{"id":3482,"date":"2010-01-21T00:00:00","date_gmt":"2010-01-21T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/wordpress\/2010\/01\/portuguese-terremoto-e-desastre-natural-mas-a-pobreza-extrema-nao\/"},"modified":"2010-01-21T00:00:00","modified_gmt":"2010-01-21T00:00:00","slug":"portuguese-terremoto-e-desastre-natural-mas-a-pobreza-extrema-nao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2010\/01\/portuguese-terremoto-e-desastre-natural-mas-a-pobreza-extrema-nao\/","title":{"rendered":"(PORTUGUESE) TERREMOTO \u00c9 DESASTRE NATURAL, MAS A POBREZA EXTREMA, N\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><em>M&iacute;dia relaciona efeitos graves do terremoto com a pobreza extrema, mas n&atilde;o diz por que o pa&iacute;s caribenho &eacute; t&atilde;o subdesenvolvido.<br \/><\/em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/v01\/agencia\/internacional\/um-terremoto-oportuno\" ><br \/>Um terremoto oportuno?<\/a><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/v01\/agencia\/entrevistas\/201ca-pobreza-extrema-do-haiti-e-uma-construcao-historica-bi-centenaria201d\" >&ldquo;A pobreza extrema do Haiti &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica bi-centen&aacute;ria&rdquo;<\/a><\/p>\n<p>As imagens das TVs de todo o mundo mostram um verdadeiro inferno. Destrui&ccedil;&atilde;o total, corpos estirados, homens e mulheres aos prantos. Os relatos dos rep&oacute;rteres nos jornais que foram a campo n&atilde;o s&atilde;o diferentes. Saques a supermercados, viol&ecirc;ncia, desespero.<\/p>\n<p>Quase em un&iacute;ssono, os meios decretaram: os efeitos do terremoto de 7 graus na escala Richter ocorrido no dia 12 no Haiti s&atilde;o ainda mais graves devido &agrave; extrema pobreza em que vive a popula&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, o de menor &Iacute;ndice de Desenvolvimento Humano (IDH) do hemisf&eacute;rio ocidental. A an&aacute;lise um tanto &oacute;bvia n&atilde;o &eacute; incorreta, mas a imprensa em geral &ldquo;esqueceu-se&rdquo; de explicar o porqu&ecirc; de tanta mis&eacute;ria, praticamente naturalizando o subdesenvolvimento acentuado do Haiti.<\/p>\n<p>&ldquo;&Eacute; preciso que se diga que se, de fato, as causas da trag&eacute;dia s&atilde;o naturais, nem todos os efeitos o s&atilde;o&rdquo;, opina Aderson Bussinger Carvalho, advogado e ex-conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que visitou o pa&iacute;s em julho de 2007. &ldquo;&Eacute; preciso saber que ind&uacute;strias exploram a m&atilde;o-de-obra barata haitiana, cujos produtos s&atilde;o exportados para o mercado dos EUA, assegurando imensos lucros que n&atilde;o se revertem em favor do povo. As casas constru&iacute;das somente com areia, a aus&ecirc;ncia de hospitais, a falta de luz e &aacute;gua&#8230; tudo isso vem de antes do terremoto&rdquo;, afirma.<\/p>\n<p>Pobreza extrema<\/p>\n<p>Atualmente, 80% dos haitianos vivem abaixo da linha de pobreza, sendo que 54% se encontram na extrema pobreza. A mortalidade infantil &eacute; de cerca de 60 mortes para cada mil nascimentos (no Brasil, a propor&ccedil;&atilde;o est&aacute; em torno de 22 para mil), a expectativa de vida &eacute; de 60 anos e o analfabetismo atinge 47,1% da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, o pa&iacute;s sofre com a falta de infra-estrutura e ind&uacute;stria nacional. As estradas s&atilde;o bastante prec&aacute;rias, assim como as &aacute;reas de energia, telecomunica&ccedil;&otilde;es e transporte. Dois ter&ccedil;os dos haitianos dependem da agropecu&aacute;ria para sobreviver, enquanto apenas 9% trabalham em f&aacute;bricas, em sua maioria nas chamadas maquiladoras, unidades especializadas em produ&ccedil;&atilde;o de manufaturados para exporta&ccedil;&atilde;o que se utilizam de m&atilde;o-de-obra barata. &ldquo;Durante o ano de 2009, percorremos todo o Haiti. Nossa brigada percorreu dez departamentos e conhecemos a situa&ccedil;&atilde;o de pobreza em que vive a imensa maioria da sociedade haitiana&rdquo;, relata Jos&eacute; Luis Patrola, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e integrante da Brigada Internacionalista Dessalines da Via Campesina, que atua com as organiza&ccedil;&otilde;es camponesas do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Triste e estranha realidade para uma na&ccedil;&atilde;o que foi a segunda das Am&eacute;ricas a se tornar independente (da Fran&ccedil;a) e a primeira a abolir a escravid&atilde;o, em 1804. Ou seja, que tinha tudo para oferecer uma vida digna para seus habitantes.<\/p>\n<p>Constru&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica<\/p>\n<p>&ldquo;A pobreza extrema do Haiti &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica bi-centen&aacute;ria, produto da incessante interven&ccedil;&atilde;o colonialista e imperialista, em boa parte devido precisamente a ter sido o Haiti a primeira e &uacute;nica na&ccedil;&atilde;o negreira onde os trabalhadores escravizados insurrecionados obtiveram a liberdade. Isso ap&oacute;s derrotar expedi&ccedil;&otilde;es militares francesa, inglesa e espanhola&rdquo;, explica M&aacute;rio Maestri, historiador e professor do Programa de P&oacute;s Gradua&ccedil;&atilde;o em Hist&oacute;ria da Universidade de Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Segundo ele, a partir de ent&atilde;o, o Haiti passou a ser temido pelos EUA, pois poderia servir como exemplo aos escravos estadunidenses. Assim, o pa&iacute;s passou a &ldquo;ser objeto de bloqueio quase total, desde seus primeiros anos, pelas na&ccedil;&otilde;es metropolitanas e americanas independentes. J&aacute; em 1825, foi obrigado a pagar, sob pena de agress&atilde;o militar, pesad&iacute;ssima indeniza&ccedil;&atilde;o &agrave; Fran&ccedil;a. Conheceu nas d&eacute;cadas seguintes interven&ccedil;&otilde;es militares dos EUA, que, mesmo ap&oacute;s a desocupa&ccedil;&atilde;o, em 1934, transformaram o pa&iacute;s em semi-col&ocirc;nia, sobretudo atrav&eacute;s das sinistras ditaduras dos Duvaliers, Papa-Doc e seu filho [entre 1957 e 1986]&rdquo;.<\/p>\n<p>De acordo com Osvaldo Coggiola, professor de Hist&oacute;ria Contempor&acirc;nea da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), o Haiti n&atilde;o &eacute; uma exce&ccedil;&atilde;o na regi&atilde;o em que se encontra, mas um caso extremo da domina&ccedil;&atilde;o imposta pelos pa&iacute;ses centrais do capitalismo. Assim, para ele, &ldquo;atribuir seus males &agrave; incapacidade da sua popula&ccedil;&atilde;o, descendente de escravos for&ccedil;ados a trabalhar na ilha pelos colonialistas franceses, &eacute; um conceito abertamente racista. A classe dominante, ela sim, &eacute; corrupta at&eacute; a medula. Se chegar ajuda para o governo local, v&atilde;o roubar, para vender e chantagear a popula&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>Casas amontoadas<\/p>\n<p>Al&eacute;m da pobreza, outro fator vem sendo apontado como potencializador dos efeitos do terremoto, embora ambos estejam fortemente vinculados: a grande quantidade de pessoas vivendo nas cidades (especialmente na capital, Porto Pr&iacute;ncipe) em casas amontoadas e constru&iacute;das precariamente, o que fez com que desabassem mais facilmente. Segundo Patrola, o desastre deixou evidente a precaridade do sistema urbano no Haiti. &ldquo;Porto Pr&iacute;ncipe e as favelas de Cit&eacute; Soleil e Bel-air foram constru&iacute;das de forma espont&acirc;nea com a aus&ecirc;ncia de recursos m&iacute;nimos de constru&ccedil;&atilde;o civil. Isso potencializou a destrui&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>Aqui, outra triste e estranha realidade: como se explica que um pa&iacute;s cuja agricultura representa 28% do PIB (no Brasil, esse &iacute;ndice &eacute; de 7%) possua um &iacute;ndice de &ecirc;xodo rural t&atilde;o acentuado e tenha 47% de sua popula&ccedil;&atilde;o vivendo na zona urbana?<\/p>\n<p>&ldquo;Pela elimina&ccedil;&atilde;o das culturas agr&aacute;rias locais pelos produtos importados, inclusive os das famosas &#8216;ajudas internacionais&#8217;. O subdesenvolvimento eliminou as florestas locais, pois o carv&atilde;o &eacute; quase a &uacute;nica fonte de energia no interior. Em 1970, o Haiti era quase auto-suficiente em alimenta&ccedil;&atilde;o, hoje importa 60% do que come&rdquo;, responde Osvaldo Coggiola. Segundo dados da ONU, entre 2005 e 2010, a popula&ccedil;&atilde;o das cidades haitianas cresceu 4,5% por ano.<\/p>\n<p>Migra&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>O historiador M&aacute;rio Maestri explica que a revolu&ccedil;&atilde;o de 1804 teve como consequ&ecirc;ncia a divis&atilde;o dos latif&uacute;ndios existentes em lotes familiares, que retomaram as tradi&ccedil;&otilde;es camponesas africanas, proporcionando uma independ&ecirc;ncia alimentar. No entanto, &ldquo;as interven&ccedil;&otilde;es imperialistas, com a colabora&ccedil;&atilde;o das fr&aacute;geis e corruptas elites negras e mulatas, desdobraram-se para metamorfosear a agricultura familiar-camponesa em mercantil. Levantes camponeses foram duramente reprimidos, para reconstituir a grande propriedade&rdquo;, diz.<\/p>\n<p>Patrola, da brigada da Via Campesina no Haiti, responsabiliza ainda as pol&iacute;ticas neoliberais mais recentes pelo &ldquo;desmonte&rdquo; do campo. &ldquo;A abertura comercial est&aacute; destruindo a agricultura haitiana. O Haiti &eacute; o quarto importador de arroz dos Estados Unidos&rdquo;, diz.<\/p>\n<p>O resultado de todo esse processo vem sendo uma grande migra&ccedil;&atilde;o para a cidade. E hoje, de acordo com Maestri, as enormes massas de miser&aacute;veis urbanos s&atilde;o vistas como m&atilde;o-de-obra extremamente barata para as ind&uacute;strias maquiladoras que se estabeleceram no Haiti.<br \/><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/v01\/agencia\/internacional\/miseria-nao-e-desastre-natural\" ><br \/>GO TO ORIGINAL &ndash; BRASILDEFATO.COM.BR<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M&iacute;dia relaciona efeitos graves do terremoto com a pobreza extrema, mas n&atilde;o diz por que o pa&iacute;s caribenho &eacute; t&atilde;o subdesenvolvido.Um terremoto oportuno? &ldquo;A pobreza extrema do Haiti &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica bi-centen&aacute;ria&rdquo; As imagens das TVs de todo o mundo mostram um verdadeiro inferno. Destrui&ccedil;&atilde;o total, corpos estirados, homens e mulheres aos prantos. 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