{"id":3661,"date":"2010-02-12T00:00:00","date_gmt":"2010-02-12T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/wordpress\/2010\/02\/portuguese-a-tomada-da-democracia-norte-americana-pelo-setor-corporativo\/"},"modified":"2010-02-12T00:00:00","modified_gmt":"2010-02-12T00:00:00","slug":"portuguese-a-tomada-da-democracia-norte-americana-pelo-setor-corporativo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2010\/02\/portuguese-a-tomada-da-democracia-norte-americana-pelo-setor-corporativo\/","title":{"rendered":"(PORTUGUESE) A TOMADA DA DEMOCRACIA NORTE-AMERICANA PELO SETOR CORPORATIVO"},"content":{"rendered":"<p>A Suprema Corte dos EUA determinou que o governo n&atilde;o pode proibir as corpora&ccedil;&otilde;es de fazerem gastos pol&iacute;ticos durante as elei&ccedil;&otilde;es.<br \/>&nbsp;<br \/>O dia 21 de janeiro de 2010 ser&aacute; lembrado como uma data sombria na hist&oacute;ria da democracia norte-americana e seu decl&iacute;nio.<\/p>\n<p>Naquele dia, a Suprema Corte dos EUA determinou que o governo n&atilde;o pode proibir as corpora&ccedil;&otilde;es de fazerem gastos pol&iacute;ticos durante as elei&ccedil;&otilde;es &ndash; uma decis&atilde;o que afeta profundamente a pol&iacute;tica do governo, tanto interna quanto externa.<\/p>\n<p>A decis&atilde;o anuncia uma tomada ainda maior do sistema pol&iacute;tico dos EUA por parte do setor corporativo.<\/p>\n<p>Para os editores do The New York Times, a decis&atilde;o &ldquo;atinge o cora&ccedil;&atilde;o da democracia&rdquo; ao &ldquo;abrir caminho para que as corpora&ccedil;&otilde;es usem seus vastos tesouros para dominar as elei&ccedil;&otilde;es e intimidar as autoridades eleitas a cumprirem suas ordens&rdquo;.<\/p>\n<p>O tribunal ficou dividida, 5 a 4, com os quatro ju&iacute;zes reacion&aacute;rios (equivocadamente chamados de &ldquo;conservadores&rdquo;) recebendo o apoio do juiz Anthony M. Kennedy. O juiz chefe John G. Roberts Jr. selecionou um caso que poderia facilmente ter sido resolvido em esferas mais baixas e manobrou o tribunal, usando-o para empurrar uma decis&atilde;o de amplo alcance que derruba um s&eacute;culo de precedentes que restringiam as contribui&ccedil;&otilde;es corporativas &agrave;s campanhas federais.<\/p>\n<p>Agora os gerentes corporativos podem de fato comprar as elei&ccedil;&otilde;es diretamente, evitando meios indiretos mais complexos. &Eacute; bem sabido o fato de que as contribui&ccedil;&otilde;es corporativas, &agrave;s vezes reempacotadas de formas complexas, podem influenciar em peso as elei&ccedil;&otilde;es, direcionando assim a pol&iacute;tica. O tribunal simplesmente deu muito mais poder ao pequeno setor da popula&ccedil;&atilde;o que domina a economia.<\/p>\n<p>A &ldquo;teoria do investimento na pol&iacute;tica&rdquo; do economista pol&iacute;tico Thomas Ferguson faz um progn&oacute;stico muito eficaz da pol&iacute;tica do governo durante longos per&iacute;odos. A teoria interpreta as elei&ccedil;&otilde;es como ocasi&otilde;es nas quais segmentos de poder do setor privado se unem para investir com o objetivo de controlar o Estado.<\/p>\n<p>A decis&atilde;o de 21 de janeiro apenas refor&ccedil;a os meios para minar a democracia em funcionamento.<\/p>\n<p>O pano de fundo &eacute; esclarecedor. Em seu argumento contr&aacute;rio, o juiz John Paul Stevens reconheceu que &ldquo;h&aacute; muito sustentamos que as corpora&ccedil;&otilde;es est&atilde;o cobertas pela Primeira Emenda&rdquo; &#8211; a garantia constitucional para a liberdade de discurso, que incluiria o apoio aos candidatos pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p>No come&ccedil;o do s&eacute;culo 20, te&oacute;ricos de direito e tribunais implementaram a decis&atilde;o do tribunal de 1886 de que as corpora&ccedil;&otilde;es &ndash; essas &ldquo;entidades legais coletivistas&rdquo; &#8211; t&ecirc;m os mesmos direitos que as pessoas de carne e osso.<\/p>\n<p>Este ataque contra o liberalismo cl&aacute;ssico foi duramente condenado por um tipo de conservadores que est&aacute; desaparecendo. Christopher G. Tiedeman descreveu o princ&iacute;pio como uma &ldquo;amea&ccedil;a &agrave; liberdade do indiv&iacute;duo, e &agrave; estabilidade dos Estados norte-americanos enquanto governos populares&rdquo;.<\/p>\n<p>Morton Horwitz escreve em sua hist&oacute;ria legal que o conceito de &ldquo;pessoa&rdquo; corporativa evoluiu lado a lado com a mudan&ccedil;a de poder dos acionistas para os gerentes, e finalmente para a doutrina de que &ldquo;os poderes do quadro de diretores (&hellip;) s&atilde;o id&ecirc;nticos aos poderes da corpora&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Anos depois os direitos corporativos foram expandidos bem al&eacute;m dessas pessoas, principalmente pelos equivocadamente denominados &ldquo;acordos de com&eacute;rcio livre&rdquo;. Por esses acordos, por exemplo, se a General Motors estabelece uma f&aacute;brica no M&eacute;xico, ela pode pedir para se tratada da mesma forma que as empresas mexicanas (&ldquo;tratamento nacional&rdquo;) &#8211; bem diferente de um mexicano de carne e osso que busca &ldquo;tratamento nacional&rdquo; em Nova York, ou mesmo os direitos humanos m&iacute;nimos.<\/p>\n<p>H&aacute; um s&eacute;culo, Woodrow Wilson, na &eacute;poca um acad&ecirc;mico, descreveu uns Estados Unidos em que &ldquo;grupos comparativamente pequenos de homens&rdquo;, gerentes corporativos, &ldquo;exercem o poder e controlam a riqueza e os neg&oacute;cios do pa&iacute;s&rdquo;, tornando-se &ldquo;rivais do pr&oacute;prio governo&rdquo;.<\/p>\n<p>Na realidade, esses &ldquo;pequenos grupos&rdquo; se tornaram cada vez mais os mestres do governo. O tribunal de Roberts deu a eles um alcance ainda maior.<\/p>\n<p>A decis&atilde;o de 21 de janeiro veio tr&ecirc;s dias depois de outra vit&oacute;ria da riqueza e do poder: a elei&ccedil;&atilde;o do candidato republicano Scott Brown para substituir o finado senador Edward M. Kennedy, o &ldquo;le&atilde;o liberal&rdquo; de Massachusetts. A elei&ccedil;&atilde;o de Brown foi retratada como uma &ldquo;virada populista&rdquo; contra as elites liberais que comandam o governo.<\/p>\n<p>Os dados da vota&ccedil;&atilde;o revelam uma hist&oacute;ria diferente.<\/p>\n<p>Altos &iacute;ndices de participa&ccedil;&atilde;o nos sub&uacute;rbios ricos, e baixos em &aacute;reas urbanas em grande parte democratas, ajudaram a eleger Brown. &ldquo;50% dos eleitores republicanos disseram que estavam &#8216;muito interessados&#8217; na elei&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Informou a pesquisa do The Wall Street Journal\/NBC, &ldquo;comparado a 38% dos democratas&rdquo;.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o os resultados foram de fato uma virada contra as pol&iacute;ticas do presidente Obama: para os ricos, ele n&atilde;o estava fazendo o suficiente para deix&aacute;-los mais ricos, enquanto que para os setores pobres, ele estava fazendo demais para atingir esse fim.<\/p>\n<p>A irrita&ccedil;&atilde;o popular &eacute; bastante compreens&iacute;vel, dado que os bancos est&atilde;o prosperando, gra&ccedil;as &agrave; ajuda do governo, enquanto o desemprego aumentou para 10%.<\/p>\n<p>Nas f&aacute;bricas, uma em cada seis pessoas est&aacute; sem trabalho &ndash; desemprego nos n&iacute;veis da Grande Depress&atilde;o. Com a financializa&ccedil;&atilde;o crescente da economia e o esvaziamento da ind&uacute;stria produtiva, as perspectivas s&atilde;o n&atilde;o trazem esperan&ccedil;as de recupera&ccedil;&atilde;o dos empregos que foram perdidos.<\/p>\n<p>Brown apresentou a si mesmo como o 41&ordm; voto contra o sistema de sa&uacute;de &ndash; ou seja, o voto que poderia acabar com a maioria no Senado dos EUA.<\/p>\n<p>&Eacute; verdade que o programa de sa&uacute;de de Obama foi um fator importante na elei&ccedil;&atilde;o de Massachusetts. As manchetes est&atilde;o corretas ao dizer que o p&uacute;blico est&aacute; se voltando contra o programa.<\/p>\n<p>Os n&uacute;meros da pesquisa explicam porqu&ecirc;: o projeto de lei n&atilde;o vai longe o suficiente. A pesquisa do The Wall Street Journal\/NBC descobriu que a maioria dos eleitores desaprova a forma como tanto Obama quanto os Republicanos est&atilde;o lidando com o sistema de sa&uacute;de. Esses n&uacute;meros se alinham com as recentes pesquisas nacionais. A op&ccedil;&atilde;o do sistema p&uacute;blico foi apoiada por 56% dos entrevistados, e a ades&atilde;o ao Medicare aos 55 anos por 64%; ambos os programas foram abandonados.<\/p>\n<p>Oitenta e cinco por cento acreditam que o governo deveria ter o direito de negociar os pre&ccedil;os dos medicamentos, como acontece em outros pa&iacute;ses; Obama garantiu &agrave; ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica que n&atilde;o perseguir&aacute; esta op&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Grandes maiorias apoiam o corte de custos, o que faz bastante sentido: os custos per capita dos EUA com a sa&uacute;de s&atilde;o cerca de duas vezes maiores que os dos pa&iacute;ses industrializados, e os resultados da sa&uacute;de s&atilde;o de m&aacute; qualidade.<\/p>\n<p>Mas o corte de custos n&atilde;o pode ser seriamente empreendido enquanto as companhias farmac&ecirc;uticas s&atilde;o agraciadas, e o sistema de sa&uacute;de est&aacute; nas m&atilde;os de seguradoras praticamente desreguladas &ndash; um sistema caro peculiar aos EUA.<\/p>\n<p>A decis&atilde;o de 21 de janeiro levanta novas barreiras significativas para superar a s&eacute;ria crise do sistema de sa&uacute;de, ou para lidar com assuntos cr&iacute;ticos como as amea&ccedil;adoras crises do meio ambiente e da energia. O hiato entre a opini&atilde;o p&uacute;blica e a pol&iacute;tica p&uacute;blica cresce cada vez mais. E o preju&iacute;zo para a democracia norte-americana dificilmente pode ser superestimado.<\/p>\n<p>__________________________<br \/><em><br \/>Tradu&ccedil;&atilde;o: Eloise De Vylder<\/p>\n<p>Publicado no New York Times <\/em><br \/><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/v01\/agencia\/analise\/a-tomada-da-democracia-norte-americana-pelo-setor-corporativo\/view\" ><br \/>GO TO ORIGINAL &ndash; BRASIL DE FATO<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Suprema Corte dos EUA determinou que o governo n&atilde;o pode proibir as corpora&ccedil;&otilde;es de fazerem gastos pol&iacute;ticos durante as elei&ccedil;&otilde;es.&nbsp;O dia 21 de janeiro de 2010 ser&aacute; lembrado como uma data sombria na hist&oacute;ria da democracia norte-americana e seu decl&iacute;nio. 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