{"id":38189,"date":"2014-01-06T12:00:54","date_gmt":"2014-01-06T12:00:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=38189"},"modified":"2015-05-05T22:20:07","modified_gmt":"2015-05-05T21:20:07","slug":"portugues-a-revolta-de-chiapas-20-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/01\/portugues-a-revolta-de-chiapas-20-anos-depois\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) A Revolta de Chiapas, 20 Anos Depois"},"content":{"rendered":"<p><i>J\u00e1 se passaram anos, balas e mortos, pris\u00f5es e injusti\u00e7as. Ocorreram cr\u00edticas e zombarias, mas o Subcomandante Marcos e os zapatistas seguem presentes. <\/i><\/p>\n<p>Gaspar Morquecho Escamilla se recorda como se fosse ontem, na pra\u00e7a central de San Crist\u00f3bal de las Casas. Passaram-se 20 anos daquele 1\u00ba de janeiro de 1994. A madrugada assomava no c\u00e9u quando, no meio do entrevero da pra\u00e7a ocupada pelos zapatistas, apareceu o Subcomandante Marcos. Foi o primeiro jornalista que falou com ele naquele nascente ano novo que iria marcar para sempre a hist\u00f3ria do M\u00e9xico e da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>J\u00e1 se passaram anos e anos, e tamb\u00e9m balas e mortos, pris\u00f5es e injusti\u00e7as. Ocorreram cr\u00edticas e zombarias, mas Marcos e os zapatistas seguem aqui, presentes. H\u00e1 quem diga que est\u00e3o mortos, esquecidos, ca\u00eddos no po\u00e7o da hist\u00f3ria. Mas n\u00e3o. Felipe Arizmendi Esquivel, bispo da diocese local, diz: \u201cmuita gente pergunta se ainda existe o Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o nacional (EZLN) e eu lhes digo que n\u00e3o s\u00f3 existe, como tem presen\u00e7a, for\u00e7a, planos e projetos, n\u00e3o \u00e9 algo do passado, nem semi-morto\u201d.<\/p>\n<p>Ocorreram tantas coisas que seria preciso detalh\u00e1-las por ordem alfab\u00e9tica. Isso pode ser visto, a c\u00e9u aberto, de um lado da pra\u00e7a, em frente \u00e0 catedral. Agora instalaram uma pista para patinar sobre o gelo e um tobog\u00e3 para deslizar-se no presente. A rua Real de Guadalupe \u00e9 uma miniatura da oferta ultra-liberal. As marcas internacionais tem seu lugar, se oferece \u201cp\u00e3o europeu\u201d, h\u00e1 bares com nomes em ingl\u00eas, n\u00e3o menos de quatro restaurantes argentinos e uma infinidade de butiques de luxo que vendem roupa e essa pedra suave como a lua que \u00e9 o \u00e2mbar. \u201cOs ind\u00edgenas surfam entre essas modernidades\u201d, diz com um tom de lucidez neutra um jovem em um dos muitos bares da moda que se esparramam ao longo da Real Guadalupe.<\/p>\n<p>Em um mundo muito diferente deste, Gaspar Morquecho Escamilla se encontrou na pra\u00e7a com o Subcomandante. Este jornalista se instalou em San Crist\u00f3bal e sempre trabalhou com comunidades e povos ind\u00edgenas \u201ccom a pretens\u00e3o de criar organiza\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas para fazer a revolu\u00e7\u00e3o neste pa\u00eds\u201d. E precisamente neste lugar \u201c1994 nos agarrou\u201d\u2019. Gaspar lembra que em 1993 o tema dos movimentos armados em Chiapas era frequente. Em dezembro daquele ano, a agita\u00e7\u00e3o se tornou mais vis\u00edvel, mas ningu\u00e9m calculou que a ofensiva iria explodir t\u00e3o rapidamente. Escamilla lembra que uma mulher das comunidades ind\u00edgenas perguntou a ele: ser\u00e1 que haver\u00e1 guerra? E houve, apesar das condi\u00e7\u00f5es adversas que naquele momento predominavam para lan\u00e7ar uma guerra contra o governo do ent\u00e3o presidente Carlos Salinas de Gortari.<\/p>\n<p>Chiapas foi e \u00e9 pobre. Os frutos da reforma agr\u00e1ria aplicada depois da revolu\u00e7\u00e3o de 1910 n\u00e3o chegaram a estas terras. Marcos e os zapatistas tomaram as ruas para exigir uma reparti\u00e7\u00e3o mais equitativa das riquezas e a propriedade das terras que nunca esteve nas m\u00e3os dos camponeses. Na declara\u00e7\u00e3o da Selva de Lancadona (1993), os zapatistas expressaram claramente os objetivos: \u201cluta por trabalho, terra, moradia, alimenta\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, independ\u00eancia, liberdade, democracia, justi\u00e7a e paz&#8230;conseguir o cumprimentos destas demandas b\u00e1sicas de nosso povo formando um governo de nosso pa\u00eds livre e democr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>Em uma carta do Subcomandante de fevereiro de 1994, Marcos ampliou os objetivos com essa poesia e ironia verbal que o caracteriza: \u201cTomado do poder? N\u00e3o, apenas algo mais dif\u00edcil: um mundo novo\u201d. Em dezembro de 1993, o Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional apelou ao artigo 39 da Constitui\u00e7\u00e3o mexicana como argumento para a derrubada do presidente Carlos Salinas de Gortari, a quem acusavam de ter vencido as elei\u00e7\u00f5es de 1988 com uma \u201cfraude eleitoral de enormes propor\u00e7\u00f5es\u201d. Nas primeiras horas de janeiro de 1994, o EZLN ocupou San Crist\u00f3bal de las Casas e outros seis munic\u00edpios. \u201cNeste momento, eu era o \u00fanico jornalista na pra\u00e7a\u201d, diz Gaspar.<\/p>\n<p>Em vinte anos, o mundo se renovou em Chiapas, mas segundo a ordem imposta pelo consumo universal. As estat\u00edsticas s\u00e3o uma constante linha para baixo: quase 79% da popula\u00e7\u00e3o vivem em uma situa\u00e7\u00e3o de pobreza. A adversidade atinge as etnias tzeltal, tzotzil, tojolabal ou chol, sempre marginalizadas. Os dados n\u00e3o tiram o otimismo de Gaspar Morquecho Escamilla. \u201cEstamos frente a um movimento, o EZLN, que tem 44 anos. Declararam a guerra nas piores condi\u00e7\u00f5es que podem existir no mundo e localmente enfrentando um cen\u00e1rio adverso para qualquer movimento armado. Mas j\u00e1 levam 20 anos de resist\u00eancia com uma campanha de contra-insurg\u00eancia que come\u00e7ou em 1995. E a\u00ed est\u00e3o. \u00c9 um movimento de resist\u00eancia com grande capacidade em termos de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o, com sistemas de sa\u00fade, de transporte, de produ\u00e7\u00e3o, abastecimento e comunica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Sobre isso n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. O EZLN impulsiona h\u00e1 muitos anos um processo que tende a deixar nas m\u00e3os do povo a gest\u00e3o pol\u00edtica e as organiza\u00e7\u00f5es sociais. Assim foram surgindo os munic\u00edpios aut\u00f4nomos que logo passaram a fazer parte dos cinco carac\u00f3is e das cinco juntas de bom governo regidas por sete princ\u00edpios: 1. Servir e n\u00e3o se servir; 2. Representar e n\u00e3o suplantar; 3. Construir e n\u00e3o destruir; 4. Obedecer e n\u00e3o mandar; 5. Propor e n\u00e3o impor; 6. Convencer e n\u00e3o vencer; 7. Baixar e n\u00e3o subir. \u201cAqui manda o povo e o governo obedece\u201d, proclama um cartaz de uma zona sob controle zapatista. A utopia tem voz e rosto. E muitas amea\u00e7as que a cercam.<\/p>\n<p><i>Tradu\u00e7\u00e3o: Marco Aur\u00e9lio Weissheimer<\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/A-revolta-de-Chiapas-20-anos-depois\/6\/29911\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 se passaram anos, balas e mortos, pris\u00f5es e injusti\u00e7as. 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