{"id":42636,"date":"2014-05-12T12:00:29","date_gmt":"2014-05-12T11:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=42636"},"modified":"2015-05-05T21:35:00","modified_gmt":"2015-05-05T20:35:00","slug":"portugues-linhas-vermelhas-na-ucrania-e-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/05\/portugues-linhas-vermelhas-na-ucrania-e-no-mundo\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Linhas vermelhas na Ucr\u00e2nia e no mundo"},"content":{"rendered":"<p><em>A crise atual na Ucr\u00e2nia \u00e9 s\u00e9ria e amea\u00e7adora, de tal forma que alguns comentadores comparam-na com a crise dos m\u00edsseis em Cuba, em 1962. A anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia por Putin assusta os l\u00edderes dos EUA, porque desafia a sua domina\u00e7\u00e3o global.<\/em><\/p>\n<p>O colunista Thanassis Cambanis resume o centro da quest\u00e3o no \u201cThe Boston Globe\u201d: \u201cA anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia por [o presidente russo Vladimir] Putin \u00e9 uma rutura da ordem mundial em que os Estados Unidos e os seus aliados confiam desde o fim da <em>guerra fria<\/em>, na qual as grandes pot\u00eancias s\u00f3 interv\u00eam militarmente quando t\u00eam consenso internacional a seu favor ou, na aus\u00eancia dele, quando n\u00e3o cruzam as linhas vermelhas de uma pot\u00eancia rival\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, o crime internacional mais grave desta era, a invas\u00e3o do Iraque pelos Estados Unidos e pela Gr\u00e3-Bretanha, n\u00e3o foi uma rutura da ordem mundial porque, ainda que n\u00e3o tenham obtido apoio internacional, os agressores n\u00e3o cruzaram linhas vermelhas russas ou chinesas.<\/p>\n<p>Em contraste, a anexa\u00e7\u00e3o russa da Crimeia e as suas ambi\u00e7\u00f5es na Ucr\u00e2nia cruzam linhas dos EUA. Em consequ\u00eancia, Obama concentra-se no isolamento da R\u00fassia de Putin, cortando os seus la\u00e7os econ\u00f3micos e pol\u00edticos com o resto do mundo, limitando as suas ambi\u00e7\u00f5es expansionistas na sua pr\u00f3pria vizinhan\u00e7a e convertendo-a de facto num Estado p\u00e1ria, informa Peter Baker no \u201cThe New York Times\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes permite-se a outros pa\u00edses ter linhas vermelhas nas suas fronteiras (onde tamb\u00e9m se localizam as linhas vermelhas dos Estados Unidos). Mas n\u00e3o ao Iraque, por exemplo. Nem ao Ir\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Em resumo, as linhas vermelhas norte-americanas est\u00e3o firmemente colocadas nas fronteiras da R\u00fassia. Portanto, as ambi\u00e7\u00f5es russas na sua pr\u00f3pria vizinhan\u00e7a violam a ordem mundial e criam crise.<\/p>\n<p>Esta posi\u00e7\u00e3o \u00e9 de aplica\u00e7\u00e3o geral. \u00c0s vezes permite-se a outros pa\u00edses ter linhas vermelhas nas suas fronteiras (onde tamb\u00e9m se localizam as linhas vermelhas dos Estados Unidos). Mas n\u00e3o ao Iraque, por exemplo. Nem ao Ir\u00e3o, que Washington amea\u00e7a continuamente com ataques (nenhuma op\u00e7\u00e3o \u00e9 retirada da mesa).<\/p>\n<p>Tais amea\u00e7as violam n\u00e3o s\u00f3 a Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, mas tamb\u00e9m a resolu\u00e7\u00e3o de condena\u00e7\u00e3o da R\u00fassia pela Assembleia Geral, que os Estados Unidos acabam de assinar. A resolu\u00e7\u00e3o come\u00e7a por sublinhar que a Carta da ONU pro\u00edbe a amea\u00e7a ou o uso da for\u00e7a em assuntos internacionais.<\/p>\n<p>A crise dos m\u00edsseis em Cuba tamb\u00e9m p\u00f4s em relevo as linhas vermelhas das grandes pot\u00eancias. O mundo aproximou-se perigosamente da guerra nuclear quando o ent\u00e3o presidente John F. Kennedy recusou a oferta do primeiro-ministro sovi\u00e9tico Nikita Kruschov de p\u00f4r fim \u00e0 crise mediante uma retirada p\u00fablica simult\u00e2nea dos m\u00edsseis sovi\u00e9ticos de Cuba e dos m\u00edsseis norte-americanos da Turquia. (J\u00e1 estava programada a substitui\u00e7\u00e3o dos m\u00edsseis dos Estados Unidos por submarinos Polaris, bem mais letais, parte do enorme sistema que amea\u00e7a destruir a R\u00fassia.)<\/p>\n<p>As amea\u00e7as dos EUA violam n\u00e3o s\u00f3 a Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, mas tamb\u00e9m a resolu\u00e7\u00e3o de condena\u00e7\u00e3o da R\u00fassia pela Assembleia Geral, que os Estados Unidos acabam de assinar. A resolu\u00e7\u00e3o come\u00e7a por sublinhar que a Carta da ONU pro\u00edbe a amea\u00e7a ou o uso da for\u00e7a em assuntos internacionais<\/p>\n<p>Naquele caso tamb\u00e9m, as linhas vermelhas dos Estados Unidos estavam na fronteira da R\u00fassia, o que era um facto aceite por todos os envolvidos.<\/p>\n<p>A invas\u00e3o norte-americana da Indochina, como a do Iraque, n\u00e3o cruzou linhas vermelhas, assim como tantas outras depreda\u00e7\u00f5es norte-americanas no mundo. Para repetir este facto crucial: \u00e0s vezes permite-se aos advers\u00e1rios ter linhas vermelhas, mas nas suas fronteiras, onde tamb\u00e9m est\u00e3o colocadas as linhas vermelhas norte-americanas. Se um advers\u00e1rio tem ambi\u00e7\u00f5es expansionistas na sua pr\u00f3pria comunidade e cruza as linhas vermelhas norte-americanas, o mundo enfrenta uma crise.<\/p>\n<p>No \u00faltimo n\u00famero da revista <em>International Security<\/em>, de Harvard-MIT, o professor Yuen Foong Khong, da Universidade de Oxford, explica que existe uma longa (e bipartid\u00e1ria) tradi\u00e7\u00e3o no pensamento estrat\u00e9gico norte-americano: sucessivos governos t\u00eam posto o \u00eanfase em que o interesse vital dos Estados Unidos \u00e9 prevenir que uma hegemonia hostil domine alguma das principais regi\u00f5es do planeta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, existe consenso em que os Estados Unidos devem manter o seu predom\u00ednio, porque a hegemonia norte-americana \u00e9 que sustentou a paz e a estabilidade regionais, eufemismo que se refere \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o \u00e0s exig\u00eancias norte-americanas.<\/p>\n<p>Como s\u00e3o as coisas, o mundo opina de forma diferente e considera os Estados Unidos um Estado p\u00e1ria e a maior amea\u00e7a \u00e0 paz mundial, sem um competidor que esteja sequer pr\u00f3ximo nas sondagens. Mas, que sabe o mundo?<\/p>\n<p>O artigo de Khong refere-se \u00e0 crise causada pela ascens\u00e3o da China, que avan\u00e7a para a primazia econ\u00f3mica na \u00c1sia e, como a R\u00fassia, tem ambi\u00e7\u00f5es expansionistas na sua pr\u00f3pria vizinhan\u00e7a, que se cruzam com as linhas vermelhas norte-americanas. A recente viagem do presidente norte-americano Obama \u00e0 \u00c1sia tinha o objetivo de reafirmar a longa (e bipartid\u00e1ria) tradi\u00e7\u00e3o, em linguagem diplom\u00e1tica.<\/p>\n<p>A quase universal condena\u00e7\u00e3o do Ocidente a Putin faz refer\u00eancia ao discurso emocional em que o governante russo explicou com amargura que os Estados Unidos e os seus aliados \u201cnos enganaram repetidamente, tomaram decis\u00f5es nas nossas costas e apresentaram-nos factos consumados, com a expans\u00e3o da NATO no Leste, com a localiza\u00e7\u00e3o da infraestrutura militar nas nossas fronteiras. Dizem-nos sempre o mesmo: \u2018Bom, isto n\u00e3o tem a ver convosco\u2019\u201d.<\/p>\n<p>As queixas de Putin t\u00eam sustenta\u00e7\u00e3o em factos. Quando o presidente sovi\u00e9tico Mikhail Gorbachov aceitou a unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha como parte da NATO \u2013 concess\u00e3o espantosa \u00e0 luz da hist\u00f3ria \u2013, houve um interc\u00e2mbio de concess\u00f5es. Washington lembrou que a NATO n\u00e3o se moveria um cent\u00edmetro para o Leste, referindo-se \u00e0 Alemanha Oriental.<\/p>\n<p>A promessa foi rompida de imediato e, quando o presidente sovi\u00e9tico Mikhail Gorbachov se queixou, foi-lhe indicado que era apenas uma promessa verbal, carenciada de validade.<\/p>\n<p>Depois William Clinton procedeu \u00e0 expans\u00e3o da NATO muito mais para leste, para as fronteiras da R\u00fassia. Hoje em dia h\u00e1 quem inste a lev\u00e1-la at\u00e9 \u00e0 pr\u00f3pria Ucr\u00e2nia, bem dentro da vizinhan\u00e7a hist\u00f3rica da R\u00fassia. Mas isso n\u00e3o tem a ver com os russos, porque a responsabilidade dos Estados Unidos de sustentar a paz e a estabilidade requer que as suas linhas vermelhas estejam nas fronteiras russas.<\/p>\n<p>A anexa\u00e7\u00e3o russa da Crimeia foi um ato ilegal, violador do direito internacional e de tratados espec\u00edficos. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil achar algo compar\u00e1vel em anos recentes: a invas\u00e3o de Iraque foi um crime muito mais grave.<\/p>\n<p>No entanto, vem-nos \u00e0 mente um exemplo compar\u00e1vel: o controle norte-americano da ba\u00eda de Guant\u00e1namo, no sudeste de Cuba. Foi arrebatada pela ponta das espingardas a Cuba em 1903, e n\u00e3o foi libertada apesar dos constantes pedidos cubanos desde o triunfo da revolu\u00e7\u00e3o, em 1959.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida que a R\u00fassia tem argumentos mais s\u00f3lidos a seu favor. Ainda sem tomar em conta o forte apoio internacional \u00e0 anexa\u00e7\u00e3o, a Crimeia pertence historicamente \u00e0 R\u00fassia; conta com o \u00fanico porto de \u00e1guas quentes na R\u00fassia e alberga a frota russa, al\u00e9m de ter enorme import\u00e2ncia estrat\u00e9gica. Os Estados Unidos n\u00e3o t\u00eam nenhum direito sobre Guant\u00e1namo, a n\u00e3o ser o seu monop\u00f3lio da for\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es pelas quais Washington recusa devolver Guant\u00e1namo a Cuba, presumivelmente, \u00e9 que se trata de um porto importante, e o controle norte-americano representa um formid\u00e1vel obst\u00e1culo ao desenvolvimento cubano. Esse foi o objetivo principal da pol\u00edtica norte-americana ao longo de 50 anos, que inclui terrorismo em grande escala e guerra econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos dizem-se escandalizados pelas viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos em Cuba, passando por cima do facto de que as piores dessas viola\u00e7\u00f5es se cometem em Guant\u00e1namo; que as acusa\u00e7\u00f5es v\u00e1lidas contra Cuba n\u00e3o se comparam nem de longe com as pr\u00e1ticas regulares entre os clientes latino-americanos de Washington, e que Cuba tem estado submetida a um ataque severo e implac\u00e1vel dos Estados Unidos desde o triunfo da sua revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas nada disto cruza as linhas vermelhas de ningu\u00e9m nem causa uma crise. Cai na categoria das invas\u00f5es norte-americanas da Indochina e do Iraque, do derrube regular de regimes democr\u00e1ticos e da instala\u00e7\u00e3o de impiedosas ditaduras, bem como do nosso horr\u00edvel historial de outros exerc\u00edcios para sustentar a paz e a estabilidade.<\/p>\n<p>____________________________<\/p>\n<p><em>Artigo de Noam Chomsky \u00ab<\/em><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/05\/the-politics-of-red-lines\/\" >The Politics of Red Lines<\/a>\u00bb<em>, publicado em <a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/\" >TRANSCEND Media Service-TMS<\/a> e traduzido para espanhol por Jorge Anaya para <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.jornada.unam.mx\/2014\/05\/03\/index.php?section=opinion&amp;article=022a1mun&amp;partner=rss\" >La Jornada<\/a><\/em><em>. Tradu\u00e7\u00e3o para portugu\u00eas de Carlos Santos para esquerda.net.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/linhas-vermelhas-na-ucrania-e-no-mundo-por-noam-chomsky\/32496\" >Go to Original \u2013 esquerda.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia por Putin assusta os l\u00edderes dos EUA, porque desafia a sua domina\u00e7\u00e3o global. 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