{"id":41551,"date":"2014-03-31T12:00:30","date_gmt":"2014-03-31T11:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=41551"},"modified":"2015-05-05T21:35:09","modified_gmt":"2015-05-05T20:35:09","slug":"portugues-otan-na-ucrania-e-o-mesmo-que-misseis-em-cuba-diz-moniz-bandeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/03\/portugues-otan-na-ucrania-e-o-mesmo-que-misseis-em-cuba-diz-moniz-bandeira\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Otan na Ucr\u00e2nia \u00e9 o mesmo que m\u00edsseis em Cuba, diz Moniz Bandeira"},"content":{"rendered":"<p><i>Em entrevista \u00e0 Carta Maior, o historiador Moniz Bandeira fala sobre a crise na Ucr\u00e2nia, suas implica\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas e possibilidades de escalada.<\/i><\/p>\n<p>&#8220;A crise na Ucr\u00e2nia evidencia e confirma a an\u00e1lise da pol\u00edtica internacional, consubstanciada em no meu livro <i>A Segunda Guerra Fria &#8211; Geopol\u00edtica e dimens\u00f5es estrat\u00e9gicas dos Estados Unidos (Das rebeli\u00f5es na Eur\u00e1sia \u00e0s \u00c1frica do Norte e ao Oriente M\u00e9dio)<\/i>. A R\u00fassia n\u00e3o vai tolerar que a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) estenda sua m\u00e1quina de guerra \u00e0s fronteiras da R\u00fassia, nem que posicione um escudo antim\u00edsseis nos territ\u00f3rios da Pol\u00f4nia e da Rep\u00fablica Tcheca&#8221;. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 do cientista pol\u00edtico e historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, em entrevista \u00e0 Carta Maior. A presen\u00e7a da OTAN na Ucr\u00e2nia, comparou o historiador, representa, para a R\u00fassia, a mesma amea\u00e7a que os m\u00edsseis em Cuba representavam para os EUA em 1962.<\/p>\n<p><b>Carta Maior: Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre os fatos que se sucederam ao plebiscito na Crimeia que decidiu pela anexa\u00e7\u00e3o dessa regi\u00e3o \u00e0 R\u00fassia?<\/b><\/p>\n<p><b>Moniz Bandeira<\/b>: N\u00e3o houve propriamente anexa\u00e7\u00e3o, mas, de fato e de direito, uma reincorpora\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Aut\u00f4noma da Crimeia \u00e0 R\u00fassia, aprovada por 96,77% dos 83,10% dos votantes, uma participa\u00e7\u00e3o massiva, no referendum convocado pelo Parlamento regional. Essa pen\u00ednsula permaneceu virtualmente sob a soberania da R\u00fassia, desde o Tratado de K\u00fc\u00e7\u00fck Kaynarca, firmado com o Imp\u00e9rio Otomano, em 1774, durante do reinado da imperatriz Catarina II, a Grande (1729 \u20131796). Como lembrou o presidente Vladimir Putin foram os bolcheviques que, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de 1917, cederam, sem considera\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, territ\u00f3rios russos que formam atualmente o sudeste da Ucr\u00e2nia, para a qual, em 1954, Nikita Khrushiov, secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista da URSS, transferiu, por iniciativa pessoal, a Crimeia, juntamente com Sevast\u00f3pol.<\/p>\n<p>A iniciativa de reintegrar-se \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o Russa constituiu uma rea\u00e7\u00e3o ao golpe perpetrado pelas storm-troopers, grupos treinados, armados e organizados, militarmente, na Litu\u00e2nia e na Pol\u00f4nia, com fardas da antiga divis\u00e3o SS Galitzia <i>(Waffen-Grenadier-Division der SS\/galizische SS-Division Nr. 1)<\/i>, formada pelos ucranianos que se aliaram \u00e0s for\u00e7as da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Foram essas mil\u00edcias do Setor de Direita <i>(Pravyi Sektor<\/i>) e do Svoboda do (Partido Liberdade), que, em fevereiro, conquistaram o poder em Kiev.<\/p>\n<p>O polit\u00f3logo h\u00fangaro-americano, George Friedman, presidente da Stratfor, companhia especializada em global intelligence, embora escrevesse que \u201cn\u00e3o sabe o que ocorreu em Kiev\u201d, referindo-se hipocritamente ao <i>putsch<\/i> contra o presidente Viktor Yanukovych, reconheceu que \u201chouve certamente muitas organiza\u00e7\u00f5es financiadas com dinheiro americano e europeu que estavam comprometidas com a reforma do governo\u201d (<i>Geopolitical Weekly &#8211; March 18, 2014<\/i>).<\/p>\n<p>Foram essas ONGs que promoveram as demonstra\u00e7\u00f5es &#8211; com dois senadores americanos \u00e0 frente &#8211; John McCain (Partido Republicano) e Christopher Murphy (Partido Democrata) \u2013 e possibilitaram a captura do poder pelos neonazistas do Setor de Direita e do Svodoba,\u00a0 disc\u00edpulos ideol\u00f3gicos de Stepan Andrijowytsch Bandera (1909-1959), anti-semita e anti-russo, aliado de Hitler na Segunda Guerra Mundial. O banqueiro Arseniy \u201cYats\u201d Yatsenyuk, candidato de Vict\u00f3ria Nulands (famosa pela frase <i>\u201cFuck the EU\u201d<\/i>), autoproclamou-se primeiro-ministro\u00a0 e colocou os neonazistas em postos chaves do governo.<\/p>\n<p>O almirante Ihor Yosypovych Tenyukh, ministro interino de Defesa da Ucr\u00e2nia \u00e9 alto dirigente do Svoboda; Dmytro Yarosh, fundador do Setor de Direito, outro partido neonazista, \u00e9 o vice-presidente do Conselho de Defesa e Seguran\u00e7a Nacional. O poder em Kiev est\u00e1, de fato, nas m\u00e3os de Oleh Yaroslavovych Tyahnybok, o l\u00edder neonazista do Svoboda, inimigo declarado do que chama de \u201cm\u00e1fia judaico-russa\u201d. Com esse governo ilegal, sem legitimidade, oriundo de <i>putsch<\/i>, foi que a Uni\u00e3o Europeia firmou no dia 21 de mar\u00e7o um tratado de livre com\u00e9rcio.<\/p>\n<p><b>Carta Maior: Qual sua avalia\u00e7\u00e3o sobre o atual est\u00e1gio da crise na Ucr\u00e2nia?<\/b><\/p>\n<p><b>Moniz Bandeira<\/b>: Um conhecido meu, que vive em Kiev, relatou, por e-mail, que esses grupos neonazistas, que deram o golpe de Estado, a pretexto de integra\u00e7\u00e3o com a Uni\u00e3o Europeia, gritando \u201cdemocracia\u201d e \u201cliberdade\u201d, continuam a aterrorizar os russos e os e os ucranianos de l\u00edngua materna russa, bem como os fi\u00e9is da Igreja Ortodoxa Russa. Se o governo de Viktor Yanukovych era ruim, corrupto \u2013 disse ele &#8211; os neonazistas que assumiram o poder s\u00e3o muito piores. S\u00e3o lumpens armados, bandidos, terroristas, e a situa\u00e7\u00e3o em Kiev continua muito perigosa.<\/p>\n<p>A cidade est\u00e1 fervilhando, com milhares da gangs nazistas, de diferentes movimentos locais, absolutamente ensandecidos e est\u00fapidos. E o banditismo e o terror, que atormentam Kiev, atingem quase todas as regi\u00f5es da Ucr\u00e2nia. Nas cidades do leste, principalmente em Donetsk e Lugansk, onde predominam os russos e pr\u00f3-R\u00fassia, os conflitos com as gangs neonazistas n\u00e3o cessam porque a maior parte da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o aceita e n\u00e3o reconhece o governo instalado em Kiev. A Crimeia \u00e9 a \u00fanica regi\u00e3o onde a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 boa, calma, n\u00e3o h\u00e1 banditismo nem terrorismo, porque est\u00e1 sob o controle das tropas da Federa\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n<p><b>Carta Maior: Quais as consequ\u00eancias para a Ucr\u00e2nia e o Ocidente (Estados Unidos e Uni\u00e3o Europeia) da reincorpora\u00e7\u00e3o da Crimeia pela R\u00fassia?<\/b><\/p>\n<p><b>Moniz Bandeira<\/b>: As consequ\u00eancias s\u00e3o v\u00e1rias e complexas e da\u00ed a histeria dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia. A Crimeia \u00e9 uma das maiores regi\u00f5es no Mar Negro para a explora\u00e7\u00e3o da g\u00e1s e petr\u00f3leo. A produ\u00e7\u00e3o de g\u00e1s aumentou, em 2013, cerca de 40%, com a abertura dos campos de Odessa e Stormovoe na Bacia do Mar Negro. A extra\u00e7\u00e3o atingiu o n\u00edvel de 1,5 bcm por ano. Um dos maiores dep\u00f3sitos de \u00f3leo e g\u00e1s est\u00e1 na \u00e1rea do estreito de Kerch, que liga o Mar Negro ao Mar de Azov. O governo da Crimeia logo anunciou a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos gasodutos e campos operados pelas companhias estatais da Ucr\u00e2nia &#8211; ChornomorNaftogaz e Ukrtransgaz \u2013 incluindo o subsolo, no litoral do Mar Negro,\u00a0 e as grandes companhias petrol\u00edferas &#8211; Royal Dutch Shell Plc (RDSA), Exxon Mobil Corp. (XOM) Shell e Chevron Corp, Eni Span. (ENI) haviam firmado contratos com o governo de Kiev para a prospec\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s, nessa regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao reintegrar a Crimeia \u00e0 R\u00fassia, o presidente Vladimir Putin deu not\u00e1vel golpe nas pretens\u00f5es dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia. Bloqueou o acesso f\u00edsico de Kiev \u00e0s virtuais fontes de energia no Mar Negro e assustou as empresas petrol\u00edferas que l\u00e1 estavam dispostas a investir. Um cons\u00f3rcio, que inclu\u00eda a Exxon e Royal Dutch Shell Plc (RDSA) planejava investir US$735 perfurar dois campos &#8211; Skifska e Foroska &#8211; a 80km no sudoeste do litoral da Crimeia. Mas sem a Crimeia, Kiev n\u00e3o mais tem jurisdi\u00e7\u00e3o sobre seu litoral, e tamb\u00e9m sobre o Mar de Azov, e a Ucr\u00e2nia perde importante \u00e1rea submarina, cuja produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo poderia alcan\u00e7ar o montante de 70 milh\u00f5es de cru por ano, o que a tornaria menos dependente da R\u00fassia em termos de energia.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia consome anualmente cerca 55 bilh\u00f5es de metros c\u00fabicos (bcm) de g\u00e1s, dos quais 50 por cento importa da R\u00fassia. E a estimativa \u00e9 a de que as reservas de g\u00e1s, na bacia do Mar Negro, possam conter de 4 trilh\u00f5es a 13 trilh\u00f5es de metros c\u00fabicos. Com um investimento de US$ 8 bilh\u00f5es a US$9 bilh\u00f5es, a produ\u00e7\u00e3o poderia alcan\u00e7ar um n\u00edvel de 9,7 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos por ano por volta de 2030. O controle dessa riqueza, que os Estados Unidos pretendiam ganhar atrav\u00e9s da ades\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, passou, juntamente com a Crimeia, para a R\u00fassia.<\/p>\n<p>As companhias petrol\u00edferas ter\u00e3o certamente de fazer novas negocia\u00e7\u00f5es e a\u00ed com as autoridades de Simferopol e de Moscou. A Gazprom j\u00e1 solicitou permiss\u00e3o \u00e0s autoridades da Crimeia para explorar as reservas do litoral. E a Ucr\u00e2nia, com uma economia improdutiva, ter\u00e1 outros grandes preju\u00edzos. Necessita de US$ 25 bilh\u00f5es, em 2014, para cobrir o enorme d\u00e9ficit da conta corrente e pagar aos credores estrangeira. Somente com R\u00fassia, o d\u00e9bito \u00e9 de US$16 bilh\u00f5es, conforme informou ao presidente Putin, o primeiro-ministro Dmitry Medvedev, em reuni\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a da R\u00fassia.\u00a0 E a d\u00edvida com a Gazprom pelo fornecimento de g\u00e1s alcan\u00e7ou o valor de US$1,8 bilh\u00e3o em fevereiro de 2014.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, suas reservas monet\u00e1rias somam apenas US$12 bilh\u00f5es. A perspectiva \u00e9 de instabilidade social e volatilidade pol\u00edtica, sobretudo quando o governo de Kiev aplicar as medidas de austeridades impostas pelo FMI, Estados Unidos e Uni\u00e3o Europeia para conceder algum bailout.<\/p>\n<p><b>Carta Maior: Quais foram os fatores determinantes para o golpe que derrubou o presidente Viktor Yanukovych? Qual foi o peso do recuo na assinatura do acordo de livre com\u00e9rcio com a Uni\u00e3o Europeia? <\/b><\/p>\n<p><b>Moniz Bandeira<\/b>: Os fatores foram v\u00e1rios e as ONGs, financiadas por entidades dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia, e os partidos neonazistas, aproveitaram as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas para fomentar as demonstra\u00e7\u00f5es na pra\u00e7a Maidan. Por\u00e9m, um dos principais fatores, foi o fato de que, em 21 de abril de 2010, o presidente Viktor Yanukovych, ap\u00f3s ser eleito presidente da Ucr\u00e2nia contra Yulia Tymoshenko, anunciou um novo acordo, firmado, em Kharkov, com o ent\u00e3o presidente da R\u00fassia, Dmitry Medvedev, estendendo o arrendamento da base naval de Sevast\u00f3pol, no Mar Negro. O acordo, que devia expirar em 2017, foi prorrogado por mais 25 anos, at\u00e9 2042, com a possibilidade de ser estendido por mais cinco anos.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, a R\u00fassia investiria no desenvolvimento econ\u00f4mico e social de Sevast\u00f3pol, al\u00e9m de reduzir em 30%, abaixo da cota\u00e7\u00e3o do mercado, o pre\u00e7o do g\u00e1s natural fornecido \u00e0 Ucr\u00e2nia, estimado em US$40 bilh\u00f5es.\u00a0 O acordo de Kharkov previa, como no tempo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a realiza\u00e7\u00e3o de projetos conjuntos, em setores estrat\u00e9gicos, tais como, inter alia, energia nuclear e avia\u00e7\u00e3o, e permitiria a Ucr\u00e2nia retomar um ritmo sustent\u00e1vel de crescimento.\u00a0 E, outrossim, o acordo evitava que a Ucr\u00e2nia aderisse \u00e0 OTAN, cuja carta impedia que qualquer dos seus membros instalasse bases no seu territ\u00f3rio, at\u00e9 o fim do arrendamento pela R\u00fassia. A crise, desde ent\u00e3o, estava a fermentar, at\u00e9 que a proposta do acordo para a associa\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e tratado de livre com\u00e9rcio, por diversos motivos, voltou \u00e0 agenda em 2013. Esta seria, provavelmente, uma forma de anular o acordo de Kharkov, firmado em 2010.<\/p>\n<p>O presidente Vladimir Putin sempre se manifestou disposto a n\u00e3o tolerar que a OTAN estendesse sua m\u00e1quina de guerra \u00e0s fronteiras da R\u00fassia, amea\u00e7ando-lhe a posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, nem o estacionamento do escudo antim\u00edsseis nos territ\u00f3rios da Pol\u00f4nia e da Rep\u00fablica Tcheca.<\/p>\n<p>Ao perceber o objetivo dos Estados Unidos e das demais pot\u00eancias ocidentais, a amea\u00e7a impl\u00edcita nas suas iniciativas militares, visando a assumir o controle do Mediterr\u00e2neo e eliminar a influ\u00eancia da R\u00fassia e da China no Oriente M\u00e9dio e no Magreb, bem como isolar politicamente o Ir\u00e3, ele restaurou a frota russa, no Atl\u00e2ntico, e expandiu a frota no Mediterr\u00e2neo, que passou a contar, a partir de 2012, com onze vasos de guerra \u2013 Aleksandr Shabalin, Almirante Nevelskoy, Peresve, Novocherkassk, Minsk, Nikolay Fylchenkov, ademais de um grande\u00a0 navio anti-submarino &#8211;\u00a0 Almirante Panteleyev \u2013 um navio de escolta &#8211; Neustrashimy\u2019 &#8211;\u00a0 um navio de patrulha \u2013 Smetlivy \u2013 e um cruzador\u00a0 anti m\u00edsseis \u2013 Moskva.<\/p>\n<p>A amplia\u00e7\u00e3o do porto de Tartus, na S\u00edria, como base naval para sua frota no Mar Negro, j\u00e1 havia come\u00e7ado. E o que os Estados Unidos e os pa\u00edses da Europa certamente pretendiam era instalar em Damasco um governo que acabasse com essa base naval, interligada com a base naval de Sevast\u00f3pol, no Mar Negro, impedindo o acesso da R\u00fassia \u00e0s \u00e1guas quentes do Mediterr\u00e2neo. Da\u00ed que o presidente Vladimir Putin, com grande habilidade, conseguiu impedir que o presidente Barack Obama cometesse a insensata aventura de bombardear a S\u00edria e forneceu ao governo de Bashar al-Assad os modernos e eficientes sistemas antim\u00edsseis &#8211; SS-N-26, para a defesa da costa, e o SA-21 (S-300 PMU2) para defesa a\u00e9rea \u2013 a fim de enfrentar qualquer interven\u00e7\u00e3o estrangeira.<\/p>\n<p>A crise, que voltou a eclodir na Ucr\u00e2nia, est\u00e1 interligada, de um modo ou de outro, com a situa\u00e7\u00e3o na S\u00edria, onde o presidente Bashar al-Assad est\u00e1 retomando o controle de todo o pa\u00eds. Inserem-se no mesmo contexto da guerra fria, que recome\u00e7ou, ap\u00f3s um interregno, uma vez que a pol\u00edtica de Washington n\u00e3o se desviou, em nenhum momento, da diretriz tra\u00e7ada pelo general Colin Powell no sentido de impedir a Uni\u00e3o Europeia de tornar-se uma pot\u00eancia militar, fora da OTAN, e a remilitariza\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o e da R\u00fassia, e desencorajar qualquer desafio \u00e0 sua preponder\u00e2ncia ou tentativa de reverter a ordem econ\u00f4mica e pol\u00edtica internacionalmente estabelecida. (<i>The Military Strategy of the United States \u2013 1991-1992<\/i>).<\/p>\n<p><b>Carta Maior: O que o Brasil tem a ver com essa crise? Qual deve ser, na sua opini\u00e3o, a posi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica eterna brasileira neste caso?<\/b><\/p>\n<p><b>Moniz Bandeira<\/b>: O Brasil n\u00e3o deve envolver-se na crise da Ucr\u00e2nia. Seus interesses nacionais e estrat\u00e9gicos n\u00e3o s\u00e3o os mesmos dos Estados Unidos nem da Uni\u00e3o Europeia. O Brasil tem neg\u00f3cios com a Ucr\u00e2nia, o projeto da empresa binacional Alc\u00e2ntara Cyclone Space (ACS), firmado em 21 de outubro de 2003. Trata-se de um acordo de coopera\u00e7\u00e3o a longo prazo entre os dois pa\u00edses, para entrar no mercado internacional de lan\u00e7amentos espaciais. O munic\u00edpio de Alc\u00e2ntara, no Maranh\u00e3o, apenas 2\u00b0 ao sul da Linha do Equador \u2013 onde \u00e9 maior a velocidade de rota\u00e7\u00e3o da Terra \u2013 permite um impulso natural para o voo do foguete e possibilita a realiza\u00e7\u00e3o de lan\u00e7amentos para qualquer dire\u00e7\u00e3o a partir de um \u00fanico ponto.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia iria fornecer a tecnologia e os equipamentos, que antes fabricava para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, nas ind\u00fastrias situadas no leste, particularmente em Donetsk e Lugansk. Esse projeto, embora sofresse atraso devido aos problemas financeiros da Ucr\u00e2nia, que n\u00e3o p\u00f4de integralizar o capital, havida sido ultimamente retomado.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos, por\u00e9m, sempre foram contra e, se controlam o governo de Kiev, podem inviabiliz\u00e1-lo. Por outro, o Brasil n\u00e3o pode reconhecer uma governo ilegal, sem legitimidade, e manifestar-se contra a R\u00fassia, que n\u00e3o cometeu nenhuma agress\u00e3o contra a Ucr\u00e2nia. A Crim\u00e9ia j\u00e1 era uma Rep\u00fablica Aut\u00f4noma, dentro da Ucr\u00e2nia, e seu Parlamento decidiu, legalmente, convocar um referendum e a maioria esmagadora votou pela reunifica\u00e7\u00e3o com a R\u00fassia, que n\u00e3o a invadiu. Suas tropas j\u00e1 estavam dentro em Sevast\u00f3pol, na Crimeia, uma Rep\u00fablica Aut\u00f4noma, de conformidade com o acordo de Kharkov.<\/p>\n<p><b>Carta Maior: O presidente Putin ganhou mais uma disputa do presidente Obama, como ocorreu no caso da S\u00edria? A pol\u00edtica externa da R\u00fassia est\u00e1 melhor preparada neste momento?<\/b><\/p>\n<p><b>Moniz Bandeira<\/b>: Sim. O presidente Vladimir Putin \u00e9 o maior estadista da atualidade. Ganhou mais um lance no xadrez da pol\u00edtica internacional. A R\u00fassia tem uma larga experi\u00eancia e \u00e9 mais pragm\u00e1tica. A diplomacia nos Estados Unidos \u00e9 conduzida, por\u00e9m, por amadores, embriagados pela ideologia do \u201cexcepcionalismo\u201d da Am\u00e9rica, como <i>\u201cthe indispensable nation\u201d<\/i>. E, embora haja nos Estados Unidos not\u00e1vel elite acad\u00eamica e intelectual, com profundo e claro conhecimento dos outros pa\u00edses, a Am\u00e9rica profunda ignora o resto do mundo. E \u00e9 essa Am\u00e9rica profunda, que elege a maioria do Congresso e, portanto, influi tamb\u00e9m na pol\u00edtica exterior, mais e mais militarizada, com base na cren\u00e7a da invencibilidade do seu poderio militar, conquanto, como reconheceu o pr\u00f3prio ex-presidente Bill Clinton, os Estados Unidos n\u00e3o tenham vencido nenhuma guerra desde 1945.<\/p>\n<p>O fato de que o presidente Barack Obama se afoitou e logo reconheceu o governo instalado em Kiev pelos neonazistas e recebeu na Casa Branca o autoproclamado primeiro-ministro da Ucr\u00e2nia, o banqueiro Arseniy \u201cYats\u201d Yatsenyuk, evidenciou sua incapacidade como chefe de governo e de Estado. Esse governo n\u00e3o \u00e9 legal, n\u00e3o tem legitimidade e, qualquer que seja a evolu\u00e7\u00e3o da crise, o status quo na Ucr\u00e2nia inevitavelmente se manter\u00e1. A situa\u00e7\u00e3o na Ucr\u00e2nia \u00e9 extremamente vol\u00e1til. E o que \u00e9 doloroso \u00e9 ver que a Uni\u00e3o Europeia se deixa subordinar pelos Estados Unidos, avassalada por meio da OTAN, convertida em gendarme global, cujos comandantes d\u00e3o opini\u00f5es, fazem amea\u00e7as e ditam diretrizes pol\u00edticas, como se fossem chefes de Estados. As san\u00e7\u00f5es contra a R\u00fassia s\u00e3o in\u00f3cuas. N\u00e3o reverter\u00e3o \u00e0 Crimeia \u00e0 Ucr\u00e2nia. Trata-se de um fato consumado.\u00a0 E, se as san\u00e7\u00f5es forem realmente efetivadas, afetar\u00e3o, sobretudo, as economias da Fran\u00e7a e da Alemanha, onde se prev\u00ea que a suspens\u00e3o das encomendas militares da R\u00fassia levar\u00e1 mais de 350.000 trabalhadores ao desemprego.<\/p>\n<p><b>Carta Maior: Parece haver um lobby se constituinte na imprensa brasileira e ocidental contra a posi\u00e7\u00e3o da R\u00fassia. Como o senhor v\u00ea o comportamento da m\u00eddia neste caso?<\/b><\/p>\n<p><b>Moniz Bandeira<\/b>: Um grande amigo meu escreveu-me que \u201c\u00e9 muito preocupante notar que a imprensa e TV ocidentais escamoteiam completamente a situa\u00e7\u00e3o na Ucr\u00e2nia, que j\u00e1 me fora relatada por outros residentes em Kiev. Esses meios de comunica\u00e7\u00e3o, que temos parecem os da Alemanha nazista ou a dos pa\u00edses comunistas! Vivemos como no filme &#8220;Farenheit 452&#8243;&#8230;\u201d Esse filme, dirigido e lan\u00e7ado em 1966, por Fran\u00e7ois Truffaut, constituiu uma adapta\u00e7\u00e3o da novela de Ray Bradbury, mostrando o futuro da sociedade americana, onde os livros seriam proibidos e destru\u00eddos por autocombust\u00e3o do papel.<\/p>\n<p>No governo do presidente George W. Bush (2001-2009), Donald Rumsfeld, como secret\u00e1rio de Defesa, criou sigilosamente dentro do Pent\u00e1gono, o <i>Office of Strategic Influence (OSI)<\/i>, com a tarefa de consistiu em manipular a opini\u00e3o p\u00fablica, com falsas informa\u00e7\u00f5es, e promover <i>psychological operations<\/i> (PSYOP), o mesmo objetivo do Minist\u00e9rio da Informa\u00e7\u00e3o Popular e Propaganda do Reich nazista, dirigido por Joseph Goebbels, autor da li\u00e7\u00e3o de que \u201cuma mentira deve ser somente muitas vezes repetida e ent\u00e3o ela se torna cr\u00edvel\u201d (<i>Eine L\u00fcge muss nur oft genug wiederholt werden. Dann wird sie geglaubt<\/i>). O MI6 \u2014 <i>Secret Intelligence Service <\/i>(SIS) \u2014 do Reino Unido possui igualmente uma para <i>Information Operations <\/i>(I\/Ops) encarregada de planejar as opera\u00e7\u00f5es de guerra psicol\u00f3gica, como antes faziam a <i>Special Political Action (SPA)<\/i> e o <i>Information Research Department (IRD)<\/i>. Esses \u00f3rg\u00e3o t\u00eam como fun\u00e7\u00e3o, <i>inter alia<\/i>, plantar, na imprensa, falsas est\u00f3rias, rumores e desinforma\u00e7\u00e3o, por meio de <i>off-the-record briefing<\/i> e <i>double-sourcing<\/i>, i.e., confirmadas por outro agente contratado para essa fun\u00e7\u00e3o. A remunera\u00e7\u00e3o era paga a editores, via um <i>offshore bank<\/i> em acess\u00edvel para\u00edso fiscal. Todo esse processo eu demonstro, documentadamente, em meu livro <i>A Segunda Guerra Fria &#8211; Geopol\u00edtica e Dimens\u00e3o Estrat\u00e9gica dos Estados Unidos (Das rebeli\u00f5es na Eur\u00e1sia \u00e0 \u00c1frica do Norte e ao Oriente M\u00e9dio)<\/i>.<\/p>\n<p><b>Carta Maior: Na sua avalia\u00e7\u00e3o, h\u00e1 o risco de uma escalada militar nesta crise?<\/b><\/p>\n<p><b>Moniz Bandeira<\/b>: Em uma confronta\u00e7\u00e3o militar entre a R\u00fassia e os Estados Unidos h\u00e1 sempre o risco de uma escala\u00e7\u00e3o da guerra convencional para o uso de armas nucleares.\u00a0 Da\u00ed que um confronto militar entre os Estados e a R\u00fassia afigura-me absolutamente imposs\u00edvel, ademais de que, ao que tudo indica, o eleitorado americano n\u00e3o esteja a favor de qualquer envolvimento na Ucr\u00e2nia. O povo alem\u00e3o tamb\u00e9m. De qualquer forma, a instala\u00e7\u00e3o de base militar da OTAN na Ucr\u00e2nia a R\u00fassia n\u00e3o aceitar\u00e1. A amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a da R\u00fassia equivale, na percep\u00e7\u00e3o do presidente Vladimir Putin, \u00e0 mesma que o estabelecimento de plataformas de m\u00edsseis em Cuba representava para os Estados Unidos, em 1962.<\/p>\n<p>A R\u00fassia n\u00e3o \u00e9 nenhuma pot\u00eancia emergente. \u00c9 uma antiga pot\u00eancia, que derrotou as for\u00e7as de Napole\u00e3o e de Hitler. Herdou, como sucessora jur\u00eddica, vasto arsenal estrat\u00e9gico e n\u00e3o-estrat\u00e9gico (t\u00e1tico) de armas nucleares da extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, mais ou menos cerca de 1.800 ogivas nucleares estrat\u00e9gicas operacionais, reservas de 2.700, contra 1.950 operacionais e 2.500 de reserva dos Estados Unidos. Possui atualmente 558 plataformas estrat\u00e9gicas, com capacidade para carregar 2.500 ogivas nucleares, e disparar novos m\u00edsseis bal\u00edsticos intercontinentais (ICBMs) \u2013 seis variantes, entre os quais R-36M2, UR-100NUTTH, Topol-M e Yars. Tamb\u00e9m disp\u00f5e de novos submarinos nucleares estrat\u00e9gicos, com m\u00edsseis bal\u00edsticos (SSBN), o projeto 667BDR Kalmar, baseados na frota do Pac\u00edfico, em Rybachiy, e seis projetos 667BDRM Delfin, integrando a frota do Nordeste na ba\u00eda de Yagelnaya.<\/p>\n<p>O poderio nuclear da R\u00fassia \u00e9 mais ou menos igual ao dos Estados Unidos. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica n\u00e3o foi militarmente derrotada. O que esbarrondou foi um regime socialista estatal, aut\u00e1rquico, dentro de uma economia mundial de mercado. E n\u00e3o creio na possibilidade de showdown militar da OTAN com a R\u00fassia, nem mesmo com for\u00e7as convencionais. Cerca de 60% do abastecimento de g\u00e1s da Uni\u00e3o Europeia passa pela Ucr\u00e2nia e seria, necessariamente, destru\u00eddo. \u00c9 prov\u00e1vel, entretanto, que ocorram conflitos militares locais.<\/p>\n<p>As prov\u00edncias do leste da Ucr\u00e2nias, sobretudo, Donetsk e Lugansk tendem fortemente a realizar plebiscito para reintegrar-se \u00e0 R\u00fassia com a qual tem estreitos la\u00e7os n\u00e3o apenas \u00e9tnicos, mas econ\u00f4micos. E Moscou pode intervir se o governo de Kiev, que n\u00e3o conta com o apoio de toda a popula\u00e7\u00e3o, e seus partid\u00e1rios intensificarem a repress\u00e3o contra a os que se manifestam pr\u00f3-R\u00fassia no leste ou em outras regi\u00f5es da Ucr\u00e2nia. De modo geral, a perspectiva n\u00e3o \u00e9 tranquila em toda a regi\u00e3o. \u00c9 imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Otan-na-Ucrania-e-o-mesmo-que-misseis-em-Cuba-diz-Moniz-Bandeira\/6\/30582\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista \u00e0 Carta Maior, o historiador Moniz Bandeira fala sobre a crise na Ucr\u00e2nia, suas implica\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas e possibilidades de escalada.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-41551","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41551","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41551"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41551\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}