{"id":38609,"date":"2014-01-20T12:00:43","date_gmt":"2014-01-20T12:00:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=38609"},"modified":"2015-05-05T22:20:05","modified_gmt":"2015-05-05T21:20:05","slug":"portugues-a-atualidade-de-uma-marxista-rebelde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/01\/portugues-a-atualidade-de-uma-marxista-rebelde\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) A Atualidade de Uma Marxista Rebelde"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/Rosa-Luxemburg.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-38610\" alt=\"Rosa Luxemburg\" src=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/Rosa-Luxemburg-300x151.jpg\" width=\"300\" height=\"151\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/Rosa-Luxemburg-300x151.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/Rosa-Luxemburg.jpg 680w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Como Rosa Luxemburgo, morta h\u00e1 95 anos, ajuda a reinventar, em tempos de crise do capitalismo, o pensamento de Marx.<\/strong><\/p>\n<p><i>H\u00e1 cinco anos, surgiu e cresce, em paralelo a uma crise do capitalismo duradoura e de final imprevis\u00edvel, um movimento intelectual surpreendente: a reabilita\u00e7\u00e3o das ideias de Karl Marx. O fil\u00f3sofo alem\u00e3o, que muitos desprezaram ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim, est\u00e1 de volta. Seus livros s\u00e3o <\/i><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2012\/07\/30\/o-retorno-dos-filosofos-comunistas\/\" >republicados<\/a><\/i><i> em todo o mundo, com tiragens e repercuss\u00e3o expressivas. N\u00e3o raro, sua import\u00e2ncia e contemporaneidade s\u00e3o reconhecidas at\u00e9 mesmo por publica\u00e7\u00f5es conservadoras e por <\/i><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2011\/09\/21\/deem-uma-chance-a-karl-marx\/\" >consultores ilustres<\/a><\/i><i> das grandes finan\u00e7as globais.<\/i><\/p>\n<p><i>Num 15 de janeiro como hoje, era assassinada, em Berlim, uma pensadora e militante que se apaixonou pelo marxismo muito jovem, viveu intensamente sob sua influ\u00eancia e contribuiu para enriquec\u00ea-lo \u2013 mas foi esquecida, no s\u00e9culo 20, tanto pelo socialismo sovi\u00e9tico quanto pelas correntes hegem\u00f4nicas entre a esquerda. Estamos falando de Rosa Luxemburgo.<\/i><\/p>\n<p><i>Talvez esta polonesa judia, que se tornou l\u00edder da Revolu\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 de 1918\u00a0(<\/i><i><a href=\"http:\/\/www.editoraunesp.com.br\/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=577\"  target=\"_blank\">1<\/a><\/i><i>\u00a0<\/i><i><a href=\"http:\/\/www.editoraunesp.com.br\/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=336\"  target=\"_blank\">2<\/a><\/i><i>\u00a0<\/i><i><a href=\"http:\/\/www.editoraunesp.com.br\/colecao-detalhe.asp?ctl_id=233\"  target=\"_blank\">3<\/a><\/i><i>) seja importante hoje\u00a0exatamente pelos motivos que a fizeram maldita no passado. \u00c9 o que pensa a fil\u00f3sofa\u00a0<b>Isabel Loureiro,\u00a0<\/b>principal estudiosa da obra de Rosa no Brasil, autora de diversos livros sobre a l\u00edder da Revolu\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 de 1918 e\u00a0organizadora de uma vasta colet\u00e2nea sobre sua obra, em tr\u00eas volumes (<\/i><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.editoraunesp.com.br\/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=1308\" >1<\/a><\/i><i> <\/i><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/bit.ly\/10R9j4w\" >2<\/a><\/i><i> <\/i><i><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/bit.ly\/XOfmYz\" >3<\/a><\/i><i>),\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>A primeira particularidade de Rosa, avalia Isabel, \u00e9 ponto de vista extremamente sofisticado sobre Revolu\u00e7\u00e3o, Reformas e Poder. Rosa enxergava a import\u00e2ncia (e a beleza\u2026) das revolu\u00e7\u00f5es \u2014 as mudan\u00e7as inesperadas, os grandes movimentos da Hist\u00f3ria em que as maiorias desafiam o automatismo enfadonho das rela\u00e7\u00f5es sociais e viram a mesa. Mas via estes momentos como a abertura de um longo processo de mudan\u00e7as, n\u00e3o como mera oportunidade para instalar novos grupos no poder de Estado.<\/i><\/p>\n<p><i>Disso derivava seu grande empenho em construir formas avan\u00e7adas de democracia. Para transformar a vida, pensava ela, as sociedades precisavam enxerg\u00e1-la; deviam superar a aliena\u00e7\u00e3o, a repeti\u00e7\u00e3o quase inconsciente de rela\u00e7\u00f5es consolidadas ao longo do tempo. Esta lenta conquista de autonomia exige, \u00e9 claro, abertura ao debate, \u00e0 cr\u00edtica e \u00e0 pol\u00eamica. Por isso, Rosa, embora aliada a L\u00eanin na luta contra o amortecimento e burocratiza\u00e7\u00e3o do marxismo, no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, divergiu abertamente das tend\u00eancias centralizadoras do revolucion\u00e1rio russo. Em consequ\u00eancia, \u201cfoi posta no \u00edndex dos partidos comunistas\u201d, diz Isabel Loureiro.<\/i><\/p>\n<p><i>Mas esta combina\u00e7\u00e3o de rebeldia contra o capitalismo e desejo de valorizar a autonomia n\u00e3o far\u00e1 de Rosa uma autora a ser estudada com aten\u00e7\u00e3o especial em nossos dias? Sua obra n\u00e3o ser\u00e1, de certa forma, um convite a rever a obra de Marx e reinventar seus sentidos? Isabel pensa que sim.\u00a0Na entrevista abaixo, ela, que dedicou um dos tr\u00eas volumes da colet\u00e2nea de Rosa \u00e0 correspond\u00eancia trocada com amigos e amantes, frisa: \u201cPelas cartas, podemos acompanhar seu doloroso processo de amadurecimento, conflitos amorosos, desejo de ser feliz, suas reclama\u00e7\u00f5es de como a vida pol\u00edtica era desumana, seu grande amor \u00e0 natureza e suas reflex\u00f5es sobre arte\u201d. <\/i><b><i>(A.M.)<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>Pouco mais de um ano depois de lan\u00e7ar uma colet\u00e2nea de tr\u00eas volumes sobre a obra de Rosa Luxemburgo, voc\u00ea organizou, em 2013, um semin\u00e1rio de tr\u00eas meses sobre o tema. Em que Rosa e sua vis\u00e3o particular do marxismo podem ajudar os novos movimentos que questionam o capitalismo no s\u00e9culo 21?<\/b><\/p>\n<p>Essa foi precisamente a pergunta que me fiz quando comecei a preparar o semin\u00e1rio. Por que, quase cem anos depois de seu assassinato, voltar a discutir as ideias de uma revolucion\u00e1ria marxista cl\u00e1ssica, formada na cultura humanista europeia do s\u00e9culo 19, cujo mundo desmoronou com a Primeira Guerra Mundial? A resposta n\u00e3o \u00e9 evidente. Por que sua interpreta\u00e7\u00e3o de Marx ainda hoje \u00e9 atual? Para come\u00e7ar, Rosa tem uma concep\u00e7\u00e3o aberta do marxismo. No seu entender a teoria de Marx n\u00e3o era uma B\u00edblia com verdades prontas e imut\u00e1veis que os fieis tinham que seguir sem questionar, mas um manancial inesgot\u00e1vel que permite levar adiante o trabalho de compreens\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, ela nunca hesitou em criticar as vacas sagradas do marxismo europeu, como Bernstein e Kautsky, e nem sequer o pr\u00f3prio Marx. Essa independ\u00eancia intelectual \u00e9, para os marxistas \u2013 que infelizmente t\u00eam uma tend\u00eancia ao dogmatismo e \u00e0 ossifica\u00e7\u00e3o \u2013 uma indica\u00e7\u00e3o de que precisam continuar pesquisando e criando conceitos que permitam dar conta da nova fase da acumula\u00e7\u00e3o do capital e da nova situa\u00e7\u00e3o em que se encontram as for\u00e7as sociais. Al\u00e9m disso, Rosa acrescenta \u00e0 teoria de Marx algo original, propriamente seu: a ideia de que as transforma\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o fruto da a\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma das massas populares que, na luta quotidiana pela amplia\u00e7\u00e3o de direitos e, sobretudo, na luta revolucion\u00e1ria pela transforma\u00e7\u00e3o radical da sociedade capitalista, ou seja, no seu processo de exist\u00eancia real, forjam sua consci\u00eancia pol\u00edtico-social. Em resumo, e simplificando muito, se queremos mudar o que est\u00e1 a\u00ed, devemos agir aqui e agora, porque a nossa a\u00e7\u00e3o \u00e9 o que pode interromper o curso da hist\u00f3ria em dire\u00e7\u00e3o ao abismo.<\/p>\n<p><b>Alguns aspectos centrais que voc\u00ea enxerga no pensamento de Rosa t\u00eam muito a ver com a nova cultura pol\u00edtica de autonomia e horizontalidade. Por que voc\u00ea a identifica com a cr\u00edtica ao vanguardismo, \u00e0 burocratiza\u00e7\u00e3o e ao centralismo?<\/b><\/p>\n<p>Esses pontos que voc\u00ea menciona resumem bem o que op\u00f4s Rosa Luxemburgo \u00e0 social-democracia e ao bolchevismo e continuam sendo de grande atualidade na cultura da esquerda. Durante o s\u00e9culo 20, Rosa foi posta no \u00edndex dos partidos comunistas devido \u00e0 sua cr\u00edtica a L\u00eanin e aos bolcheviques. Foi usada como \u00edcone revolucion\u00e1rio pelos comunistas da antiga Alemanha Oriental (RDA), mas suas ideias democr\u00e1ticas e libert\u00e1rias foram deixadas na sombra ou censuradas. O stalinismo acusou-a de espontane\u00edsta, de n\u00e3o dar import\u00e2ncia \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso deixar claro que Rosa n\u00e3o \u00e9 contra a organiza\u00e7\u00e3o (afinal ela sempre militou num partido pol\u00edtico), e sim contra uma concep\u00e7\u00e3o de partido como vanguarda de revolucion\u00e1rios profissionais, hierarquicamente separada das massas, e que leva de fora a consci\u00eancia \u00e0s massas informes. Essa cr\u00edtica era endere\u00e7ada tanto \u00e0 social-democracia, quanto ao bolchevismo. Para Rosa, que \u00e9 herdeira do Iluminismo, o verdadeiro l\u00edder pol\u00edtico \u00e9 aquele que esclarece, que destr\u00f3i a cegueira da massa, que transforma a massa em lideran\u00e7a, que acaba com a separa\u00e7\u00e3o entre dirigentes e dirigidos, que contribui para formar aquilo que ela considera o mais importante pr\u00e9-requisito de uma humanidade emancipada: a autonomia intelectual, o pensamento cr\u00edtico das massas trabalhadoras. E, por sua vez, a autonomia intelectual requer a exist\u00eancia de liberdades democr\u00e1ticas: direito de reuni\u00e3o, associa\u00e7\u00e3o, imprensa livre, etc. Da\u00ed a cr\u00edtica que Rosa faz aos bolcheviques por terem eliminado o espa\u00e7o p\u00fablico, que ela v\u00ea como o \u00fanico ant\u00eddoto contra a burocratiza\u00e7\u00e3o do partido e dos sovietes.<\/p>\n<p><b>No semin\u00e1rio, uma sess\u00e3o foi dedicada \u00e0 \u201cdial\u00e9tica entre reforma e revolu\u00e7\u00e3o\u201d. Algumas das caracter\u00edsticas mais marcantes da nova cultura \u00e9 o desejo de produzir mudan\u00e7as, ainda que parciais; a recusa a reduzir a pol\u00edtica a elei\u00e7\u00f5es, ou mesmo a apostar na revolu\u00e7\u00e3o como um momento m\u00e1gico e transcendente, em que toda a sociedade se transforma. O que Rosa poderia dizer sobre isso?<\/b><\/p>\n<p>Esse \u00e9 mais um ponto em que Rosa continua sendo atual. Ela queria uma humanidade em que houvesse liberdade e justi\u00e7a social; para isso, era necess\u00e1rio passar do capitalismo ao socialismo. Por\u00e9m, essa transi\u00e7\u00e3o s\u00f3 seria poss\u00edvel com a mais ampla participa\u00e7\u00e3o dos de baixo nos assuntos que lhes dizem respeito, o que significava um longo processo de amadurecimento, de corre\u00e7\u00e3o de rota, etc. Da\u00ed a necessidade do debate p\u00fablico. A revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o consistia na troca de homens no poder, era muito mais que isso, era todo um processo econ\u00f4mico, social, cultural e, claro, pol\u00edtico \u2013 isto \u00e9, de tomada do poder pelos trabalhadores, que levaria muito tempo para se efetivar. Resumindo: no pensamento de Rosa Luxemburgo a ideia de tomada do poder \u2013 revolu\u00e7\u00e3o como quebra r\u00e1pida das rela\u00e7\u00f5es de poder existentes \u2013 n\u00e3o se separa da ideia de mudan\u00e7a estrutural da sociedade, o que implica mudan\u00e7a de valores, ou seja, uma revolu\u00e7\u00e3o no longo prazo. Para ela, as duas coisas precisam ocorrer conjuntamente.<\/p>\n<p><b>Vivemos num mundo em que est\u00e3o abertas janelas tanto para enormes transforma\u00e7\u00f5es como para riscos de desumaniza\u00e7\u00e3o in\u00e9ditos. Est\u00e3o a\u00ed os drones, a tentativa de controlar a internet e vigiar os cidad\u00e3os por meio dela, os sinais de xenofobia, os grupos nazistas em certos pa\u00edses europeus. \u201cSocialismo ou barb\u00e1rie\u201d, uma consigna de Rosa, tem a ver com este futuro t\u00e3o aberto?<\/b><\/p>\n<p>Quando Rosa diz que a humanidade est\u00e1 perante o dilema \u201csocialismo ou barb\u00e1rie\u201d, o que ela tem diante dos olhos \u00e9 o horror da Primeira Guerra Mundial que, para aquela gera\u00e7\u00e3o, foi um cruel divisor de \u00e1guas. Pela primeira vez, as pessoas se deram conta de que os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos podiam ser mort\u00edferos, de que a moderniza\u00e7\u00e3o capitalista destruiria todos os obst\u00e1culos que aparecessem no caminho de seu avan\u00e7o infernal. E a esquerda radical alem\u00e3, de que Rosa era uma das lideran\u00e7as, via no socialismo a \u00fanica alternativa capaz de barrar essa descida aos infernos.<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo, ela tamb\u00e9m se dava conta de que, com a guerra e o chauvinismo, que haviam engolido as massas trabalhadoras europeias, a luta em prol do socialismo tinha se tornado infinitamente mais dif\u00edcil. Acho que podemos fazer um paralelo com o que se passa hoje. Depois da queda do comunismo burocr\u00e1tico, parecia que agora sim o terreno estava finalmente livre para que as ideias socialistas democr\u00e1ticas vingassem. Mas o que vemos \u00e9 que, precisamente num momento em que o capitalismo est\u00e1 em crise e sofre um golpe poderoso, no momento em que constantes e gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o europeia mostram claramente que o capitalismo chegou ao fim da linha, o que acontece em termos de mudan\u00e7a no rumo de uma sociedade mais justa, mais igualit\u00e1ria? Absolutamente nada!<\/p>\n<p>Os governantes continuam fazendo os ajustes pedidos pelo capital financeiro e as popula\u00e7\u00f5es vivem num permanente estado de s\u00edtio econ\u00f4mico, sem saber o que o dia de amanh\u00e3 lhes reserva. Precisamos nos perguntar por que, precisamente num momento em que caiu a m\u00e1scara ideol\u00f3gica do neoliberalismo, a esquerda n\u00e3o consegue aparecer como alternativa. \u00c9 necess\u00e1rio rever a hist\u00f3ria da esquerda institucional europeia para entender porque isso acontece. E aqui, mais uma vez, Rosa Luxemburgo tem o que dizer com sua cr\u00edtica \u00e0 ades\u00e3o da social-democracia alem\u00e3 ao estado de coisas vigente.<\/p>\n<p><b>A democracia institucional est\u00e1 esvaziada e em crise, mas os novos movimentos reivindicam formas cada vez mais democr\u00e1ticas de decis\u00e3o \u2014 inclusive em seu pr\u00f3prio interior. De que forma o debate sobre o partido, que op\u00f4s Rosa Luxemburgo a L\u00eanin, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, pode informar este anseio por democracia?<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 preciso que fique claro que Rosa Luxemburgo \u00e9 contra a aboli\u00e7\u00e3o da democracia \u201cburguesa\u201d tal como ocorreu no mundo sovi\u00e9tico. O que ela quer \u00e9 complementar a liberdade pol\u00edtica com a igualdade social. Isso significa que o pluralismo partid\u00e1rio, a imprensa livre, a liberdade de associa\u00e7\u00e3o, etc. devem ser preservados. Rosa era uma marxista cl\u00e1ssica, como eu disse, que tinha uma vis\u00e3o muito cr\u00edtica dos regimes autorit\u00e1rios do seu tempo, como o czarismo e o imp\u00e9rio alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m se deve enfatizar que ela, diferentemente de seu companheiro de partido Eduard Bernstein, n\u00e3o tem ilus\u00f5es quanto \u00e0 democracia burguesa parlamentar. Ela n\u00e3o acredita na transi\u00e7\u00e3o ao socialismo pela via eleitoral. Durante a revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1918, Rosa ficou entusiasmada com os conselhos de oper\u00e1rios e soldados que surgiram no in\u00edcio do movimento, vendo neles uma forma de ampliar a participa\u00e7\u00e3o dos de baixo. Mas n\u00e3o foi muito longe nestas reflex\u00f5es, pois foi assassinada pouco tempo depois.<\/p>\n<p>\u00c9 muito comum que a esquerda libert\u00e1ria recorra ao exemplo dos conselhos como panac\u00e9ia que supostamente resolveria os problemas da democracia representativa. \u00c9 sem d\u00favida uma forma democr\u00e1tica que deve ser preservada, sobretudo no \u00e2mbito local. Mas penso que devemos pensar, como Rosa indicou sem aprofundar em seu texto de cr\u00edtica aos bolcheviques escrito na pris\u00e3o em 1918, que o ideal \u00e9 combinar mecanismos de democracia representativa com mecanismos de democracia direta.<\/p>\n<p><b>Hugo Ch\u00e1vez, s\u00edmbolo do \u201csocialismo do s\u00e9culo 21\u2033 para parte da esquerda, baseou sua a\u00e7\u00e3o num Estado forte e num comando centralizado. Em contrapartida, os zapatistas difundem a ideia de \u00a0\u201dmudar o mundo sem tomar o poder\u201d, cunhada por John Holloway. O que o pensamento de Rosa \u00a0sugeriria, sobre esta pol\u00eamica?<\/b><\/p>\n<p>Rosa defende a tomada do poder de Estado pelos trabalhadores. Nesse sentido, ela se oporia \u00e0 f\u00f3rmula de Holloway. No entanto, ao defender a necessidade da transforma\u00e7\u00e3o radical dos valores burgueses-capitalistas na transi\u00e7\u00e3o ao socialismo ela percebe que a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo muito mais complicado, lento e doloroso que a simples tomada do poder de Estado. Ao mesmo tempo, ela n\u00e3o recusa a tomada do poder, vendo a\u00ed um meio de acelerar as mudan\u00e7as necess\u00e1rias. Por\u00e9m, acima de tudo, para Rosa Luxemburgo, o novo grupo que chega ao poder tem a obriga\u00e7\u00e3o de preservar e\/ou construir mecanismos de participa\u00e7\u00e3o, de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de cria\u00e7\u00e3o de autonomia da massa popular e n\u00e3o eliminar os mecanismos democr\u00e1ticos existentes, como se fossem apenas express\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o burguesa.<\/p>\n<p><b>Crescem em todo o mundo, e em particular no Brasil, os movimentos que criticam a cren\u00e7a cega no \u201cdesenvolvimento\u201d. A tradi\u00e7\u00e3o marxista mais difundida tamb\u00e9m \u00e9 desenvolvimentista. Materialista, acredita que o \u201cdesenvolvimento das for\u00e7as produtivas\u201d \u00e9 anterior aos avan\u00e7os da consci\u00eancia. Rosa tem algo a dizer sobre isso?<\/b><\/p>\n<p>Rosa \u00e9 filha do seu tempo, e tamb\u00e9m filha do marxismo do seu tempo. Isso quer dizer que, por um lado, ela \u00e9 defensora do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, ou seja, da moderniza\u00e7\u00e3o capitalista. Mas, por outro \u2013 e isso \u00e9 interessante e atual sobretudo para n\u00f3s da Am\u00e9rica Latina \u2013, ela tamb\u00e9m enfatiza o aspecto sombrio dessa moderniza\u00e7\u00e3o capitalista, com todo o seu conhecido s\u00e9quito de horrores: destrui\u00e7\u00e3o violenta de modos de vida primitivos pelo capitalismo europeu, a fim de submet\u00ea-los aos mecanismos do mercado; guerra do \u00f3pio na China; enriquecimento da metr\u00f3pole \u00e0s custas do endividamento da periferia; acumula\u00e7\u00e3o de capital mediante compras de armas pelo Estado, o que favorece guerras de todos os tipos, etc. Essa postura avessa ao eurocentrismo e \u00e0 ideia de que o progresso da civiliza\u00e7\u00e3o justifica os sofrimentos dos povos perif\u00e9ricos d\u00e1-nos elementos para repensar no que consiste verdadeiramente o progresso e se o capitalismo \u00e9 mesmo o horizonte inelut\u00e1vel da humanidade.<\/p>\n<p><b>De que forma permanece atual a no\u00e7\u00e3o de imperialismo, que era cara a Rosa Luxemburgo? Como este conceito sobrevive num mundo marcado pelo decl\u00ednio dos EUA e Europa, pela ascens\u00e3o dos BRICS e, ao mesmo tempo, pela difus\u00e3o, nestes pa\u00edses, dos modos de vida t\u00edpicos do capitalismo?<\/b><\/p>\n<p>Para Rosa, o imperialismo n\u00e3o \u00e9, como para L\u00eanin, uma \u201cetapa superior do capitalismo\u201d e sim uma caracter\u00edstica do capitalismo desde as origens. Desde o in\u00edcio, o capitalismo precisou de mercados externos (por exemplo, ao transformar as economias primitivas em economias de mercado) para se reproduzir. A viol\u00eancia e o saque das camadas sociais n\u00e3o-capitalistas, que Marx restringia ao per\u00edodo da chamada \u201cacumula\u00e7\u00e3o primitiva\u201d, Rosa Luxemburgo considera uma caracter\u00edstica do capitalismo at\u00e9 sua plena maturidade.<\/p>\n<p>Hoje assistimos \u00e0 mercantiliza\u00e7\u00e3o de tudo que ainda n\u00e3o foi transformado em mercadoria: servi\u00e7os p\u00fablicos, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, cultura, conhecimento, direitos autorais, recursos ambientais, etc. \u00c9 precisamente aqui que David Harvey, ao analisar o novo imperialismo, procede a uma interessante atualiza\u00e7\u00e3o da teoria de Rosa Luxemburgo, forjando o conceito de \u201cacumula\u00e7\u00e3o por expropria\u00e7\u00e3o\u201d. As feministas alem\u00e3s, tamb\u00e9m inspiradas em Rosa, incluem nesse \u00e2mbito o trabalho dom\u00e9stico feminino. Logo, como podemos ver, apesar da ascens\u00e3o dos BRICS, e apesar de algumas altera\u00e7\u00f5es na divis\u00e3o do mundo entre centro e periferia, a verdade \u00e9 que o imperialismo, ainda que novo, vai bem, obrigado.<\/p>\n<p><b>Um dos tr\u00eas volumes da colet\u00e2nea organizada por voc\u00ea trata da vida privada de Rosa, recupera cartas pessoais, discute sua condi\u00e7\u00e3o de mulher. Por que este destaque, pouco comum na literatura marxista?<\/b><\/p>\n<p>Antes de mais nada, \u00e9 preciso observar que tivemos a sorte de suas cartas terem sido preservadas praticamente intactas gra\u00e7as \u00e0 devo\u00e7\u00e3o dos amigos. Essa correspond\u00eancia \u00e9 um documento precioso sobre o socialismo alem\u00e3o e internacional da \u00e9poca. Mas a minha escolha recaiu sobre as cartas aos amantes e amigos, pois queria mostrar, pelo exemplo de uma revolucion\u00e1ria, que mesmo a milit\u00e2ncia pol\u00edtica requer qualidades que muitas vezes s\u00e3o desprezadas como pequeno-burguesas, ou sei l\u00e1 o que.<\/p>\n<p>O exemplo de Rosa se op\u00f5e \u00e0 imagem falsificada do militante como um ser puritano que dedica 24 horas do dia \u00e0 causa revolucion\u00e1ria. Pelas cartas, podemos acompanhar seu doloroso processo de amadurecimento, conflitos amorosos, desejo de ser feliz, suas reclama\u00e7\u00f5es de como a vida pol\u00edtica era desumana, seu grande amor \u00e0 natureza, reflex\u00f5es sobre arte.<\/p>\n<p>Ela vai se libertando aos poucos de um relacionamento amoroso que n\u00e3o a satisfazia e se afirmando como uma intelectual dona do seu nariz, que interv\u00e9m no espa\u00e7o p\u00fablico, que n\u00e3o teme enfrentar as vacas sagradas da social-democracia alem\u00e3, com uma vida privada bastante livre para os valores da \u00e9poca. \u00c9 uma personagem muito rica do ponto de vista emocional, uma \u00f3tima escritora, uma pessoa com um amplo espectro de interesses: fala de pintura, literatura, bot\u00e2nica, geologia, e, sobretudo nas cartas da pris\u00e3o, descreve o pouco de natureza que pode enxergar da janela da cela ou do p\u00e1tio da pris\u00e3o com grande sensibilidade e riqueza de detalhes. As cartas aos amigos eram seu jeito de fugir do c\u00e1rcere. As cartas da pris\u00e3o, publicadas pela primeira vez logo depois do seu assassinato e republicadas in\u00fameras vezes, levaram gera\u00e7\u00f5es de militantes a se interessarem por Rosa Luxemburgo. Quem sabe acontece o mesmo com a nossa colet\u00e2nea, publicada em 2011 pela Editora UNESP?<\/p>\n<p><em>Entrevista de <b>Isabel Loureiro<\/b>\u00a0| Imagem: <b>Rolando Astarita<\/b><\/em><\/p>\n<p><i>(Publicado originalmente em 19\/3\/13. Atualizado em 15\/1\/14)<\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/a-atualidade-de-uma-marxista-rebelde\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como Rosa Luxemburgo, morta h\u00e1 95 anos, ajuda a reinventar, em tempos de crise do capitalismo, o pensamento de Marx. \u201cRosa tem uma concep\u00e7\u00e3o aberta do marxismo. Para ela, Marx n\u00e3o era uma B\u00edblia com verdades prontas e imut\u00e1veis, mas manancial que permite levar adiante trabalho de compreens\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-38609","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38609","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38609"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38609\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38609"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38609"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38609"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}