{"id":41198,"date":"2014-03-24T12:00:52","date_gmt":"2014-03-24T12:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=41198"},"modified":"2015-05-05T21:35:10","modified_gmt":"2015-05-05T20:35:10","slug":"portugues-o-ressurgimento-do-determinismo-biologico-na-era-neoliberal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/03\/portugues-o-ressurgimento-do-determinismo-biologico-na-era-neoliberal\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Ressurgimento do Determinismo Biol\u00f3gico na Era Neoliberal"},"content":{"rendered":"<p><i>O determinismo gen\u00e9tico e seu detest\u00e1vel primo, o darwinismo social, est\u00e3o de volta. <\/i><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de exemplos aterrorizantes sobre o abuso da teoria da evolu\u00e7\u00e3o para justificar a domina\u00e7\u00e3o e a desigualdade. Bem-vindos a uma nova era de determinismo biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea quer entender por que os humanos declaram guerra, existe um gene para isso. Como podemos entender por que os homens violam as mulheres? Existe um gene para isso. Como explicar as diferen\u00e7as das caracter\u00edsticas nacionais do Extremo Oriente, Ocidente e \u00c1frica? Tamb\u00e9m sabemos que genes se ocupam desse assunto. De fato, se n\u00f3s ouv\u00edssemos o que muitos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas dizem, existe um gene para quase qualquer desigualdade e iniquidade na sociedade moderna.<\/p>\n<p>O determinismo gen\u00e9tico e seu detest\u00e1vel primo, o darwinismo social, est\u00e3o de volta. Equipados com imensas bases de dados gen\u00e9ticos e um imenso arsenal de t\u00e9cnicas estat\u00edsticas, um pequeno mas barulhento grupo de cientistas t\u00eam a determina\u00e7\u00e3o absoluta de conferir fundamenta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica a tudo o que somos e a tudo o que fazemos.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o existente entre a gen\u00e9tica e o determinismo biol\u00f3gico \u00e9 quase t\u00e3o velha como o pr\u00f3prio campo do conhecimento. Por fim, um dos institutos modernos de pesquisa gen\u00e9tica mais proeminentes, o Cold Spring Harbor Laboratory, come\u00e7ou como um instituto eug\u00eanico, cujas atividades inclu\u00edam atuar como grupo de press\u00e3o a favor de uma legisla\u00e7\u00e3o eug\u00eanica para restringir a imigra\u00e7\u00e3o e esterilizar os defeituosos, al\u00e9m de educar a popula\u00e7\u00e3o sobre sa\u00fade eug\u00eanica e propagar ideias eug\u00eanicas.<\/p>\n<p>A \u00faltima onda de determinismo biol\u00f3gico \u00e9 uma continua\u00e7\u00e3o dessa longa tradi\u00e7\u00e3o, mas com diferen\u00e7as significativas em rela\u00e7\u00e3o aos enfoques do passado. Estamos na alvorada da era gen\u00f4mica; uma era na qual os avan\u00e7os na biologia molecular permitem medir de forma muito precisa as mais \u00ednfimas diferen\u00e7as gen\u00e9ticas entre humanos. Isso, combinado ao fato de que vivemos em uma nova Era Dourada (Gilged Age), na qual uma reduzida elite global tem acesso a, e necessidade de justificar a posse de quantidades desmedidas de riqueza e poder, faz com que as condi\u00e7\u00f5es sejam muito prop\u00edcias para um perigoso ressurgimento do determinismo biol\u00f3gico.<\/p>\n<p><b>Os limites da gen\u00e9tica mendeliana e o abuso dos novos estudos de associa\u00e7\u00e3o do genoma completo<\/b><\/p>\n<p>Hoje custa 5 mil d\u00f3lares sequenciar um genoma identificando os seis milh\u00f5es de bases de Adenina, Citosina, Timina e Guanina (A, C, T, G) que definem o DNA de um indiv\u00edduo. Em pouco tempo, custar\u00e1 ainda menos, muito menos. Diz-se que estamos em um momento completamente revolucion\u00e1rio. Com franco acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica detalhada, os m\u00e9dicos e especialistas gen\u00e9ticos logo poder\u00e3o identificar quais doen\u00e7as estamos mais predispostos a contrair e ajudar a preveni-las, ou a minimizar seu impacto por meio da medicina personalizada.<\/p>\n<p>O conhecimento cient\u00edfico obtido a partir desses dados n\u00e3o tem um valor incalcul\u00e1vel. Estamos come\u00e7ando a entender como os v\u00edrus evoluem, as muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que provocam c\u00e2ncer e a base gen\u00e9tica da identidade celular. A revolu\u00e7\u00e3o da sequencia\u00e7\u00e3o nos permitiu estudar as bases moleculares da regula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e identificar novos e assombrosos atores, como o RNA n\u00e3o codificante e as modifica\u00e7\u00f5es da cromatina. Estamos formulando todas as ideias em quest\u00e3o sobre a biologia.<\/p>\n<p>Um dos resultados mais surpreendentes dos novos estudos baseados na sequencia\u00e7\u00e3o tem a ver com as semelhan\u00e7as entre humanos, dado que cada um de n\u00f3s se diferencia do resto apenas em 0,1% do DNA. No entanto, este 0,1% do genoma d\u00e1 lugar a varia\u00e7\u00f5es que vemos entre pessoas em caracter\u00edsticas como a cor da pele, a estatura e a propens\u00e3o a ficar doente. Um objetivo importante da gen\u00e9tica moderna consiste em tratar de relacionar uma variante gen\u00f4mica particular com uma caracter\u00edstica ou doen\u00e7a concretas. Para isso, os cientistas est\u00e3o desenvolvendo potentes ferramentas estat\u00edsticas de outra ordem, que permitam analisar uma grande quantidade de dados de sequ\u00eancias de popula\u00e7\u00f5es de todo mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 qualquer d\u00favida sobre a exist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o entre os genes e as caracter\u00edsticas observadas. Os pais altos tendem a ter filhos altos. Os pais de pele acobreada t\u00eam filhos de pele acobreada. A ideia de que as caracter\u00edsticas s\u00e3o heredit\u00e1rias se tornou bem estabelecida desde que Mendel codificou suas famosas leis da heran\u00e7a, inferidas a partir da observa\u00e7\u00e3o estat\u00edstica de mais de 29 mil plantas de ervilha. Na gen\u00e9tica cl\u00e1ssica mendeliana, diferentes genes que codificam diferentes caracter\u00edsticas passam a seus descendentes de forma independente uns dos outros.<\/p>\n<p>Portanto, h\u00e1 uma clara correla\u00e7\u00e3o entre informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica ou gen\u00f3tipo e caracter\u00edsticas observ\u00e1veis ou fen\u00f3tipo. Um \u00fanico gene (tecnicamente, um locus ou localiza\u00e7\u00e3o de um gene concreto) codifica uma \u00fanica caracter\u00edstica, e n\u00e3o se v\u00ea afetado pelas demais caracter\u00edsticas que uma pessoa possui. Al\u00e9m disso, os fatores ambientais t\u00eam pouca influ\u00eancia sobre a maioria das caracter\u00edsticas mendelianas. A anemia falciforme e a fibrose c\u00edstica constituem exemplos bastante conhecidos disso, cada uma causada por uma muta\u00e7\u00e3o em um gene concreto.<\/p>\n<p>No entanto, agora bem sabemos que os pressupostos da gen\u00e9tica mendeliana n\u00e3o s\u00e3o aplic\u00e1veis \u00e0 maioria das caracter\u00edsticas e doen\u00e7as. Quase todos os fen\u00f3tipos, desde a estatura e a cor dos olhos, at\u00e9 doen\u00e7as como diabetes, emergem de intera\u00e7\u00f5es extremamente complexas entre os genes m\u00faltiplos e o meio ambiente. Diferentemente do que ocorre com a gen\u00e9tica mendeliana, na qual \u00e9 poss\u00edvel facilmente identificar o gene que codifica uma caracter\u00edstica particular, para muitas caracter\u00edsticas n\u00e3o existe uma correspond\u00eancia simples entre gen\u00f3tipo e fen\u00f3tipo.<\/p>\n<p>O imenso volume de dados atualmente dispon\u00edveis sobre a sequencia\u00e7\u00e3o do DNA levou muitos cientistas a acreditar que h\u00e1 um modelo de lidar com esse problema. Para isso, est\u00e3o desenvolvendo novas ferramentas cient\u00edficas e estat\u00edsticas a fim de analisar e obter informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica dos dados sequenciados.<\/p>\n<p>O objetivo desses estudos de associa\u00e7\u00e3o do genoma completo (GWAS, na sigla em ingl\u00eas) \u00e9 proporcionar um modelo para decifrar a informa\u00e7\u00e3o contida em nosso DNA e identificar as bases gen\u00e9ticas de doen\u00e7as e caracter\u00edsticas complexas. Os GWAS constituem um elemento b\u00e1sico da moderna gen\u00e9tica de popula\u00e7\u00f5es. Isso se reflete no aumento gigantesco da quantidade de estudos de associa\u00e7\u00e3o do genoma completo publicados na \u00faltima d\u00e9cada, que passaram de cifras de um s\u00f3 d\u00edgito no ano de 2005 para mais de 300 mil atualmente. H\u00e1 estudos GWAS sobre estatura, peso ao nascer, doen\u00e7as inflamat\u00f3rias intestinais, como as pessoas respondem a vacinas ou medicamentos espec\u00edficos, c\u00e2nceres, diabetes, mal de Parkingson e muitos outros. Na realidade, s\u00e3o tantos os GWAS em desenvolvimento, que foi preciso criar ferramentas visuais espec\u00edficas para ajudar os cientistas e estes poderem ter uma ideia conclusiva dos resultados de todos esses estudos.<\/p>\n<p>Dada a crescente preval\u00eancia dos GWAS, \u00e9 importante explicar a base l\u00f3gica subjacente a eles. Os conceitos de varia\u00e7\u00f5es fenot\u00edpicas e gen\u00e9ticas jogam um papel central nos GWAS. A varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica \u00e9 definida como a varia\u00e7\u00e3o de uma caracter\u00edstica em uma popula\u00e7\u00e3o (como a distribui\u00e7\u00e3o da estatura na popula\u00e7\u00e3o masculina dos Estados Unidos). Observe que, para definir a varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica, \u00e9 preciso especificar uma popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trata-se de uma preceptiva escolha <i>a priori<\/i> a fim de construir um modelo estat\u00edstico. Al\u00e9m disso, a escolha da popula\u00e7\u00e3o constitui um importante vi\u00e9s, dado que, nos GWAS, est\u00e3o impl\u00edcitos muitos pressupostos de car\u00e1ter social (isso \u00e9 praticamente certo em estudos que buscam compreender a varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica entre grupos raciais).<\/p>\n<p>Os GWAS buscam explicar estatisticamente a varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica observada em termos da varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica na mesma popula\u00e7\u00e3o. Aqui \u00e9 onde brilha com luz pr\u00f3pria a gen\u00e9tica moderna. Enquanto que, na era pr\u00e9-gen\u00f4mica, era preciso realizar um trabalho insano para medir a varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica em apenas um locus, agora \u00e9 poss\u00edvel conhecer a varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de milhares de pessoas mediante a consulta de dados publicamente acess\u00edveis de todo o genoma.<\/p>\n<p>A maioria dos GWAS se centram em polimorfismos de nucle\u00f3tido \u00fanico (SNPs, na sigla em ingl\u00eas): varia\u00e7\u00f5es da sequ\u00eancia de DNA que ocorrem em apenas uma base no genoma (ex. AAGGCT vs. AAGTCT). Os cientistas observaram aproximadamente 12 milh\u00f5es de SNPs em popula\u00e7\u00f5es humanas. Essa cifra pode parecer incrivelmente grande, mas no DNA humano h\u00e1 6 bilh\u00f5es de bases. De modo que, de todas as popula\u00e7\u00f5es humanas nas quais se colheram amostras, apenas 0,2% das bases de DNA exibe diferen\u00e7as entre todas as popula\u00e7\u00f5es estudadas em amostras. Para uma caracter\u00edstica como a estatura, h\u00e1 cerca de 180 SNPs conhecidas que podem ajudar a varia\u00e7\u00e3o da altura nos seres humanos.<\/p>\n<p>O prop\u00f3sito dos GWAs \u00e9 relacionar a varia\u00e7\u00e3o genot\u00edpica com a vari\u00e2ncia fenot\u00edpica. Frequentemente isso se expressa mediante o conceito de herdabilidade, que busca a participa\u00e7\u00e3o da varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica em um componente gen\u00e9tico e um componente do meio ambiente.<\/p>\n<p>Falando de outra forma, a herdabilidade se define como a fra\u00e7\u00e3o da varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica que podemos atribuir a uma varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. Uma herdabilidade igual a zero significa que toda a varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica \u00e9 atribu\u00edda ao ambiente, enquanto que uma herdabilidade igual a um significa que \u00e9 completamente gen\u00e9tica.<\/p>\n<p>Sob o conceito de herdabilidade subjaz todo um mundo de pressupostos simplificadores sobre como funciona a biologia e como os genes e o entorno atuam, tudo isso mediado por um sem-n\u00famero de modelos estat\u00edsticos complicados e obtusos. A herdabilidade depende das popula\u00e7\u00f5es escolhidas e dos ambientes analisados nas experi\u00eancias. Inclusive, a distin\u00e7\u00e3o entre meio ambiente e genes \u00e9, at\u00e9 certo ponto, artificial. Como observa Richard Lewontin:<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria relev\u00e2ncia da natureza f\u00edsica do meio ambiente vem determinada pelos pr\u00f3prios organismos (\u2026). Uma bact\u00e9ria que vive em um l\u00edquido n\u00e3o sente a gravidade, visto que \u00e9 muito pequena (\u2026) mas seu tamanho est\u00e1 determinado pelos seus genes, de modo que a diferen\u00e7a gen\u00e9tica que h\u00e1 entre n\u00f3s e a bact\u00e9ria \u00e9 o que determina que a for\u00e7a da gravidade seja relevante para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Tudo isso serve para dizer que, embora a herdabilidade seja um conceito \u00fatil, n\u00e3o deixa de ser uma abstra\u00e7\u00e3o que depende completamente dos modelos estat\u00edsticos que utilizamos para defini-la (com todos os seus pressupostos e preconceitos subjacentes).<\/p>\n<p>Nesse sentido, inclusive para uma caracter\u00edstica fortemente pass\u00edvel de ser herdada como a estatura, o meio ambiente pode mudar de forma dr\u00e1stica os tra\u00e7os observados. Pense no exemplo ocorrido durante a guerra civil guatemalteca, em que esquadr\u00f5es da morte e paramilitares apoiados pelos Estados Unidos atacaram com extrema brutalidade a popula\u00e7\u00e3o rural ind\u00edgena da Guatemala, tendo como resultado uma desnutri\u00e7\u00e3o generalizada. Muitos maias fugiram para os Estados Unidos para escapar da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao comparar as estaturas de crian\u00e7as maias da Guatemala com crian\u00e7as maias dos Estados Unidos entre seis e doze anos de idade, os pesquisadores observaram que as norte-americanas eram 10,24 cent\u00edmetros mais altas que as guatemaltecas, em grande parte devido \u00e0 nutri\u00e7\u00e3o e ao acesso \u00e0 aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Em um s\u00e9rio contraste a isso, o gene considerado mais influente na estatura, que \u00e9 o gene do fator de crescimento GDF5, associa-se com mudan\u00e7as na estatura de apenas 0,3 a 0,7 cent\u00edmetros, e isso apenas para indiv\u00edduos de ascend\u00eancia europeia.<\/p>\n<p>Essa influ\u00eancia do ambiente t\u00e3o significativa \u00e9 algo muito comum. Por exemplo, estima-se que a herdabilidade do diabetes tipo II, ajustada \u00e0 idade e ao \u00cdndice de Massa Corporal (IMC), levaria a uma variabilidade entre 0,5% e 0,75% (um pouco menos que no caso da estatura mas, como disse, essas cifras precisam ser observadas com muita cautela). Atualmente, os GWAS chegam a explicar apenas 6% dessa herdabilidade, com genes que permitam predizer de forma correta se um indiv\u00edduo desenvolver\u00e1 diabetes. Apesar da escassa confiabilidade dos fatores gen\u00e9ticos, um IMC pouco saud\u00e1vel e a simples presen\u00e7a de sobrepeso em uma pessoa aumenta as possibilidades de desenvolver diabetes quase oito vezes.<\/p>\n<p>O mesmo vale para o coeficiente de intelig\u00eancia (QI), que constitui um elemento b\u00e1sico para os estudos sobre intelig\u00eancia. Deixando de lado por um momento a discuss\u00e3o sobre a validade dos testes que medem o QI, os estudos mostram um grande e cont\u00ednuo aumento nas pontua\u00e7\u00f5es de QI durante o s\u00e9culo XX (o chamado efeito Flynn), revelando assim a enorme import\u00e2ncia da influ\u00eancia do ambiente em compara\u00e7\u00e3o com a da gen\u00e9tica na determina\u00e7\u00e3o do QI.<\/p>\n<p>A esquizofrenia \u00e9 outro exemplo disso. Em seu excelente blog Cross-Check, John Morgan analisa o gene CMYA5, que a imprensa de massa divulgou como gene da esquizofrenia. Morgan observa que, se voc\u00ea \u00e9 portador desse gene, o risco que tem de desenvolver esquizofrenia aumenta entre 0,07% e 1,07%. Por outro lado, se voc\u00ea tem um parente de primeiro grau com esquizofrenia, como um irm\u00e3o, tem a probabilidade de 10% de ser esquizofr\u00eanico \u2013 que \u00e9 100 vezes maior do que o risco quando se tem o gene CMYA5. Esses tipos de resultado n\u00e3o s\u00e3o acidentais. Toda a \u00e1rea do conhecimento est\u00e1 consumida por uma s\u00e9ria preocupa\u00e7\u00e3o sobre a escassa capacidade de previs\u00e3o por parte dos GWAS (frequentemente analisada no contexto do problema da herdabilidade ausente).<\/p>\n<p><b>O plano do determinista gen\u00e9tico<\/b><\/p>\n<p>Apesar do limitado \u00eaxito dos GWAS, existem s\u00e9rias d\u00favidas de que os ventos que excitam as teses do determinismo gen\u00e9tico cessem no futuro pr\u00f3ximo. A principal raz\u00e3o est\u00e1 no imenso volume de novos dados gen\u00e9ticos que s\u00e3o gerados sem parar. Essa avalanche de dados \u00e9 o sonho dos deterministas biol\u00f3gicos. Se algu\u00e9m acha que estou exagerando, veja a seguinte cita\u00e7\u00e3o retirada de um estudo recente sobre a arquitetura gen\u00e9tica das prefer\u00eancias econ\u00f4micas e pol\u00edticas publicado na PNAS, uma revista cient\u00edfica de primeiro n\u00edvel. De forma absolutamente surpreendente, os SNPs identificados explicam apenas uma pequena parte da varia\u00e7\u00e3o total. Mas longe de se desanimarem, os autores concluem ou resumem seu trabalho com um coment\u00e1rio otimista:<\/p>\n<p>Esses resultados sugerem uma mensagem de prud\u00eancia sobre a possibilidade, o modo e o prazo em que os dados da gen\u00e9tica molecular poder\u00e3o contribuir e potencialmente transformar a pesquisa em ci\u00eancias sociais. Propomos algumas respostas construtivas aos desafios que nos coloca o escasso poder explicativo dos SNPs individuais.<\/p>\n<p>A arrog\u00e2ncia desmedida fala por si mesma. A dificuldade inerente ao uso dos GWAS para explicar a estatura, uma caracter\u00edstica facilmente mensur\u00e1vel e quantific\u00e1vel, traz \u00e0 tona o absurdo de sustentar a necessidade de identificar as bases gen\u00e9ticas de caracter\u00edsticas mal definidas, temporalmente vari\u00e1veis e de dif\u00edcil quantifica\u00e7\u00e3o, como a intelig\u00eancia, a agressividade ou as prefer\u00eancias pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Apesar disso, o plano do determinista gen\u00e9tico na era gen\u00f4mica \u00e9 claro: obtenha quantidades massivas de dados de sequ\u00eancias gen\u00e9ticas. Encontre uma caracter\u00edstica mal definida (como a prefer\u00eancia pol\u00edtica). Encontre um gene que est\u00e1 estatisticamente sobrerrepresentado na subpopula\u00e7\u00e3o que possui a caracter\u00edstica. Declare a vit\u00f3ria. Ignore o fato de que os genes, na realidade, n\u00e3o explicam a varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica da caracter\u00edstica. Em vez disso, diga que, se houvesse mais dados, as estat\u00edsticas confirmariam.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, generalize esses resultados ao plano de an\u00e1lise das sociedades e argumente que eles explicam as bases gen\u00e9ticas fundamentais do comportamento humano. Rediga uma nota \u00e0 imprensa e espere que os meios de comunica\u00e7\u00e3o publiquem not\u00edcias chamativas. Repita o processo com outro conjunto de dados e com outra caracter\u00edstica.<\/p>\n<p><b>A import\u00e2ncia das propriedades emergentes para entender os sistemas complexos<\/b><\/p>\n<p>O determinismo biol\u00f3gico parece plaus\u00edvel precisamente porque oferece a ilus\u00e3o de que se baseia na observa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Nenhum cientista coloca em d\u00favida o fato de que os elementos constitutivos mais b\u00e1sicos de um organismo estejam codificados em seu material gen\u00e9tico e de que a evolu\u00e7\u00e3o tenha dado forma a esses genes mediante algum tipo de combina\u00e7\u00e3o de variabilidade e sele\u00e7\u00e3o gen\u00e9ticas. Mas atribuir o comportamento humano, seja o de comer um saco inteiro de batatas fritas ou de declarar a guerra, a um conjunto de genes constitui um exerc\u00edcio claramente quixotesco.<\/p>\n<p>Nigel Goldenfeld e Leo Kadanoff fazem uma sensata advert\u00eancia em um belo artigo no qual analisam sistemas complexos: \u00e9 preciso utilizar o n\u00edvel de descri\u00e7\u00e3o mais adequado para captar os fen\u00f4menos que s\u00e3o do nosso interesse. N\u00e3o tem sentido realizar modelos de m\u00e1quinas escavadoras com quarks.<\/p>\n<p>Ainda que seja certo que todas as propriedades de uma m\u00e1quina escavadora sejam o produto das part\u00edculas que a constituem, como quarks e el\u00e9trons, \u00e9 in\u00fatil pensar sobre as propriedades de uma escavadora (forma, cor, fun\u00e7\u00e3o) em termos dessas part\u00edculas. A forma e a fun\u00e7\u00e3o de uma m\u00e1quina escavadora s\u00e3o propriedades emergentes do sistema em seu conjunto.<\/p>\n<p>Do mesmo modo que n\u00e3o se pode reduzir as propriedades de uma escavadora \u00e0s dos quarks, tampouco se pode reduzir os complexos comportamentos e caracter\u00edsticas de um organismos a seus genes. Marx argumentou a mesma coisa quando disse que, a partir de certo ponto, as diferen\u00e7as meramente quantitativas passam a constituir mudan\u00e7as qualitativas.<\/p>\n<p>Se as bases filos\u00f3ficas e cient\u00edficas das teses do determinista gen\u00e9tico s\u00e3o t\u00e3o problem\u00e1ticas, por que um tipo de pensamento t\u00e3o desalinhado recebe a recompensa de artigos de primeira p\u00e1gina na se\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do New York Times?<\/p>\n<p><b>A instrumentaliza\u00e7\u00e3o neoliberal do determinismo biol\u00f3gico<\/b><\/p>\n<p>Vivemos em uma era na qual as grandes empresas obt\u00eam benef\u00edcios sem precedentes, uma pequena elite acumula enormes quantidades de riqueza e a desigualdade alcan\u00e7a n\u00edveis pr\u00f3ximos aos da Era Dourada (Gilged Age). As contradi\u00e7\u00f5es existentes entre o capitalismo neoliberal e os impulsos democr\u00e1ticos s\u00e3o evidenciadas de maneira incessante. As demandas por igualdade de oportunidades que permeiam boa parte do pensamento liberal se mostram uma farsa. A incongru\u00eancia entre o que o capitalismo professa e a crua realidade \u00e9 cada vez mais evidente.<\/p>\n<p>O atrativo do determinismo biol\u00f3gico est\u00e1 no fato de que oferece explica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas plaus\u00edveis para dar conta das contradi\u00e7\u00f5es civilizat\u00f3rias engendradas pelo capitalismo. Se o diabetes tipo II se reduz a um problema gen\u00e9tico (o que, at\u00e9 certo ponto, \u00e9 correto), ent\u00e3o j\u00e1 nem precisamos pensar no aumento da obesidade e de suas causas, e tampouco: no monop\u00f3lio empresarial privado do setor agroalimentar, na desigualdade de renda da cidadania e nas diferen\u00e7as de classe em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade dos alimentos consumidos.<\/p>\n<p>Combine isso com a preval\u00eancia da medica\u00e7\u00e3o impulsionada pela ind\u00fastria farmac\u00eautica para o tratamento de todo tipo de doen\u00e7a, e ningu\u00e9m dever\u00e1 se surpreender se, ao final, ficarmos com a impress\u00e3o de que os fen\u00f4menos sociais complexos podem se reduzir a um simples fato cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Parafraseando o grande cr\u00edtico liter\u00e1rio Roberto Schwarz, \u201co determinismo biol\u00f3gico \u00e9 uma ilus\u00e3o socialmente necess\u00e1ria bem fundamentada na mera apar\u00eancia. \u00c0 semelhan\u00e7a da arte e da literatura, a ci\u00eancia se conformou historicamente e (\u2026) reflete o processo social a que deve sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Os cientistas herdam os preconceitos das sociedades nas quais vivem e trabalham. Em nenhum outro lugar, isso se torna mais evidente do que na encarna\u00e7\u00e3o moderna do determinismo biol\u00f3gico, com seus pressupostos decididamente neoliberais sobre os seres humanos e as sociedades\u201d.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de exemplos aterrorizantes sobre o abuso da gen\u00e9tica (e da teoria da evolu\u00e7\u00e3o) para justificar a domina\u00e7\u00e3o e a desigualdade: as justificativas evolutivas da escravid\u00e3o e do colonialismo, as explica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas da viola\u00e7\u00e3o e do patriarcado, e as explica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas da superioridade inerente \u00e0 elite governante. Devemos trabalhar sem descanso para nos assegurar de que a hist\u00f3ria n\u00e3o v\u00e1 se repetir na era gen\u00f4mica.<\/p>\n<p><b>Leia tamb\u00e9m:<\/b><\/p>\n<p><i><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/03\/portugues-civilizados-barbaros-e-selvagens-2\/\" >Civilizados, B\u00e1rbaros e Selvagens<\/a><\/i> por Antonio C. S. Rosa, editor do TMS.<\/p>\n<p>_______________________________<\/p>\n<p><i>Pankaj Mehta<b> <\/b>cientista e professor da Universidade de Boston que trabalha no estudo da rela\u00e7\u00e3o entre F\u00edsica e Biologia. Suas pesquisas tratam da Biologia de Sistemas, em particular da teoriza\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo entre os elementos moleculares individuais e os comportamentos coletivos em grande escala. Atualmente, participa do Programa Interdisciplinar de Bioinform\u00e1tica da Universidade de Boston e do Centro de Medicina Regenerativa da mesma universidade.<\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/O-ressurgimento-do-determinismo-biologico-na-era-neoliberal\/4\/30516\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de exemplos aterrorizantes sobre o abuso da gen\u00e9tica (e da teoria da evolu\u00e7\u00e3o) para justificar a domina\u00e7\u00e3o e a desigualdade: as justificativas evolutivas da escravid\u00e3o e do colonialismo, as explica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas da viola\u00e7\u00e3o e do patriarcado, e as explica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas da superioridade inerente \u00e0 elite governante.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-41198","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41198"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41198\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}