{"id":37273,"date":"2013-12-09T12:00:48","date_gmt":"2013-12-09T12:00:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=37273"},"modified":"2015-05-05T22:20:13","modified_gmt":"2015-05-05T21:20:13","slug":"portugues-o-antigo-jovem-marx-e-o-novo-velho-marx-renascem-em-berlim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2013\/12\/portugues-o-antigo-jovem-marx-e-o-novo-velho-marx-renascem-em-berlim\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Antigo Jovem Marx e o Novo Velho Marx Renascem em Berlim"},"content":{"rendered":"<p><i>O Marx que provavelmente emergir\u00e1 do projeto MEGA, edi\u00e7\u00e3o integral de Marx\/Engels, ser\u00e1 menos apocal\u00edptico e teleol\u00f3gico, mais prof\u00e9tico e anal\u00edtico. <\/i><\/p>\n<p>Por estes dias fiz uma visita privilegiada. Estava na companhia do professor Jorge Grespan <b>[1]<\/b>, da USP\/FFLCH\/Hist\u00f3ria, em licen\u00e7a sab\u00e1tica na cidade de Berlim, fazendo pesquisa sobre a ideia de \u2018representa\u00e7\u00e3o social\u2019 na obra de Marx, entre outros temas conexos.<\/p>\n<p>O visitado em quest\u00e3o foi o professor Gerald Hubmann, diretor do projeto MEGA. MEGA significa Marx\/Engels Gesamtausgabe, termo e sigla que podem ser traduzidos como \u201cEdi\u00e7\u00e3o integral de Marx\/Engels\u201d. A visita se deu em seu escrit\u00f3rio, cujas paredes est\u00e3o repletas de edi\u00e7\u00f5es mundiais da obra de Marx e Engels, sob o olhar atento de uma cabe\u00e7a em bronze de Marx, achada num dep\u00f3sito, onde ficara relegada depois da queda do Muro de Berlim e do fim dos estados comunistas do antigo Leste Europeu.<\/p>\n<p>A MEGA, que vem sendo planejada e publicada desde o final dos anos 80, come\u00e7o dos 90, retoma, na verdade, um primeiro projeto semelhante, desenvolvido na extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, antes da Segunda Guerra, sobretudo pelo esfor\u00e7o e trabalho de pesquisa de David Riazanov (1870 \u2013 1938). Entretanto o trabalho de Riazanov esbarrou nos expurgos estalinistas. Acusado de \u201cmenchevismo\u201d, foi expulso do Partido Comunista em 1931; depois, acusado de \u201ctrostskysmo\u201d, foi condenado e executado em 1938.<\/p>\n<p>J\u00e1 por volta desta \u00e9poca os documentos de Marx e Engels que estavam na Alemanha tinham sido transportados para a Holanda, com a ascens\u00e3o de Hitler ao poder. Quando a Alemanha nazista se jogou contra os pa\u00edses da Europa Ocidental \u2013 Fran\u00e7a, B\u00e9lgica, Dinamarca, Holanda, entre outros, aqueles documentos foram para a Inglaterra.<\/p>\n<p>Depois do fim do conflito retornaram a Amsterd\u00e3, e hoje comp\u00f5em o acervo da Funda\u00e7\u00e3o Internacional Marx-Engels, junto ao Instituto Internacional para uma Hist\u00f3ria Social. H\u00e1 tamb\u00e9m uma parte dos escritos dos dois autores em Moscou. Mas o centro nervoso desta retomada do projeto de uma edi\u00e7\u00e3o completa de todos os escritos de Marx e Engels fica no meio do caminho: Berlim; embora mobilize tamb\u00e9m centro de estudos em Trier, tamb\u00e9m na Alemanha, na It\u00e1lia, Dinamarca e Jap\u00e3o, al\u00e9m de Moscou e Amsterd\u00e3.<\/p>\n<p>O professor Hubmann \u00e9 discreto no tom e na fala, mas visivelmente \u00e9 um entusiasta do seu trabalho. Seu primeiro cuidado \u00e9 esclarecer o tamanho da empreitada: s\u00e3o milhares e milhares de documentos, notas, cadernos, cartas, panfletos, artigos de jornal, para revistas, verbetes para enciclop\u00e9dias, al\u00e9m das edi\u00e7\u00f5es conhecidas dos livros \u2013 aos milhares pelo mundo todo.<\/p>\n<p>Ao lado de Engels, Marx era um escritor compulsivo de cartas: ao longo da vida teve mais de 2.000 correspondentes ass\u00edduos, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. Assim como Engels, escrevia artigos e verbetes que n\u00e3o assinava. Por outro lado, h\u00e1 artigos e verbetes que s\u00e3o atribu\u00eddos a ele, mas que hoje se pode dizer com seguran\u00e7a, devido \u00e0s modernas t\u00e9cnicas filol\u00f3gicas \u2013 e \u00e0 grande tradi\u00e7\u00e3o filol\u00f3gica alem\u00e3 \u2013 que n\u00e3o s\u00e3o de sua autoria.<\/p>\n<p>Aqui chegamos a um ponto nevr\u00e1lgico da quest\u00e3o. Se olharmos para muitos curr\u00edculos universit\u00e1rios dos estudos lingu\u00edsticos e liter\u00e1rios de hoje em dia \u2013 sobretudo no Brasil \u2013 a Filologia poder\u00e1 parecer algo obsoleto. Mas n\u00e3o \u00e9 o caso para MEGA. Segundo o professor Hubermann, uma das qualidades e interesse da MEGA \u00e9 o rigoroso estabelecimento da autenticidade e dos textos de Marx e Engels, tal como foram produzidos, com seus borr\u00f5es, riscos, rabiscos, rascunhos, vers\u00f5es, contra-vers\u00f5es, corre\u00e7\u00f5es, retomadas, hesita\u00e7\u00f5es, enfim, o restabelecimento dos textos como origin\u00e1rios de um ser vivo, em contante muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqui, come\u00e7amos a entrar no veio vivo e delicado da mina. Porque \u2013 nesta altura mais o Marx do que Engels que emerge deste esfor\u00e7o, que produzir\u00e1 algo como mais de 90 volumes alentados, \u00e9 um ser aslgo diferente do que foi fixado at\u00e9 agora pelas sucessivas edi\u00e7\u00f5es, digamos, \u201cpartid\u00e1rias\u201d de sua obra. N\u00e3o se trata de negar o valor destas edi\u00e7\u00f5es anteriores, a come\u00e7ar das organizadas honestamente pelo pr\u00f3prio Engels, nem de desterr\u00e1-las. Trata-se de ver Marx dentro de uma perspectiva hist\u00f3rica \u2013 como um perfil e um pensador que foge completamente ao estado de \u201cfixo\u201d.<\/p>\n<p>Como no mundo acad\u00eamico e pol\u00edtico que se auto-proclama p\u00f3s-moderno h\u00e1 uma tend\u00eancia quase compulsiva por \u201cinventar a roda\u201d, h\u00e1 quem proclame que o Marx que est\u00e1 emergindo deste verdadeiro labirinto de documentos \u00e9 um Marx n\u00e3o- ou at\u00e9 anti-marxista. Muito pelo contr\u00e1rio. Talvez o Marx que esteja emergindo deste universo seja o \u201cmais marxista\u201d de todos \u2013 porque completamente envolto, como o autor dos textos, no torvelinho das d\u00favidas, retomadas, reavalia\u00e7\u00f5es dos momentos hist\u00f3ricos, sempre \u2013 isto sim \u2013 um instigante formulador das perguntas pertinentes e agudas, mais do que o congelador de respostas prontas para serem arquivadas como uma leitura ortodoxa de vers\u00edculos de uma b\u00edblia pag\u00e3.<\/p>\n<p>Diante da pergunta se este irrequieto Marx seria um pensador que teria laivos de rom\u00e2ntico \u2013 n\u00e0o no sentido de idealiza\u00e7\u00f5es, mas no sentido de pretender refundar um \u201cesp\u00edrito humano\u201d, o professor Hubermann responde que sem d\u00favida este \u00e9 o caso do que se chama tradicionalmente de \u201co Jovem Marx\u201d, estudioso e comentador de Hegel, Kant, Feuerbach. Este Marx segue os \u201cmovimentos do esp\u00edrito\u201d, como se fosse um hegeliano \u201c<i>apr\u00e8s-la-lettre<\/i>\u201d, mas j\u00e1 perseguindo os \u201cmovimentos da hist\u00f3ria\u201d \u2013 esta concreta, cuja an\u00e1lise admite mais perguntas do que respostas prontas, que rev\u00ea a totalidade do pensamento a cada passo.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o pensador, agitador, jornalista, ensa\u00edsta, polemista Marx amadurece, ele vai passando da filosofia \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0 economia, mas ao mesmo tempo vai ampliando o espectro de seu interesse, e seus manuscritos revelam este alargamento de perspectiva, tanto no sentido dos campos abordados \u2013 qu\u00edmica, biologia, geologia, dentre muitos outros \u2013 quanto na varia\u00e7\u00e3o do seu foco privilegiado, pr\u00e1tica que ele jamais perdeu: ter foco ao elaborar seu pensamento. Por exemplo, salienta o professor Hubermann, fica claro, para quem acompanhar esta trajet\u00f3ria, que o Marx da segunda metade do s\u00e9culo XIX desloca seu foco de interesse do capitalismo cl\u00e1ssico \u2013 o ingl\u00eas \u2013 para o ent\u00e3o inovador, o norte-americano; cresce o interesse de Marx pela expans\u00e3o deste, pela expans\u00e3o territorial do capitalismo para o oeste dos Estados Unidos, pelo papel do cr\u00e9dito em tudo isto.<\/p>\n<p>Cresce tamb\u00e9m a sua consci\u00eancia dos aspectos fugidios e mutantes da elabora\u00e7\u00e3o de um (qualquer) e de seu pr\u00f3prio pensamento. Por exemplo, no caso de uma obra complexa como a \u201cconsagrada\u201d <i>A idelogia alem\u00e3<\/i>, pode-se ver hoje com mais clareza que ela \u00e9, em primeiro lugar incompleta, isto \u00e9, n\u00e3o era encarada com um \u201clivro definitivo\u201d, e em segundo lugar, composta por uma s\u00e9rie de notas inconclusas, esparsas, dispersas. N\u00e3o se pode deixar de encar\u00e1-la \u00e0 luz da afirma\u00e7\u00e3o de ambos de que, uma vez esclarecidos sobre as quest\u00f5es que tinham diante de pensadores que a seu ver tentavam continuar a linha de Hegel, eles \u201cabandonaram\u201d os conjunto dos pap\u00e9is \u201c\u00e0 cr\u00edtica roedora dos ratos\u201d. Tal afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ter uma verdade ir\u00f4nica, pois o estado real dos documentos hoje se apresenta como ro\u00eddo, sen\u00e3o por ratos, pelo tempo e at\u00e9 pela umidade.<\/p>\n<p>Perguntado sobre o que este novo desenho de Marx e sua obra \u2013 onde h\u00e1 tanto de desconstru\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos quanto de reconstru\u00e7\u00e3o de uma trajet\u00f3ria semovente \u2013 t\u00eam a dizer diante das crises contempor\u00e2neas, o professor Hubermann destaca uma grande tradi\u00e7\u00e3o se seu pensamento: \u201cele teria perguntas e mais perguntas, dentro de sua grande tradi\u00e7\u00e3o anal\u00edtica\u201d. Isto \u00e9, o interesse do pensamento de Marx sempre se focou mais na instigante an\u00e1lise das conjunturas, no esfor\u00e7o tamb\u00e9m pragm\u00e1tico para enfrentar as quest\u00f5es do cotidiano da pol\u00edtica de seu tempo, do que na fixa\u00e7\u00e3o de ortodoxias a serem encaradas dogmaticamente.<\/p>\n<p>Embora revolucion\u00e1rio e voltado para uma utopia (com perd\u00e3o da palavra, ela \u00e9 do autor deste pequeno resumo de uma conversa t\u00e3o rica, n\u00e3o do professor Hubermann) a ser alcan\u00e7ada, o pensamento, e com ele a praxis pol\u00edtica de Marx (e Engels), estava permanentemente consciente das dificuldades de uma vis\u00e3o completa dos campos do conhecimento humano, da pertin\u00eancia mas do quase inerente fracasso de tal tentativa, e permanentemente voltado para a trajet\u00f3ria concreta das op\u00e7\u00f5es poss\u00edveis que se colocavam no dia a dia da constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa ao triunfo do pensamento conformista.<\/p>\n<p>Nas palavras deste articulista, o Marx que emergiu da conversa e que provavelmente emergir\u00e1 dos prometidos 90 e tantos volumes \u00e9 e ser\u00e1 menos apocal\u00edptico e teleol\u00f3gico, mais prof\u00e9tico e anal\u00edtico, no sentido de um cr\u00edtico do estado da arte de seu tempo e descortinador de novos horizontes, ao inv\u00e9s de fech\u00e1-los em catecismos acabados.<\/p>\n<p>Ao final de nossa conversa, o professor Hubermann manifestou sua grata supresa diante do crescente interesse que a obra de Marx tem desfrutado no Brasil. E completou-a com um elogio enf\u00e1tico, dizendo que a nova edi\u00e7\u00e3o brasileira da obra (como uma sinfonia inacabada, um <i>work in progress<\/i>) conhecida como <i>A ideologia alem\u00e3<\/i>, da Boitempo Editorial, est\u00e1 entre as melhores do mundo, se n\u00e3o for a melhor j\u00e1 feita, em todos os tempos.<\/p>\n<p><b>NOTA:<\/b><\/p>\n<p><b>[1]<\/b> Ressalto que a reda\u00e7\u00e3o deste artigo s\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0s oportunas observa\u00e7\u00f5es do professor Grespan durante e depois da conversa. Mas tamb\u00e9m ressalto que quaisquer equ\u00edvocos ou gralhas, ou ainda insufici\u00eancias dele, s\u00e3o de inteira e \u00fanica responsabilidade do seu autor.<\/p>\n<p><i>Saiba mais sobre o Projeto MEGA:<\/i><\/p>\n<p><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=MpW2hRvb_70\" >Curador das obras de Marx e Engels, Michael Heinrich fala \u00e0 Carta Maior<\/a><\/i><\/p>\n<p><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Economia\/Marx-voltou-e-ameaca-ficar\/7\/16031\" >Marx voltou e amea\u00e7a ficar, texto de Carlos Abel Su\u00e1rez<\/a><\/i><i><\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Cultura\/O-antigo-Jovem-Marx-e-o-novo-Velho-Marx-renascem-em-Berlim\/39\/29724\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Marx que provavelmente emergir\u00e1 do projeto MEGA, edi\u00e7\u00e3o integral de Marx\/Engels, ser\u00e1 menos apocal\u00edptico e teleol\u00f3gico, mais prof\u00e9tico e anal\u00edtico.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-37273","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37273","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37273"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37273\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37273"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37273"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37273"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}