{"id":35654,"date":"2013-10-28T12:00:00","date_gmt":"2013-10-28T12:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=35654"},"modified":"2015-05-05T22:21:19","modified_gmt":"2015-05-05T21:21:19","slug":"portugues-homens-bombas-versao-ocidental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/10\/portugues-homens-bombas-versao-ocidental\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Homens-Bombas, Vers\u00e3o Ocidental"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/drone1.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-35655\" alt=\"drone1\" src=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/drone1-300x132.jpg\" width=\"300\" height=\"132\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/drone1-300x132.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/drone1.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Que estranhos condicionamentos culturais levam ao horror diante dos atentados suicidas, e \u00e0 indiferen\u00e7a \u00e0s mortes impostas por controle remoto?<\/p>\n<p><i><\/i><\/p>\n<p>\u201c<i>Para mim, o rob\u00f4 \u00e9 nossa resposta ao atentado suicida\u201d.<br \/>\n<\/i>Bart Everett<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote1sym\" ><sup>1<\/sup><\/a><\/p>\n<p><i>Dois relat\u00f3rios muito tardios \u2013 um da <\/i><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.amnesty.org\/en\/news\/usa-must-be-held-account-drone-killings-pakistan-2013-10-22\" >Anistia Internacional<\/a><\/i><i>, outro da <\/i><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.hrw.org\/news\/2013\/10\/21\/us-reassess-targeted-killings-yemen\" >Human Rights Watch<\/a><\/i><i> \u2013 focaram, esta semana, uma das marcas da degrada\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de nossos tempos: os drones, avi\u00f5es sem pilotos usados pelo governo dos EUA para assassinar supostos terroristas. Os documentos revelaram algo alarmante.<\/i><\/p>\n<p><i>At\u00e9 mesmo a alega\u00e7\u00e3o capenga, segundo a qual os mortos s\u00e3o criminosos (como se isso tornasse aceit\u00e1vel execut\u00e1-los\u2026), \u00e9 falsa. J\u00e1 se sabia que parte das v\u00edtimas \u00e9 assassinada por adotar \u201catitude suspeita\u201d; e que os EUA efetuam, \u00e0s vezes, um <\/i><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.thebureauinvestigates.com\/2012\/02\/04\/obama-terror-drones-cia-tactics-in-pakistan-include-targeting-rescuers-and-funerals\/\" >segundo disparo<\/a><\/i><i> \u2013 voltado contra a popula\u00e7\u00e3o local, quando ousa socorrer eventuais sobreviventes ou participa do funeral dos mortos. Mas isso n\u00e3o \u00e9 tudo.<\/i><\/p>\n<p><i>O relat\u00f3rio da Anistia narra, com riqueza de detalhes, epis\u00f3dios grotescos e at\u00e9 o momento inexplic\u00e1veis, sabendo-se da alt\u00edssima precis\u00e3o das c\u00e2meras e do equipamento de disparo dos drones. Em 2012, na zona fronteiri\u00e7a entre Paquist\u00e3o e Afeganist\u00e3o, <\/i><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.thenews.com.pk\/Todays-News-7-139621-Tribesmen-protest-drone-strike-in-North-Waziristan\" >dois m\u00edsseis<\/a><\/i><i> disparados em sequ\u00eancia mataram Mamana Bibi, esposa de um diretor de escola aposentado, e feriram seis de seus netos. Na localidade de Zowi Sidgi, situada na mesma regi\u00e3o, dezoito homens e adolescentes (alguns com 14 anos) <\/i><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2013\/10\/24\/opinion\/the-deaths-of-innocents.html?_r=0\" >sucumbiram<\/a><\/i><i> a um \u00fanico disparo, enquanto conversavam numa sombra. Ao todo, em menos de dez anos, os drones j\u00e1 mataram entre 2 mil e 4,7 mil pessoas, segundo uma terceira organiza\u00e7\u00e3o ocidental: o <\/i><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.thebureauinvestigates.com\/category\/projects\/drones\/\" >Bureau de Jornalismo Investigativo<\/a><\/i><i>. \u00c9 um n\u00famero cerca de quinze vezes maior que o total de mortes provocadas pela ditadura brasileira, em duas d\u00e9cadas\u2026<\/i><\/p>\n<p><i>O motor pol\u00edtico que impulsiona esses assassinatos \u00e9 conhecido. Desde a edi\u00e7\u00e3o do <\/i><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Patriot_Act\" >Patriot Act<\/a><\/i><i>, pouco ap\u00f3s os atentados de 11 de Setembro de 2001, os EUA tornaram-se, em parte, um Estado policial. \u00c9 esta lei \u2013 sancionada por George Bush e mantida no governo de Barack Obama \u2013 que abre espa\u00e7o, entre outros atentados ao Direito internacional, \u00e0 espionagem de chefes de Estado de outros pa\u00edses; \u00e1 deten\u00e7\u00e3o de prisioneiros sem qualquer perspectiva de julgamento; ou \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o de seres humanos considerados \u201ccombatentes inimigos\u201d. Mas quais as causas culturais e psicol\u00f3gicas da indiferen\u00e7a da opini\u00e3o p\u00fablica ocidental, diante destes atentados?<\/i><\/p>\n<p><i>No texto a seguir, o fil\u00f3sofo franc\u00eas Gr\u00e9goire Chamayou parte em busca de respostas. Ele inspira-se em Walter Benjamin. J\u00e1 nos anos 1930, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o preocupava-se com as m\u00e1quinas de matar \u00e0 dist\u00e2ncia. Via-as como s\u00edmbolo m\u00e1ximo do que chamou de \u201csegunda t\u00e9cnica\u201d \u2013 a que aparta ao extremo o ser humano das consequ\u00eancias de seus atos.<\/i><\/p>\n<p><i>Ao seguir as pegadas de Benjamin, Chamayou toca numa ferida extremamente inc\u00f4moda. Ele compara a atitude de repulsa do Ocidente em rela\u00e7\u00e3o aos homens-bombas isl\u00e2micos (ou aos matadores de aluguel, para ficar num exemplo mais pr\u00f3ximo) com nossa dificuldade de sentir empatia pelas v\u00edtimas dos drones. Que ocorreu: teremos assimilado a ideia de que s\u00e3o mais \u201climpos\u201d e menos repugnantes os assassinatos \u00e0 dist\u00e2ncia \u2013 em que os matadores est\u00e3o livres de qualquer contato com suas v\u00edtimas, al\u00e9m de permancer an\u00f4nimos? Este alheamento ser\u00e1 ainda maior pelo fato de os mortos estarem imersos em culturas distintas da nossa, viverem em regi\u00f5es remotas, n\u00e3o serem not\u00edcia nos jornais? Nosso apre\u00e7o \u00e9tico pela vida humana estar\u00e1 se reduzindo a uma esp\u00e9cie da amor-pr\u00f3prio, que j\u00e1 n\u00e3o atribui humanidade ao \u201cOutro\u201d? Fique com o texto perturbador de Chamayou\u2026 <b>( Tradutor, A.M.)<\/b><\/i><\/p>\n<p>*****************<br \/>\nO fil\u00f3sofo Walter Benjamin refletiu sobre os drones, os avi\u00f5es radiocomandados que os pensadores militares imaginavam j\u00e1 em meados dos anos 1930. Eles permitiram-lhe ilustrar a diferen\u00e7a entre o que chamava de \u201cprimeira t\u00e9cnica\u201d, que remonta \u00e0 arte pr\u00e9-hist\u00f3rica, e a \u201csegunda t\u00e9cnica\u201d, caracter\u00edstica da ind\u00fastria moderna. O que as distinguia, a seus olhos, n\u00e3o era tanto o arcaismo ou inferioridade de uma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 outra \u2013 mas uma \u201cdiferen\u00e7a de tend\u00eancia\u201d. \u201cA primeira compromete o ser humano, tanto quanto poss\u00edvel; a segunda, o menos poss\u00edvel. O c\u00famulo da primeira, se ousamos dizer, \u00e9 o sacrif\u00edcio humano; o da segunda seria o avi\u00e3o sem piloto, dirigido \u00e0 dist\u00e2ncia por ondas hertzianas<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote2sym\" ><sup>2<\/sup><\/a>\u201d.<\/p>\n<p>De um lado, as t\u00e9cnicas do sacrif\u00edcio; de outro, as do jogo. De um lado, o compromisso total; do outro o descompromisso total. De um lado, a singularidade de um ato vivo; de outro, a reprodutibilidade indefinida de um gesto mec\u00e2nico. \u201cDe uma vez por todas \u2013 foi a divisa da primeira t\u00e9cnica (seja por meio do erro irrepar\u00e1vel, seja do sacrif\u00edcio da vida eternamente exemplar). Uma vez apenas n\u00e3o \u00e9 nada \u2013 \u00e9 a divisa da segunda t\u00e9cnica (cujo objetivo \u00e9 repetir \u00e0 exaust\u00e3o suas experi\u00eancias<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote3sym\" ><sup>3<\/sup><\/a>\u201d. De um lado, o kamikaze, autor do atentado-suicida, que se precipita de uma vez por todas, numa \u00fanica explos\u00e3o; do outro, o drone, que lan\u00e7a seus m\u00edsseis repetidamente, como se fosse um gesto banal.<\/p>\n<p>Enquanto o gesto kamikaze implica a fus\u00e3o completa do corpo do combatence e sua arma, o drone assegura a separa\u00e7\u00e3o radical. Kamikaze: meu corpo \u00e9 uma arma. Drone: minha arma \u00e9 sem corpo. O primeiro implica a morte do agente. O segundo a exclui de modo absoluto. Os kamikazes s\u00e3o os homens da morte certa. Os pilotos de drones s\u00e3o os da morte imposs\u00edvel. Neste sentido, eles representam dois polos opostos sobre o espectro da exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 morte. Entre ambos, h\u00e1 os combatentes cl\u00e1ssicos, os homens que arriscam a morte.<\/p>\n<p>Fala-se de atentados suicidas, mas, qual seria seu ant\u00f4nimo? N\u00e3o existe express\u00e3o espec\u00edfica para designar os que podem matar por explos\u00e3o sem jamais exporem suas vidas. N\u00e3o apenas n\u00e3o lhes \u00e9 necess\u00e1rio morrer para matar; sobretudo, \u00e9 imposs\u00edvel, para eles, serem mortos, ao matar.<\/p>\n<p><b>Sacrif\u00edcio ou preserva\u00e7\u00e3o de si<\/b><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do esquema evolucionista, que Benjamin sugere, na verdade, apenas para melhor subvert\u00ea-lo, kamikaze e drone, arma de sacrif\u00edcio e arma de autopreserva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se sucederam de modo cronologiamente linear, um substituindo o outro, como a hist\u00f3ria \u00e0 pr\u00e9-hist\u00f3ria. Eles emergiram de modo conjunto, como duas t\u00e1ticas opostas que historicamente se contrap\u00f5em.<\/p>\n<p>Em meados dos anos 1930, Vladimir Zworykin, um engenheiro da Radio Corporation of America (RCA), inquietou-se ao extremo quando leu um artigo sobre o ex\u00e9rcito japon\u00eas. Os nip\u00f4nicos, soube ele, haviam come\u00e7ado a formar esquadr\u00f5es de pilotos para avi\u00f5es-suicidas. Bem antes da tr\u00e1gica surpresa de Pearl Harbour, Zworykin havia compreendido a amplitude da amea\u00e7a. \u201cA efic\u00e1cia deste m\u00e9todo, \u00e9 claro, ainda precisa ser demonstrada, mas se um treinamento psicol\u00f3gico das tropas neste n\u00edvel fosse poss\u00edvel, este ex\u00e9rcito seria uma dos mais perigosos. Como dificilmente podemos esperar que algo semelhante seja introduzido em nosso pa\u00eds, devemos recorrer a nossa superioridade t\u00e9cnica para resolver o problema\u201d<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote4sym\" ><sup>4<\/sup><\/a>. Na \u00e9poca, j\u00e1 existiam, nos Estados Unidos, prot\u00f3tipos de \u201cavi\u00f5es radiocontrolados\u201d que podiam servir de torpedos a\u00e9reos. Mas havia um problema: estes engenhos telecomandados eram cegos: eles \u201cperdem efic\u00e1cia assim que se rompe o contato visual com a base que os dirige. Os japoneses, ao que parece, encontraram uma solu\u00e7\u00e3o para este problema\u201d. Sua solu\u00e7\u00e3o era o kamikaze: como o piloto tem olhos, e est\u00e1 preparado para morrer, ele pode guiar a m\u00e1quina at\u00e9 o fim, rumo ao alvo.<\/p>\n<p>Mas Zworykin tamb\u00e9m era, na RCA, um dos pioneiros da televis\u00e3o. E a solu\u00e7\u00e3o estava ali. \u201cUm meio poss\u00edvel de obter praticamente os mesmos resultados do piloto-suicida consiste em equipar o torpedo radiocontrolado com um olho el\u00e9trico<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote5sym\" ><sup>5<\/sup><\/a>. O operador estaria, ent\u00e3o, em condi\u00e7\u00f5es de enxergar o alvo at\u00e9 o fim e de guiar visualmente a arma, por comando de r\u00e1dio, at\u00e9 o ponto de impacto.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixar na cabine do avi\u00e3o nada al\u00e9m da retina el\u00e9trica do piloto, seu corpo recuado em outro lugar, fora do alcance das defesas antia\u00e9reas inimigas. A partir deste princ\u00edpio, o da acoplagem entre a televis\u00e3o e o avi\u00e3o telecomandado, Zworykin descobriu a f\u00f3rmula que iria se converter, bem mais tarde, em <i>smart bomb<\/i> (\u201cbomba inteligente\u201d) e, ao mesmo tempo, drone armado.<\/p>\n<p>O texto de Zworykin \u00e9 not\u00e1vel porque concebe o ancestral do drone \u2013 j\u00e1 numa das primeiras formula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas \u2013 como o anti-kamikiaze. N\u00e3o apenas do ponto de vista l\u00f3gico (o da defini\u00e7\u00e3o) mas tamb\u00e9m, e sobretudo, no plano t\u00e1tico: \u00e9 a arma-resposta, tanto como ant\u00eddoto quanto como estrela g\u00eamea. Drone e kamikaze constituem duas op\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas opostas, para resolver um \u00fanico problema, o de dirigir a bomba at\u00e9 seu alvo. O que os japoneses acreditaram realizar por meio da superioridade de sua moral de sacrif\u00edcio, os norte-americanos obter\u00e3o pela supremacia de sua tecnologia material. O que os primeiros esperavam alcan\u00e7ar pela via do treinamento psicol\u00f3gico, ser\u00e1 efetuado pelos segundos por procedimentos de pura t\u00e9cnica. A g\u00eanese conceitual do drone se d\u00e1 numa economia \u00e9tico-t\u00e9cnica da vida e da morte em que o poder tecnol\u00f3gico assume o lugar de uma forma de sacrif\u00edcio inexig\u00edvel. De uma lado, combatentes valorosos, prontos a sacrificar-se pela causa; de outro, m\u00e1quinas-fantasmas.<\/p>\n<p>O antagonismo entre kamikaze e telecomando est\u00e1 vivo hoje. Atentados-suicidas contra atentados-fantasmas. A polaridade \u00e9, em primeiro lugar, econ\u00f4mica. Ela op\u00f5e os que possuem o capital e a teconologia aos que s\u00f3 t\u00eam seu corpo como arma de combate. A estes dois sistemas materiais e t\u00e1ticos correspondem dois sistemas \u00e9ticos \u2013 \u00e9tica do sacrif\u00edcio her\u00f3ico de um lado; \u00e9tica da preserva\u00e7\u00e3o vital, do outro.<\/p>\n<p>Drone e kamikaze contrap\u00f5em-se como dois padr\u00f5es opostos da sensibilidade moral. Dois ethos que se enfrentam num espelho em que cada um \u00e9, ao mesmo tempo, ant\u00edtese e pesadelo do outro. O que est\u00e1 em jogo nesta diferen\u00e7a, ao menos na superf\u00edcie aparente, \u00e9 uma certa concep\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es diante da morte \u2013 a sua e a de outros \u2013, do sacrif\u00edcio ou da preserva\u00e7\u00e3o de si, do perigo e da coragem, da vulnerabilidade e da destrutividade. Duas economias pol\u00edticas e afetivas da rela\u00e7\u00e3o com a morte \u2013 uma em que algu\u00e9m a inflige, outra em que algu\u00e9m se exp\u00f5e a ela. Mas tamb\u00e9m duas concep\u00e7\u00f5es opostas do horror, duas <i>vis\u00f5es <\/i>do horror.<\/p>\n<p>Richard Cohen, editorialista do <i>Washington Post,<\/i>\u00a0exp\u00f4s seu ponto de vista. \u201cOs combatentes talibans v\u00e3o al\u00e9m de n\u00e3o apreciar a vida, eles a desperdi\u00e7am gratuitamente em atentados suicidas. \u00c9 dif\u00edcil imaginar um kamikaze americano<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote6sym\" ><sup>6<\/sup><\/a>. Ele insiste: \u201cN\u00e3o existe um kamikaze americano. N\u00f3s n\u00e3o exaltamos os autores de atentados-suicidas, n\u00f3s n\u00e3o apresentamos seus filhos diante das c\u00e2meras de TV para que outras crian\u00e7as as invejem. Para n\u00f3s, isso \u00e9 inc\u00f4modo; provoca calafrios. \u00c9 repugnante\u201d. E acrescenta, complacente: \u201cMas talvez tenhamos nos apegado demais \u00e0 vida<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote7sym\" ><i><sup>7<\/sup><\/i><\/a><i>\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>\u201cIncomodar\u201d, \u201cprovocar calafrios\u201d, \u201crepugnar\u201d \u00e9, portanto, morrer na luta e glorificar-se por isso. O velho \u00eddolo do sacrif\u00edcio gerreiro, que cai de seu pedestal e \u00e9 imediatamente saqueado pelo inimigo, converte-se no pior dos frustrados, no c\u00famulo do horror moral. O sacrif\u00edcio, incompreens\u00edvel e ign\u00f3bil, \u00e9 automaticamente interpretado como desprezo \u00e0 vida \u2013 sem levar em conta que ele talvez implique, mais que isso, desprezo \u00e0 morte. E se op\u00f5e a ele uma \u00e9tica de suposto amor \u00e0 vida \u2013 da qual o drone \u00e9, sem d\u00favida, a express\u00e3o acabada.<\/p>\n<p>Firula final, concede-se que \u201cn\u00f3s\u201d prezamos tanto a vida que \u00e0s vezes nos apegamos a ela de modo excessivo. Um amor demais, que seria desculp\u00e1vel se tanta autocomplac\u00eancia n\u00e3o fizesse suspeitar de amor pr\u00f3prio. Porque, ao contr\u00e1rio do que o autor sustenta, s\u00e3o as \u201cnossas\u201d vidas \u2013 e n\u00e3o \u201ca\u201d<i> <\/i>vida em geral que amamos. Se um kamikaze norte-americano \u00e9 inconceb\u00edvel, lugar-nenhum no mapa do pens\u00e1vel, \u00e9 porque seria um ox\u00edmoro. A vida, aqui, n\u00e3o saberia negar a si mesma. E com raz\u00e3o: ela s\u00f3 nega a dos outros.<\/p>\n<p><b>Quem \u00e9 covarde?<\/b><\/p>\n<p>Interrogado por um jornalista interessado em saber se \u00e9 \u201cverdade que os palestinos n\u00e3o se preocupam com a vida humana, nem sequer a dos mais pr\u00f3ximos\u201d, Eyad El-Sarraj, diretor do programa de sa\u00fade mental de Gaza, deu a seguinte resposta: \u201cComo voc\u00ea pode acreditar em sua pr\u00f3pria humanidade, se n\u00e3o acredita na humanidade do inimigo<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote8sym\" ><sup>8<\/sup><\/a>\u201d?<\/p>\n<p>Horror por horror, por que matar sem se expor a perder a vida seria menos horr\u00edvel que faz\u00ea-lo compartilhando a mesma sorte das v\u00edtimas? Em qu\u00ea uma arma que permite matar sem perigo algum seria menos repugnante que o oposto? A acad\u00eamica brit\u00e2nica Jacqueline Rose, espantada pelo fato de que \u201cdespejar bombas de fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e9 considerado pelos governantes ocidentais menos repugnante e, al\u00e9m disso, moralmente superior\u201d, interroga-se: \u201cA raz\u00e3o pela qual morrer com sua v\u00edtima deve ser considerado um pecado maior que poupar a pr\u00f3pria vida ao matar n\u00e3o est\u00e1 clara\u201d<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote9sym\" ><sup>9<\/sup><\/a>. Hugh Gusterson acrescenta: \u201cum antrop\u00f3logo que viesse de Marte poderia notar que muitos, no Oriente M\u00e9dio, ressentem-se dos ataques de drones norte-americanos exatamente como Richard Cohen [o editorialista do <i>Washington Post<\/i>] diante dos atentados suicidas. Os ataques de drones s\u00e3o vistos amplamente como covardes, porque seus pilotos matam gente em terra a partir do espa\u00e7o seguro de um casulo climatizado em Nevada, sem o menor risco de ser morto por aqueles que ataca<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote10sym\" ><i><sup>10<\/sup><\/i><\/a><i>.\u201d<\/i><\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo Talal Asad sugere que o horror suscitado pelos atentados suicidas nas sociedades ocidentais repousa no fato de que o autor do crime, por meio de seu gesto, interdita a priori qualquer mecanismo de justi\u00e7a retributiva. Ao morrer com sua v\u00edtima, ao coagular num \u00fanico ato crime e castigo, ele torna a puni\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel e desativa o recurso fundamental de uma justi\u00e7a pensada a partir de l\u00f3gica penal. Ele n\u00e3o poder\u00e1 jamais \u201cpagar por aquilo que fez\u201d.<\/p>\n<p>O horror suscitado pela ideia de morte provocada por m\u00e1quinas sem piloto tem, \u00e9 claro, algo de similar. \u201cO operador do drone\u201d, prossegue Gusterson, \u201c\u00e9 igualmente uma imagem-espelho do atentado suicida no sentido em que tamb\u00e9m se afasta, mesmo em direa\u00e7\u00e3o oposta, de nossa imagem paradigm\u00e1tica do combate.\u201d<\/p>\n<p><b>NOTAS:<\/b><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote1anc\" >1<\/a>\u00a0Diretor de rob\u00f3tica no Centro dos Sistemas de Guerra Naval e Espacial de San Diego (Spawar). Citado por Peter W. Singer, <i>Wired for War\u00a0: The Robotics Revolution and Conflict in the 21st Century,<\/i>\u00a0Penguin Books, Nova York, 2009.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote2anc\" >2<\/a>\u00a0Walter Benjamin, <i>A obra de arte na \u00e9poca de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica, 1955, <\/i>dispon\u00edvel na <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.4shared.com\/document\/ibU_JctL\/walter_benjamin_-_a_obra_de_ar.htm\" >internet<\/a>.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote3anc\" >3<\/a>\u00a0Ibidem<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote4anc\" >4<\/a>\u00a0Vladimir K. Zworykin, \u201cFlying Torpedo with an Electric Eye\u201d [\u201cTorpedo voador com olho el\u00e9trico\u201d], 1934, em <i>Television,<\/i>\u00a0vol. IV, RCA, Princeton, 1947.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote5anc\" >5<\/a>\u00a0Ibidem<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote6anc\" >6<\/a>\u00a0Richard Cohen, \u201c<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/articles.washingtonpost.com\/2009-10-06\/opinions\/36779346_1_taliban-insurgency-taliban-fighters-afghanistan\" >Obama needs more than personality to win in Afghanistan<\/a>\u201d,\u00a0<i>The Washington Post, <\/i>6\/10\/2009.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote7anc\" >7<\/a>\u00a0Richard Cohen, \u201c<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.realclearpolitics.com\/articles\/2009\/12\/08\/the_names_that_touch_us_all_99448.html\" >Is the Afghanistan surge worth the lives that will be lost?<\/a>\u201d,\u00a0<i>The Washington Post,<\/i>\u00a08\/12\/2009.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote8anc\" >8<\/a>\u00a0\u201cSuicide bombers: Dignity, despair, and the need for hope\u201d. Entrevista com Eyad El Sarraj\u201d,\u00a0<i>Journal of Palestine Studies,<\/i>\u00a0Washington, vol. 31, n\u00ba\u00a04, ver\u00e3o de 2002\u00a0(citado por Jacqueline Rose, em \u201cDeadly embrace\u201d,\u00a0<i>London Review of Books,<\/i>\u00a0vol. 26, n\u00ba\u00a021, 4\/11\/2004.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote9anc\" >9<\/a>\u00a0Ibidem<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/#sdendnote10anc\" >10<\/a>\u00a0Hugh Gusterson, \u201c<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.thebulletin.org\/web-edition\/columnists\/hugh-gusterson\/american-suicide-bomber\" >An American suicide bomber?<\/a>\u201d, <i>Bulletin of the Atomic Scientists<\/i>, 20\/1\/2010.<\/p>\n<p><i>Tradu\u00e7\u00e3o: Antonio Martins<\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/homens-bombas-versao-ocidental\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que estranhos condicionamentos culturais levam ao horror diante dos atentados suicidas, e \u00e0 indiferen\u00e7a \u00e0s mortes impostas por controle remoto?<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-35654","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35654","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35654"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35654\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}