{"id":39989,"date":"2014-02-24T12:00:22","date_gmt":"2014-02-24T12:00:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=39989"},"modified":"2015-05-05T22:11:04","modified_gmt":"2015-05-05T21:11:04","slug":"portugues-johan-galtung-transcender-e-transformar-uma-introducao-ao-trabalho-de-conflitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/02\/portugues-johan-galtung-transcender-e-transformar-uma-introducao-ao-trabalho-de-conflitos\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Johan Galtung &#8211; Transcender e Transformar: Uma Introdu\u00e7\u00e3o ao Trabalho de Conflitos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><em>S\u00e3o Paulo: Palas Athena, 2006 -Tradu\u00e7\u00e3o Antonio Carlos Silva Rosa<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\">Um dos autores mais importantes da teoria das rela\u00e7\u00f5es internacionais no p\u00f3s-guerra, Johan Galtung, dedicou toda sua prof\u00edcua carreira intelectual ao estudo da paz e da solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de conflitos, que divulgou sob o ep\u00edteto de peace research, iniciados nos anos 1960, especialmente no Journal of Peace Research, que fundou. Pouco estudado no Brasil, onde sua extensa obra resta ainda pouco traduzida (salvo at\u00e9 pouco tempo pelo artigo \u201cViol\u00eancia, paz e investiga\u00e7\u00e3o sobre a paz\u201d, de 1969, publicado numa obra coletiva portuguesa no in\u00edcio dos anos 1990) e pouco comentada, a publica\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos de algumas obras bastante representativas de seus estudos, como \u201cDireitos humanos \u2013 uma nova perspectiva\u201d (publicada pela editora portuguesa Instituto Piaget em 1998), \u201cO Caminho e a meta \u2013 Gandhi hoje\u201d (publicada pela editora brasileira Palas Athena em 2003) e \u201cCobertura de conflitos \u2013 uma introdu\u00e7\u00e3o ao jornalismo para a paz\u201d (com Jacke Lynch e Annabel McGoldrick, publicada pela editora mexicana TUP em 2010) servem para mudar positivamente esse \u201cestado da arte\u201d. Publicada recentemente no Brasil, \u201cTranscender e transformar \u2013 uma introdu\u00e7\u00e3o ao trabalho de conflitos\u201d oferece uma ampla e bem-vinda apresenta\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo utilizado pela organiza\u00e7\u00e3o TRANSCEND International (www.transcend.org), dirigida pelo autor, para a solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de conflitos, baseado na supera\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios da luta e do adiamento pela negocia\u00e7\u00e3o e o di\u00e1logo (em termos processuais) e na supera\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios da vit\u00f3ria e da retirada pelo acordo e a transcend\u00eancia (em termos dos resultados).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\">A obra apresenta uma classifica\u00e7\u00e3o geral dos conflitos, divididos em quatro n\u00edveis designados como microconflitos (nas pessoas e entre elas), mesoconflitos (dentro das sociedades), macroconflitos (entre Estados e na\u00e7\u00f5es) e megaconflitos (entre regi\u00f5es e civiliza\u00e7\u00f5es). O primeiro cap\u00edtulo \u00e9 dedicado aos microconflitos (n\u00edvel 1), citando diversos exemplos retirados da vida interindividual de diversas na\u00e7\u00f5es e suas possibilidades de solu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica pelo m\u00e9todo galtungiano. \u201cAcabamos de considerar \u2013 afirma o autor \u2013 alguns conflitos \u2018nas pessoas e entre elas\u2019. Se olharmos atentamente, veremos que eles est\u00e3o todos inclu\u00eddos nestes dois tipos de conflitos. As partes t\u00eam seus objetivos. Todavia, vivem em t\u00e3o grande proximidade, que tamb\u00e9m se d\u00e3o conta do objetivo do outro. Mesmo que estejam perseguindo seus objetivos sem olhar para os lados, n\u00e3o est\u00e3o indiferentes aos objetivos do outro\u201d (p.61). Ao final do cap\u00edtulo, o Galtung procede a uma r\u00e1pida discuss\u00e3o te\u00f3rica sobre o conceito de transcend\u00eancia, recorrendo a Freud (e rejeitando Nietzsche).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\">O segundo cap\u00edtulo discute os mesoconflitos (n\u00edvel 2), afirmando-se: \u201cavan\u00e7amos agora do micro para o meso, do pessoal para o social, da psicologia para a sociologia, a economia, a filosofia social, a pol\u00edtica\u201d (p.65). Galtung discute as poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas para oito contradi\u00e7\u00f5es sociais t\u00edpicas das sociedades modernas \u2013 ra\u00e7a, classe, economia, pol\u00edtica, seguran\u00e7a, escola, sa\u00fade e g\u00eanero \u2013, concluindo o cap\u00edtulo com uma descri\u00e7\u00e3o das op\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas que permitiram a transcend\u00eancia dos diversos e complexos conflitos na Su\u00ed\u00e7a (assumida como um modelo geral para toda a obra) e, por fim, uma discuss\u00e3o te\u00f3rica do conceito de transcend\u00eancia no pensamento de Marx.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\">O terceiro cap\u00edtulo aborda os macroconflitos (n\u00edvel 3), que comporta os conflitos geopol\u00edticos. \u201cOs Estados \u2013 afirma Galtung \u2013 s\u00e3o pa\u00edses geograficamente definidos. As na\u00e7\u00f5es s\u00e3o grupos definidos culturalmente (hist\u00f3rica, lingu\u00edstica e religiosamente), com uma liga\u00e7\u00e3o a algum espa\u00e7o geogr\u00e1fico. Se houver mais de uma na\u00e7\u00e3o vinculada ao mesmo peda\u00e7o de terra, ent\u00e3o estamos perante um conflito sobre quem vai governar, e podemos esperar viol\u00eancia, pelo menos verbal\u201d (p.99). S\u00e3o apresentadas, em seguida, propostas oferecidas pela organiza\u00e7\u00e3o TRANSCEND International para a solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de dez conflitos internacionais: o contencioso Equador\/Peru, a quest\u00e3o da Groel\u00e2ndia do Leste (Noruega\/Dinamarca), a soberania do Hava\u00ed, os conflitos na Col\u00f4mbia, os conflitos do Ruanda\/Grandes Lagos, a independ\u00eancia funcional do Ulster, a independ\u00eancia funcional do Euskadi, o conflito Israel\/Palestina (incluindo os acordos de Oslo) e o tema da reconcilia\u00e7\u00e3o p\u00f3s-apartheid na \u00c1frica do Sul (com destaque para este \u00faltimo conflito).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\">O quarto cap\u00edtulo analisa os chamados megaconflitos (n\u00edvel 4), que incluem \u201cas rela\u00e7\u00f5es entre as regi\u00f5es \u2013 com Estados como membros \u2013 e entre civiliza\u00e7\u00f5es \u2013 com na\u00e7\u00f5es como membros \u2013, e as rela\u00e7\u00f5es entre ambas\u201d. Segundo Galtung, \u201cregi\u00f5es consistem, regra geral, de pa\u00edses cont\u00edguos nos espa\u00e7o [&#8230;] [e] civiliza\u00e7\u00f5es abrangem, normalmente, na\u00e7\u00f5es que s\u00e3o cont\u00edguas em conte\u00fado\u201d, ressalvando que \u201cEstados e na\u00e7\u00f5es podem ser mais ou menos membros de regi\u00f5es e civiliza\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o hoje pe\u00e7as componentes de um mundo cada vez mais globalizado\u201d (p.153-154). Galtung analisa, ent\u00e3o, as possibilidades de solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de outros dez conflitos internacionais (agora em n\u00edvel mega): a despolariza\u00e7\u00e3o na Guerra Fria, o papel da ONU na Guerra Fria, o conflito Norte-Sul, a globaliza\u00e7\u00e3o (citando o F\u00f3rum Social Mundial de Porto Alegre, em 2003), o desenvolvimento sustent\u00e1vel, o conflito cristianismo\/islamismo e o conflito EUA-Ocidente\/demais regi\u00f5es (citando o fat\u00eddico ataque terrorista de 11 de setembro de 2001). Ao final, s\u00e3o mencionados dois instrumentos importantes para a solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de conflitos: o di\u00e1logo entre as partes e a doutrina n\u00e3oviol\u00eancia gandhiana. Seria preciso mencionar a import\u00e2ncia da personalidade e da filosofia gandhiana como um todo para o pensamento de Galtung (que lhe dedicou diversos outros escritos aut\u00f4nomos), como se pode ver neste trecho, que celebra o ecumenismo gandhiano: \u201cA unidade da vida, a unidade da humanidade, tem de encontrar o seu par na unidade da mensagem, para que os seres humanos, atrav\u00e9s de todas as divis\u00f5es de conflito, possam se ver um ao outro como sagrados e dignos, canalizando a luta para onde ela deve ser direcionada\u201d (p.188).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\">A obra apresenta, ao final, tr\u00eas cap\u00edtulos conceituais sobre o m\u00e9todo TRANSCEND: o quinto cap\u00edtulo, que discute os conflitos em n\u00edvel profundo cultural, comportamental e estruturalmente; o sexto cap\u00edtulo, que discute os conceitos de criatividade, di\u00e1logo e negocia\u00e7\u00e3o; e o \u00faltimo cap\u00edtulo, que apresenta uma vis\u00e3o geral do m\u00e9todo da transcend\u00eancia e transforma\u00e7\u00e3o de conflitos, que inclui os seguintes elementos sistem\u00e1ticos (apresentados em outra parte da obra): a) os estudos de conflitos, que \u201chabilitam-nos a defrontar ou abordar conflitos com empatia, n\u00e3o-viol\u00eancia e criatividade\u201d, b) os estudos de paz, que \u201chabilitam-nos a prevenir a viol\u00eancia por interm\u00e9dio de igualdade e equidade\u201d e c) os estudos de reconcilia\u00e7\u00e3o, que \u201chabilitam-nos a prevenir viol\u00eancia futura por interm\u00e9dio de cura e fechamento do ciclo, ap\u00f3s a viol\u00eancia do passado\u201d (p.151). Uma s\u00edntese da obra pode ser entrevista neste trecho: \u201cA tarefa do trabalhador de conflito n\u00e3o \u00e9 interromper a dial\u00e9tica, exigindo das partes que abandonem suas posi\u00e7\u00f5es, a menos que estas sejam claramente ileg\u00edtimas. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 antes evitar que atinjam uma acomoda\u00e7\u00e3o ins\u00edpida, sem criatividade, que n\u00e3o acrescente algo de novo, que n\u00e3o renove a realidade. O trabalhador de conflitos presta aten\u00e7\u00e3o \u00e0 dial\u00e9tica para, juntamente com as partes, encontrar uma transcend\u00eancia positiva que sirva de ponte entre os objetivos, ou uma transcend\u00eancia negativa que rejeite ambas\u201d (p.182).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\">________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\"><i>Publicado no peri\u00f3dico <\/i>Pensamento Plural<i>, v. 07, n. 13, UFPel, RS, jul\/dez 2013, pp. 109-112. \u00a0[Dispon\u00edvel em: <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/periodicos.ufpel.edu.br\/ojs2\/index.php\/pensamentoplural\/article\/view\/3235\" >http:\/\/periodicos.ufpel.edu.br\/ojs2\/index.php\/pensamentoplural\/article\/view\/3235<\/a>] (ISSN: 2238-4642).<\/i><i><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\"><i>Rafael Salatini &#8211; <\/i><i>Doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica (FFLCH-USP) e professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica (Unesp-Mar\u00edlia).<\/i> <i><a href=\"mailto:rafaelsalatini@marilia.unesp.br\">rafaelsalatini@marilia.unesp.br<\/a><\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o Paulo: Palas Athena, 2006 -Tradu\u00e7\u00e3o Antonio Carlos Silva Rosa &#8211; Um dos autores mais importantes da teoria das rela\u00e7\u00f5es internacionais no p\u00f3s-guerra, Johan Galtung, dedicou toda sua prof\u00edcua carreira intelectual ao estudo da paz e da solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de conflitos, que divulgou sob o ep\u00edteto de peace research, iniciados nos anos 1960.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-39989","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39989","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39989"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39989\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39989"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39989"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39989"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}