{"id":36230,"date":"2013-11-11T12:00:23","date_gmt":"2013-11-11T12:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=36230"},"modified":"2015-05-05T22:21:13","modified_gmt":"2015-05-05T21:21:13","slug":"portugues-por-tras-da-crise-financeira-a-velha-luta-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/11\/portugues-por-tras-da-crise-financeira-a-velha-luta-de-classes\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Por Tr\u00e1s da Crise \u201cFinanceira\u201d, a Velha Luta de Classes"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Marx-desenho-e1383671918212.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-36231\" alt=\"Marx-desenho-e1383671918212\" src=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Marx-desenho-e1383671918212-300x270.jpg\" width=\"180\" height=\"162\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Marx-desenho-e1383671918212-300x270.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Marx-desenho-e1383671918212.jpg 459w\" sizes=\"auto, (max-width: 180px) 100vw, 180px\" \/><\/a>Marx estava certo, por mais que economistas superficiais tentem neg\u00e1-lo: causa das turbul\u00eancias econ\u00f4micas \u00e9 enriquecimento sem-fim da burguesia<\/p>\n<p><i><\/i><\/p>\n<p>\u00c9 surpreendente verificar que a extens\u00edssima literatura produzida sobre as causas das crises atuais se tenha centrado t\u00e3o pouco no conflito capital-trabalho (aquilo que costum\u00e1vamos chamar de luta de classes) e sua g\u00eanesis no desenvolvimento da crise. Uma poss\u00edvel raz\u00e3o \u00e9 a enorme aten\u00e7\u00e3o dada \u00e0 crise financeira como suposta causa da recess\u00e3o atual. S\u00f3 que essa aten\u00e7\u00e3o desviou os analistas do contexto econ\u00f4mico, e tamb\u00e9m pol\u00edtico, que determinou e configurou a crise.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel analisar cada uma delas, e a maneira como est\u00e3o relacionadas, sem referir-se ao conflito capital-trabalho. Como bem disse Marx, \u201ca hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 a hist\u00f3ria da luta de classes\u201d. E as crises atuais (da financeira \u00e0 econ\u00f4mica, passando pela social e pol\u00edtica) s\u00e3o um claro exemplo disso.<\/p>\n<p>Vamos aos dados. No per\u00edodo p\u00f3s Segunda Guerra Mundial, um pacto entre o capital e o mundo do trabalho sustentou o conflito. O pacto determinava que os sal\u00e1rios, incluindo o sal\u00e1rio social (aumento da prote\u00e7\u00e3o social pelo desenvolvimento de benef\u00edcios e servi\u00e7os p\u00fablicos do \u201cEstado de bem-estar social\u201d), evolu\u00edssem de acordo com o aumento da produtividade, principalmente. Em consequ\u00eancia, as rendas do trabalho aumentaram consideravelmente, alcan\u00e7ando seu m\u00e1ximo (em ambos os lados do Atl\u00e2ntico Norte) na d\u00e9cada de 1970 \u2013 quando a participa\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios no PIB, em termos de remunera\u00e7\u00e3o por empregado, correspondeu nos EUA a 70%; e nos pa\u00edses que viriam a tornar-se a \u201cEuropa dos 15\u201d, esse percentual era de 72,9% (na Alemanha, 70,4%; na Fran\u00e7a, 74,3%; na It\u00e1lia, 72,2%; no Reino Unido, 74,3% e na Espanha, 72,4%).<\/p>\n<p>Esse pacto social se rompeu no final da d\u00e9cada de 1970 e in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, como consequ\u00eancia da rebeli\u00e3o do capital ante os avan\u00e7os do mundo do trabalho. A resposta do capital foi o desenvolvimento de uma nova cultura econ\u00f4mica, baseada no liberalismo, mas com maior agressividade \u2013 resultado, naquele momento, de uma postura defensiva frente aos progressos do mundo do trabalho. Em pol\u00edticas p\u00fablicas constituiu-se o chamado neoliberalismo, que tinha como objetivo recuperar o terreno perdido enfraquecendo o mundo do trabalho.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, o crescimento da produtividade n\u00e3o se traduziria mais tanto no aumento das rendas do trabalho, mas no aumento das rendas do capital. Essa resposta \u2013 o desenvolvimento de pol\u00edticas neoliberais , que constitu\u00edam ataque frontal \u00e0 popula\u00e7\u00e3o trabalhadora \u2013 foi muito bem sucedida. As rendas do trabalho diminu\u00edram na maioria dos pa\u00edses aqui analisados. Nos Estados Unidos, em 2012, passaram a representar 63,6% do PIB. Nos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia dos 15 (UE-15), 66,5% em m\u00e9dia, assim discriminados: 65,2% na Alemanha, 68,2% na Fran\u00e7a, 64,4% na It\u00e1lia, 72,7% no Reino Unido e 58,4% na Espanha. O decr\u00e9scimo das rendas do trabalho no per\u00edodo 1981- 2012 foi de 5,5% nos Estados Unidos e de 6,9 na EU-15: 5,4% na Alemanha, 8,5% na Fran\u00e7a, 7,1% na It\u00e1lia, 1,9% no Reino Unido e 14,6% na Espanha \u2013 uma queda espantosa, neste pa\u00eds.<\/p>\n<p><b>O contexto pol\u00edtico<\/b><\/p>\n<p>Tais pol\u00edticas foram iniciadas em 1980 nos EUA pelo presidente Reagan, e em 1979 no Reino Unido, pela primeira-ministra Thatcher. Foram tamb\u00e9m aceitas como inevit\u00e1veis e necess\u00e1rias na Fran\u00e7a de 1981, pelo governo de Fran\u00e7ois Mitterrand, ao sustentar que o programa pelo qual fora eleito, de clara orienta\u00e7\u00e3o keynesiana, n\u00e3o poderia ser aplicado devido \u00e0 europeiza\u00e7\u00e3o e globaliza\u00e7\u00e3o da economia \u2013 postura sustentada mais tarde pela Terceira Via, corrente dominante na socialdemocracia europeia. A aplica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas neoliberais, por eles definidas como \u201csocial-liberais\u201d, caracterizou as pol\u00edticas dos governos socialdemocratas na UE. Todas tinham como objetivo facilitar a integra\u00e7\u00e3o da economia dos pa\u00edses europeus ao mundo globalizado, aumentando sua competitividade pelo est\u00edmulo \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es \u2013 e \u00e0s custas da redu\u00e7\u00e3o da demanda interna, reduzindo assim os sal\u00e1rios. Um resultado dessas pol\u00edticas foi que o aumento da produtividade passou a repercutir no aumento das rendas do capital, e n\u00e3o no aumento salarial.<\/p>\n<p>O desemprego foi um aspecto-chave para disciplinar o mundo do trabalho e alcan\u00e7ar esse objetivo. O desemprego aumentou enormemente em todos esses pa\u00edses. Nos EUA, passou de 4,8% nos anos 1970 para 9,6% em 2010. Nos pa\u00edses da EU-15, foi de 2,2% para 9,6% \u2013 na Alemanha, de 0,6% a 7,1%; na Fran\u00e7a, de 1,8% a 9,8%; na It\u00e1lia, de 4,9% a 8,4%; no Reino Unido, de 1,7% a 7,8% e na Espanha, de 2,4% a 20,1% \u2013 neste, um crescimento assustador.<\/p>\n<p>Essa polariza\u00e7\u00e3o das rendas, com grande crescimento da renda do capital \u00e0s custas da renda do trabalho, foi a origem das crises econ\u00f4mica e financeira. A redu\u00e7\u00e3o da renda do trabalho criou um extenso problema de escassez da demanda privada, que por v\u00e1rias raz\u00f5es passou desapercebido.<\/p>\n<p>Uma delas foi a reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3, em 1990, e o enorme gasto p\u00fablico que a acompanhou (para incorporar o leste ao oeste e facilitar a expans\u00e3o da Alemanha Ocidental em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Oriental), financiado, principalmente, \u00e0 base do aumento do d\u00e9ficit p\u00fablico da Alemanha. O pa\u00eds passou de uma situa\u00e7\u00e3o de super\u00e1vit em 1989 (0,1% do PIB) \u00e0 de d\u00e9ficit, a partir desse ano, e todos os anos, chegando a 3,4% em 1996. Isso significa que a Alemanha adotou uma pol\u00edtica de est\u00edmulo por meio do gasto p\u00fablico, que (como resultado de sua dimens\u00e3o territorial e centralidade) beneficiou toda a economia europeia.<\/p>\n<p>O segundo fato a atrasar o impacto da queda da renda do trabalho na redu\u00e7\u00e3o da demanda foi um enorme endividamento da popula\u00e7\u00e3o. Na Europa, o endividamento foi facilitado pela implanta\u00e7\u00e3o do euro, que levou \u00e0 tend\u00eancia de fazer confluir os interesses dos pa\u00edses da Zona do Euro com os interesses da Alemanha. A substitui\u00e7\u00e3o por uma \u00fanica moeda, o euro, do marco alem\u00e3o e de todas as outras moedas da Zona do Euro, teve como consequ\u00eancia a germaniza\u00e7\u00e3o dos interesses monet\u00e1rios. O caso da Espanha \u00e9 exemplar. O pre\u00e7o do cr\u00e9dito nunca fora t\u00e3o baixo, facilitando o enorme endividamento das fam\u00edlias (e empresas) espanholas \u2013 o que fez passar assim desapercebida a enorme perda de capacidade aquisitiva da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora.<\/p>\n<p>Por outro lado, a grande acumula\u00e7\u00e3o de capital (em raz\u00e3o do aumento da riqueza gerado pelo aumento da produtividade ter sido na renda do capital, n\u00e3o na renda do trabalho, predominantemente) explica o aumento das atividades especulativas, incluindo o aparecimento das bolhas \u2013 das quais as imobili\u00e1rias foram as mais comuns, mas n\u00e3o as \u00fanicas. A rentabilidade era muito mais elevada no setor especulativo do que no produtivo, meio estagnado em raz\u00e3o do decl\u00ednio da demanda.<\/p>\n<p>O crescimento do capital financeiro foi a caracter\u00edstica desse per\u00edodo nos dois lados do Atl\u00e2ntico Norte \u2013 crescimento resultante do endividamento e das atividades especulativas. Esse crescimento se baseava, em parte, na necessidade de endividamento, devido \u00e0 cont\u00ednua redu\u00e7\u00e3o anual da compensa\u00e7\u00e3o salarial em todos esses pa\u00edses. A situa\u00e7\u00e3o era especialmente acentuada nos pa\u00edses da UE-15, onde o percentual anual m\u00e9dio de crescimento salarial teve uma queda de 3,5% em 1991 a 2000, para 2,4% em 2001 a 2010. Na Alemanha foi de 3,2% a 1,1%, e na Espanha de 4,9% a 3,6%.<\/p>\n<p><b>A explos\u00e3o das bolhas<\/b><\/p>\n<p>O establishment financeiro e pol\u00edtico acreditou que a crise financeira fora originada pelo colapso do banco estadunidense Lehman Brothers, e se limitaria ao setor banc\u00e1rio dos EUA. O economista Thomas Palley menciona o ent\u00e3o Ministro das Finan\u00e7as alem\u00e3o, o socialista Peer Steinbr\u00fcck (hoje candidato \u00e0 presid\u00eancia do partido socialdemocrata), ao profetizar que esse seria o fim do status dos EUA como grande pot\u00eancia financeira, em raz\u00e3o das fragilidades do seu sistema financeiro. Segundo ele, o colapso do d\u00f3lar beneficiaria o euro.<\/p>\n<p>A grande ironia dessas previs\u00f5es \u00e9 que, no final, o que salvou a banca alem\u00e3 foi o Federal Reserve Board (FRB), o Banco Central dos EUA. O modelo alem\u00e3o baseado na exporta\u00e7\u00e3o tornou o seu setor banc\u00e1rio enormemente vulner\u00e1vel \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o. Os bancos alem\u00e3es encontravam-se massivamente intoxicados com os produtos especulativos da banca estadunidense. Grandes bancos alem\u00e3es (como o Sachsen LB, o IKB Deutsche Industriebank, o Deutsche Bank, o Commerzbank, o Dresdner Bank e o Hypo Real Estate), assim como as Caixas alem\u00e3s (como BayernLB, WestLB e DZ Bank), ca\u00edram numa enorme crise de 2007 a 2009, todos eles tendo de ser resgatados \u2013 a grande maioria pela ajuda do FRB norte-americano.<\/p>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica baseada na exporta\u00e7\u00e3o (modelo tipicamente liberal) contagiara profundamente o capital financeiro alem\u00e3o, em consequ\u00eancia de seus investimentos tanto na banca estadunidense (cheia de produtos t\u00f3xicos) como na dos pa\u00edses perif\u00e9ricos, denominados PIGS (Portugal, Irlanda, Gr\u00e9cia e Espanha) e mais tarde GIPSI* (com a incorpora\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia), cheias de atividades especulativas do tipo imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p>Uma das causas desse cont\u00e1gio \u00e9 o sistema de governan\u00e7a do euro, dominado pelo capital financeiro. Tal sistema de governo \u00e9 produto de uma arquitetura neoliberal que se baseia na diferen\u00e7a de comportamento do Banco Central Europeu (BCE) e do FRB e nos distintos modelos de exporta\u00e7\u00e3o praticados pelos EUA e pela Zona do Euro (multipolar, no caso dos EUA, e centrado na pr\u00f3pria Zona do Euro, no caso da UE).<\/p>\n<p>Acontece que o BCE n\u00e3o \u00e9 um banco central, enquanto o FRB \u00e9. O BCE n\u00e3o empresta dinheiro aos Estados e n\u00e3o os protege frente \u00e0 especula\u00e7\u00e3o dos mercados financeiros. Da\u00ed decorre que os Estados perif\u00e9ricos da Zona do Euro estejam t\u00e3o desprotegidos, pagando juros claramente abusivos, os quais deram origem \u00e0 enorme bolha da d\u00edvida p\u00fablica desses pa\u00edses. Isto n\u00e3o ocorre nos EUA. L\u00e1, o FRB protege os estados. A Calif\u00f3rnia possui uma d\u00edvida p\u00fablica t\u00e3o preocupante quanto a da Gr\u00e9cia, mas isso n\u00e3o asfixia sua economia. A da Gr\u00e9cia, asfixia.<\/p>\n<p>\u00c0 luz desses dados, torna-se absurda a acusa\u00e7\u00e3o de que os pa\u00edses perif\u00e9ricos, devido \u00e0 sua falta de disciplina fiscal, foram os causadores da crise. Espanha e Irlanda mantiveram suas contas p\u00fablicas superavit\u00e1rias no decorrer de 2005 a 2007. Eram os disc\u00edpulos prediletos da escola neoliberal, dirigida pela Comiss\u00e3o Europeia, sendo arquiteto desta ortodoxia o Ministro [Pedro] Solbes, que j\u00e1 havia ocupado o cargo de Comiss\u00e1rio de Assuntos Econ\u00f4micos da UE. Na verdade, de 2002 a 2007 a Alemanha registrou d\u00e9ficits p\u00fablicos maiores que os da supostamente indisciplinada Espanha.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi, pois, a falta inexistente de disciplina, mas a falta de um Banco Central para sustentar sua d\u00edvida p\u00fablica, que causou [na Espanha] o crescimento dos juros da d\u00edvida p\u00fablica \u2013 servi\u00e7os prestados (\u2026los intereses de la deuda p\u00fablica, provista por los bancos alemanes\u2026) por bancos alem\u00e3es e outros, beneficiando-se de elevadas taxas de alto risco. O objetivo principal das medidas de corte nos gastos p\u00fablicos, incluindo gastos sociais, \u00e9 pagar juros \u00e0 banca alem\u00e3, entre outras. O enorme sacrif\u00edcio dos pa\u00edses GIPSI n\u00e3o tem nada a ver com a explica\u00e7\u00e3o encontrada na m\u00eddia e em outros f\u00f3runs de difus\u00e3o do pensamento neoliberal \u2013 que atribuem os cortes \u00e0 necessidade de corrigir os excessos desses pa\u00edses. Eles s\u00e3o para pagar uma banca que controla o BCE (o qual debilita os Estados, ao inv\u00e9s de proteg\u00ea-los, para que paguem quantias maiores). As evid\u00eancias s\u00e3o esmagadoras. O famoso resgate da banca espanhola \u00e9, em realidade, o resgate da banca europeia, incluindo a alem\u00e3, que j\u00e1 investiu mais de 200 milh\u00f5es de euros em ativos financeiros espanh\u00f3is.<\/p>\n<p><b>Uma nova explica\u00e7\u00e3o para a crise<\/b><\/p>\n<p>Uma varia\u00e7\u00e3o dessa explica\u00e7\u00e3o \u00e9 o argumento de que o problema da Zona do Euro consiste na diferen\u00e7a de competitividade, havendo alta competitividade no centro \u2013 Alemanha e Holanda \u2013 e baixa no sul \u2013 nos pa\u00edses GIPSI. Essa diferen\u00e7a explicaria o fato de que os primeiros t\u00eam saldo positivo em suas balan\u00e7as de com\u00e9rcio exterior (exportam mais do que importam), enquanto os segundos t\u00eam saldo negativo (ou seja, importam mais do que exportam). Da\u00ed que a solu\u00e7\u00e3o passaria pelo maior crescimento da competitividade dos segundos. E a melhor maneira de fazer isso seria baixando os sal\u00e1rios (a denominada desvaloriza\u00e7\u00e3o interna).<\/p>\n<p>Essa explica\u00e7\u00e3o tem s\u00e9rios problemas. Em primeiro lugar, nem a Irlanda, tampouco a It\u00e1lia, registravam balan\u00e7as comerciais negativas quando a crise teve in\u00edcio. Mais: o crescimento do componente negativo da balan\u00e7a de pagamentos nos pa\u00edses GIPSI deveu-se, predominantemente, ao aumento das importa\u00e7\u00f5es \u2013 resultado do endividamento, e n\u00e3o do decl\u00ednio da produtividade ou competitividade. E agora a melhora de sua balan\u00e7a comercial se deve \u00e0 escassez da demanda. Em ambos os casos, t\u00eam pouco a ver com mudan\u00e7as na competitividade.<\/p>\n<p>Na verdade, a produtividade do trabalho padronizada por atividade econ\u00f4mica n\u00e3o \u00e9 substancialmente diferente, na Espanha ou na Alemanha. O problema, portanto, n\u00e3o pode ser explicado por um diferencial de competitividade, mas por um diferencial de demanda \u2013 acentuado em n\u00edvel europeu por um problema estrutural, resultante do decl\u00ednio das rendas do trabalho.<\/p>\n<p>O motor da economia da Zona do Euro se fundamenta no modelo exportador alem\u00e3o, cujo \u00eaxito se baseia na modera\u00e7\u00e3o salarial (com sal\u00e1rios muito abaixo do n\u00edvel a que corresponderia sua produtividade); na impossibilidade de os pa\u00edses perif\u00e9ricos reduzirem o valor de sua moeda (o que beneficia a Alemanha); na enorme concentra\u00e7\u00e3o de euros; na mobilidade de capitais da periferia em dire\u00e7\u00e3o ao centro; e no dom\u00ednio das estruturas financeiras, pela enorme influ\u00eancia sobre o BCE, que n\u00e3o atua como Banco Central. \u00c9 um grande engano ver a balan\u00e7a de pagamentos como resultado da diferen\u00e7a de produtividade.<\/p>\n<p>A Alemanha deveria atuar como motor estimulante da economia, n\u00e3o pelo aumento das exporta\u00e7\u00f5es (baseadas em baixos sal\u00e1rios), mas pelo crescimento da demanda interna, aumentando os sal\u00e1rios e a escassa prote\u00e7\u00e3o social. O trabalhador alem\u00e3o tem mais em comum com o trabalhador dos pa\u00edses GIPSI do que com seu establishment financeiro e exportador. E nos pa\u00edses perif\u00e9ricos deveriam ser implantadas, tamb\u00e9m, pol\u00edticas de est\u00edmulo, revertendo as pol\u00edticas de austeridade \u2013 que al\u00e9m de prejudicar as classes populares contribuem para a recess\u00e3o. A estas pol\u00edticas, por\u00e9m, se opor\u00e3o os agentes do capital, porque ter\u00e3o seus lucros reduzidos. Portanto, \u00e9 bem claro. Marx, afinal, estava certo.<\/p>\n<p><b>NOTA:<\/b><\/p>\n<p><b><i>*<\/i><\/b><i>PIGS significa porcos, GIPSI significa cigano. Qualquer semelhan\u00e7a n\u00e3o ter\u00e1 sido mera coincid\u00eancia. <\/i><i>[Nota do tradutor]<\/i><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Cibelih Hespanhol\u00a0<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/por-tras-da-crise-financeira-a-velha-luta-de-classes\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 surpreendente verificar que a extens\u00edssima literatura produzida sobre as causas das crises atuais se tenha centrado t\u00e3o pouco no conflito capital-trabalho (aquilo que costum\u00e1vamos chamar de luta de classes) e sua g\u00eanesis no desenvolvimento da crise.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-36230","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36230","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36230"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36230\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}