00e9dio. De todos modos, quero referir-me a um fator de instabilidade que as vezes n\u00e3o se menciona.<\/p>\n<p><b><i>\u2013 Qual \u00e9 esse fator?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013O fato de que alguns pa\u00edses tenham a capacidade de destruir v\u00e1rias vezes o mundo com seus arsenais nucleares \u00e9 um grande fator de instabilidade. Porque isso gera outras instabilidades. N\u00e3o vejo justificativa para que nenhum pa\u00eds tenha armas qu\u00edmicas. A Argentina e o Brasil firmaram o acordo correspondente. Mas \u00e9 um est\u00edmulo negativo que existam armamentos nucleares e que n\u00e3o se trabalhe de maneira firme para eliminar os arsenais nucleares. Disso n\u00e3o se fala. Como se dissessem: \u201cOs arsenais est\u00e3o em m\u00e3os de pa\u00edses s\u00e9rios e podem utiliz\u00e1-los. O problema s\u00e3o os pa\u00edses n\u00e3o-s\u00e9rios\u201d. Me parece que esse racioc\u00ednio \u00e9 em si mesmo uma fonte de instabilidade de potencialidades grav\u00edssimas.<\/p>\n<p><b><i>\u2013Existem menos armas nucleares mas t\u00eam maior poder de dano.<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u2013Sim, porque houve um esfor\u00e7o de destrui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tantas menos, de qualquer maneira, porque muitas existem ainda que n\u00e3o estejam mais em estado de alerta. E tamb\u00e9m, efetivamente, existem menos armas nucleares mas seus propriet\u00e1rios continuam trabalhando na \u201cefic\u00e1cia\u201d, e o digo entre aspas. Essa \u201cefic\u00e1cia\u201d sup\u00f5e uma maneira de proliferar. \u00c9 a prolifera\u00e7\u00e3o do poder destrutivo. E disso n\u00e3o se fala.<\/p>\n<p><i>Tradu\u00e7\u00e3o: Lib\u00f3rio J\u00fanior<\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=22730&amp;utm_source=emailmanager&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=Boletim_Carta_Maior__19092013\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, no governo Lula, e ministro da Defesa, no governo Dilma, Celso Amorim, em entrevista ao jornal P\u00e1gina\/12, explica por que a Am\u00e9rica do Sul necessita de uma vis\u00e3o comum sobre a defesa baseada na coopera\u00e7\u00e3o e na preserva\u00e7\u00e3o dos recursos naturais. 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