{"id":41835,"date":"2014-04-07T14:24:01","date_gmt":"2014-04-07T13:24:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=41835"},"modified":"2015-05-05T21:35:06","modified_gmt":"2015-05-05T20:35:06","slug":"portugues-no-limite-da-senciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/04\/portugues-no-limite-da-senciencia\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) No Limite da Senci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/animais-sentientes-cnid\u00e1rios.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-41836\" alt=\"animais sentientes cnid\u00e1rios\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/animais-sentientes-cnid\u00e1rios-300x105.jpg\" width=\"300\" height=\"105\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/animais-sentientes-cnid\u00e1rios-300x105.jpg 300w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/animais-sentientes-cnid\u00e1rios.jpg 850w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>De tempos em tempos somos surpreendidos por \u201cnovas descobertas cient\u00edficas\u201d no que diz respeito ao sentimento de dor em animais. Recente estudo da Universidade do Texas demonstrou o que qualquer pessoa que j\u00e1 tenha manipulado ou observado cefal\u00f3podes deveria saber: Polvos e lulas s\u00e3o capazes de sentir dor.<\/p>\n<p>Estudo semelhante, de uma universidade da Irlanda do Norte, havia constatado n\u00e3o muito antes que lagostas, camar\u00f5es, caranguejos e siris sentem dor \u2013 nada que qualquer pessoa que j\u00e1 tenha sido abordada por vendedores de lagostas frescas no litoral do Nordeste brasileiro n\u00e3o pudesse saber, pois quando o vendedor aperta os olhos do animal esse pula de dor. \u00c9 a prova que o vendedor usa para demonstrar que a lagosta est\u00e1 t\u00e3o fresca quanto viva, e para o cliente a prova de que esses animais sentem, de fato, dor.<\/p>\n<p>E quem n\u00e3o conhece a express\u00e3o \u201ccomo um siri na lata\u201d? Esses animais s\u00e3o costumeiramente fervidos vivos e n\u00e3o h\u00e1 tampa de panela que os segure quando a \u00e1gua se aquece. \u00c9 necess\u00e1rio colocar tijolos ou outros pesos para que os animais n\u00e3o escapem. Ora, o que seria essa for\u00e7a muitas vezes superior as suas capacidades naturais sen\u00e3o uma tentativa desesperada de fugir a dor?<\/p>\n<p>Esse mesmo estudo considera razo\u00e1vel concluir que o mesmo se aplique a outros artr\u00f3podes, tais como os insetos e aranhas, que possuem sistema nervoso semelhante. Mas podemos ir mais longe: Qualquer pessoa que j\u00e1 tenha batido uma picareta na terra e partido, sem querer, uma minhoca ao meio, deve t\u00ea-la visto pulando e se contorcendo. Isso \u00e9 sinal externo de dor.<\/p>\n<p>Em 07 de julho de 2012, um grupo de proeminentes cientistas da \u00e1rea das neuroci\u00eancias se reuniu, na Universidade de Cambridge, para declarar que devido as semelhan\u00e7as entre o c\u00e9rebro humano e o c\u00e9rebro de outros vertebrados, podemos inferir que esses animais n\u00e3o-humanos tamb\u00e9m s\u00e3o conscientes e sujeitos ao mesmo estado interno pelos quais passamos no que se refere as emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nada que algu\u00e9m que conviva com animais j\u00e1 n\u00e3o saiba. N\u00e3o precisamos saber qu\u00e3o complexo \u00e9 seu sistema nervoso e se o animal possui nociceptores, basta observar o animal em seu comportamento di\u00e1rio. De que forma o animal se comporta perante est\u00edmulos potencialmente ou efetivamente danosos?<\/p>\n<p>O animal manifesta sintomas de ansiedade, t\u00e9dio, irrita\u00e7\u00e3o, ou pelo contr\u00e1rio, alegria, satisfa\u00e7\u00e3o ou afeto? Muitas pessoas tendem a crer que apenas os animais mais pr\u00f3ximos de n\u00f3s s\u00e3o pass\u00edveis de sentimentos, enquanto que os mais distantes ou menos simp\u00e1ticos s\u00e3o praticamente animais-m\u00e1quinas cartesianos. Nada mais longe da verdade.<\/p>\n<p>A dor, embora uma sensa\u00e7\u00e3o negativa, possui um motivo positivo para existir. Trata-se de um mecanismo evolutivo que alerta o indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o a perigos iminentes, com poss\u00edvel amea\u00e7a \u00e0 vida, possibilitando a fuga ou defesa. Se os animais semoventes n\u00e3o sentissem a dor como uma sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel eles n\u00e3o evitariam os perigos e, por conseguinte, morreriam mais cedo.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil verificar como a sensa\u00e7\u00e3o de dor \u00e9 importante. Pessoas que por algum motivo n\u00e3o sentem dor (hans\u00eanicos ou portadores de Insensibilidade Cong\u00eanita \u00e0 Dor com Anidrose \u2013 CIPA, p. ex.) n\u00e3o se cuidam. Est\u00e3o sempre com os ossos fraturados, com a l\u00edngua mastigada ou com peda\u00e7os de membros arrancados ou cortados. Pessoas com lepra na antiguidade constantemente eram comidas por roedores enquanto dormiam, elas acordavam literalmente com peda\u00e7os de seus corpos desfigurados.<\/p>\n<p>Tratando ainda do sentido evolutivo da dor, fica aqui uma resposta para a ladainha bo\u00e7al carnistas: \u201cE alface, n\u00e3o sente dor?\u201d A resposta \u00e9 que n\u00e3o, at\u00e9 onde sabemos. Alfaces n\u00e3o tem qualquer defesa contra predadores, eles permanecem im\u00f3veis seja l\u00e1 o que se passe no ambiente \u00e0 sua volta. Elas n\u00e3o se movem para perseguir seu alimento, para buscar o sol ou a sombra, nem por qualquer outro motivo.<\/p>\n<p>Sua pr\u00f3pria imobilidade tornaria as sensa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis evolutivamente desnecess\u00e1rias. Al\u00e9m disso, n\u00e3o vemos nada que lembre um sistema nervoso nos vegetais (movimentos como geotropismo, hidrotropismo, fototropismo, quimiotropismoetc n\u00e3o ocorrem de forma intencional e, portanto, n\u00e3o devem ser considerados ind\u00edcios de senci\u00eancia).<\/p>\n<p>E ainda que seja dado aos vegetais o benef\u00edcio da duvida, os animais que comemos consumiram n\u00famero muito maior de vegetais que consumir\u00edamos se os consum\u00edssemos diretamente. Quest\u00e3o de entender a pir\u00e2mide de n\u00edveis tr\u00f3ficos, onde mais alto nos encontramos mais recursos animais e vegetais consumimos.<\/p>\n<p>Embora vegetais supostamente n\u00e3o sintam dor, animais certamente o fazem e \u00e9 nesse ponto que devemos nos concentrar, ao menos em um primeiro momento, nos organismos que evidentemente possuem substrato neurol\u00f3gico que permita a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O ser humano evoluiu, atrav\u00e9s de longo processo gradual, de outras formas de vida animal, tendo a senci\u00eancia surgido ao longo desse processo em tempos muito remotos.<\/p>\n<p>No grupo dos vertebrados todos os organismos partilham estruturas hom\u00f3logas no que diz respeito \u00e0 estrutura cerebral. A Declara\u00e7\u00e3o de Cambridge declara que os substratos neurais das emo\u00e7\u00f5es parecem n\u00e3o estar confinados \u00e0s estruturas corticais, portanto n\u00e3o s\u00e3o exclusivas dos mam\u00edferos mais inteligentes ou do ser humano.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a de que animais agem meramente por instinto n\u00e3o procede, porque no que diz respeito \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es, eles agem exatamente como os seres humanos. N\u00e3o \u00e9 a capacidade de racioc\u00ednio que torna um animal (ou um ser humano, mais ou menos sens\u00edvel \u00e0 dor ou mais ou menos pass\u00edvel de sentimentos).<\/p>\n<p>No entanto, agir como humanos ou \u201cquase\u201d como humanos n\u00e3o \u00e9 o objetivo dos animais n\u00e3o humanos. Tendemos a ver golfinhos, chimpanz\u00e9s, c\u00e3es, papagaios africanos cinzentos e outros animais como quase humanos, seja porque sonham, seja porque s\u00e3o capazes de perceber seu pr\u00f3prio reflexo no espelho e saber que olham para si mesmos (auto-percep\u00e7\u00e3o). Tomar a n\u00f3s mesmos como medida para conferir senci\u00eancia para o outro \u00e9 um grande erro especista.<\/p>\n<p>Sabemos com certeza que, no grupo dos vertebrados, pelo menos mam\u00edferos e aves experimentam o sofrimento psicol\u00f3gico, al\u00e9m da dor f\u00edsica que certamente \u00e9 sentida tamb\u00e9m por todos os demais vertebrados e pela maioria dos invertebrados. No entanto, \u00e9 falho crer que devamos respeitar apenas os direitos de seres auto-conscientes ou capazes de sentirem a dor psicol\u00f3gica, pois a dor f\u00edsica deve ser motivo suficiente para evitarmos caus\u00e1-la.<\/p>\n<p>Porquanto a ci\u00eancia seja falha em poder determinar o limite da senci\u00eancia, creio que devamos adotar o principio da precau\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos sentimentos dos animais. Animais que apresentam sinais externos de dor e estresse certamente sentem dor, mas n\u00e3o apenas eles. Animais que n\u00e3o apresentam sinais perceptivos de dor, mas que fogem propositalmente a est\u00edmulos dolorosos devem ser considerados sencientes, quais sejam.<\/p>\n<p>Animais que apresentam sistema nervoso organizado ou mesmo difuso, como no caso dos cnid\u00e1rios, devem ser organismos sens\u00edveis. Vemos como an\u00eamonas se retraem perante amea\u00e7as, e como buscam ativamente seu alimento mesmo sendo fixas ao substrato. Vemos como hidras, medusas e caravelas forrageiam atr\u00e1s de seu alimento, e como fogem de predadores. Se isso n\u00e3o for senci\u00eancia n\u00e3o sabemos o que \u00e9.<\/p>\n<p>Cnid\u00e1rios s\u00e3o o grupo de invertebrados mais complexo ap\u00f3s os por\u00edferos e neste grupo j\u00e1 encontramos c\u00e9lulas nervosas e c\u00e9lulas sensoriais, j\u00e1 encontramos c\u00e9lulas contr\u00e1teis e toda a maquinaria necess\u00e1ria para perceber o ambiente \u00e0 sua volta e fugir da dor. Esses animais n\u00e3o possuem c\u00e9rebro, mas redes nervosas espalhadas pelo corpo e que de certa forma se coordenam.<\/p>\n<p>Os equinodermos (estrelas do mar, ouri\u00e7os do mar, bolachas do mar, pepinos do mar, ofiuros) s\u00e3o certamente sencientes. N\u00f3s os vemos se protegendo de predadores, buscando intencionalmente abrigos ou intencionalmente buscando seu alimento. Esses animais possuem an\u00e9is nervosos em volta da boca e v\u00e1rios nervos se irradiando da\u00ed para todo o corpo.<\/p>\n<p>Igualmente sencientes devemos considerar todos os vermes (platelmintos, asquelmintos, anel\u00eddeos), com seu sistema nervoso central ainda incipiente, constitu\u00eddo de g\u00e2nglios cerebroides e an\u00e9is nervosos; os moluscos com seu sistema nervoso ganglionar (e n\u00e3o apenas os cefal\u00f3podes, dentro desse grupo, pois mesmo os gastr\u00f3podes e bivalves possuem g\u00e2nglios cerebroides, ped\u00e1licos e viscerais como as lulas e polvos t\u00e3o celebrados como sencientes). E certamente os artr\u00f3podes, com seu sistema nervoso ganglionar.<\/p>\n<p>Ainda necessitamos que a ci\u00eancia valide a senci\u00eancia animal, para que descubra o que j\u00e1 sabemos h\u00e1 tempos, que devemos respeitar seus direitos, por mais distintos que seu organismo seja do nosso.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/01\/04\/2014\/limite-senciencia\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De tempos em tempos somos surpreendidos por \u201cnovas descobertas cient\u00edficas\u201d no que diz respeito ao sentimento de dor em animais. 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