{"id":38296,"date":"2014-01-13T12:00:45","date_gmt":"2014-01-13T12:00:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=38296"},"modified":"2015-05-05T22:20:06","modified_gmt":"2015-05-05T21:20:06","slug":"portugues-martin-schulz-capitalismo-selvagem-destruiu-estados-e-individuos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/01\/portugues-martin-schulz-capitalismo-selvagem-destruiu-estados-e-individuos\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Martin Schulz: Capitalismo Selvagem Destruiu Estados e Indiv\u00edduos"},"content":{"rendered":"<p><i>O presidente do parlamento Europeu \u00e9 um social-democrata e europe\u00edsta militante. Aspirante a presidir a Comiss\u00e3o Europeia, ele fala sobre problemas da UE. <\/i><\/p>\n<p>Martin Schulz (Hehlrath, Alemanha, 1955), presidente do Parlamento Europeu desde 2012 e candidato dos socialistas para presidir a Comiss\u00e3o Europeia desde novembro, \u00e9 um pol\u00edtico bastante ins\u00f3lito. Por sua franqueza em discursos e declara\u00e7\u00f5es, recebeu a fama de sincero, mas tamb\u00e9m de duro. E pela forma que chegou \u00e0 pol\u00edtica: n\u00e3o estudou nenhuma carreira, foi aprendiz de livreiro e depois fundou sua pr\u00f3pria livraria, na qual trabalhou mais de uma d\u00e9cada e continua aberta. Passou da pol\u00edtica local \u00e0 europeia e, pouco a pouco, foi fazendo um nome na Euro C\u00e2mara.<\/p>\n<p>Com a crise, n\u00e3o ficou calado. Sua constante den\u00fancia das pen\u00farias que a classe m\u00e9dia e os mais desfavorecidos est\u00e3o sofrendo por causa da austeridade; seu discurso, centrado em que um corte da Europa social significa um corte das liberdades e sua ideia de que n\u00e3o se pode renunciar ao conceito da Uni\u00e3o Europeia como um lugar cujos dirigentes devem defender a justi\u00e7a social lhe geraram um prest\u00edgio crescente na esquerda do continente.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os que acham que esta beliger\u00e2ncia foi fundamental para sua designa\u00e7\u00e3o como o primeiro candidato socialdemocrata para presidir a Comiss\u00e3o Europeia \u2013 pela primeira vez, a partir das elei\u00e7\u00f5es europeias de maio, o Parlamento ter\u00e1 um papel fundamental nessa nomea\u00e7\u00e3o \u2013. Mas sua forma de fazer campanha \u00e9 falar, alto e claro, sobre os perigos que padecem a Europa e seus cidad\u00e3os. Talvez o mais ins\u00f3lito de Schulz, \u00e9 que se trata de um pol\u00edtico que n\u00e3o tem medo de dizer o que ele acha que \u00e9 a verdade e de assumir sua parte de culpa.<\/p>\n<p><b><i>Quando a UE recebeu o Pr\u00eamio Nobel da Paz, voc\u00ea utilizou em seu discurso \u2018Os Buddenbrooks\u2019, a grande novela de Thomas Mann, como met\u00e1fora da Europa atual. Por qu\u00ea?<\/i><\/b><\/p>\n<p>Utilizei esse livro como imagem porque narra uma hist\u00f3ria atrav\u00e9s de tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es: a dos fundadores, a dos administradores e a que joga fora a heran\u00e7a.<\/p>\n<p>Passamos pela primeira, tamb\u00e9m pela que teve que administrar a heran\u00e7a, e n\u00e3o quero pertencer \u00e0 gera\u00e7\u00e3o que a destr\u00f3i. \u00c9 o sentimento que tenho: na Europa existe gente que est\u00e1 brincando com o que herdamos.<\/p>\n<p><b><i>Em muitos de seus discursos e entrevistas recentes, voc\u00ea insiste em que a UE, tal como conhecemos, est\u00e1 em perigo, que o que acreditamos ser irrevers\u00edvel, a Europa unida, pode ser revers\u00edvel. Pensa realmente que pode ser assim, que \u00e9 poss\u00edvel um salto para tr\u00e1s t\u00e3o grande?<\/i><\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o quero ser alarmista nem apocal\u00edptico, mas tenho a obriga\u00e7\u00e3o de descrever a realidade, e isso s\u00f3 se pode fazer a partir das pr\u00f3prias experi\u00eancias. Um privil\u00e9gio de meu cargo \u00e9 que me encontro com gente por todos os lugares da Europa. A UE \u00e9 extremamente impopular, e cada experi\u00eancia democr\u00e1tica da hist\u00f3ria nos mostra que, quando os cidad\u00e3os retiram o apoio a um projeto, ele est\u00e1 condenado. \u00c9 uma m\u00e1 not\u00edcia para todos os ditadores do mundo, porque cedo ou tarde as tiranias caem porque as pessoas est\u00e3o fartas, mas \u00e9 tamb\u00e9m um alerta para a democracia. Se os cidad\u00e3os acham que a democracia j\u00e1 n\u00e3o serve aos seus interesses, \u00e9 poss\u00edvel que lhe retirem o apoio. Temos que ser realistas: as pessoas est\u00e3o abandonando a ideia de que apoiar a Europa serve para alguma coisa. Porque a UE como a vemos, n\u00e3o corresponde com os desejos, os sonhos, as proje\u00e7\u00f5es positivas que compartilhava a imensa maioria dos cidad\u00e3os quando pensava nela. Se os cidad\u00e3os abandonam a Europa, est\u00e1 tudo perdido.<\/p>\n<p><b><i>Voc\u00ea acha que, nas elei\u00e7\u00f5es europeias de maio de 2014, pode produzir-se uma surpresa desagrad\u00e1vel em forma de auge do populismo em toda a UE?<\/i><\/b><\/p>\n<p>Minha proposta \u00e9 que as pessoas que se ocupam da Europa, nos Estados membros ou nas institui\u00e7\u00f5es, lancem um debate. Que continente queremos? Os populistas atuais est\u00e3o ganhando terreno em todos os lugares com sua mensagem clara de recusa, mas n\u00f3s permitimos que possam dizer que tudo vai mal sem obrig\u00e1-los a apresentar sua pr\u00f3pria alternativa, porque sabem que n\u00e3o a t\u00eam. Para n\u00e3o permitir que essa gente ocupe o terreno pol\u00edtico, necessitamos colocar sobre a mesa ideias sobre a organiza\u00e7\u00e3o. Por isso estou convencido de que esta ideia, introduzida no Tratado de Lisboa, de que o Parlamento Europeu vote ao presidente da Comiss\u00e3o, d\u00e1 um novo sentido \u00e0s elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><b><i>Voc\u00ea acha que sua nacionalidade alem\u00e3 pode ser um problema em sua carreira \u00e0 presid\u00eancia da Comiss\u00e3o Europeia, em um momento no qual muitos europeus percebem a Alemanha como um Estado demasiado forte, ainda que n\u00e3o compartilhe nem partido nem ideias com a chanceler Angela Merkel?<\/i><\/b><\/p>\n<p>O debate est\u00e1 se produzindo e demonstra o lugar no qual nos encontramos. Quando fui eleito para o Parlamento Europeu, h\u00e1 19 anos, ningu\u00e9m teria debatido se um alem\u00e3o podia liderar a UE, porque a nacionalidade n\u00e3o desempenhava nenhum papel. Agora, a nacionalidade desempenha, de novo, um papel, e isso demonstra o lugar no qual nos encontramos. \u00c9 tamb\u00e9m uma resposta para sua primeira pergunta, a compara\u00e7\u00e3o com Os Buddenbrooks. Qual era nossa heran\u00e7a?<\/p>\n<p>As na\u00e7\u00f5es, al\u00e9m das fronteiras, trabalham juntas dentro do respeito m\u00fatuo. Um malt\u00eas poderia dirigir a UE, como um finland\u00eas ou um portugu\u00eas. O que conta \u00e9 o interesse comum em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa, porque uma UE forte \u00e9 boa para todos. E hoje debatemos sobre um alem\u00e3o porque \u00e9 alem\u00e3o, n\u00e3o porque seja de direita ou esquerda, com experi\u00eancia, inteligente ou n\u00e3o. Me encontro entre esses alem\u00e3es que sempre lutaram por uma Uni\u00e3o na qual isso n\u00e3o tenha nenhuma import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Muitos europeus desconfiam da Alemanha. Mas isso me anima ainda mais a demonstrar que a nacionalidade n\u00e3o tem import\u00e2ncia, que o essencial s\u00e3o as pol\u00edticas que, para mim, s\u00e3o compostas de tr\u00eas elementos: justi\u00e7a social entre na\u00e7\u00f5es e povos; respeito m\u00fatuo; que os grandes n\u00e3o deem li\u00e7\u00f5es aos pequenos; e uma Europa unida e forte para defender-se, em uma competi\u00e7\u00e3o mundial, com nossos valores democr\u00e1ticos. Estas s\u00e3o as tr\u00eas chaves e, por isso, me apresento como europeu que vem da Alemanha, n\u00e3o como alem\u00e3o.<\/p>\n<p><b><i>Voc\u00ea pertence a uma gera\u00e7\u00e3o cujo av\u00f4 combateu em uma guerra mundial e o pai em outra. Viu como se assentava a paz, desaparecendo as fronteiras, como os passaportes ficavam na gaveta e como se chegava a uma moeda \u00fanica. Acha que soubemos explicar essas conquistas \u00e0queles que n\u00e3o as viveram e encontraram tudo feito?<\/i><\/b><\/p>\n<p>Em todos os lugares onde discuto essa quest\u00e3o com os jovens, constato que a ideia que h\u00e1 por tr\u00e1s, a ideia de Europa, \u00e9 incontest\u00e1vel. Voc\u00ea descreveu em sua pergunta.<\/p>\n<p>A paz? N\u00e3o \u00e9 apenas a paz. Sem d\u00favidas \u00e9 assim, mas existem mais coisas. A ideia de Europa \u00e9 que se unam diferentes na\u00e7\u00f5es e Estados; fa\u00e7o sempre essa diferencia\u00e7\u00e3o porque tudo se baseia na colabora\u00e7\u00e3o entre Estados e povos, muito al\u00e9m das fronteiras. Quando falo das fronteiras, n\u00e3o me refiro \u00e0s fronteiras f\u00edsicas, mas culturais, lingu\u00edsticas, econ\u00f4micas, pol\u00edticas, muito al\u00e9m do que nos separou no passado. Os Estados colaboram porque sabem que o respeito mutuo \u00e9 a base est\u00e1vel e duradoura para a paz. E o respeito dos direitos de cada cidad\u00e3o dessa comunidade \u00e9 um valor em si. Sabemos que juntos, no s\u00e9culo XXI, somos mais fortes do que separados. Essa ideia ningu\u00e9m discute. Sobretudo os jovens a compartilham. Mas h\u00e1 um problema e, por isso, considero que estamos amea\u00e7ados: cada vez mais, as pessoas n\u00e3o identificam o que acabo de descrever com a UE. Essa ideia \u00e9 uma heran\u00e7a hist\u00f3rica, porque sua realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 o contr\u00e1rio do que a Europa tem praticado durante a primeira metade do s\u00e9culo XXI. \u00c9 a raz\u00e3o pela qual digo, como alem\u00e3o, que esta UE \u00e9 um presente hist\u00f3rico, que nos obriga, sobretudo os alem\u00e3es, a lutar por esta Uni\u00e3o, porque ela permitiu aos alem\u00e3es entrar com a cabe\u00e7a alta na democracia. Acrescento uma pergunta: abandonamos a ideia ou mudamos a Europa? Eu acho que tem que levar a cabo uma mudan\u00e7a integral na UE.<\/p>\n<p><b><i>Em que dire\u00e7\u00e3o?<\/i><\/b><\/p>\n<p>Mais transpar\u00eancia, maior justi\u00e7a social, e n\u00e3o se podem separar as duas. Somos o continente mais rico do mundo, temos empresas que produzem benef\u00edcios inclusive em meio \u00e0 crise econ\u00f4mica mais profunda, benef\u00edcios enormes\u2026 bancos, fundos especulativos. N\u00e3o proponho a exist\u00eancia de um Minist\u00e9rio da Fazenda europeu, mas sim uma regra muito simples: paga os impostos ali, onde tens benef\u00edcios.<\/p>\n<p>Muito simples: isso aumentaria os ingressos do Estado em vez de discutir somente como reduzir os gastos. A taxa sobre as transa\u00e7\u00f5es financeiras. Como resolvemos o bloqueio dos cr\u00e9ditos? Os bancos que recebem empr\u00e9stimos do Banco Central Europeu a 0,5%, se recusam a injetar o dinheiro na economia real. Cada empresa pequena e m\u00e9dia na Espanha se queixa de que n\u00e3o tem acesso ao cr\u00e9dito. H\u00e1 medidas muito concretas que poderiam mudar tudo imediatamente. N\u00e3o acredito nos grandes debates sobre a estrutura. Isso d\u00e1 na mesma ao jovem desempregado andaluz. O que quer \u00e9 que lhe ajudemos, \u00e9 primordial. Temos que defender os sal\u00e1rios dignos: que algu\u00e9m que trabalhe oito horas por dia receba um sal\u00e1rio que lhe permita viver com dignidade. Isso \u00e9 o essencial. S\u00e3o promessas que a Europa sempre fez e que agora n\u00e3o se respeitam. S\u00e3o mudan\u00e7as a curto prazo e que podem ser realizadas. A\u00e7\u00f5es concretas a favor da justi\u00e7a social e, repito, entre os povos e entre os cidad\u00e3os.<\/p>\n<p><b><i>Voc\u00ea acha que a austeridade pode matar a ideia de Europa em pa\u00edses como Portugal, Espanha, Gr\u00e9cia?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00c9 uma mensagem ideol\u00f3gica: tem que reduzir os gastos e imediatamente voltar\u00e1 a confian\u00e7a dos investidores e o emprego. Essa \u00e9 a propaganda h\u00e1 cinco anos e, h\u00e1 cinco anos, vemos que cada vez mais pa\u00edses caem na recess\u00e3o. Necessitamos uma combina\u00e7\u00e3o: essa \u00e9 a ideia do Parlamento Europeu. A disciplina or\u00e7ament\u00e1ria \u00e9 necess\u00e1ria, sem d\u00favida. Resulta il\u00f3gico que os Estados dediquem um ter\u00e7o de seu or\u00e7amento para pagar juros. Disciplina or\u00e7ament\u00e1ria, sem d\u00favida. Mas o efeito \u00e9 que invistamos no crescimento e, sobretudo, no emprego dos jovens, na infraestrutura, investiga\u00e7\u00e3o, desenvolvimento, luta contra o desemprego juvenil, sobretudo com ajudas \u00e0s pequenas e m\u00e9dias empresas. A austeridade sozinha n\u00e3o serve para nada.<\/p>\n<p><b><i>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que circulam ideias que colocam em perigo o sentido do Estado de bem-estar. Isso j\u00e1 n\u00e3o aconteceu nos anos de Thatcher?<\/i><\/b><\/p>\n<p>Sejamos honestos: comparada com os neoliberais, Margaret Thatcher era uma mulher socialmente respons\u00e1vel. Nos disseram que em uma economia social, nossos valores democr\u00e1ticos, sociais, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o competitivos com outras regi\u00f5es do mundo; defendem que quanto mais se trabalhe por menos dinheiro \u00e9 melhor, com um m\u00ednimo de direitos democr\u00e1ticos na empresa, sem direito \u00e0 greve, sem sindicatos. Esta propaganda governou a Europa durante duas d\u00e9cadas e o resultado \u00e9 vis\u00edvel: a enorme riqueza de uma minoria sem precedentes; um crescimento da pobreza, inclusive nas classes m\u00e9dias, sem precedentes, e uma crise institucional sem precedentes. Esse sistema fracassou: a Europa \u00e9 o continente mais rico do mundo, mas tem uma distribui\u00e7\u00e3o da riqueza muito injusta.<\/p>\n<p><b><i>N\u00e3o te preocupa que os italianos continuem votando em Berlusconi, que quase ganha as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es parlamentares, ou os franceses em Marine Le Pen, que continue crescendo o apoio a essas for\u00e7as obscuras?<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00c9 muito inquietante, mas tem que analisar com muito cuidado. Tomemos o eleitorado de Silvio Berlusconi, que vota na For\u00e7a It\u00e1lia. Se trata de trabalhadores, pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios e, quando se discute com eles se v\u00ea rapidamente por que votam nele: t\u00eam medo, medo de perder o que conseguiram em suas vidas: um trabalho, uma casa, algumas economias. Se sentem amea\u00e7ados por esse mundo globalizado no qual o Estado n\u00e3o protege seus cidad\u00e3os e procuram algu\u00e9m que acham que os protege. Em parte, tem raz\u00e3o: o acontecido nos \u00faltimos 10 anos demonstra que est\u00e3o amea\u00e7ados. O capitalismo selvagem que vivemos durante esta d\u00e9cada foi capaz de destruir Estados e indiv\u00edduos. A perda da prote\u00e7\u00e3o social e legal das pessoas normais \u00e9 uma aut\u00eantica amea\u00e7a. O paradoxo \u00e9 que Berlusconi pertence politicamente ao grupo que promove esse capitalismo, mas, gra\u00e7as a sua for\u00e7a midi\u00e1tica, \u00e9 capaz de contar o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a acontece o mesmo, mas em outras circunst\u00e2ncias. As pessoas que votam na Frente Nacional t\u00eam medo. Qual \u00e9 nossa conclus\u00e3o? A Uni\u00e3o Europeia era uma promessa: mais seguran\u00e7a, mais crescimento, mais trabalho, mais paz, mais liberdade. H\u00e1 algumas promessas que se mant\u00eam, mas h\u00e1 muitas que temos a impress\u00e3o de que \u00e0 Europa j\u00e1 n\u00e3o interessa manter; ao contr\u00e1rio, a maioria que havia nas institui\u00e7\u00f5es europeias e nos Estados membros permitiu uma pol\u00edtica que era o contr\u00e1rio dessas promessas.<\/p>\n<p><b><i>H\u00e1 dois anos, em uma entrevista neste mesmo peri\u00f3dico, te perguntaram sobre o livro que melhor descreve a situa\u00e7\u00e3o atual na UE e voc\u00ea respondeu \u2018O \u00faltimo ver\u00e3o da Europa\u2019, de David Fromkin, um ensaio sobre as Origens da I Guerra Mundial. Por qu\u00ea?<\/i><\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o nos encontramos nas portas de nenhuma guerra. Dito isso, o que Fromkin descreve \u00e9 um processo que puseram em marcha Governos, mas que acabou por ser incontrol\u00e1vel para as mesmas pessoas que o empreenderam. Foi posto em marcha um processo no qual, como ningu\u00e9m dizia a verdade, no final explodiu uma cat\u00e1strofe. O que acontece agora \u00e9 que temos pessoas em todas as institui\u00e7\u00f5es que te dizem uma coisa, mas por tr\u00e1s t\u00eam outra t\u00e1tica. \u00c9 a raz\u00e3o pela qual recomendo esse livro. N\u00e3o ajudamos os gregos porque os gregos devem resolver seus pr\u00f3prios problemas, mas, na verdade, o que acontece \u00e9 que ajudar os gregos n\u00e3o \u00e9 muito popular e tenho elei\u00e7\u00f5es em casa. P\u00f5e em marcha um processo que tem consequ\u00eancias incontrol\u00e1veis. Al\u00e9m disso, \u00e9 um ensaio hist\u00f3rico muito bem escrito.<\/p>\n<p><b><i>Em uma \u00e9poca de sua vida, voc\u00ea foi futebolista, e acho que continua gostando muito desse esporte. Acha que \u00e9 uma boa met\u00e1fora do continente?<\/i><\/b><\/p>\n<p>Porque nos clubes h\u00e1 jogadores de todas as nacionalidades, e existem torcedores do Real Madrid ou do Barcelona em qualquer canto, com independ\u00eancia de sua nacionalidade. O futebol desempenha um papel muito importante hoje. Sou deputado europeu h\u00e1 19 anos e compreendi que a nacionalidade, que o sentimento de ades\u00e3o a um grupo, etnia, na\u00e7\u00e3o ou povo, d\u00e1 identidade: uma palavra sin\u00f4nimo de n\u00e3o estar sozinho. Estar orgulhoso de uma na\u00e7\u00e3o ou um grupo representa o orgulho de si mesmo. Mas esse sentimento, em uma Europa na qual a na\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico ponto de refer\u00eancia diminui. Em uma \u00e9poca, as pessoas estavam orgulhosas de serem cat\u00f3licas ou protestantes, ou socialistas, ou sindicalistas, ou conservadoras. Tudo isso se dissolve em nossa sociedade moderna. Esse v\u00e1cuo \u00e9 substitu\u00eddo pelo futebol, por isso acho que tem um papel social t\u00e3o importante. Temos que ter cuidado, isso sim, de que n\u00e3o se descontrole.<\/p>\n<p><b><i>Voc\u00ea foi livreiro durante muitos anos. Agora se fala muito da crise do setor. Imagina uma Europa sem livrarias? <\/i><\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o. Que pobreza. N\u00e3o tenho nada contra os livros eletr\u00f4nicos, contra as grandes cadeias, mas n\u00e3o posso imagin\u00e1-lo.<\/p>\n<p><b><i>Compra livros pela Internet?<\/i><\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o. Uma de minhas empregadas comprou minha livraria quando me fizeram deputado. A livraria existe ainda, em W\u00fcrselen, e compro tudo l\u00e1. \u00c9 um local pequeno, no centro. Combina a literatura com livros de arte, e tudo isso funciona porque vende para crian\u00e7as. \u00c9 a chave para que sobrevivam. A partir do momento que voc\u00ea d\u00e1 um livro para uma crian\u00e7a, ter\u00e1 uma identifica\u00e7\u00e3o com ela. Acho que todos sabemos quais foram nossos primeiros livros. Meus filhos me falam do cheiro do papel e me dizem que, quando entram em uma livraria voltam a sua inf\u00e2ncia. \u00c9 um sentimento \u00fanico e, por isso, estou convencido de que sobreviver\u00e3o.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Martin-Schulz-capitalismo-selvagem-destruiu-estados-e-individuos\/6\/29959\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu desde 2012 e candidato dos socialistas para presidir a Comiss\u00e3o Europeia desde novembro, \u00e9 um pol\u00edtico bastante ins\u00f3lito. 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