{"id":4066,"date":"2010-04-12T01:10:41","date_gmt":"2010-04-11T23:10:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms2\/?p=4066"},"modified":"2011-01-04T21:16:17","modified_gmt":"2011-01-04T20:16:17","slug":"portuguese-46-velinhas-vermelhas-de-sangue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2010\/04\/portuguese-46-velinhas-vermelhas-de-sangue\/","title":{"rendered":"(PORTUGUESE)  46 VELINHAS VERMELHAS&#8230; DE SANGUE"},"content":{"rendered":"<p>Ao completarem-se 46 anos da quebra da normalidade institucional no Brasil, mergulhando o Pa\u00eds nas trevas e barb\u00e1rie durante duas d\u00e9cadas, \u00e9 oportuno evocarmos o que realmente foi essa nada branda ditadura de 1964\/85, defendida hoje com tamanha desfa\u00e7atez pelos jornal\u00f5es, seus editorialistas e articulistas.<\/p>\n<p>Como frisou a bela can\u00e7\u00e3o de Milton Nascimento e Fernando Brant, cabe a n\u00f3s, sobreviventes do pesadelo, o papel de <strong>sentinelas<\/strong> do corpo e do sacrif\u00edcio dos nossos irm\u00e3os que j\u00e1 se foram, assegurando-nos de que a <strong>mem\u00f3ria n\u00e3o morra<\/strong> \u2013 mas, pelo contr\u00e1rio, sirva de vacina contra novos surtos da infesta\u00e7\u00e3o virulenta do totalitarismo.<\/p>\n<p>Nessa efem\u00e9ride negativa, o primeiro ponto a se destacar \u00e9 que a quartelada de 1964 foi o coroamento de uma longa s\u00e9rie de articula\u00e7\u00f5es e tentativas golpistas, nada tendo de espont\u00e2neo nem sendo decorrente de situa\u00e7\u00f5es conjunturais; estas foram apenas pretextos, n\u00e3o causa.<\/p>\n<p>H\u00e1 controv\u00e9rsias sobre se a articula\u00e7\u00e3o da UDN com setores das For\u00e7as Armadas para derrubar o presidente Get\u00falio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suic\u00eddio e a carta de Vargas n\u00e3o tivessem virado o jogo. Mas, \u00e9 incontest\u00e1vel que a ultra-direita vinha h\u00e1 muito tempo tentando usurpar o poder.<\/p>\n<p>Em novembro\/1955, uma conspira\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos udenistas e militares extremistas tentou contestar o triunfo eleitoral de Juscelino Kubitscheck, mas foi derrotada gra\u00e7as, principalmente, \u00e0 posi\u00e7\u00e3o legalista que Teixeira Lott, o ministro da Guerra, assumiu. Um dos golpistas presos: o ent\u00e3o tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, que viria a ser o formulador da doutrina de Seguran\u00e7a Nacional e <em>emin\u00eancia parda<\/em> do ditador Geisel.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1956, duas semanas ap\u00f3s a posse de JK, os militares j\u00e1 se insubordinavam contra o governo constitucional, na revolta de Jacareacanga.<\/p>\n<p>Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a tamb\u00e9m fracassada revolta de Aragar\u00e7as.<\/p>\n<p>E, em agosto de 1961, quando da ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, as For\u00e7as Armadas vetaram a posse do vice-presidente Jo\u00e3o Goulart e iniciaram, juntamente com os conspiradores civis, a constitui\u00e7\u00e3o de um governo ileg\u00edtimo, s\u00f3 voltando atr\u00e1s diante da resist\u00eancia do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Ex\u00e9rcito, gerando a amea\u00e7a de uma guerra civil.<\/p>\n<p>Apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos chamados <em>grupos dos 11<\/em> brizolistas, inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolu\u00e7\u00e3o socialista. N\u00e3o houve o alegado &#8220;contragolpe preventivo&#8221;, mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpa\u00e7\u00e3o do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA. Derrubou-se um governo democraticamente constitu\u00eddo, fechou-se o Congresso Nacional, cassaram-se mandatos leg\u00edtimos, extinguiram-se entidades da sociedade civil, prenderam-se e barbarizaram-se cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>A esquerda s\u00f3 voltou para valer \u00e0s ruas em 1968, mas as manifesta\u00e7\u00f5es de massa foram respondidas com o uso cada vez mais brutal da for\u00e7a, por parte de inst\u00e2ncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma esp\u00e9cie, promovendo atentados e intimida\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, com a edi\u00e7\u00e3o do dantesco AI-5 (que fez do Legislativo e o Judici\u00e1rio Poderes-fantoches do Executivo, suprimindo os mais elementares direitos dos cidad\u00e3os), em dezembro de 1968, a resist\u00eancia pac\u00edfica se tornou invi\u00e1vel. Foi quando a vanguarda armada, insignificante at\u00e9 ent\u00e3o, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa.<\/p>\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1\u00ba semestre de 1969, mas j\u00e1 no 2\u00ba semestre as For\u00e7as Armadas come\u00e7aram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos m\u00e9todos repressivos e maximizando a pr\u00e1tica da tortura, a partir de li\u00e7\u00f5es recebidas de oficiais estadunidenses.<\/p>\n<p>Em 1970 os militares assumiram a dianteira tamb\u00e9m no plano pol\u00edtico, aproveitando o boom econ\u00f4mico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio da classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as For\u00e7as Armadas partiram para o exterm\u00ednio premeditado dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram friamente executados.<\/p>\n<p>A Casa da Morte de Petr\u00f3polis (RJ) e o assassinato sistem\u00e1tico dos combatentes do Araguaia est\u00e3o entre as p\u00e1ginas mais vergonhosas da Hist\u00f3ria brasileira \u2013 da\u00ed a obstina\u00e7\u00e3o dos carrascos envergonhados em darem sumi\u00e7o nos restos mortais de suas v\u00edtimas, acrescentando ao genoc\u00eddio a oculta\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>O <em>milagre brasileiro<\/em>, fruto da reorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Oct\u00e1vio Gouveia de Bulh\u00f5es, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970 (quando aqui entraram tantos d\u00f3lares quanto nos 10 anos anteriores somados), teve vida curta e em 1974 a mar\u00e9 j\u00e1 virou, ficando muitas contas para as gera\u00e7\u00f5es seguintes pagarem.<\/p>\n<p>As ci\u00eancias, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, persegui\u00e7\u00f5es policiais e administrativas, press\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas, bem como dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura.<\/p>\n<p>Corrup\u00e7\u00e3o, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos fara\u00f4nicos como a Transamaz\u00f4nica, Ferrovia do A\u00e7o, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram).<\/p>\n<p>A arrog\u00e2ncia e impunidade com que agiam as for\u00e7as de seguran\u00e7a causou muitas v\u00edtimas inocentes, como o motorista baleado em 1969 apenas por estar passando em alta velocidade diante de um quartel, na madrugada paulistana (o comandante da unidade ainda elogiou o recruta assassino, por ter cumprido fielmente as ordens recebidas!).<\/p>\n<p>Longe de garantirem a seguran\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o, os integrantes dos efetivos policiais chegavam at\u00e9 a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justi\u00e7ar bandidos (Esquadr\u00f5es da Morte).<\/p>\n<p>O aparato repressivo criado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situa\u00e7\u00e3o privilegiad\u00edssima. N\u00e3o s\u00f3 recebiam de empres\u00e1rios direitistas vultosas recompensas por cada &#8220;subversivo&#8221; preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor com os resistentes. Acostumaram-se a um padr\u00e3o de vida muito superior ao que sua remunera\u00e7\u00e3o normal lhes proporcionaria.<\/p>\n<p>Da\u00ed terem resistido encarni\u00e7adamente \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do ditador Geisel, de desmontar essa engrenagem de terrorismo de estado, no momento em que ela se tornou desnecess\u00e1ria. Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e institui\u00e7\u00f5es (inclusive o do Riocentro, que, se n\u00e3o tivesse falhado, provocaria um mortic\u00ednio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o pr\u00f3prio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Ex\u00e9rcito e o ministro do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>A ditadura terminou melancolicamente em 1985, com a economia marcando passo e os cidad\u00e3os cada vez mais avessos ao autoritarismo sufocante. Seu \u00faltimo espasmo foi frustrar a vontade popular, negando aos brasileiros o direito de elegerem livremente o presidente da Rep\u00fablica, ao conseguir evitar a aprova\u00e7\u00e3o da emenda das <em>diretas-j\u00e1<\/em>.<\/p>\n<p>______________________<br \/>\n<em><br \/>\nCelso Lungaretti \u00e9 jornalista, escritor e ex-preso pol\u00edtico. Blogue: <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/celsolungaretti-orebate.blogspot.com\/ \" >http:\/\/celsolungaretti-orebate.blogspot.com\/ <\/a><\/em><\/p>\n<p><em>\u00a9 1999-2006. \u00abPRAVDA.Ru\u00bb. No acto de reproduzir nossos materiais na \u00edntegra ou em parte, deve fazer refer\u00eancia \u00e0 PRAVDA.Ru As opini\u00f5es e pontos de vista dos autores nem sempre coincidem com os dos editores. <\/em><br \/>\n<a href=\" http:\/\/port.pravda.ru\/cplp\/brasil\/03-04-2010\/29208-velinhas_sangue-0\"><br \/>\nGO TO ORIGINAL \u2013 PRAVDA.RU<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao completarem-se 46 anos da quebra da normalidade institucional no Brasil, mergulhando o Pa\u00eds nas trevas e barb\u00e1rie durante duas d\u00e9cadas, \u00e9 oportuno evocarmos o que realmente foi essa nada branda ditadura de 1964\/85, defendida hoje com tamanha desfa\u00e7atez pelos jornal\u00f5es, seus editorialistas e articulistas. <\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-4066","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4066","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4066"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4066\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}