{"id":41587,"date":"2014-03-31T12:00:01","date_gmt":"2014-03-31T11:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=41587"},"modified":"2015-05-05T21:35:09","modified_gmt":"2015-05-05T20:35:09","slug":"portugues-o-jornalismo-de-hoje-uma-escolha-entre-o-mercado-e-as-pessoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/03\/portugues-o-jornalismo-de-hoje-uma-escolha-entre-o-mercado-e-as-pessoas\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Jornalismo de Hoje: Uma Escolha Entre o Mercado e as Pessoas"},"content":{"rendered":"<p><i>A tarefa do jornalismo p\u00f3s-Reagan (ou do p\u00f3s-\u00e1pice do neoliberalismo) \u00e9 corrigir a escala de valores e recolocar o homem no centro do mundo. <\/i><\/p>\n<p>Por ser uma pessoa com uma longa carreira na profiss\u00e3o, me foi pedido para proporcionar \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es minha opini\u00e3o sobre o que \u00e9 o jornalismo.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, em pouco mais de uma gera\u00e7\u00e3o, o jornalismo viveu profundas mudan\u00e7as. Cabe recordar que ele foi criado pelas elites. No apogeu da era colonial, o Times de Londres tinha uma circula\u00e7\u00e3o de apenas 50 mil exemplares, todas para a elite e os funcion\u00e1rios p\u00fablicos do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico.<\/p>\n<p>O jornalismo s\u00f3 se transformou em um meio de \u201cmassas\u201d quando, no s\u00e9culo 19, os Estados Unidos receberam uma onda de imigrantes e precisaram adaptar seu jornalismo \u00e0s necessidades de seu \u201ccadinho de culturas\u201d, no qual milh\u00f5es de pessoas de diferentes lugares e antecedentes tiveram que se adaptar a ou assumir a identidade americana.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que surge o jornalismo moderno, com sua bagagem das denominadas \u201ct\u00e9cnicas\u201d devidamente estudadas nas escolas de jornalismo. Por exemplo: todas as not\u00edcias devem conter um \u201cquem, onde, quando e como\u201d ou \u201cse um cachorro morde um homem n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia, mas se um homem morte um cachorro, \u00e9\u201d, e assim sucessivamente. No entanto, ap\u00f3s uma an\u00e1lise cuidadosa, essas t\u00e9cnicas n\u00e3o ensinam como ser um jornalista melhor, mas indicam como empacotar a informa\u00e7\u00e3o da maneira mais clara e atraente para o leitor m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Desde a cria\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, um elemento muito importante da profiss\u00e3o jornal\u00edstica \u00e9 que voc\u00ea \u00e9 respons\u00e1vel diante de seus leitores. Espera-se que voc\u00ea os ilustre, para que conhe\u00e7am seu tempo e seu mundo. Pediu-se aos jornalistas que proporcionassem esse v\u00ednculo da maneira mais equilibrada e justa poss\u00edvel, apresentando seus textos com informa\u00e7\u00f5es oriundas de diferentes pontos de vista e fontes. Os diretores dos meios basicamente compartilham desse ponto de vista deontol\u00f3gico, mas na \u00f3tica de seus interesses pessoais, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Os jornais foram capazes de sobreviver ao surgimento do r\u00e1dio e da televis\u00e3o, com cada um desses tr\u00eas meios de comunica\u00e7\u00e3o adotando um caminho especializado. Mas, depois de ter trabalhado nos tr\u00eas, estou convencido de que o mundo da informa\u00e7\u00e3o mudou com dois eventos, sem d\u00favida alguma: a chegada da internet e a presid\u00eancia de Ronald Reagan.<\/p>\n<p>A internet marcou o come\u00e7o de uma mudan\u00e7a de \u00e9poca: pela primeira vez na hist\u00f3ria, as pessoas podiam ter acesso \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma estrutura vertical, na qual poucos enviam fatos e pontos de vista a um grande n\u00famero de destinat\u00e1rios, um processo em uma s\u00f3 dire\u00e7\u00e3o que os regimes autorit\u00e1rios ou ditatoriais foram r\u00e1pidos em utilizar para apoiar suas rela\u00e7\u00f5es verticais com os cidad\u00e3os. Ao contr\u00e1rio, a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo horizontal, no qual os que enviam tamb\u00e9m est\u00e3o prontos para receber. \u00c9 por isso que a China tem 30 mil censores em tempo real para o monitoramento da rede.<\/p>\n<p>Com o aparecimento da internet, os meios de comunica\u00e7\u00e3o foram de repente desafiados como guardi\u00f5es da sociedade. Permitam-me dar apenas um exemplo: a voz das mulheres. Na Primeira Confer\u00eancia Mundial sobre a Mulher, organizada pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas em 1975, as vozes das mulheres nos meios de comunica\u00e7\u00e3o eram muito escassas e marginais.<\/p>\n<p>Na Quarta Confer\u00eancia Mundial sobre a Mulher de Pequim, em 1995, a cobertura midi\u00e1tica foi igualmente pat\u00e9tica, se excluirmos os quase 80% da cobertura jornal\u00edstica da confer\u00eancia que foi dada a Hillary Clinton (mulher do ent\u00e3o presidente dos Estados Unidos). A cobertura midi\u00e1tica n\u00e3o abordou temas reais das mulheres, mas sim o que aconteceu na confer\u00eancia. O importante \u00e9 que, na confer\u00eancia de Pequim, as mulheres chamaram para si a responsabilidade utilizando a internet para criar uma plataforma comum, marginalizando os funcion\u00e1rios \u2013 em sua maioria, homens. Sem sombra de d\u00favidas, as mulheres com consci\u00eancia de g\u00eanero em todo o mundo n\u00e3o podiam depender dos meios de comunica\u00e7\u00e3o para divulgar a informa\u00e7\u00e3o que queriam. Gra\u00e7as \u00e0 internet, de repente foram criadas milhares de redes para discutir os temas reais da mulher, quest\u00f5es que os meios n\u00e3o eram capazes de tratar em profundidade. O mesmo acontece com os direitos humanos, o meio ambiente, a sociedade civil etc., nos quais os meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem competir.<\/p>\n<p>O segundo fato importante foi registrado em 1981, com a chegada de Ronald Reagan \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos. Um homem que, habilmente assessorado pela primeira ministra brit\u00e2nica Margaret Thatcher, quase sozinho alterou o pr\u00f3prio conceito das rela\u00e7\u00f5es internacionais, at\u00e9 ent\u00e3o baseadas na ideia de coopera\u00e7\u00e3o internacional. Reagan foi o primeiro pol\u00edtico que deu respostas simples a perguntas complexas, as que foram os \u201cbytes\u201d de suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Desdenhou do movimento ecologista ao declarar: \u201cAs \u00e1rvores causam mais contamina\u00e7\u00e3o do que os autom\u00f3veis\u201d. Reduziu os impostos para os ricos asseverando que \u201cos ricos produzem riqueza, os pobres a utilizam\u201d. Thatcher fez eco: \u201c&#8230; n\u00e3o existe essa coisa de sociedade. Existem homens e mulheres, individualmente\u201d.<\/p>\n<p>Foi nesse per\u00edodo que as Na\u00e7\u00f5es Unidas come\u00e7aram a entrar em decl\u00ednio e, bem como a ideia do desenvolvimento e da solidariedade internacional. O lema do dia foi: \u201cCom\u00e9rcio, n\u00e3o Ajuda\u201d. O Consenso de Washington , que defende o desmantelamento do Estado de Bem-estar e a redu\u00e7\u00e3o de tudo o que \u00e9 p\u00fablico, foi impulsionado em todo o mundo pelo Banco Mundial, pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) e pelo Departamento do Tesouro dos EUA. Essa nova vis\u00e3o de mundo penetrou em todas as institui\u00e7\u00f5es internacionais, especialmente na Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Logo o Muro de Berlim foi derrubado, em 1989. E a vit\u00f3ria n\u00e3o era simplesmente de um lado contra o outro, ou seja, do capitalismo contra o socialismo. Foi \u201cO fim da hist\u00f3ria\u201d, como escreveu Francis Fukuyama em 1992. A globaliza\u00e7\u00e3o havia chegado, e todos conhecemos os resultados. As 300 pessoas mais ricas do mundo t\u00eam a mesma riqueza que outras 3 bilh\u00f5es de pessoas. E, durante os \u00faltimos cinco anos, 75% de toda a riqueza produzida foi destinada ao 1% dos j\u00e1 imensamente ricos. Os cem homens mais ricos do planeta aumentaram sua riqueza em 2012, at\u00e9 chegar ao equivalente aos or\u00e7amentos nacionais de Brasil e Canad\u00e1.<\/p>\n<p>Eu defendo que ambos os fatores tiveram um impacto muito profundo nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e em seu sistema de valores. Os jornais diminu\u00edram sua circula\u00e7\u00e3o, pois um n\u00famero crescente de jovens n\u00e3o os compra, e o r\u00e1dio e a televis\u00e3o s\u00e3o utilizados devido a seu valor de entretenimento. Eles recorrem \u00e0 internet, em que podem adaptar sua informa\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise di\u00e1rias de acordo com seus interesses. Como consequ\u00eancia, os meios de comunica\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o um bom neg\u00f3cio e a rea\u00e7\u00e3o foi concentr\u00e1-los com a finalidade de reduzir os custos.<\/p>\n<p>Rupert Murdoch \u00e9 o melhor exemplo desse fen\u00f4meno. A concentra\u00e7\u00e3o se traduziu em uma redu\u00e7\u00e3o de diversidade e estilo. Desde que Murdoch o assumiu, o Times, de Londres, \u201cperdeu\u201d 20% de seu vocabul\u00e1rio. A linguagem perdeu valor liter\u00e1rio, usando ora\u00e7\u00f5es mais curtas em que os adjetivos s\u00e3o \u201cproibidos\u201d. A cobertura mundial, que \u00e9 complexa, vai perdendo espa\u00e7o. Enquanto a homogeneiza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o era antes um fen\u00f4meno superestrutural, agora est\u00e1 chegando a n\u00edvel nacional.<\/p>\n<p>Isso foi acompanhado por uma s\u00e9ria mudan\u00e7a de deontologia. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam que vender para sobreviver. A informa\u00e7\u00e3o se tornou cada vez orientada a eventos, e n\u00e3o a processos. O soci\u00f3logo noruegu\u00eas Johan Galtung escreveu, na d\u00e9cada de 1970, sobre uma \u201cescala de valores da informa\u00e7\u00e3o\u201d: o que ocorre perto de voc\u00ea vende mais do que aquilo que \u00e9 de longe. Uma pessoa conhecida vender\u00e1 mais do que um cidad\u00e3o comum; algo dram\u00e1tico e pouco usual vende mais do que uma an\u00e1lise econ\u00f4mica pouco atrativa, ou o que se pode descrever como normalidade. O negativo atrais mais do que o positivo, e assim sucessivamente. Pois bem, isso agora chegou ao extremo.<\/p>\n<p>O primeiro jornal online, o Huffington Post, abriu suas p\u00e1ginas para o mundo todo. Paga-se conforme o n\u00famero de cliques que um texto recebe. O que compensa mais: um texto sobre as hist\u00f3rias de amor do presidente franc\u00eas, Fran\u00e7ois Hollande, ou um sobre suas pol\u00edticas relacionadas ao emprego? Como resultado, as pessoas interessadas sobre a quest\u00e3o central do impacto das pol\u00edticas de austeridade devastadoras na Europa podem clicar aqui (<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.troikawatch.net\/2nd-newsletter-of-troikawatch\" >http:\/\/www.troikawatch.net\/2nd-newsletter-of-troikawatch<\/a>) e encontrar o que os meios n\u00e3o proporcionam.<\/p>\n<p>Falo por experi\u00eancia pessoal. Cansado do fato de meus amigos estarem menos informados do que eu sobre temas globais, comecei um servi\u00e7o de informa\u00e7\u00e3o di\u00e1ria (Other News) com crit\u00e9rios de uma ag\u00eancia de not\u00edcias, mas usando a internet como fonte, e n\u00e3o os jornalistas, a fim de ser capaz de proporcionar um servi\u00e7o gratuito. Dos 60 destinat\u00e1rios originais, agora j\u00e1 s\u00e3o mais de 20 mil usu\u00e1rios em ingl\u00eas e espanhol. Se voc\u00ea estiver interessado, clique em <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.other-news.info\/noticias\" >http:\/\/www.other-news.info\/noticias<\/a> e veja o que n\u00e3o encontrar\u00e1 em seu trabalho di\u00e1rio. Milhares de ativistas sociais, funcion\u00e1rios internacionais e acad\u00eamicos j\u00e1 enviaram mensagens de agradecimento por lhes ter proporcionado outro horizonte&#8230; o que um bispo chamou de \u201ca outra cara da lua\u201d.<\/p>\n<p>O verdadeiro problema \u00e9 que o jornalismo se converteu em t\u00e3o somente um espelho de nosso tempo, abdicando de qualquer fun\u00e7\u00e3o social, para limitar-se a ser um abastecedor da informa\u00e7\u00e3o como uma mercadoria. Nossos temos est\u00e3o marcados pelo neoliberalismo, e v\u00edcios como a cobi\u00e7a e o individualismo se transformaram em virtudes exaltadas por Hollywood e pela homogeneiza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Os valores do desenvolvimento, consagrados em todas as constitui\u00e7\u00f5es modernas, eram a justi\u00e7a social, a igualdade, a solidariedade e a participa\u00e7\u00e3o, entre outros. Pelo contr\u00e1rio, a globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a riqueza e o \u00eaxito, o triunfo do indiv\u00edduo, com o Mercado no lugar do homem. O desenvolvimento \u00e9 um processo ao final do qual voc\u00ea \u00e9 mais \u2013 a globaliza\u00e7\u00e3o significa ter mais.<\/p>\n<p>Cabe acrescentar a essa mudan\u00e7a de valores o fator sem precedentes de que hoje gastamos mais (per capta) em publicidade do que em educa\u00e7\u00e3o; que as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas perderam a vis\u00e3o e a ideologia para se transformar em pragm\u00e1ticas (de fato, utilit\u00e1rias), com cada vez menos participa\u00e7\u00e3o das pessoas; que o mundo das finan\u00e7as se apoderou do mundo da produ\u00e7\u00e3o em termos globais (um bilh\u00e3o de d\u00f3lares ao dia na produ\u00e7\u00e3o, 40 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em transa\u00e7\u00f5es financeiras); que agora temos apologistas de uma \u201cnova economia\u201d, que conceitualizam o desemprego estrutural como uma necessidade. \u00c9 isso o que est\u00e1 refletido no espelho.<\/p>\n<p>Em 1980, o analista financeiro norte-americano Bernard Baruch provocou um esc\u00e2ndalo quando defendeu que o gerente de uma empresa pode ganhar 50 vezes o sal\u00e1rio de seus trabalhadores. Agora, passamos a mais de 500 vezes, e a dist\u00e2ncia continua crescendo. A cada m\u00eas, os bancos s\u00e3o multados em dezenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares por atividades fraudulentas, mas isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia, e a mesma coisa acontece com as revela\u00e7\u00f5es da corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica. Basicamente, as pessoas de deram por vencidas. Ou j\u00e1 renunciaram ou se converteram em passivas, auxiliadas pelo efeito anest\u00e9sico de programas de televis\u00e3o como o Big Brother.<\/p>\n<p>Para salvar os bancos, gastamos o equivalente a mil d\u00f3lares por habitante. Em 2012, apenas na Espanha, salvar os bancos foi mais caro do que o or\u00e7amento anual para sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o&#8230; mas s\u00e3o incapazes de proporcionar uma alimenta\u00e7\u00e3o adequada para cerca de 1 bilh\u00e3o de pessoas, e o n\u00famero de obesos encurta a dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de pessoas desnutridas. A London School of Economics publicou um estudo em que, para 2030, projeta-se um retorno aos tempos da rainha Vit\u00f3ria, quando um fil\u00f3sofo desconhecido chamado Karl Marx estava na biblioteca do Museu Brit\u00e2nico escrevendo seus ensaios sobre o capital, o trabalho e a explora\u00e7\u00e3o, e elaborando seu manifesto.<\/p>\n<p>Encontramo-nos em uma etapa de transi\u00e7\u00e3o entre um mundo que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel \u2013 um mundo no qual as finan\u00e7as n\u00e3o t\u00eam quem lhes dite normas e um capitalismo em roda livre que est\u00e1 avan\u00e7ando em dire\u00e7\u00e3o a sua destrui\u00e7\u00e3o \u2013, um mundo que deve encontrar a governan\u00e7a global. Somos incapazes de resolver apenas um problema global, desde o meio ambiente t\u00e9 a fome, desde o desarme nuclear at\u00e9 a imigra\u00e7\u00e3o, atoe os controles sobre o capital nos para\u00edsos fiscais (onde est\u00e1 depositado dez vezes o capital necess\u00e1rio para resolver a fome, a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o em todo o mundo). E assim poder\u00edamos continuar e continuar.<\/p>\n<p>Tudo isso mostra como estamos falhando para assegurar um mundo melhor para as gera\u00e7\u00f5es vindouras. \u00c9 sabido que a \u00e9tica protestante foi amplamente aclamada como mais estrita do que a \u00e9tica cat\u00f3lica. No entanto, nos \u00faltimos anos, Wall Street e a City se converteram em ninho de cobi\u00e7a e de fraudes sem precedentes.<\/p>\n<p>Atualmente, o Papa Francisco \u00e9 a \u00fanica voz em defesa dos pobres, lutando por justi\u00e7a social, denunciando a desigualdade e exortando a paz e a coopera\u00e7\u00e3o. Mas quem na escola de neg\u00f3cios ou na faculdade de economia escutou falar da doutrina social crist\u00e3?<\/p>\n<p>Portanto, existe a necessidade de um novo jornalismo, e n\u00e3o apenas de uma atualiza\u00e7\u00e3o do anterior. Est\u00e1 claro que n\u00e3o ser\u00e1 um trabalho associado ao glamour e \u00e0 boa vida, tal como foi at\u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o atr\u00e1s. Inclusive, os meios de comunica\u00e7\u00e3o que sobrevivem est\u00e3o reduzindo custos (em outras palavras, demitindo seu pessoal). Aos rep\u00f3rteres, paga-se por texto, e n\u00e3o muito.<\/p>\n<p>E os meios sociais, para sobreviver, precisam de publicidade e aten\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o dificultadas devido \u00e0 enorme oferta da internet. Portanto, para aqueles que querem ser jornalistas nos dias de hoje, a primeira li\u00e7\u00e3o \u00e9: se o fizer, deve ser porque acredita que est\u00e1 fazendo uma coisa \u00fatil, e que a est\u00e1 realizando quando faz&#8230; do contr\u00e1rio, v\u00e1 trabalhar em um banco, onde h\u00e1 menos estresse e mais dinheiro e respeito. Mas, atualmente, poucas profiss\u00f5es oferecem um impacto t\u00e3o importante, necess\u00e1rio e quantific\u00e1vel na sociedade.<\/p>\n<p>A tarefa do jornalismo p\u00f3s-Reagan (ou, para ser menos provocativo, do p\u00f3s-\u00e1pice do neoliberalismo, que agora est\u00e1 perdendo o brilho) \u00e9 corrigir a escala de valores e recolocar o homem no centro do mundo. Isso n\u00e3o deveria ocorrer como resultado dos ensinos do Papa Francisco. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio usar a gra\u00e7a da f\u00e9 para se dar conta de que esse mundo \u00e9 muito injusto e polarizado, em que a classe m\u00e9dia est\u00e1 se reduzindo. Os novos jornalistas devem estar conscientes de que o status quo est\u00e1 mantendo uma situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel para bilh\u00f5es de pessoas, especialmente para as mulheres, as crian\u00e7as e os jovens. Portanto, ele\/ela devem evitar as armadilhas que ajudam o status quo.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 cair no mito da objetividade. Os fil\u00f3sofos e os cientistas lhes dir\u00e3o que ela n\u00e3o existe. Aqueles que est\u00e3o surfando com \u00eaxito nas ondas da globaliza\u00e7\u00e3o lhes dir\u00e3o que seja objetivo e, para s\u00ea-lo, n\u00e3o deve escutar e reportar sobre minorias descontentes. A \u00fanica maneira de ver o pa\u00eds \u00e9 por meio da macroeconomia, que divide a riqueza por habitante, e n\u00e3o da microeconomia, que se det\u00eam em fatores complicados, como o n\u00edvel de renda, a redistribui\u00e7\u00e3o, a mobilidade social, e assim sucessivamente. Em nome da objetividade, \u00e9 preciso se informar sobre o que o sistema diz, sem ficar entorpecido com tantas vozes diferentes na rua. Os pol\u00edticos s\u00e3o eleitos, os l\u00edderes da sociedade civil n\u00e3o s\u00e3o. Apenas as estat\u00edsticas oficiais s\u00e3o confi\u00e1veis. As estat\u00edsticas da Oxfam sobre a fome ou as do Greenpeace sobre o meio ambiente n\u00e3o s\u00e3o objetivas. O mesmo acontece com as conclus\u00f5es do Grupo Intergovernamental de Especialistas para o Controle do Clima, que defende a tomada de decis\u00f5es ambientais para salvar o planeta e que \u00e9 contra o crescimento econ\u00f4mico e nosso estilo de vida. Quando pedirem que voc\u00eas sejam objetivos, abram seus ouvidos: est\u00e3o lhes pedindo para ajudar o status quo.<\/p>\n<p>A segunda armadilha consiste em acreditar que apenas quem det\u00e9m o poder det\u00e9m toda a informa\u00e7\u00e3o e, portanto, est\u00e1 mais capacitado para dar declara\u00e7\u00f5es. Eles t\u00eam toda a informa\u00e7\u00e3o, mas frequentemente n\u00e3o a leem, ou fazem pouco caso dela quando n\u00e3o se adapta a seus pontos de vista. Nunca ningu\u00e9m na hist\u00f3ria teve tanta informa\u00e7\u00e3o como o governo dos EUA, que, como a Ag\u00eancia Nacional de Seguran\u00e7a (NSA), controla todas as comunica\u00e7\u00f5es do planeta. Isso representou uma melhoria na pol\u00edtica norte-americana?<\/p>\n<p>A terceira armadilha \u00e9: voc\u00ea \u00e9 mais respeit\u00e1vel porque tem maior acesso ao poder estabelecido. Isso \u00e9 apenas uma forma de coopta\u00e7\u00e3o. A respeitabilidade deve ser com voc\u00ea mesmo, ser capaz de fazer o correto, e isso n\u00e3o \u00e9 o que est\u00e3o fazendo. Dar voz aos sem poder, \u00e0s pessoas reais, e n\u00e3o aos ganhadores em um mundo de cassinos.<\/p>\n<p>E todos os n\u00fameros os apoiar\u00e3o: a grande maioria n\u00e3o est\u00e1 no 1% que det\u00e9m 54% dos recursos do mundo, mas sim entre os 75% que det\u00eam apenas 15%. essa \u00e9 a realidade de nosso tempo e temos que dar voz aos 75% e a seus problemas para encontrar uma vida cotidiana digna. Quando observamos o mundo, devemos ser igualmente capazes de sublinhar o que pode significar a paz e a justi\u00e7a internacional, assim como expor as consequ\u00eancias da guerra e da injusti\u00e7a. Tudo isso deve ser realizado com um crit\u00e9rio profissional simples: dar voz a todas as partes, e informar da maneira mais fiel poss\u00edvel o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que um jornalista hoje n\u00e3o pode permanecer sempre imparcial. Tomemos como exemplo a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. N\u00e3o se pode colocar os interesse das companhias petroleiras e os da ra\u00e7a humana no mesmo n\u00edvel. Ao fazer isso, perpetua-se um mito que \u00e9 o resultado de uma vis\u00e3o peculiar do mundo, inclusive se n\u00e3o tiver qualquer base cient\u00edfica: de que o mercado vai redistribuir a riqueza, com um efeito domin\u00f3 at\u00e9 o \u00faltimo ser humano no mundo, eliminando as guerras e a pobreza. Sob esse enfoque, deve-se levar em conta que as companhias petroleiras oferecem trabalho a dezenas de milhares de pessoas, e que quando mais dinheiro ganham, melhor ser\u00e1 para todos n\u00f3s \u2013 a mesma l\u00f3gica que levou a Corte Suprema dos EUA a determinar que as corpora\u00e7\u00f5es t\u00eam os mesmos direitos que as pessoas, e que portanto podem contribuir livremente e sem limita\u00e7\u00e3o nas campanhas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Atualmente, os jornalistas t\u00eam uma ferramenta inestim\u00e1vel com a qual n\u00e3o cont\u00e1vamos no meu tempo: a possibilidade de pesquisar na internet, entrevistas pessoas sem a necessidade de viajar e se reunir com elas, inclusive com o uso de telefones inteligentes para aplica\u00e7\u00f5es como Skype, ou com uma c\u00e2mera de v\u00eddeo. Nos meus dias, os custos das comunica\u00e7\u00f5es e das viagens eram enormes, e a norma era ter um fot\u00f3grafo conosco. Uma equipe de televis\u00e3o era composta por pelo menos cinco pessoas, com mais de 300 quilos de equipamentos. Atualmente, \u00e9 o jornalista com seu smartphone, e isso \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>Estamos vivendo em tempos diferentes \u2013 em muitos sentidos, melhores \u2013, mas com um grande avan\u00e7o na tecnologia, o que confere a um jornalista a liberdade para investigar. O problema, portanto, \u00e9 o que Leonardo da Vinci chamou de \u201csaper vedere\u201d: ser capaz de ver. O jornalismo, enfim, \u00e9 a capacidade de ver e colocar o que se observou em uma ordem adequada para comunicar a seus leitores. O que faz a diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 a forma de escrever, mas a capacidade de observar.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que estamos em uma \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o para um novo mundo dif\u00edcil de prever. Antonio Gramsci, um pensador comunista italiano, escreveu em seus Cadernos do C\u00e1rcere: \u201cO velho mundo est\u00e1 morrendo \u00e0 dist\u00e2ncia e o novo mundo luta para nascer: chegou o momento dos monstros\u201d. Precisamos de um novo jornalismo que nos conduzir\u00e1 atrav\u00e9s desse s\u00e9culo, identificar\u00e1 os monstros e converter\u00e1 as vozes da humanidade em seu conjunto em uma rota em dire\u00e7\u00e3o ao novo mundo.<br \/>\n_____________________________<\/p>\n<p><i>Roberto Savio: Cofundador e ex-Diretor Geral do Inter Press Service (IPS). Nos \u00faltimos anos, tamb\u00e9m fundou o Other News, um servi\u00e7o que proporciona \u201cinforma\u00e7\u00e3o eliminada pelos mercados\u201d<\/i>.<\/p>\n<p><i>Tradu\u00e7\u00e3o: Daniella Camba\u00fava.<\/i><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Midia\/O-jornalismo-de-hoje-uma-escolha-entre-o-mercado-e-as-pessoas\/12\/30598\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O verdadeiro problema \u00e9 que o jornalismo se converteu em t\u00e3o somente um espelho de nosso tempo, abdicando de qualquer fun\u00e7\u00e3o social, para limitar-se a ser um abastecedor da informa\u00e7\u00e3o como uma mercadoria. Nossos temos est\u00e3o marcados pelo neoliberalismo, e v\u00edcios como a cobi\u00e7a e o individualismo se transformaram em virtudes exaltadas por Hollywood e pela homogeneiza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-41587","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41587","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41587"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41587\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41587"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41587"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41587"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}