{"id":40004,"date":"2014-02-24T12:00:32","date_gmt":"2014-02-24T12:00:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=40004"},"modified":"2015-05-05T22:11:04","modified_gmt":"2015-05-05T21:11:04","slug":"portugues-zizek-ha-mais-do-que-furia-na-bosnia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/02\/portugues-zizek-ha-mais-do-que-furia-na-bosnia\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Zizek: H\u00e1 mais do que f\u00faria na B\u00f3snia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_40005\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/bosnia-protests.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-40005\" class=\"size-medium wp-image-40005 \" alt=\"Presidency and Government buildings on fire during protest in Sarajevo\" src=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/bosnia-protests-300x180.jpg\" width=\"300\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/bosnia-protests-300x180.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/bosnia-protests.jpg 460w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-40005\" class=\"wp-caption-text\">Ao unirem tr\u00eas etnias da ex-Iugosl\u00e1via, protestos retomam projeto emancipat\u00f3ria e revelam: \u00e9 poss\u00edvel enfrentar onda de fundamentalismo que atravessa o planeta.<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: left;\">Semana passada, cidades queimavam,[1]\u00a0na B\u00f3snia-Herzegovina. Tudo come\u00e7ou em Tuzla, cidade de maioria mu\u00e7ulmana. Os protestos ent\u00e3o se espalharam at\u00e9 a capital, Sarajevo, e Zenica, mas tamb\u00e9m at\u00e9 Mostar, onde vive largo segmento da popula\u00e7\u00e3o croata, e Banja Luka, capital da parte s\u00e9rvia da B\u00f3snia. Milhares de manifestantes furiosos ocuparam e incendiaram pr\u00e9dios p\u00fablicos. Embora a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 tenha se acalmado, persiste no ar uma atmosfera de alta tens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os eventos fizeram surgir teorias da conspira\u00e7\u00e3o (por exemplo, que o governo s\u00e9rvio teria organizado os protestos para derrubar o governo b\u00f3snio), mas \u00e9 preciso ignor\u00e1-las firmemente, porque, haja o que houver por tr\u00e1s das manifesta\u00e7\u00f5es, o desespero dos manifestantes \u00e9 aut\u00eantico. Fica-se tentado a parafrasear aqui a famosa frase de Mao Tse Tung: h\u00e1 caos na B\u00f3snia, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 excelente![2]<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por qu\u00ea? Porque as exig\u00eancias dos manifestantes s\u00e3o as mais simples que h\u00e1 \u2013 emprego, uma chance de vida decente e o fim da corrup\u00e7\u00e3o \u2013 mas mobilizaram pessoas na B\u00f3snia, pa\u00eds que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, tornou-se sin\u00f4nimo de feroz limpeza \u00e9tnica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Antes disso, os \u00fanicos protestos de massa na B\u00f3snia e em outros estados p\u00f3s-Iugosl\u00e1via tinham a ver com paix\u00f5es \u00e9tnicas ou religiosas. Em meados de 2013, dois protestos p\u00fablicos foram organizados na Cro\u00e1cia, pa\u00eds mergulhado em profunda crise econ\u00f4mica, com desemprego alto e profundo sentimento de desespero: os sindicatos uniram-se para organizar uma manifesta\u00e7\u00e3o em apoio aos direitos dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que nacionalistas de direita[3]\u00a0iniciavam um movimento de protesto contra o uso do alfabeto cir\u00edlico em pr\u00e9dios p\u00fablicos em cidades de minoria s\u00e9rvia. A primeira iniciativa levou umas duas centenas de pessoas para uma pra\u00e7a em Zagreb; a segunda mobilizou centenas de milhares, como, antes, acontecera num movimento fundamentalista contra o casamento de homossexuais.[4]<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A Cro\u00e1cia est\u00e1 longe de ser exce\u00e7\u00e3o: dos B\u00e1lc\u00e3s \u00e0 Escandin\u00e1via, dos EUA a Israel, da \u00c1frica Central \u00e0 \u00cdndia, est\u00e1 come\u00e7ando uma nova Idade das Trevas, com paix\u00f5es \u00e9tnicas e religiosas explodindo, e com os valores das Luzes retrocedendo. Essas paix\u00f5es sempre arderam por tr\u00e1s de tudo, mas a novidade \u00e9 que, hoje, aparecem desavergonhadamente expostas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Assim sendo, o que fazer? Liberais dominantes nos dizem que, quando os valores b\u00e1sicos da democracia s\u00e3o amea\u00e7ados por fundamentalistas \u00e9tnicos ou religiosos, temos todos de nos unir numa agenda liberal-democr\u00e1tica de toler\u00e2ncia cultural, salvar o que possa ser salvo e deixar de lado todos os sonhos de transforma\u00e7\u00e3o social mais radical. Nossa tarefa, dizem eles, \u00e9 clara: temos de escolher entre a liberdade liberal e a opress\u00e3o fundamentalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por\u00e9m, quando nos fazem, em tom triunfalista, perguntas (exclusivamente ret\u00f3ricas!) como \u201cVoc\u00ea deseja que as mulheres sejam exclu\u00eddas da vida p\u00fablica?\u201d ou \u201cVoc\u00ea deseja que todos os que critiquem a religi\u00e3o sejam condenados \u00e0 morte?\u201d, o que mais nos deve fazer desconfiar da pergunta \u00e9 a obviedade da resposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O problema a\u00ed \u00e9 que esse universalismo liberal simpl\u00f3rio j\u00e1 perdeu a inoc\u00eancia, h\u00e1 muito tempo. O conflito entre a permissividade liberal e o fundamentalismo \u00e9, na verdade, um falso conflito \u2013 um c\u00edrculo vicioso e viciado no qual os dois polos pressup\u00f5em-se e geram-se mutuamente, um o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O que Max Horkheimer[5]\u00a0disse sobre o fascismo e o capitalismo l\u00e1 nos anos 1930s (que os que n\u00e3o querem falar criticamente sobre o capitalismo devem tamb\u00e9m calar sobre o fascismo) pode aplicar-se ao fundamentalismo de hoje: os que n\u00e3o querem falar criticamente sobre a democracia liberal devem tamb\u00e9m calar a boca sobre o fundamentalismo religioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Reagindo contra caracterizar-se o marxismo como \u201co Isl\u00e3 do s\u00e9culo 20\u201d, Jean-Pierre Taguieff escreveu que o Isl\u00e3 est\u00e1 em vias de mostrar-se como o \u201cmarxismo do s\u00e9culo 20\u201d para prolongar o violento anticapitalismo do comunismo, depois do decl\u00ednio do comunismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mas as recentes vicissitudes do fundamentalismo mu\u00e7ulmano confirmam, pode-se dizer, o antigo\u00a0<i>insight<\/i>\u00a0de Walter Benjamin, de que \u201ccada ressurgimento do fascismo d\u00e1 testemunho de uma revolu\u00e7\u00e3o fracassada\u201d. O crescimento do fascismo \u00e9, em outras palavras, o fracasso da esquerda e, simultaneamente, prova de que subsiste um potencial revolucion\u00e1rio, uma insatisfa\u00e7\u00e3o, que a esquerda n\u00e3o \u00e9 capaz de mobilizar. E n\u00e3o se pode dizer exatamente a mesma coisa do hoje chamado \u201cislamo-fascismo\u201d? O surgimento do islamismo radical n\u00e3o \u00e9 perfeito correlato do desaparecimento da esquerda secular nos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Quando o Afeganist\u00e3o \u00e9 apresentado como pa\u00eds fundamentalista islamista \u201ct\u00edpico\u201d, quem ainda lembra que, h\u00e1 40 anos, foi o pa\u00eds de mais forte tradi\u00e7\u00e3o secular, incluindo um poderoso Partido Comunista que chegou ao poder no Afeganist\u00e3o, independente da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Esse \u00e9 o contexto no qual se tem de compreender os recentes eventos na B\u00f3snia. Numa das fotos dos protestos, veem-se os manifestantes exibindo tr\u00eas bandeiras lado a lado: da B\u00f3snia, da S\u00e9rvia e da Cro\u00e1cia, mostrando o desejo de ignorar todas as diferen\u00e7as \u00e9tnicas. Para resumir, temos aqui uma rebeli\u00e3o contra elites nacionalistas: o povo da B\u00f3snia afinal compreendeu quem \u00e9 o seu verdadeiro inimigo: n\u00e3o outros grupos \u00e9tnicos, mas os seus pr\u00f3prios \u201crepresentantes\u201d pol\u00edticos que fingem proteg\u00ea-los contra os demais. \u00c9 como se o velho e tantas vezes mal usado lema tito\u00edsta[6]\u00a0da \u201cfraternidade e unidade\u201d das na\u00e7\u00f5es iugoslavas ganhasse nova atualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Um dos alvos dos manifestantes era o governo da Uni\u00e3o Europeia que supervisiona o estado b\u00f3snio, for\u00e7ando a paz entre as tr\u00eas na\u00e7\u00f5es e oferecendo consider\u00e1vel ajuda financeira para ajudar no funcionamento do Estado. Pode parecer estranho, porque os objetivos dos manifestantes s\u00e3o, nominalmente, os mesmos objetivos de Bruxelas: prosperidade e o fim das tens\u00f5es \u00e9tnicas e da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Contudo, o modo como a Uni\u00e3o Europeia realmente governa a B\u00f3snia cria divis\u00f5es: a Uni\u00e3o Europeia s\u00f3 v\u00ea, como suas parceiras privilegiadas, as elites nacionalistas, entre as quais faz uma media\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O que as explos\u00f5es na B\u00f3snia confirmam \u00e9 que ningu\u00e9m jamais conseguir\u00e1 superar paix\u00f5es \u00e9tnicas impondo a elas uma agenda liberal: o que uniu os manifestantes foi uma mesma radical exig\u00eancia de justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O passo seguinte e mais dif\u00edcil ser\u00e1 organizar os protestos num novo movimento social que ignore as divis\u00f5es \u00e9tnicas; e organizar novos protestos \u2013 j\u00e1 imaginaram uma cena, com b\u00f3snios e s\u00e9rvios furiosos, reunidos num com\u00edcio conjunto, em Sarajevo?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ainda que os protestos percam gradualmente a for\u00e7a, ainda assim permanecer\u00e3o como uma fagulha de esperan\u00e7a, como soldados inimigos que se abra\u00e7avam nas trincheiras, na primeira guerra mundial. Eventos autenticamente emancipat\u00f3rios sempre incluem ignorar identidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">E vale o mesmo para a recente visita de duas representantes do movimento\u00a0<i>Pussy Riot<\/i>\u00a0a New York: num grande\u00a0<i>show<\/i>\u00a0de gala foram apresentadas por Madonna, na presen\u00e7a de Bob Geldof, Richard Gere, etc., toda a gangue dos direitos humanos de sempre. Deveriam ali, isso sim, manifestar solidariedade a Snowden, para mostrar que o Pussy Riot e Snowden s\u00e3o parte do mesmo movimento global. Sem esses gestos que aproximem o que, na nossa experi\u00eancia ideol\u00f3gica di\u00e1ria, parecem ser coisas incompat\u00edveis (mu\u00e7ulmanos, s\u00e9rvios e croatas na B\u00f3snia; secularistas turcos e mu\u00e7ulmanos anticapitalistas na Turquia, etc.), os movimentos de protesto sempre ser\u00e3o manipulados por alguma superpot\u00eancia, em sua luta contra outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><b>NOTAS:<\/b><b><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">[1]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/world\/2014\/feb\/07\/bosnia-herzegovina-wave-violent-protests\"  target=\"_blank\">http:\/\/www.theguardian.com\/world\/2014\/feb\/07\/bosnia-herzegovina-wave-violent-protests<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">[2]\u00a0A cita\u00e7\u00e3o, atribu\u00edda a Mao, \u00e9 \u201cH\u00e1 grande caos sob os c\u00e9us \u2013 a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 excelente\u201d (de\u00a0<a href=\"http:\/\/beijingcream.com\/week-in-review\/\"  target=\"_blank\">http:\/\/beijingcream.com\/week-in-review\/<\/a>\u00a0) [NTs].<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">[3]\u00a0<a href=\"http:\/\/m.aljazeera.com\/story\/2013122134526900493\"  target=\"_blank\">http:\/\/m.aljazeera.com\/story\/2013122134526900493<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">[4]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2013\/dec\/04\/croatia-gay-marriage-vote-europe-rotten-heart\"  target=\"_blank\">http:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2013\/dec\/04\/croatia-gay-marriage-vote-europe-rotten-heart<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">[5]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/video\/2013\/jul\/23\/max-horkheimer-critique-instrumental-reason-video\"  target=\"_blank\">http:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/video\/2013\/jul\/23\/max-horkheimer-critique-instrumental-reason-video<\/a>\u00a0ver tamb\u00e9m, para bibliografia,\u00a0<a href=\"http:\/\/acoisaforadesi.wordpress.com\/2008\/10\/31\/max-horkheimer-crtica-da-razo-instrumental\/\"  target=\"_blank\">http:\/\/acoisaforadesi.wordpress.com\/2008\/10\/31\/max-horkheimer-crtica-da-razo-instrumental\/<\/a>\u00a0[NTs].<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">[6]\u00a0Refer\u00eancia a\u00a0Josip Broz Tito (sobre ele,ver <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Josip_Broz_Tito\"  target=\"_blank\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Josip_Broz_Tito<\/a>) [NTs].<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">_________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><i>Slavoj \u017di\u017eek \u00e9 um fil\u00f3sofo e te\u00f3rico cr\u00edtico esloveno. \u00c9 professor da European Graduate School e pesquisador s\u00eanior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. \u00c9 tamb\u00e9m professor visitante em v\u00e1rias universidades norte-americanas, entre as quais a Universidade de Columbia, Princeton, a New School for Social Research, de Nova Iorque, e a Universidade de Michigan.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><i>Por\u00a0<b>Slavoj\u00a0Zizek<\/b>,\u00a0<\/i><i><a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2014\/feb\/10\/anger-bosnia-ethnic-lies-protesters-bosnian-serb-croat\"  target=\"_blank\">Guardian<\/a><\/i><i> |\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<b>Vila Vudu<\/b><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/zizek-ha-mais-do-que-furia-na-bosnia\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que as explos\u00f5es na B\u00f3snia confirmam \u00e9 que ningu\u00e9m jamais conseguir\u00e1 superar paix\u00f5es \u00e9tnicas impondo a elas uma agenda liberal: o que uniu os manifestantes foi uma mesma radical exig\u00eancia de justi\u00e7a. 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