{"id":40673,"date":"2014-03-10T12:00:13","date_gmt":"2014-03-10T12:00:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=40673"},"modified":"2015-05-05T22:11:00","modified_gmt":"2015-05-05T21:11:00","slug":"portugues-a-ucrania-no-caminho-das-superpotencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/03\/portugues-a-ucrania-no-caminho-das-superpotencias\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) A Ucr\u00e2nia no caminho das superpot\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p><i>A pot\u00eancia norte-americana financia os setores oposicionistas, a maioria deles de extrema-direita e neonazistas. E se movimenta politicamente e diplomaticamente.<\/i><i><\/i><\/p>\n<p>No conflito interno ucraniano, um pesado jogo geoestrat\u00e9gico est\u00e1 em andamento. E tem a participa\u00e7\u00e3o de interesses e atores externos que incidem fortemente, com poder de desenhar os contornos que podem levar finalmente a uma guerra.<\/p>\n<p>Apesar do notici\u00e1rio internacional aparentar o papel externo exclusivo da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia [UE] no conflito, os EUA n\u00e3o s\u00f3 tem interesse direto nos encaminhamentos para a Ucr\u00e2nia, como atua fortemente para proteger suas prioridades geoestrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p>Os Jogos de Inverno de Sochi terminaram, e como isso a R\u00fassia entrou em cena abertamente, tamb\u00e9m para defender suas perspectivas geoestrat\u00e9gicas. S\u00e3o por demais \u00f3bvias as raz\u00f5es para a R\u00fassia desejar a Ucr\u00e2nia mais pr\u00f3xima de si que da Uni\u00e3o Europeia ou dos EUA: extensa fronteira f\u00edsica e forte identidade \u00e9tnico-cultural.<\/p>\n<p>Para a R\u00fassia, a Ucr\u00e2nia tem uma relev\u00e2ncia singular pelo mercado de mais de 40 milh\u00f5es de pessoas e pela ind\u00fastria aeron\u00e1utica e de alta tecnologia herdada da era sovi\u00e9tica. \u00c9, al\u00e9m disso, importante produtor de alimentos do mundo e, enquanto n\u00e3o se concluem investimentos de trajetos alternativos, ainda \u00e9 itiner\u00e1rio do gasoduto que transporta o g\u00e1s russo vendido \u00e0 Europa.<\/p>\n<p>A conveni\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es amistosas e cooperativas com a R\u00fassia \u00e9, por outro lado, significativa para a Ucr\u00e2nia. N\u00e3o bastasse o fornecimento de petr\u00f3leo e g\u00e1s a pre\u00e7os subsidiados da R\u00fassia, recebeu recentemente US$ 15 bilh\u00f5es de cr\u00e9ditos russos em condi\u00e7\u00f5es generosas para enfrentar suas dificuldades econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>O clima de instabilidade e crise na Ucr\u00e2nia, que culminou no golpe de Estado e na deposi\u00e7\u00e3o do Presidente eleito Viktor Yanukovich, s\u00f3 em del\u00edrio pode ser associado \u00e0 recusa do acordo comercial com a UE. Outros foram os fatores indutores da crise e da instabilidade vividas no pa\u00eds, cujo desfecho se conhece.<\/p>\n<p>A despeito de toda pantomima diplom\u00e1tica da UE na Ucr\u00e2nia, \u00e9 inocult\u00e1vel que o protagonismo decisivo no tabuleiro pertence aos EUA. A UE \u00e9, na realidade, coadjuvante, um ator subsidi\u00e1rio. A frase da Vice-Secret\u00e1ria de Estado Victoria Nuland \u2013 \u201cA UE que se foda\u201d \u2013 em conversa telef\u00f4nica [divulgada na internet] com o embaixador norte-americano na Ucr\u00e2nia [Geoffrey Pyatt], \u00e9 clara evid\u00eancia disso.<\/p>\n<p>A pot\u00eancia norte-americana financia os setores oposicionistas, a maioria deles de extrema-direita e neonazistas. E se movimenta politicamente e diplomaticamente como parte natural do problema. A atua\u00e7\u00e3o estadunidense obedece a duas l\u00f3gicas: uma, econ\u00f4mica e energ\u00e9tica; e outra, doutrin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Empresas norte-americanas como a Chevron e a Exxon Mobil possuem contratos de pesquisa, extra\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s na Ucr\u00e2nia. Um neg\u00f3cio multimilion\u00e1rio que confere lucros extraordin\u00e1rios para as multinacionais norte-americanas de petr\u00f3leo e g\u00e1s, e que permitir\u00e1 reduzir a depend\u00eancia ucraniana da R\u00fassia em mat\u00e9ria energ\u00e9tica e, portanto, pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na seara geopol\u00edtica, presa a uma perspectiva embolorada da guerra fria e resistindo \u00e0 multipolaridade, a doutrina norte-americana apregoa que a R\u00fassia pretende \u201cressovietizar\u201d a Europa Oriental para voltar a ser uma superpot\u00eancia imperial.<\/p>\n<p>A ex-primeira dama e ex-Secret\u00e1ria de Estado Hillary Clinton, em encontro com grupos de \u201cdefesa da sociedade civil\u201d pr\u00e9vio a uma reuni\u00e3o da ONU em Dublin em dezembro de 2012 para tratar da guerra civil na S\u00edria, explicitou o tal \u201crisco\u201d da \u201cressovietiza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Ela ent\u00e3o insinuou que o esfor\u00e7o de Moscou de integra\u00e7\u00e3o regional \u201cvai ser chamado de uni\u00e3o aduaneira, de Uni\u00e3o Eurasi\u00e1tica ou qualquer coisa assim. Mas n\u00e3o devemos nos enganar. N\u00f3s sabemos qual \u00e9 o objetivo e vamos pensar em meios efetivos de fre\u00e1-lo ou imped\u00ed-lo\u201d [O Estado de SP, 06\/12\/2012].<\/p>\n<p>Segundo essa vis\u00e3o, a Ucr\u00e2nia seria pe\u00e7a-chave para um projeto de soerguimento do imp\u00e9rio sovi\u00e9tico. Zbigniew Brzezinski, que foi Secret\u00e1rio de Estado de Jimmy Carter [1978\/1982], escreveu em 1997 [rec\u00e9m 6 anos depois da dissolu\u00e7\u00e3o da URSS]:<\/p>\n<p><i>\u201cA Ucr\u00e2nia, novo e importante espa\u00e7o no cen\u00e1rio eur\u00e1sico, \u00e9 uma coluna geopol\u00edtica porque a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia como pa\u00eds independente consente a transforma\u00e7\u00e3o da R\u00fassia. Sem a Ucr\u00e2nia a R\u00fassia deixa de ser um imp\u00e9rio eur\u00e1sio. A R\u00fassia sem a Ucr\u00e2nia pode ainda lutar pela sua situa\u00e7\u00e3o imperial, mas ser\u00e1 apenas um imp\u00e9rio substancialmente asi\u00e1tico, provavelmente enredado em conflitos deteriorantes com as na\u00e7\u00f5es da \u00c1sia Central, que seriam sustentadas pelos Estados Isl\u00e2micos, seus amigos do Sul. [\u2026] Os Estados que merecem o maior apoio geopol\u00edtico americano s\u00e3o o Azerbaij\u00e3o, o Uzbequist\u00e3o e (fora desta \u00e1rea) a Ucr\u00e2nia, pois todos os tr\u00eas s\u00e3o pilastras geopol\u00edticas. Pode-se dizer que a Ucr\u00e2nia \u00e9 o Estado essencial, pois influenciar\u00e1 a evolu\u00e7\u00e3o futura da R\u00fassia.<\/i>\u201d [Em entrevista de Maurizio Blondet].<\/p>\n<p>Aos norte-americanos, portanto, mais interessa evitar o dom\u00ednio da R\u00fassia na Ucr\u00e2nia do que trazer a Ucr\u00e2nia para seu raio de controle e poder direto. Os EUA, com a cren\u00e7a de que \u00e9 o \u201cpa\u00eds eleito por Deus para salvar o mundo\u201d [Destino Manifesto], converteram uma tola teologia em pol\u00edtica de Estado.<\/p>\n<p>Com essa percep\u00e7\u00e3o divina de si mesma, a pot\u00eancia imperial interdita a constru\u00e7\u00e3o de um mundo multipolar baseado na paz, na democracia, no di\u00e1logo entre as na\u00e7\u00f5es e no respeito \u00e0 soberania e \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos. Ao contr\u00e1rio disso, insufla movimentos conspirativos e participa diretamente de golpes contra governos dos quais discorda ou contra pa\u00edses nos quais tem interesses econ\u00f4micos ou estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>Em termos militares, a R\u00fassia n\u00e3o precisa antes dominar a Ucr\u00e2nia para se tornar superpot\u00eancia com poder para enfrentar os EUA &#8211; porque j\u00e1 \u00e9 uma superpot\u00eancia b\u00e9lica e nuclear. \u00c9 desej\u00e1vel, para uma perspectiva de paz no mundo, que essa verdade tenha poder dissuas\u00f3rio ante a loucura de guerra que pode ser desatada devido a de mais um gesto de insensatez de Barack Obama.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Coluna\/A-Ucrania-no-caminho-das-superpotencias\/30388\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pot\u00eancia norte-americana financia os setores oposicionistas, a maioria deles de extrema-direita e neonazistas. 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