{"id":41253,"date":"2014-03-24T12:00:41","date_gmt":"2014-03-24T12:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=41253"},"modified":"2015-05-05T21:35:10","modified_gmt":"2015-05-05T20:35:10","slug":"portugues-zizek-o-desejo-e-o-fascismo-contemporaneos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/03\/portugues-zizek-o-desejo-e-o-fascismo-contemporaneos\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) \u017di\u017eek: O Desejo e o Fascismo Contempor\u00e2neos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_41254\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Assange.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-41254\" class=\"size-medium wp-image-41254\" alt=\"Que estranha rela\u00e7\u00e3o existe entre a luta de Julian Assange, confinado numa embaixada do Equador, e a resist\u00eancia a Hitler?\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Assange-300x300.jpg\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Assange-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Assange-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Assange.jpg 485w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-41254\" class=\"wp-caption-text\">Que estranha rela\u00e7\u00e3o existe entre a luta de Julian Assange, confinado numa embaixada do Equador, e a resist\u00eancia a Hitler?<\/p><\/div>\n<p>Em dezembro de 2013 visitei Julian Assange na embaixada equatoriana localizada logo atr\u00e1s da loja Harrods em Londres. Foi uma experi\u00eancia um tanto deprimente, apesar da gentileza do pessoal da embaixada. A embaixada \u00e9 um apartamento de seis c\u00f4modos sem jardim anexo, de forma que Assange n\u00e3o pode nem dar uma andada di\u00e1ria ao ar livre. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o pode pisar para fora do apartamento, ao corredor principal da casa \u2013 policiais esperam por ele l\u00e1. Algo como uma d\u00fazia deles est\u00e3o o tempo todo em torno da casa e em alguns dos pr\u00e9dios circundantes, um deles inclusive debaixo de uma pequena janela de banheiro que d\u00e1 para o jardim dos fundos, caso Assange tente escapar por aquele buraco na parede. O apartamento \u00e9 grampeado<b>\u00a0<\/b>de cima a baixo, sua liga\u00e7\u00e3o de internet \u00e9 suspeitosamente lenta\u2026\u00a0ent\u00e3o como assim o Estado brit\u00e2nico decidiu empregar em torno de 50 pessoas em tempo integral para vigiar Assange e control\u00e1-lo sob o pretexto legal de que ele se recusa a ir \u00e0 Su\u00e9cia para ser questionado sobre uma m\u00e1 conduta sexual leve (n\u00e3o h\u00e1 acusa\u00e7\u00f5es legais contra ele!)? \u00c9 tentador se tornar um thatcherista e perguntar: onde est\u00e1 a pol\u00edtica de austeridade\u00a0<i>aqui<\/i>? Se um ningu\u00e9m como eu fosse procurado pela pol\u00edcia sueca para uma interroga\u00e7\u00e3o semelhante o Reino Unido tamb\u00e9m empregaria 50 pessoas para me vigiar? A pergunta s\u00e9ria est\u00e1 aqui: de onde brota tal desejo ridiculamente excessivo de vingan\u00e7a? O que Assange, seus colegas e fontes denunciantes fizeram para merecer isso?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/embaixada-ecuador_assange1.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-41255\" alt=\"embaixada ecuador_assange1\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/embaixada-ecuador_assange1-300x162.jpg\" width=\"300\" height=\"162\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/embaixada-ecuador_assange1-300x162.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/embaixada-ecuador_assange1.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Jacques Lacan prop\u00f4s como axioma da \u00e9tica da psican\u00e1lise: \u201cN\u00e3o recues de teu desejo\u201d. N\u00e3o seria esse axioma uma designa\u00e7\u00e3o precisa dos atos dos denunciantes? A despeito de todos os riscos envolvidos a sua atividade, eles n\u00e3o est\u00e3o dispostos a recuar \u2013 de que? Isso nos traz \u00e0 no\u00e7\u00e3o de evento: Assange e seus colaboradores realizaram um verdadeiro e aut\u00eantico evento pol\u00edtico \u2013 com isso, pode-se facilmente compreender a rea\u00e7\u00e3o violenta das autoridades. Assange e seus colegas s\u00e3o frequentemente acusados de traidores, mas s\u00e3o algo muito pior (aos olhos das autoridades) \u2013 para citar Alenka Zupan\u010di\u010d:<\/p>\n<p>\u201cMesmo se Snowden vendesse suas informa\u00e7\u00f5es discretamente a outro servi\u00e7o de intelig\u00eancia, esse ato ainda contaria como parte dos \u2018jogos patri\u00f3ticos\u2019, e se necess\u00e1rio ele seria liquidado como um \u2018traidor\u2019. No entanto, no caso de Snowden, estamos lidando com algo inteiramente diferente. Estamos lidando com um gesto que questiona a pr\u00f3pria l\u00f3gica, o pr\u00f3prio\u00a0<i>status quo<\/i>, que por um bom tempo vem servindo de \u00fanico fundamento para toda a (n\u00e3o) pol\u00edtica \u2018ocidental\u2019. Com um gesto que, digamos, p\u00f5e tudo a perder, sem nenhuma considera\u00e7\u00e3o por lucro e sem seus pr\u00f3prios interesses em jogo: assume-se o risco porque baseia-se na conclus\u00e3o de que o que est\u00e1 acontecendo \u00e9 simplesmente errado. Snowden n\u00e3o prop\u00f4s nenhuma alternativa. Snowden, ou melhor, a l\u00f3gica de seu gesto, assim como, digamos, o gesto de Bradley Manning \u2013\u00a0<i>\u00e9<\/i>\u00a0a alternativa.\u201d<\/p>\n<p>Essa descoberta fundamental do WikiLeaks est\u00e1 lindamente sintetizada na auto-designa\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica de Assange como um \u201cespi\u00e3o para o povo\u201d: \u201cespiar para o povo\u201d n\u00e3o \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o direta da espionagem (o que seria antes agir como um agente duplo, vendendo nossos segredos para o inimigo) mas sua auto-nega\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, ele mina o pr\u00f3prio princ\u00edpio universal da espionagem, o principio do sigilo, j\u00e1 que seu objetivo \u00e9 tornar p\u00fablicos os segredos. Funciona portanto de forma semelhante \u00e0 forma pela qual a \u201cditadura do proletariado\u201d marxiana deveria ter funcionado (mas raramente o fez, \u00e9 claro): como uma auto-nega\u00e7\u00e3o iminente do pr\u00f3prio princ\u00edpio de ditadura. \u00c0queles que continuam pintando o espantalho do comunismo devemos responder: o que o WikiLeaks est\u00e1 fazendo \u00e9 a pr\u00e1tica do comunismo. O WikiLeaks simplesmente realiza o bem comum na informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na luta das ideias, a ascens\u00e3o da modernidade burguesa foi exemplificada pela Enciclop\u00e9dia francesa, um empreendimento gigantesco apresentando de forma sistem\u00e1tica todo o conhecimento dispon\u00edvel a um amplo p\u00fablico. O\u00a0destinat\u00e1rio desse conhecimento n\u00e3o era o Estado, mas o p\u00fablico como tal. Pode parecer que a Wikip\u00e9dia j\u00e1 \u00e9 a enciclop\u00e9dia de hoje, mas algo falta a ela: o conhecimento que \u00e9 reprimido e ignorado pelo espa\u00e7o p\u00fablico, reprimido porque concerne precisamente a forma pela qual mecanismos estatais e ag\u00eancias controlam e regulam a todos n\u00f3s. O objetivo do WikiLeaks deveria ser tornar esse conhecimento dispon\u00edvel para todos n\u00f3s a um simples clique. Assange \u00e9 efetivamente o d\u2019Alambert de hoje, o organizador dessa nova enciclop\u00e9dia, a verdadeira enciclop\u00e9dia do povo para o s\u00e9culo 21. \u00c9 crucial que essa nova enciclop\u00e9dia adquira uma base independente internacional, para que seja minimizado o jogo humilhante de se colocar um grande estado contra outro (como Snowden, obrigado a buscar asilo na R\u00fassia). Nosso axioma deve ser o de que Snowden e Pussy Riot s\u00e3o parte da mesma luta \u2013 mas que luta?<\/p>\n<p>Nossos bens comuns informacionais emergiram como um dos dom\u00ednios chave da luta de classes em dois de seus aspectos: econ\u00f4mico em sentido estrito e s\u00f3cio-pol\u00edtico. Por um lado, novas m\u00eddias digitais nos confrontam com o impasse da \u201cpropriedade intelectual\u201d. A World Wide Web parece ser comunista em sua natureza, tendendo ao livre fluxo de dados \u2013 CDs e DVDs est\u00e3o gradualmente desaparecendo, milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o simplesmente baixando m\u00fasicas e v\u00eddeos, geralmente de gra\u00e7a. \u00c9 por isso que o\u00a0<i>establishment<\/i>\u00a0de neg\u00f3cios est\u00e1 envolvido numa luta desesperada para impor a forma da propriedade privada nesse fluxo. Por outro lado, as m\u00eddias digitais (especialmente com o acesso quase universal \u00e0 rede e a celulares) abriram novas formas para as milh\u00f5es de pessoas comuns estabelecerem uma rede e coordenar suas atividades coletivas, oferecendo tamb\u00e9m a agencias estatais e a companhias privadas possibilidades inauditas de rastrear nossos atos p\u00fablicos e privados. \u00c9 nessa luta que o WikiLeaks interviu de forma t\u00e3o explosiva.<\/p>\n<p>Em suas\u00a0<i>Notas para uma defini\u00e7\u00e3o de cultura<\/i>, T.S. Eliot comenta que h\u00e1 momentos em que a \u00fanica escolha \u00e9 aquela entre a heresia e a descren\u00e7a, em que a \u00fanica forma de manter uma religi\u00e3o viva \u00e9 efetuando um racha sect\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o a seu corpo principal. Isto \u00e9 o que o WikiLeaks fez: sua atividade \u00e9 baseada no\u00a0<i>insight<\/i>\u00a0de que a \u00fanica forma de manter nossa democracia viva \u00e9 rompendo com seu principal cad\u00e1ver institucional de aparatos e mecanismos estatais. Ao fazer isso, o WikiLeaks fez algo in\u00e9dito, redefinindo as coordenadas do que conta como poss\u00edvel ou admiss\u00edvel na esfera p\u00fablica. Escrevi um livro sobre a no\u00e7\u00e3o de \u201cevento\u201d precisamente para criar o espa\u00e7o para a compreens\u00e3o adequada de fen\u00f4menos como o WikiLeaks, quando um ato pol\u00edtico n\u00e3o apenas viola as regras predominantes mas cria suas pr\u00f3prias novas regras e imp\u00f5e novos padr\u00f5es \u00e9ticos. O que at\u00e9 ent\u00e3o tom\u00e1vamos como auto-evidente \u2013 o direito do Estado a nos monitorar e controlar \u2013 \u00e9 agora visto como profundamente problem\u00e1tico; o que at\u00e9 ent\u00e3o perceb\u00edamos como algo criminoso, um ato de trai\u00e7\u00e3o \u2013 divulga\u00e7\u00e3o de segredos de Estado \u2013, agora aparece como um ato heroico e \u00e9tico.<\/p>\n<p>Dessa breve descri\u00e7\u00e3o, j\u00e1 podemos ver como um evento se situa no interior de um campo narrativo. Nossa experi\u00eancia hist\u00f3rica \u00e9 formada como uma narrativa, isto \u00e9, sempre situamos ocorr\u00eancias reais no interior de uma narrativa que as torna parte de um enredo que fa\u00e7a sentido. Surgem problemas quando uma reviravolta inesperada e abaladora nos acontecimentos \u2013 a eclos\u00e3o de uma guerra, uma profunda crise econ\u00f4mica \u2013 n\u00e3o pode mais ser inclu\u00edda numa narrativa consistente. Nessa situa\u00e7\u00e3o, tudo depende da forma pela qual essa reviravolta catastr\u00f3fica ser\u00e1 simbolizada, de que interpreta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica ou narrativa ir\u00e1 se impor e determinar a percep\u00e7\u00e3o geral da crise.\u00a0Quando o decorrer normal das coisas \u00e9 traumaticamente interrompido, o campo se abre para disputa ideol\u00f3gica. Por exemplo, na Alemanha do final da d\u00e9cada de 20, Hitler venceu a disputa pela narrativa que iria explicar aos alem\u00e3es as raz\u00f5es pela crise da rep\u00fablica de Weimar e a forma de sair dela (sua trama era a trama dos judeus); na Fran\u00e7a de 1940 foi a narrativa de Marshal P\u00e9tain que venceu na explica\u00e7\u00e3o das raz\u00f5es pela derrota francesa.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o importante desse exemplo do fascismo \u00e9 que existem tamb\u00e9m o que se pode chamar de eventos negativos. Imagine uma sociedade que integrou completamente \u00e0 sua subst\u00e2ncia \u00e9tica os grandes axiomas modernos de liberdade, igualdade, direitos democr\u00e1ticos, o dever de uma sociedade prover educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade b\u00e1sica para todos seus membros, e que visse o racismo ou o machismo como simplesmente inaceit\u00e1veis e rid\u00edculos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 nem preciso argumentar contra, digamos, o racismo, j\u00e1 que qualquer um que abertamente o advogue \u00e9 imediatamente visto como um esquisito exc\u00eantrico que n\u00e3o pode ser levado a s\u00e9rio, etc. Mas a\u00ed, passo a passo, essas conquistas v\u00e3o sendo desfeitas. J\u00e1 se pode abertamente propagar o racismo, advogar a tortura, etc. Hitler n\u00e3o fez algo assim? Sua mensagem ao povo alem\u00e3o n\u00e3o era: \u201cSim, n\u00f3s podemos\u2026\u201d \u2013 matar os judeus, esmagar a democracia, agir de forma racista, atacar outras na\u00e7\u00f5es? E n\u00e3o estamos testemunhando sinais de um processo semelhante hoje?<\/p>\n<p>Em meados de 2013, dois protestos p\u00fablicos foram anunciados na Cro\u00e1cia, um pa\u00eds em profunda crise econ\u00f4mica, com um alto \u00edndice de desemprego e uma profunda sensa\u00e7\u00e3o de desespero na popula\u00e7\u00e3o: sindicatos tentaram organizar uma passeata em apoio aos direitos trabalhistas, enquanto nacionalistas de direita iniciaram um movimento de protesto contra o uso de caracteres cir\u00edlicos em edif\u00edcios p\u00fablicos nas cidades com minoria s\u00e9rvia. A primeira iniciativa trouxe a uma grande pra\u00e7a em Zagreb algumas centenas de pessoas; a segunda conseguiu mobilizar centenas de milhares, o mesmo que com um outro movimento fundamentalista contra o casamento gay. A Cro\u00e1cia est\u00e1 longe de ser exce\u00e7\u00e3o nesse quesito: dos Balc\u00e3s \u00e0 Escandin\u00e1via, dos EUA a Israel, da \u00c1frica central \u00e0 \u00cdndia, uma nova Idade das Trevas est\u00e1 por vir, com paix\u00f5es \u00e9tnicas e religiosas explodindo e valores do Iluminismo retrocedendo. Essas paix\u00f5es estiveram \u00e0 espreita no escuro o tempo todo, mas o que \u00e9 novo agora \u00e9 a forma totalmente descarada na qual aparecem.<\/p>\n<p>Esse atual processo de minar os pr\u00f3prios fundamentos de nossas conquistas emancipat\u00f3rias se d\u00e1 em n\u00edveis diferentes. O debate sobre o afogamento simulado ser ou n\u00e3o tortura deve ser descartado como uma \u00f3bvia besteira: por que, se n\u00e3o provocando dor e medo da morte, o afogamento simulado faz com que suspeitos terroristas resilientes falem? E quanto \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o da palavra \u201ctortura\u201d por \u201ct\u00e9cnica aprimorada de interroga\u00e7\u00e3o\u201d, deve-se notar que estamos lidando aqui com uma extens\u00e3o da l\u00f3gica do Politicamente Correto: na exata mesma forma que\u00a0 \u201calejado\u201d vira \u201cdeficiente f\u00edsico\u201d, \u201ctortura\u201d vira \u201ct\u00e9cnica de interroga\u00e7\u00e3o aprimorada\u201d (e, por que n\u00e3o, \u201cestupro\u201d poderia se tornar \u201ct\u00e9cnica aprimorada de sedu\u00e7\u00e3o\u201d).<\/p>\n<p>Vale insistir nesse paralelo entre tortura e estupro: e se um filme mostrasse um estupro brutal dessa mesma forma neutra, alegando que deve-se evitar o moralismo barato e come\u00e7ar a pensar no estupro em toda sua complexidade? Nossas entranhas nos dizem que existe algo de terrivelmente errado aqui: eu gostaria de viver em uma sociedade em que o estupro \u00e9 simplesmente considerado inaceit\u00e1vel, de forma que qualquer um que argumente em seu favor \u00e9 visto como um idiota exc\u00eantrico, n\u00e3o em uma sociedade em que \u00e9 preciso argumentar contra ele. O mesmo vale para a tortura: um sinal de progresso \u00e9tico \u00e9 o fato de a tortura ser \u201cdogmaticamente\u201d rejeitada como repulsiva, sem nenhuma necessidade de argumenta\u00e7\u00e3o. Mas e o argumento \u201crealista\u201d: a tortura sempre ocorreu, se bobear at\u00e9 mais no passado (recente), ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 melhor ao menos falarmos publicamente sobre ela? Esse, exatamente, \u00e9 o problema: se a tortura sempre ocorreu,\u00a0<i>por que aqueles que agora est\u00e3o no poder passaram a falar abertamente sobre ela?<\/i>\u00a0S\u00f3 h\u00e1 uma resposta: para normaliz\u00e1-la, isto \u00e9, para rebaixar nossos padr\u00f5es \u00e9ticos.<\/p>\n<p>E \u00e9 crucial ver essa regress\u00e3o \u00e9tica como o obverso do desenvolvimento explosivo do capitalismo global \u2013 s\u00e3o dois lados da mesma moeda. Ent\u00e3o como ficamos hoje? Perto do museu das crian\u00e7as em Seoul h\u00e1 uma est\u00e1tua esquisita que, aos n\u00e3o-iniciados, n\u00e3o pode sen\u00e3o parecer a representa\u00e7\u00e3o de uma cena de extrema obscenidade: parece um grupo de meninos, enfileirados um atr\u00e1s do outro, enfiando suas cabe\u00e7as dentro do reto do colega em frente, enquanto o menino da frente porta-se de p\u00e9 e virado de frente para os outros, tamb\u00e9m com a cabe\u00e7a do primeiro colega enfiada em sua virilha.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/jogo-virilha_zizek.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-41256\" alt=\"jogo virilha_zizek\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/jogo-virilha_zizek-300x174.jpg\" width=\"300\" height=\"174\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/jogo-virilha_zizek-300x174.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/jogo-virilha_zizek.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quando inquerimos, somos informados que a est\u00e1tua \u00e9 simplesmente a representa\u00e7\u00e3o do\u00a0<i>malttukbakgi<\/i>, um divertido jogo que tanto meninas quanto meninos coreanos jogam at\u00e9 o colegial. S\u00e3o dois times; o time A deixa uma pessoa de p\u00e9 encostada na parede enquanto o resto do time fica com a cabe\u00e7a enfiada na bunda\/virilha de algu\u00e9m de modo a formarem o que parece ser um grande cavalo. O time B ent\u00e3o monta no cavalo humano um a um, pulando com o m\u00e1ximo de for\u00e7a poss\u00edvel; se algu\u00e9m de algum time cair no ch\u00e3o, seu time perde.<\/p>\n<p>Essa est\u00e1tua n\u00e3o \u00e9 a met\u00e1fora perfeita para n\u00f3s, pessoas comuns, para nosso predicamento no capitalismo global de hoje? Nossa perspectiva \u00e9 constrangida ao que podemos ver com nossa cabe\u00e7a presa \u00e0 bunda de um cara logo \u00e0 frente de n\u00f3s, e nossa ideia de quem \u00e9 nosso Mestre \u00e9 o cara de p\u00e9 na frente cujo p\u00eanis e\/ou bolas o primeiro cara da fileira parece estar lambendo \u2013 mas o verdadeiro Mestre, invis\u00edvel para n\u00f3s, \u00e9 aquele livremente pulando nas nossas costas, o movimento aut\u00f4nomo do capital.<\/p>\n<p>Como, ent\u00e3o, devemos proceder em tal enrascada? Existe um maravilhoso verbo comum usado na Esc\u00f3cia,\u00a0<i>tartle<\/i>, que designa o momento desconfort\u00e1vel em que um falante temporariamente esquece o nome de algu\u00e9m (geralmente o nome de seu interlocutor em uma conversa). O verbo \u00e9 ent\u00e3o usado para contornar aquele constrangimento ocasional, como em: \u201cDesculpe, eu\u00a0<i>tartl<\/i>ei ali por um momento!\u201d N\u00e3o est\u00e1vamos todos\u00a0<i>tartl<\/i>ando nas \u00faltimas d\u00e9cadas, esquecendo o nome \u201ccomunismo\u201d para designar o horizonte fundamental de nossas lutas emancipat\u00f3rias? \u00c9 tempo de plenamente relembrar essa palavra \u2013 sua plena reabilita\u00e7\u00e3o p\u00fablica ter\u00e1 sido por si s\u00f3 um aut\u00eantico evento pol\u00edtico.<\/p>\n<p><i>Slavoj \u017di\u017eek descreveu\u00a0<\/i><i><a href=\"http:\/\/outroslivros.lojavirtualfc.com.br\/prod,IDLoja,23256,IDCategoria,198053,internet\"  target=\"_blank\"><b>Cypherpunks (compre em nossa loja)<\/b><\/a><\/i><i>, de<b>\u00a0Julian Assange<\/b>, como\u00a0\u201dleitura obrigat\u00f3ria para qualquer pessoa realmente interessada nas nossas liberdades.\u201d<\/i><\/p>\n<p><b>Assista abaixo ao debate entre \u017di\u017eek e David Horowitz n\u2019O Mundo Amanh\u00e3, de Julian Assange (com legendas em portugu\u00eas):<\/b><\/p>\n<p>httpv:\/\/www.youtube.com\/watch?v=BDNResrkqmM<\/p>\n<p>______________________________<\/p>\n<p><i>Slavoj \u017di\u017eek \u00e9 um fil\u00f3sofo e te\u00f3rico cr\u00edtico esloveno. \u00c9 professor da European Graduate School e pesquisador s\u00eanior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. \u00c9 tamb\u00e9m professor visitante em v\u00e1rias universidades norte-americanas, entre as quais a Universidade de Columbia, Princeton, a New School for Social Research, de Nova Iorque, e a Universidade de Michigan.<\/i><\/p>\n<p><i>Publicado em ingl\u00eas na revista\u00a0<\/i><i><a href=\"http:\/\/www.newstatesman.com\/culture\/2014\/02\/slavoj-%C5%BEi%C5%BEek-what-authentic-political-event\"  target=\"_blank\">New Statesman<\/a><\/i><i>, em 12 de fevereito de 2014.<\/i><\/p>\n<p><i>Tradu\u00e7\u00e3o Artur Renzo.<\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outras-palavras.net\/outrasmidias\/?p=16874\" >Go to Original \u2013 outras-palavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assange se auto designa um \u201cespi\u00e3o para o povo\u201d: \u201cespiar para o povo\u201d n\u00e3o \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o direta da espionagem (o que seria antes agir como um agente duplo, vendendo nossos segredos para o inimigo) mas sua auto-nega\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, ele mina o pr\u00f3prio princ\u00edpio universal da espionagem, o principio do sigilo, j\u00e1 que seu objetivo \u00e9 tornar p\u00fablicos os segredos. Funciona portanto de forma semelhante \u00e0 forma pela qual a \u201cditadura do proletariado\u201d marxiana deveria ter funcionado (mas raramente o fez, \u00e9 claro).<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-41253","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41253","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41253"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41253\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41253"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41253"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41253"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}