{"id":40676,"date":"2014-03-10T12:00:17","date_gmt":"2014-03-10T12:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=40676"},"modified":"2015-05-05T22:11:00","modified_gmt":"2015-05-05T21:11:00","slug":"portugues-ucrania-entre-mafias-e-o-expansionismo-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/03\/portugues-ucrania-entre-mafias-e-o-expansionismo-militar\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Ucr\u00e2nia: entre m\u00e1fias e o expansionismo militar"},"content":{"rendered":"<p><i>Mesmo que n\u00e3o desemboque em uma guerra, o conflito na Ucr\u00e2nia e na Crimeia marcar\u00e1 de maneira decisiva as rela\u00e7\u00f5es internacionais nos pr\u00f3ximos anos.<b> <\/b><\/i><\/p>\n<div id=\"attachment_40677\" style=\"width: 235px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Ukrania.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-40677\" class=\"size-full wp-image-40677\" alt=\"Cr\u00e9ditos da foto: Arquivo\" src=\"http:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Ukrania.jpg\" width=\"225\" height=\"163\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-40677\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9ditos da foto: Arquivo<\/p><\/div>\n<p>A crise na Ucr\u00e2nia pode desembocar em uma luta armada de consequ\u00eancias terr\u00edveis. Mesmo que n\u00e3o desemboque em uma guerra, o conflito na Ucr\u00e2nia e na Crimeia marcar\u00e1 de maneira decisiva as rela\u00e7\u00f5es internacionais e as percep\u00e7\u00f5es entre os europeus, norte-americanos e russos durante os pr\u00f3ximos quinqu\u00eanios.<\/p>\n<p>As ra\u00edzes dessa crise constituem um tema complexo e, por isso, \u00e9 preciso desconfiar das narrativas simplistas (provenientes de Moscou ou Washington).<\/p>\n<p>Entre as causas que levam ao conflito atual se encontram na expans\u00e3o do militarismo norte-americano, que nunca abandonou suas obsess\u00f5es da Guerra Fria. Tamb\u00e9m est\u00e1 na voracidade do capital financeiro, que busca consolidar o neoliberalismo na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>As m\u00e1fias que est\u00e3o no poder na R\u00fassia e em Kiev s\u00e3o o complemento perfeito para detonar o conflito. Para o povo ucraniano, as op\u00e7\u00f5es foram permanecer sob o dom\u00ednio de m\u00e1fias que simpatizam com Moscou ou se entregar a m\u00e1fias inclinadas \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o com a Uni\u00e3o Europeia e Washington. O pano de fundo desse coquetel explosivo \u00e9 a longa hist\u00f3ria de nacionalismos e movimentos separatistas.<\/p>\n<p>Sem d\u00favidas, para muitos leitores, falar de \u201cexpans\u00e3o do militarismo norte-americano\u201d soa como exagero. Mas \u00e9 preciso considerar os seguintes elementos. Em 1949, criou-se a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN). Sua miss\u00e3o era clara: enfrentar as for\u00e7as que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tinha estacionadas em seu territ\u00f3rio e nos pa\u00edses da Europa do leste. A URSS respondeu criando seu pr\u00f3prio bloco, com o Tratado de Vars\u00f3via.<\/p>\n<p>A OTAN parecia ter perdido sua raz\u00e3o de existir com a derrocada da URSS. Os arsenais nucleares dos Estados Unidos e da R\u00fassia foram objeto de v\u00e1rios tratados de redu\u00e7\u00e3o de armas estrat\u00e9gicas e, em termos gerais, criou-se uma atmosfera de certa distens\u00e3o. Mas as correntes mais conservadoras nos Estados Unidos n\u00e3o resistiram \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de aproveitar o momento para buscar a expans\u00e3o da OTAN e deslocar a linha divis\u00f3ria da antiga Guerra Fria at\u00e9 a fronteira com a R\u00fassia.<\/p>\n<p>A OTAN n\u00e3o apenas manteve, mas tamb\u00e9m cultivou suas ambi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas no que havia sido o espa\u00e7o sovi\u00e9tico durante a Guerra Fria. Essa expans\u00e3o se iniciou com Clinton e prosseguiu com Bush. Para alguns analistas, a isso se somam os sonhos do Pent\u00e1gono de um dia ver a frota norte-americana ancorar em Sebastopol e Balaclava, os principais portos da Crimeia. Mas o sonho do Pent\u00e1gono \u00e9 um pesadelo para o nacionalismo russo.<\/p>\n<p>Em 1999, Pol\u00f4nia, Hungria e Rep\u00fablica Tcheca entraram na OTAN em meio a um feroz debate e \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o da R\u00fassia. Em 2004, foi a vez das rep\u00fablicas b\u00e1lticas (Est\u00f4nia, Let\u00f4nia e Litu\u00e2nia), al\u00e9m da Eslov\u00eania, da Bulg\u00e1ria e da Rom\u00eania. Poucos analistas se detiveram para pensar como a R\u00fassia interpretaria esse processo.<\/p>\n<p>George F. Kennan, provavelmente o mais perspicaz e experiente art\u00edfice da pol\u00edtica externa norte-americana, advertiu em 1997 que a expans\u00e3o da OTAN constitu\u00eda \u201co erro mais grave e detest\u00e1vel dos Estados Unidos na hist\u00f3ria do p\u00f3s-guerra\u201d. Para Kennan, esse ato \u201cinflamaria o militarismo russo e afogaria a democracia, porque impulsionaria a pol\u00edtica externa russa em dire\u00e7\u00e3o a objetivos que n\u00e3o seriam de nosso agrado\u201d.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m o escutou e, em 2008, George W. Bush fez planos para que a Ge\u00f3rgia e a Ucr\u00e2nia se tornassem membros da OTAN. Por isso, o comunicado do encontro da OTAN em abril desse ano ressalta que \u201cGeorgia e Ucr\u00e2nia ser\u00e3o membros da OTAN\u201d, ainda que sem especificicar a data. O conflito entre R\u00fassia e Ge\u00f3rgia em 2008 alertou os europeus sobre o risco de continuar por essa via, e isso freou os planos de outorgar \u00e0 Ucr\u00e2nia um \u201cplano de condi\u00e7\u00e3o de membro\u201d, o primeiro passo para entrar na OTAN. A leitura russa de todo esse processo foi imediata: Washington e seus aliados n\u00e3o abandonaram suas prioridades da guerra fria, e sua estrat\u00e9gia continuava sendo rodear a R\u00fassia por todos os seus flancos.<\/p>\n<p>Depois do colapso da URSS, a Ucr\u00e2nia se converteu no terceiro maior estado em quantidade de armas nucleares (depois de Estados Unidos e R\u00fassia). Mas, em 1996, todo o seu armamento nuclear havia sido entregue \u00e0 R\u00fassia, e a Ucr\u00e2nia se transformou em um estado livre de armas nucleares. Embora o ex\u00e9rcito ucraniano n\u00e3o possa deter uma ofensiva russa, tampouco estamos falando de uma for\u00e7a desprez\u00e1vel, e qualquer conflito armado teria consequ\u00eancias desastrosas. A economia mundial, e em especial a europeia, n\u00e3o est\u00e3o prontas para enfrentar o castigo de um espetacular aumento nos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, al\u00e9m do desabamento dos mercados de capital e a volatilidade sem par das principais divisas.<\/p>\n<p>Para conseguir uma maior integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com a Ucr\u00e2nia, a Uni\u00e3o Europeia buscou negociar um pacto que daria a Kiev um status privilegiado comercial e financeiramente. Bruxelas ainda ofereceu um trato especial em mat\u00e9ria de vistos e outros incentivos, mas em dar a condi\u00e7\u00e3o de membro. O verdadeiro objetivo da UE \u00e9 reduzir a influ\u00eancia russa, especialmente depois da iniciativa de Putin na S\u00edria (que esfriou os planos mais intervencionistas dos Estados Unidos) e da concess\u00e3o do asilo a Snowden (fato que Washington n\u00e3o perdoa).<\/p>\n<p>O pacote oferecido pela UE inclu\u00eda as t\u00edpicas medidas de austeridade que colocaram a Gr\u00e9cia de joelhos e causaram tanto dano \u00e0 Europa. Mas o mais importante \u00e9 que o tratado com a UE inclu\u00eda cl\u00e1usulas de conte\u00fado militar que obrigariam a Ucr\u00e2nia a seguir os alinhamentos estrat\u00e9gicos da OTAN. Para Moscou, isso seria o c\u00famulo e, por isso, intensificou a press\u00e3o sobre o corrupto presidente ucraniano Yanukovich.<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 9 de novembro, Putin se reuniu secretamente com seu colega ucraniano para assinar um tratado alternativo entre Kiev e Moscou. Na reta final, al\u00e9m do acesso ao mercado russo, Putin se disp\u00f4s a perdoar parte importante da d\u00edvida ucraniana, al\u00e9m de v\u00e1rios milh\u00f5es de euros em cr\u00e9ditos.<\/p>\n<p>O an\u00fanciou gerou uma onda de protestos que terminou por derrubar Yanukovich. Moscou sentiu que perdeu a oportunidade de frear as pretens\u00f5es de expans\u00e3o dos norte-americanos e europeus. A interven\u00e7\u00e3o na Crimeia \u00e9 uma resposta arbitr\u00e1ria, perigosa e para l\u00e1 de ilegal. Infelizmente, nenhuma das pot\u00eancias que hoje pretende dar li\u00e7\u00f5es de civilidade a Moscou tem as m\u00e3os limpas. A hipocrisia de Washington \u00e9 grande, mas no chega a ocultar seu desprezo pelo direito internacional. Os exemplos de invas\u00e3o ao Iraque e ao Afeganist\u00e3o (antes de o Conselho de Seguran\u00e7a autorizar uma interven\u00e7\u00e3o) ainda est\u00e3o frescos na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Sobra pouco tempo para resolver a crise. Se ele n\u00e3o for aproveitado, ser\u00e1 trilhado o caminho que conduz ao conflito armado. Moscou poderia retirar suas tropas da Crimeia em troca de voltar ao status quo ex-ante (leis de estrangeiros e do idioma russo). Mas o tom belicoso e a amea\u00e7a de san\u00e7\u00f5es provenientes de Washington e Bruxelas n\u00e3o v\u00e3o acalmar os \u00e2nimos.<\/p>\n<p><i>Tradu\u00e7\u00e3o: Daniella Camba\u00fava<\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Ucrania-entre-mafias-e-o-expansionismo-militar\/6\/30412\" >Go to Original &#8211; cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mesmo que n\u00e3o desemboque em uma guerra, o conflito na Ucr\u00e2nia e na Crimeia marcar\u00e1 de maneira decisiva as rela\u00e7\u00f5es internacionais nos pr\u00f3ximos anos. <\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-40676","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40676","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40676"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40676\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40676"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40676"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40676"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}