{"id":38192,"date":"2014-01-06T12:00:49","date_gmt":"2014-01-06T12:00:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=38192"},"modified":"2015-05-05T22:20:08","modified_gmt":"2015-05-05T21:20:08","slug":"portugues-chiapas-injustica-pobreza-luta-e-dignidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/01\/portugues-chiapas-injustica-pobreza-luta-e-dignidade\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Chiapas: Injusti\u00e7a, Pobreza, Luta e Dignidade"},"content":{"rendered":"<p><i>O ano velho se vai em meio a n\u00e9voa. A garoa e o frio cobrem o local onde o Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional celebrou os 20 anos do levante. <\/i><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/zapatista.chiapas.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-38193\" alt=\"zapatista.chiapas\" src=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/zapatista.chiapas.jpg\" width=\"225\" height=\"161\" \/><\/a><\/p>\n<p>A voz dos s\u00edmbolos se cala quando aparece a neblina. Espessa e crescente a medida que a estrada de montanha sobe em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade de Oventic, uma das cinco juntas de bom governo administradas pelos zapatistas.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o terras rebeldes e muito pobres. Aqui, as palavras cheias de s\u00edmbolos e poesia do subcomandante Marcos n\u00e3o t\u00eam lugar. Essa \u00e9 a realidade. Respira-se a dupla for\u00e7a da humildade e da dignidade. Hoje h\u00e1 festa. O ano velho se vai em meio a n\u00e9voa, a garoa e o frio cobrem o local onde o Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (EZLN) organizou a celebra\u00e7\u00e3o dos 20 anos do levante zapatista (1994-2014).<\/p>\n<p>O ano novo pede passagem entre lembran\u00e7as, m\u00fasicas de protesto, chamados \u00e0 rebeldia e a escandalosa situa\u00e7\u00e3o na qual ainda vivem os ind\u00edgenas da regi\u00e3o. Combate e pobreza. \u201cLos de abajo vamos por los de arriba\u201d, canta uma rapper vinda dos Estados Unidos. Um grupo musical do EZLN com o gorro cobrindo o rosto entoa can\u00e7\u00f5es zapatistas. N\u00e3o h\u00e1 tempo nem espa\u00e7o para a nostalgia. As pessoas abrem passagem entre o barro e a neblina. H\u00e1 muito por fazer, por construir e resistir.<\/p>\n<p>O EZLN acusa as autoridades de manter uma pol\u00edtica de guerra, uma press\u00e3o permanente de desgaste cuja meta consiste em marginaliz\u00e1-lo na pobreza e tirar as terras que eles recuperaram em 1994. A experi\u00eancia zapatista tem v\u00e1rias leituras. Muitas podem ser certas individualmente, mas nenhuma abarca a complexidade de um movimento ind\u00edgena armado que conseguiu instalar na paisagem pol\u00edtica um sistema de autogoverno que engloba cerca de mil povos agrupados nos munic\u00edpios aut\u00f4nomos. Estas zonas s\u00e3o administradas com sistemas pr\u00f3prios de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, cultivos agr\u00edcolas autossuficientes, seguran\u00e7a, distribui\u00e7\u00e3o de caf\u00e9, artesanatos ou mel.<\/p>\n<p>Uma boa parte das fam\u00edlias choles, tzeltales, tojolabales ou tzotziles n\u00e3o recebe o amparo dos programas sociais governamentais porque n\u00e3o respondem inteiramente \u00e0s regras estabelecidas pelas autoridades, entre elas, por exemplo, o pagamento de impostos pelas terras. Certa imprensa urbana e ocidental faz um balan\u00e7a injusto da revolu\u00e7\u00e3o zapatista. Apontam o EZLN como um mau gestor de suas comunidades, que implementou uma revolta que, duas d\u00e9cadas depois, \u00e9 est\u00e9ril. \u00c9 um olhar muito estreito desse vasto conflito. Chiapas \u00e9 um modelo em pequena escala da arrasadora injusti\u00e7a no mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso viver ou vir a estas terras para beber o frio e estreitar a hostilidade do clima, a dificuldade para renovar os cultivos, o olhar sempre profundo e digno das comunidades maias. \u201cEstamos aprendendo a nos governar de acordo com nossas formas de pensar e viver. Estamos tratando de avan\u00e7ar, de melhorar e nos fortalecer, homens, mulheres, jovens, crian\u00e7as e anci\u00e3os. Como h\u00e1 20 anos, dizemos j\u00e1 basta\u201d. A Comandante Hortensia leu com voz segura o comunicado do EZLN. Parada no centro do cen\u00e1rio, com o rosto coberto, a comandante reiterou que n\u00e3o haveria recuo no processo de autonomia.<\/p>\n<p>\u201cExistimos e aqui estamos. H\u00e1 20 anos n\u00e3o t\u00ednhamos nada, nenhum servi\u00e7o de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o de nosso povo. N\u00e3o existia nenhum n\u00edvel de autoridade que fosse do povo. Agora temos nossos pr\u00f3prios governos aut\u00f4nomos. Bem ou mal conduzidos, mas \u00e9 a vontade do povo (&#8230;) Estamos tratando de melhorar nossos sistemas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e governo. Est\u00e1 claro para n\u00f3s que falta muito por fazer, mas sabemos que nossa luta avan\u00e7ar\u00e1. E a\u00ed est\u00e3o essas zonas de autogoverno, efetivas, dignas, amea\u00e7adas. \u00c9 uma verdadeira guerra de exterm\u00ednio. H\u00e1 dezenas de milhares de soldados que est\u00e3o ocupando as terras que nos pertencem. Apesar de tantas maldades, aprendemos a sobreviver e resistir de maneira organizada\u201d, diz a comandante.<\/p>\n<p>Chiapas \u00e9 uma reinven\u00e7\u00e3o em movimento, descendente daquela madrugada de primeiro de janeiro de 1994 quando os zapatistas ocuparam o pal\u00e1cio municipal e o esvaziaram. Na sacada da prefeitura apareceu o comandante Felipe, um tzotzil que leu com o rosto descoberto o primeiro comunicado do EZLN, a famosa Declara\u00e7\u00e3o da selva Lacandona. Aquelas palavras tinham uma \u00eanfase nova. Traziam ar puro aos j\u00e1 surrados discursos revolucion\u00e1rios. Os zapatistas exigiam algo distinto: \u201ctudo para todos, nada para n\u00f3s\u201d. N\u00e3o falavam em nome\u00a0 de Marx, ou do indigenismo puro, Foram, a sua maneira incrivelmente adiantada, os primeiros indignados da hist\u00f3ria moderna. Por isso, suas palavras nos envolveram a todos com seu porta-voz como estandarte, o Subcomandante Marcos, o \u00fanico mesti\u00e7o daqueles tempos que se somou aos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>A passagem de 31 de dezembro a 1\u00ba de janeiro pegou de surpresa ao presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari. O mandat\u00e1rio estava festejando a aplica\u00e7\u00e3o do Tratado de Livre Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Norte. O ministro da Defesa o avisou que um grupo armado acabava de tomar San Crist\u00f3bal de las Casas e outras localidades de Chiapas. Salinas mandou o ex\u00e9rcito. Os combates duraram cerca de duas semanas. Ap\u00f3s centenas de mortos, Carlos Salinas de Gortari, pressionado por seu s\u00f3cio norte-americano Bill Clinton, decretou um cessar-fogo com uma oferta de perd\u00e3o. O Subcomandante Marcos respondeu com uma memor\u00e1vel declara\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Do que temos que pedir perd\u00e3o? Do que v\u00e3o nos perdoar? De n\u00e3o morrermos de fome? De n\u00e3o ficarmos calados em nossa mis\u00e9ria? De n\u00e3o ter aceitado humildemente a gigantesca carga hist\u00f3rica de desprezo e abandono? De termos nos levantado em armas quando encontramos todos os outros caminhos fechados? De n\u00e3o termos nos atido ao C\u00f3digo Penal de Chiapas, o mais absurdo e repressivo do qual se tem not\u00edcia? De termos demonstrado ao resto do pa\u00eds e ao mundo inteiro que a dignidade humana ainda vive e est\u00e1 em seus habitantes mais empobrecidos? De termos nos preparado bem e de modo consciente antes de iniciar? De termos levados fuzis ao combate, ao inv\u00e9s de arcos e flechas? De termos aprendido a lutar antes de faz\u00ea-lo? De sermos todos mexicanos? De sermos majoritariamente ind\u00edgenas? De chamar todo o povo mexicano a lutar de todas as formas poss\u00edveis pelos que nos pertence? De lutar por liberdade, democracia e justi\u00e7a? De n\u00e3o seguir os padr\u00f5es das guerrilhas anteriores? De n\u00e3o nos rendermos? De n\u00e3o nos vendermos? De n\u00e3o trairmos?<\/p>\n<p>Um rinc\u00e3o do pa\u00eds esquecido por todos estragou a festa do tratado ultraliberal, e um novo ator, os povos ind\u00edgenas do pa\u00eds, se convidou para as cerim\u00f4nias, somando-se aos reclames de justi\u00e7a, igualdade e reconhecimento que sempre estiveram ausentes. Fizeram isso com as armas e a palavra. A mensagem zapatista correu o mundo. Tudo isso se respira na neblina \u00famida de Oventic, longe, muito longe da an\u00e1lise dos intelectuais urbanos que n\u00e3o chegam a estas alturas nem envoltos em cobertores, muito longe dos editoriais falsos, da covardia disfar\u00e7ada de valentia ideol\u00f3gica, das agress\u00f5es neoliberais dos porta-vozes sect\u00e1rios que residem em bairros confort\u00e1veis, das estat\u00edsticas e das cifras que cercam a suspeita de um fracasso.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia sempre \u00e9 custosa. O EZLN e os ind\u00edgenas pagam o tributo da autonomia que tentam implementar. H\u00e1 erros e eles existir\u00e3o sempre. A Comandante Hortensia lembrou que \u201cn\u00f3s temos que trabalhar e nos organizar mais. J\u00e1 n\u00e3o se trata s\u00f3 de resistir, mas sim de organizar a resist\u00eancia em todos os n\u00edveis. Pensam que com sua estrat\u00e9gia v\u00e3o nos calar, mas se enganam. Aqui estamos e aqui seguiremos\u201d. E aqui estamos nesta meia-noite humilde e grandiosa. Fria e cativante. O ano novo desveste o anterior. Vir\u00e3o novas neblinas. Mas esta voz aut\u00eantica, estes rostos e estas m\u00e3os marcadas pela dignidade e pelo trabalho, j\u00e1 s\u00e3o mais um tecido do patrim\u00f4nio da rebeldia pol\u00edtica da humanidade.<\/p>\n<p><i>Tradu\u00e7\u00e3o: Marco Aur\u00e9lio Weissheimer<\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Chiapas-injustica-pobreza-luta-e-dignidade\/6\/29919\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano velho se vai em meio a n\u00e9voa. 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