{"id":39998,"date":"2014-02-24T12:00:34","date_gmt":"2014-02-24T12:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=39998"},"modified":"2015-05-05T22:11:04","modified_gmt":"2015-05-05T21:11:04","slug":"portugues-quem-rotula-nossa-sexualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/02\/portugues-quem-rotula-nossa-sexualidade\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Quem rotula nossa sexualidade?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_39999\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ellen_page.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-39999\" class=\"size-medium wp-image-39999\" alt=\"Ellen Page, que refletiu sobre dificuldade em \u201csair do arm\u00e1rio\u201d\" src=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ellen_page-300x168.jpg\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ellen_page-300x168.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ellen_page.jpg 992w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-39999\" class=\"wp-caption-text\">Ellen Page, que refletiu sobre dificuldade em \u201csair do arm\u00e1rio\u201d.<\/p><\/div>\n<p><i>E se formos muito mais que gays ou h\u00e9teros? E se houver uma gal\u00e1xia de identidades sexuais, que devem ser definidas, antes de tudo, por cada um@?<\/i><\/p>\n<p>Na sexta-feira [14 fev 2014] a atriz Ellen Page se assumiu l\u00e9sbica em um <a href=\"http:\/\/diversao.terra.com.br\/gente\/leia-discurso-emocionante-de-ellen-page-estou-aqui-porque-sou-gay,640d43ea34634410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html\"  target=\"_blank\">discurso p\u00fablico<\/a> pela primeira vez. Entre tantas coisas lindas que disse, refletiu sobre a dificuldade em \u201csair do arm\u00e1rio\u201d (leia o discurso completo aqui). Quando compartilhei a informa\u00e7\u00e3o com outras pessoas, muita gente disse coisas do tipo \u201ceu j\u00e1 sabia\u201d. Assim como muita gente usa frequentemente o termo \u201cgaydar\u201d (querendo dizer que haveria uma esp\u00e9cie de radar gay, que permite algumas pessoas identificarem mais facilmente quem \u00e9 gay ou n\u00e3o). Esses coment\u00e1rios n\u00e3o vieram de pessoas homof\u00f3bicas, conservadoras, ausentes da discuss\u00e3o sobre os direitos e a condi\u00e7\u00e3o LGBT num mundo heteronormativo. Pelo contr\u00e1rio, vieram de muit@s companheir@s de luta. Por isso decidi usar minha coluna de hoje como um apelo e lhes dizer: parem. Apenas parem.<\/p>\n<p>Enquanto mulher bissexual, esse tipo de classifica\u00e7\u00e3o me parece extremamente arbitr\u00e1ria. Por v\u00e1rios motivos, mas principalmente porque se baseia nos mesmos estere\u00f3tipos que autorizam viol\u00eancia simb\u00f3lica e f\u00edsica contra a popula\u00e7\u00e3o LGBT, e porque \u00e9 autorit\u00e1rio ao querer definir para um indiv\u00edduo algo que s\u00f3 pode ser definido por ele ou ela mesm@: sua identidade sexual.<\/p>\n<p>Ao dizer que h\u00e1 um \u201cgaydar\u201d ou \u201ceu j\u00e1 sabia\u201d, as pessoas o fazem com base em estere\u00f3tipos sobre essas diferentes categorias de pessoas. Esses estere\u00f3tipos em geral est\u00e3o ligados \u00e0 express\u00e3o de g\u00eanero \u2013 pessoas \u201cmais femininas\u201d, \u201cmais masculinas\u201d ou com \u201cum certo jeito\u201d que n\u00e3o se sabe bem explicar. A quest\u00e3o \u00e9 que a express\u00e3o de g\u00eanero cont\u00e9m matizes extremamente variadas de masculinidade e feminilidade combinadas, o que j\u00e1 mina esse tipo de classifica\u00e7\u00e3o externa desde o come\u00e7o. Al\u00e9m disso, a express\u00e3o de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 associada necessariamente com certo conjunto de pr\u00e1ticas sexuais. Nenhum homem precisa ter uma express\u00e3o de g\u00eanero espartana para ser heterossexual, por exemplo.<\/p>\n<p>httpv:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ab7Q_1vBvtY<\/p>\n<p>Essa associa\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica que fazemos entre um certo tipo de express\u00e3o de g\u00eanero e certo conjunto de pr\u00e1ticas sexuais faz parte do que a fil\u00f3sofa Judith Butler chamou de \u201cmatriz heterossexual\u201d. Essa \u201cmatriz\u201d seria a associa\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria exigida em nossa sociedade entre o tipo de corpo que se tem (corpos \u201cmasculinos\u201d e \u201cfemininos\u201d), uma determinada identidade de g\u00eanero (ser \u201chomem\u201d ou \u201cmulher) e a heterossexualidade como norma. Nesse modelo hegem\u00f4nico de pensamento, o ser humano \u201cnormal\u201d seria um homem que tem um corpo masculino (sobretudo um p\u00eanis, mas h\u00e1 outros marcadores como pelos, m\u00fasculos, formato do corpo, cabelo e outros signos culturais do corpo) e transa com mulheres, ou uma mulher que tem um corpo feminino (vagina, seios, curvas, pouco pelo, cabelos longos, etc) e transa com homens. Qualquer pessoa que foge \u00e0 essa regra \u00e9 considerada anormal, estranha, doente, menos humana.<\/p>\n<p>Quando falamos em \u201cgaydar\u201d ou dizemos \u201ceu j\u00e1 sabia\u201d quando algu\u00e9m \u201csai do arm\u00e1rio\u201d, estamos refor\u00e7ando esse modelo que \u00e9 simbolicamente violento. \u00c9 essa viol\u00eancia simb\u00f3lica, por\u00e9m, que autoriza na pr\u00e1tica os epis\u00f3dios que nos tornam um dos pa\u00edses que mais matam sua popula\u00e7\u00e3o LGBT no mundo. Classificar as pr\u00e1ticas sexuais alheias \u00e9 sempre uma viol\u00eancia, j\u00e1 que para isso partimos de estere\u00f3tipos que sustentam esse modelo opressor que podemos chamar de \u201cmatriz heterossexual\u201d. Refor\u00e7amos a associa\u00e7\u00e3o entre feminilidade ou masculinidade e certas pr\u00e1ticas sexuais \u2013 o que, convenhamos, n\u00e3o faz o menor sentido.<\/p>\n<p>Dentro dessa perspectiva, s\u00f3 h\u00e1 uma maneira n\u00e3o-violenta de tratar a sexualidade alheia: deixar que o outro se defina. Al\u00e9m da quest\u00e3o simb\u00f3lica de que estou falando, entra a\u00ed uma outra quest\u00e3o, muito mais concreta e de ordem pr\u00e1tica: voc\u00ea nunca vai saber sobre as pr\u00e1ticas e desejos do outro tanto quanto ele. Se voc\u00ea vir duas mulheres se beijando na rua, voc\u00ea assume que elas sejam l\u00e9sbicas? Mas n\u00e3o poderiam ser bissexuais? Pansexuais? Ou mesmo heterossexuais que uma vez na vida est\u00e3o experimentando beijar algu\u00e9m do mesmo g\u00eanero?<\/p>\n<p>Ser l\u00e9sbica, gay, bissexual, pansexual e toda e qualquer outra forma de identidade sexual \u00e9 como ser negro, branco, mulher, homem: uma classifica\u00e7\u00e3o individual ligada \u00e0 identidade. Ningu\u00e9m jamais poder\u00e1 dizer ao outro como se identificar sem que isso seja absurdamente autorit\u00e1rio e violento. Negar ao outro sua identidade sexual \u00e9 cometer uma viol\u00eancia sexista.<\/p>\n<p>Por fim, creio que vale o bom e velho argumento: ser\u00e1 que isso \u00e9 mesmo da sua conta? Voc\u00ea precisa ter uma opini\u00e3o sobre a identidade sexual do outro sem que o outro se coloque essa identidade? Precisa parar pra pensar nisso, ficar supondo ou tentar adivinhar? Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>A cada vez quem um\/a companheiro\/a de milit\u00e2ncia fala em \u201cgaydar\u201d ou \u201ceu j\u00e1 sabia\u201d, me sinto agredida. E se fosse eu? Quem \u00e9 voc\u00ea pra me dizer o que eu sou ou deixo de ser, achando que sabe mais do que eu mesma?<\/p>\n<p>Apenas parem.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/quem-rotula-nossa-sexualidade\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E se formos muito mais que gays ou h\u00e9teros? E se houver uma gal\u00e1xia de identidades sexuais, que devem ser definidas, antes de tudo, por cada um@? Na sexta-feira [14 fev 2014] a atriz Ellen Page se assumiu l\u00e9sbica em um discurso p\u00fablico pela primeira vez. Entre tantas coisas lindas que disse, refletiu sobre a dificuldade em \u201csair do arm\u00e1rio\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-39998","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39998","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39998"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39998\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39998"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39998"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39998"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}