{"id":42823,"date":"2014-05-19T12:00:40","date_gmt":"2014-05-19T11:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=42823"},"modified":"2015-05-05T21:34:58","modified_gmt":"2015-05-05T20:34:58","slug":"portugues-leia-com-exclusividade-mais-trechos-do-livro-de-glenn-greenwald","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/05\/portugues-leia-com-exclusividade-mais-trechos-do-livro-de-glenn-greenwald\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Leia com exclusividade mais trechos do livro de Glenn Greenwald"},"content":{"rendered":"<p><em>Jornalista relata o encontro com Edward Snowden, que revelou aparato de espionagem dos EUA sobre cidad\u00e3os.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_42824\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/glenn-greenwald-brasil.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-42824\" class=\"size-full wp-image-42824\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/glenn-greenwald-brasil.jpg\" alt=\"Glenn Greenwald durante depoimento na Comiss\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Senado, em Bras\u00edlia: revela\u00e7\u00f5es agora em livro Ailton de Freitas\/6-8-2013\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/glenn-greenwald-brasil.jpg 500w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/glenn-greenwald-brasil-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-42824\" class=\"wp-caption-text\">Glenn Greenwald durante depoimento na Comiss\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Senado, em Bras\u00edlia: revela\u00e7\u00f5es agora em livro Ailton de Freitas\/6-8-2013<\/p><\/div>\n<p>Na pr\u00f3xima ter\u00e7a-feira [13 maio 2014] a editora americana Farrar, Straus &amp; Giroux faz o lan\u00e7amento mundial de um dos livros mais esperados do ano: \u201cSem lugar para se esconder\u201d, do ex-advogado e jornalista americano Glenn Greenwald, que conta a hist\u00f3rica den\u00fancia sobre como a Ag\u00eancia de Seguran\u00e7a Nacional americana (NSA) espionava de cidad\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es americanas a governos e empresas de outros pa\u00edses. A arapongagem foi vazada por Edward Snowden, funcion\u00e1rio terceirizado da NSA e as den\u00fancias mexeram com o planeta e renderam v\u00e1rios pr\u00eamios aos jornalistas envolvidos na cobertura do evento \u2014 incluindo o Pulitzer 2014 na categoria servi\u00e7o p\u00fablico \u2014 al\u00e9m de Greenwald, como Laura Poitras, Ewen MacAskill e Barton Gellman.<\/p>\n<p>No Brasil, Greenwald contou, com a colabora\u00e7\u00e3o dos jornalistas Roberto Kaz e Jos\u00e9 Casado, do GLOBO, a espionagem a cidad\u00e3os e empresas no Brasil, trabalho que ganhou o Pr\u00eamio Esso de Melhor Reportagem em 2013. Por aqui, o livro \u201cSem lugar para se esconder\u201d \u00e9 publicado pelo selo Primeira Pessoa, da Editora Sextante, e traz com detalhes os bastidores dessa investiga\u00e7\u00e3o internacional e as opini\u00f5es de Greenwald sobre governos invasivos e sobre a postura por vezes pouco cr\u00edtica da m\u00eddia em rela\u00e7\u00e3o a governos. O GLOBO publica com exclusividade um trecho de \u201cSem lugar para se esconder\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201cSem lugar para se esconder\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>De Glenn Greenwald<\/strong><\/p>\n<p><em>Na quinta-feira, meu quinto dia em Hong Kong, quando cheguei ao quarto de Snowden, ele me disse na hora que tinha uma not\u00edcia &#8220;um pouco alarmante&#8221;. Um equipamento de seguran\u00e7a conectado \u00e0 internet da casa em que ele morava com a namorada de longa data no Hava\u00ed havia detectado que duas pessoas da NSA \u2013 um funcion\u00e1rio de recursos humanos e um &#8220;agente de pol\u00edcia&#8221; da ag\u00eancia \u2013 tinham ido at\u00e9 l\u00e1 \u00e0 sua procura.<\/em><\/p>\n<p><em>Snowden tinha quase certeza de que isso significava que a NSA o identificara como a fonte prov\u00e1vel dos vazamentos, mas eu me mostrei c\u00e9tico.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Se eles achassem que voc\u00ea fez isso, mandariam hordas de agentes do FBI com mandados de busca, e provavelmente equipes da SWAT, n\u00e3o um \u00fanico funcion\u00e1rio da NSA e algu\u00e9m de recursos humanos.<\/em><\/p>\n<p><em>Calculei que aquilo fosse apenas uma investiga\u00e7\u00e3o de rotina, pro forma, acionada quando um empregado da NSA falta algumas semanas ao trabalho sem dar explica\u00e7\u00e3o. Snowden, contudo, sugeriu que eles talvez estivessem sendo discretos de prop\u00f3sito, para evitar atrair a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia ou acarretar alguma tentativa de destruir ind\u00edcios.<\/em><\/p>\n<p><em>O que quer que aquela not\u00edcia significasse, ela ressaltava a necessidade de preparar rapidamente nossa mat\u00e9ria e o v\u00eddeo que identificaria Snowden como a fonte do vazamento. Faz\u00edamos quest\u00e3o de que o mundo ouvisse falar pela primeira vez nele, em suas a\u00e7\u00f5es e em seus motivos de sua pr\u00f3pria boca, e n\u00e3o por meio de uma campanha de demoniza\u00e7\u00e3o propalada pelo governo dos Estados Unidos enquanto ele estivesse escondido ou preso, sem poder falar por si.<\/em><\/p>\n<p><em>Nosso plano era publicar mais duas mat\u00e9rias no Guardian e ent\u00e3o soltar um longo artigo sobre Snowden acompanhado de uma entrevista em v\u00eddeo e um bate-bola impresso com ele.<\/em><\/p>\n<p><em>Laura havia passado as 48 horas anteriores editando as imagens de minha primeira entrevista com Snowden, mas disse que o material era detalhado, longo e fragmentado demais para poder ser usado. Queria filmar logo outra entrevista, mais concisa e focada, e elaborou uma lista com cerca de vinte perguntas espec\u00edficas para que eu lhe fizesse. Enquanto ela montava a c\u00e2mera e nos indicava onde sentar, acrescentei v\u00e1rias outras.<\/em><\/p>\n<p><em>O v\u00eddeo agora famoso come\u00e7a assim: &#8220;Ahn&#8230; meu nome \u00e9 Ed Snowden. Tenho 29 anos. Trabalho para a Booz Allen Hamilton como analista de infraestrutura terceirizado para a NSA no Hava\u00ed.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>Snowden prosseguiu com respostas sucintas, estoicas e racionais a cada pergunta: por que decidira vazar aqueles documentos? Por que aquilo era t\u00e3o importante para ele a ponto de lev\u00e1-lo a sacrificar a pr\u00f3pria liberdade? Quais eram as revela\u00e7\u00f5es mais importantes? Os documentos denunciavam algo criminoso ou ilegal? O que ele imaginava que iria lhe acontecer?<\/em><\/p>\n<p><em>Conforme ia dando exemplos de vigil\u00e2ncia ilegal e invasiva, Snowden come\u00e7ou a se mostrar mais animado e arrebatado. Foi s\u00f3 quando lhe perguntei se ele esperava alguma repercuss\u00e3o que demonstrou preocupa\u00e7\u00e3o, pois temia que o governo, como retalia\u00e7\u00e3o, come\u00e7asse a visar sua fam\u00edlia e sua namorada. Para reduzir esse risco, falou, evitaria entrar em contato com eles, mas sabia que n\u00e3o poderia proteg\u00ea-los totalmente. &#8220;Esta \u00e9 a \u00fanica coisa que me tira o sono: pensar no que vai acontecer com eles&#8221;, afirmou, com os olhos marejados; foi a primeira e \u00fanica vez que vi isso acontecer.<\/em><\/p>\n<p><em>O astral relativamente descontra\u00eddo que consegu\u00edramos manter ao longo dos dias anteriores deu lugar outra vez a uma ansiedade palp\u00e1vel: faltavam menos de 24 horas para revelarmos a identidade de Snowden, e sab\u00edamos que isso mudaria tudo \u2013 especialmente para ele. N\u00f3s tr\u00eas t\u00ednhamos compartilhado uma experi\u00eancia curta, mas muito intensa e gratificante. E um de n\u00f3s seria, em breve, retirado do grupo e sem d\u00favida despachado para a pris\u00e3o por muito tempo, um fato que pairava no ar de modo deprimente desde o in\u00edcio, tornando o clima pesado, ao menos para mim. Apenas Snowden parecera imune a esse fato. Agora, um humor negro nervoso come\u00e7ava a se insinuar em nossa intera\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;Eu fico com a cama de baixo do beliche em Guantanamo&#8221;, brincava ele ao imaginar o que iria nos acontecer. Enquanto convers\u00e1vamos sobre mat\u00e9rias futuras, Snowden dizia coisas do tipo &#8220;Isso a\u00ed vai entrar na acusa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 resta saber se na sua ou na minha&#8221;. Na maior parte do tempo, ele manteve uma calma inimagin\u00e1vel. Mesmo ent\u00e3o, com seu tempo de liberdade cada vez mais perto de se esgotar, continuava indo para a cama \u00e0s dez e meia, como tinha feito todas as noites desde que eu chegara a Hong Kong. Enquanto eu mal conseguia dormir duas horas seguidas, e tinha sempre um sono agitado, ele mantinha uma rotina regular. &#8220;Bom, vou deitar&#8221;, dizia de forma casual todas as noites antes de se retirar para sete horas e meia de sono profundo e reaparecer no dia seguinte, totalmente descansado.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando lhe perguntamos sobre sua capacidade de dormir t\u00e3o bem naquelas circunst\u00e2ncias, ele respondeu que sentia uma paz profunda em rela\u00e7\u00e3o ao que tinha feito, e que portanto era f\u00e1cil dormir \u00e0 noite.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Imagino que me restem muito poucos dias com um travesseiro confort\u00e1vel, ent\u00e3o \u00e9 melhor aproveitar \u2013 brincou.<\/em><\/p>\n<p><em>(&#8230;)<\/em><\/p>\n<p><em>No dia 9 de junho, um domingo, \u00e0s duas da tarde no hor\u00e1rio da Costa Leste dos Estados Unidos, o Guardian publicou a mat\u00e9ria que apresentava Snowden ao mundo: &#8220;Edward Snowden: o delator respons\u00e1vel pelas revela\u00e7\u00f5es sobre a vigil\u00e2ncia da NSA&#8221;. A mat\u00e9ria trazia sua biografia, enumerava suas motiva\u00e7\u00f5es e afirmava: &#8220;Snowden vai entrar para a hist\u00f3ria como um dos delatores mais importantes dos Estados Unidos, ao lado de Daniel Ellsberg e Bradley Manning.&#8221; Citava tamb\u00e9m o texto que ele mostrara logo no in\u00edcio a Laura e a mim: &#8220;Entendo que serei obrigado a responder pelos meus atos, [mas] ficarei satisfeito se o conluio de leis secretas, perd\u00e3o desigual e poderes executivos ilimitados que governa o mundo que amo for desmascarado, nem que seja por um \u00fanico instante.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>A rea\u00e7\u00e3o provocada pela mat\u00e9ria e pelo v\u00eddeo foi mais explosiva do que qualquer outra coisa que eu j\u00e1 vivenciara como jornalista. O pr\u00f3prio Ellsberg, em um texto publicado pelo Guardian no dia seguinte, afirmou que &#8220;jamais houve, em toda a hist\u00f3ria dos Estados Unidos, vazamento mais importante do que a revela\u00e7\u00e3o do material da NSA por Edward Snowden \u2013 nem mesmo, seguramente, os Documentos do Pent\u00e1gono, quarenta anos atr\u00e1s&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00f3 nos primeiros dias, centenas de milhares de pessoas postaram o link para a mat\u00e9ria em seus perfis no Facebook. Quase 3 milh\u00f5es de pessoas assistiram \u00e0 entrevista no YouTube, e muitas outras no site do Guardian. A rea\u00e7\u00e3o predominante era de assombro e inspira\u00e7\u00e3o com a coragem de Snowden.<\/em><\/p>\n<p><em>Ele, Laura e eu acompanhamos juntos a repercuss\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o de sua identidade, enquanto eu tamb\u00e9m avaliava, junto com dois estrategistas de m\u00eddia do Guardian, quais entrevistas televisivas deveria aceitar fazer na manh\u00e3 de segunda-feira. Optamos pelo programa Morning Joe, da MSNBC, seguido pelo Today Show, da NBC \u2013 os dois primeiros a irem ao ar, que dariam o tom da cobertura do caso ao longo do dia.<\/em><\/p>\n<p><em>Antes que eu pudesse dar as entrevistas, por\u00e9m, fomos distra\u00eddos por um telefonema: \u00e0s cinco da manh\u00e3 \u2013 poucas horas depois de publicada a mat\u00e9ria sobre Snowden \u2013, um leitor meu muito antigo que mora em Hong Kong e com quem eu havia me comunicado periodicamente ao longo da semana me ligou. Afirmou que o mundo inteiro logo estaria \u00e0 procura de Snowden em Hong Kong e insistiu que ele precisava, com urg\u00eancia, arrumar advogados influentes na cidade. Estava com dois dos melhores advogados de direitos humanos de prontid\u00e3o, dispostos a represent\u00e1-lo. Ser\u00e1 que os tr\u00eas podiam ir ao meu hotel naquele mesmo instante? prontid\u00e3o, dispostos a represent\u00e1-lo. Ser\u00e1 que os tr\u00eas podiam ir ao meu hotel naquele mesmo instante?<\/em><\/p>\n<p><em>Combinamos nos encontrar pouco tempo depois, por volta das oito. Dormi por algumas horas at\u00e9 que ele ligou, uma hora antes, \u00e0s sete.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 J\u00e1 estamos aqui no lobby do seu hotel \u2013 falou. \u2013 Estou com os dois advogados. Aqui est\u00e1 lotado de c\u00e2meras e jornalistas. A imprensa est\u00e1 procurando o hotel de Snowden e n\u00e3o vai demorar a encontrar, e os advogados est\u00e3o dizendo que \u00e9 fundamental falarem com ele antes dos jornalistas.<\/em><\/p>\n<p><em>Ainda meio dormindo, vesti as primeiras roupas que consegui encontrar e fui cambaleando at\u00e9 a porta. Assim que a abri, os flashes de v\u00e1rias c\u00e2meras dispararam na minha cara. A horda de rep\u00f3rteres com certeza devia ter pago algum funcion\u00e1rio do hotel para conseguir o n\u00famero do meu quarto. Duas mulheres se identificaram como rep\u00f3rteres do Wall Street Journal baseadas em Hong Kong; outros, inclusive um cinegrafista com uma c\u00e2mera bem grande, eram da Associated Press.<\/em><\/p>\n<p><em>Eles formaram um semic\u00edrculo \u00e0 minha volta, sabatinando-me enquanto eu caminhava at\u00e9 o elevador. Entraram na cabine junto comigo, metralhando perguntas; respondi \u00e0 maioria delas com monoss\u00edlabos sucintos, secos e pouco informativos.<\/em><\/p>\n<p><em>No lobby, um novo enxame de c\u00e2meras e jornalistas se juntou ao grupo. Tentei procurar meu leitor e os advogados, mas n\u00e3o conseguia avan\u00e7ar meio metro sem que algum rep\u00f3rter entrasse na minha frente.<\/em><\/p>\n<p><em>Fiquei particularmente preocupado que aquela multid\u00e3o tentasse me seguir e impedisse o acesso dos advogados a Snowden. Por fim, decidi dar uma coletiva improvisada ali mesmo, no lobby, e responder \u00e0s perguntas para que os jornalistas fossem embora. Depois de uns quinze minutos, a maioria de fato se dispersou.<\/em><\/p>\n<p><em>Senti, ent\u00e3o um grande al\u00edvio ao esbarrar com Gill Phillips, principal advogada do Guardian, que tinha feito escala em Hong Kong em uma viagem da Austr\u00e1lia para Londres a fim de prestar assessoria jur\u00eddica a Ewen e a mim. Ela disse que queria explorar todos os modos poss\u00edveis de o Guardian proteger Snowden. &#8220;Alan faz quest\u00e3o de que o jornal d\u00ea a ele todo o apoio que puder legalmente&#8221;, falou. Tentamos conversar mais, por\u00e9m n\u00e3o conseguimos ter privacidade, pois alguns dos rep\u00f3rteres continuavam rondando.<\/em><\/p>\n<p><em>Enfim consegui localizar meu leitor e os dois advogados de Hong Kong que o acompanhavam. Tentamos arrumar um jeito de nos falar sem sermos seguidos e acabamos todos no quarto de Gill. Batemos a porta na cara do punhado de jornalistas que ainda nos seguia.<\/em><\/p>\n<p><em>Fomos direto ao assunto. Os advogados queriam falar com Snowden com urg\u00eancia e obter sua permiss\u00e3o formal para que o representassem, quando ent\u00e3o poderiam come\u00e7ar a agir em seu nome.<\/em><\/p>\n<p><em>Gill fazia pesquisas fren\u00e9ticas pelo celular para investigar aqueles advogados que acab\u00e1ramos de conhecer antes de lhes entregar Snowden. Ela conseguiu descobrir que eles eram mesmo bastante conhecidos e experientes na \u00e1rea de direitos humanos e asilo a refugiados, e pareciam muito bem relacionados politicamente em Hong Kong. Enquanto Gill realizava sua pesquisa improvisada, entrei no programa de chat. Tanto Snowden quanto Laura estavam on-line.<\/em><\/p>\n<p><em>Laura, agora hospedada no mesmo hotel que Snowden, tinha certeza de que era s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que os rep\u00f3rteres descobrissem a localiza\u00e7\u00e3o deles tamb\u00e9m. \u00c9 claro que ele estava ansioso para sair de l\u00e1. Contei-lhe sobre os advogados dispostos a ir at\u00e9 seu quarto e Snowden disse que eles deveriam ir busc\u00e1-lo e lev\u00e1-lo para um lugar seguro. Estava &#8220;na hora de come\u00e7ar a parte do plano em que eu pe\u00e7o ao mundo prote\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a&#8221;, falou.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;S\u00f3 que eu preciso sair do hotel sem ser reconhecido pelos jornalistas&#8221;, prosseguiu. &#8220;Caso contr\u00e1rio, eles simplesmente v\u00e3o me seguir para onde eu for.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>Transmiti essa preocupa\u00e7\u00e3o aos advogados.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Ele tem alguma ideia para evitar isso? \u2013 indagou um deles.<\/em><\/p>\n<p><em>Fiz a pergunta a Snowden.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;Estou tomando provid\u00eancias para mudar de apar\u00eancia&#8221;, respondeu ele. Ficou claro que j\u00e1 tinha pensado naquilo. &#8220;Posso me tornar irreconhec\u00edvel.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c0quela altura, pensei que os advogados e Snowden deveriam se falar diretamente. Antes disso, ele precisava recitar uma frase formal sobre aceitar ser representado por eles a partir dali. Mandei a frase para ele, que a digitou de volta para mim. Os advogados ent\u00e3o assumiram meu lugar no computador e come\u00e7aram a falar com ele.<\/em><\/p>\n<p><em>Dali a dez minutos, anunciaram que estavam a caminho do hotel de Snowden para encontr\u00e1-lo quando ele tentasse sair sem ser visto.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 O que voc\u00eas pretendem fazer com ele depois? \u2013 perguntei.<\/em><\/p>\n<p><em>Eles provavelmente o levariam \u00e0 miss\u00e3o da ONU em Hong Kong e pediriam a prote\u00e7\u00e3o formal da organiza\u00e7\u00e3o contra o governo dos Estados Unidos, alegando que Snowden era um refugiado pedindo asilo. Sen\u00e3o, disseram, tentariam arrumar um &#8220;esconderijo&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas como conseguir tirar os advogados do hotel sem que ningu\u00e9m os seguisse? Bolamos um plano: eu sairia do quarto com Gill e desceria at\u00e9 o lobby para convencer os jornalistas ainda acampados em frente \u00e0 nossa porta a me seguirem. Os advogados, ent\u00e3o, aguardariam alguns minutos e iriam embora do hotel, com sorte sem atrair aten\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>O estratagema deu certo. Depois de conversar por meia hora com Gill em um shopping anexo ao hotel, tornei a subir para meu quarto e, ansioso, liguei para o celular de um dos advogados.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Conseguimos tir\u00e1-lo pouco antes de os jornalistas come\u00e7arem a invadir o lobby \u2013 contou ele. \u2013 N\u00f3s o encontramos em seu quarto, a\u00ed atravessamos uma passarela at\u00e9 um shopping anexo ao hotel. \u2013 Em frente \u00e0 sala com o jacar\u00e9 onde Snowden tinha nos encontrado pela primeira vez, como descobri depois. \u2013 Ent\u00e3o entramos no nosso carro, que j\u00e1 estava l\u00e1. Ele est\u00e1 conosco agora.<\/em><\/p>\n<p><em>Para onde eles iriam lev\u00e1-lo?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 \u00c9 melhor n\u00e3o falarmos sobre isso pelo telefone \u2013 respondeu o advogado. \u2013 Ele vai estar seguro, por enquanto.<\/em><\/p>\n<p><em>Fiquei profundamente aliviado ao saber que Snowden estava em boas m\u00e3os, mas n\u00f3s sab\u00edamos que havia uma grande chance de nunca mais o vermos nem falarmos com ele, pelo menos n\u00e3o enquanto ele fosse um homem livre. O mais prov\u00e1vel, pensei, era que o v\u00edssemos da pr\u00f3xima vez na TV, em um tribunal dos Estados Unidos, usando o macac\u00e3o laranja de um presidi\u00e1rio americano e com os p\u00e9s e m\u00e3os acorrentados, sendo indiciado por acusa\u00e7\u00f5es de espionagem.<\/em><\/p>\n<p><em>Enquanto eu digeria a not\u00edcia, algu\u00e9m bateu na minha porta. Era o gerente geral do hotel, avisando que n\u00e3o paravam de receber liga\u00e7\u00f5es para o meu quarto (eu deixara instru\u00e7\u00f5es na recep\u00e7\u00e3o para que todas as chamadas fossem bloqueadas). Havia tamb\u00e9m uma multid\u00e3o de jornalistas, fot\u00f3grafos e cinegrafistas no lobby esperando que eu aparecesse.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Se o senhor quiser, pode deixar o hotel usando um elevador dos fundos e uma sa\u00edda que ningu\u00e9m vai ver \u2013 sugeriu ele. \u2013 E a advogada do Guardian fez uma reserva em outro hotel com um nome diferente, se for de sua prefer\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p><em>Na l\u00edngua dos gerentes de hotel, aquilo obviamente significava: n\u00f3s queremos que o senhor saia daqui por causa do caos que est\u00e1 gerando. Eu sabia que aquilo era mesmo uma boa ideia: eu gostaria de continuar a trabalhar com alguma privacidade, e ainda tinha esperan\u00e7as de manter contato com Snowden. Assim, fiz as malas, segui o gerente pela sa\u00edda dos fundos, encontrei Ewen me esperando dentro de um carro e me registrei em outro hotel usando o nome da advogada do Guardian.<\/em><\/p>\n<p><em>A primeira coisa que fiz foi me conectar \u00e0 internet, torcendo para ter not\u00edcias de Snowden. V\u00e1rios minutos depois, ele entrou on-line.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;Est\u00e1 tudo bem&#8221;, escreveu. &#8220;Estou em um lugar seguro, por enquanto. S\u00f3 n\u00e3o sei qu\u00e3o seguro, nem quanto tempo vou passar aqui. Vou ter que ficar mudando de lugar e meu acesso \u00e0 internet \u00e9 prec\u00e1rio, ent\u00e3o n\u00e3o sei quando nem com que frequ\u00eancia vou estar logado.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>Ele estava claramente relutante em dar qualquer detalhe sobre sua localiza\u00e7\u00e3o, e eu tampouco perguntei. Tinha consci\u00eancia de que a minha capacidade de me envolver no processo de escond\u00ea-lo era muito limitada. Snowden era agora o homem mais procurado pelo governo mais poderoso do mundo. Os Estados Unidos j\u00e1 haviam solicitado \u00e0s autoridades de Hong Kong que o prendessem e entregassem aos americanos.<\/em><\/p>\n<p><em>Assim, nossa conversa foi curta e vaga, e ambos expressamos o desejo de manter contato. Eu lhe disse para se cuidar.<\/em><\/p>\n<p><em>(&#8230;)<\/em><em>\u3000<\/em><\/p>\n<p><em>Quando enfim cheguei ao est\u00fadio para as entrevistas do Morning Joe e do Today Show, reparei no mesmo instante que o teor das perguntas tinha sofrido uma mudan\u00e7a dram\u00e1tica. Em vez de me tratarem como jornalista, as apresentadoras preferiram atacar um novo alvo: o pr\u00f3prio Snowden, agora foragido em Hong Kong. Muitos jornalistas norte-americanos tornaram a assumir seus pap\u00e9is habituais de vassalos do governo. A not\u00edcia n\u00e3o era mais como jornalistas tinham exposto s\u00e9rios abusos da NSA, mas como um americano que trabalhava para o governo tinha &#8220;tra\u00eddo&#8221; suas obriga\u00e7\u00f5es, cometido crimes e depois &#8220;fugido&#8221; para a China.<\/em><\/p>\n<p><em>Minhas entrevistas para ambas as apresentadoras \u2013 Mika Brzezinski e Savannah Guthrie \u2013 foram pungentes, amargas. Sem dormir havia mais de uma semana, n\u00e3o tive paci\u00eancia para as cr\u00edticas veladas a Snowden contidas em suas perguntas; na minha opini\u00e3o, os jornalistas deveriam estar comemorando, n\u00e3o crucificando algu\u00e9m que dera mais transpar\u00eancia ao Estado de seguran\u00e7a nacional do que qualquer outra pessoa em muitos anos.<\/em><\/p>\n<p><em>Depois de mais alguns dias de entrevistas, decidi que estava na hora de ir embora de Hong Kong. Era \u00f3bvio que agora seria imposs\u00edvel encontrar ou mesmo ajudar Snowden na cidade, e \u00e0quela altura eu j\u00e1 estava totalmente exausto f\u00edsica, emocional e psicologicamente. Estava louco para voltar ao Rio.<\/em><\/p>\n<p><em>Pensei em retornar por Nova York e ficar l\u00e1 por um ou dois dias dando entrevistas, s\u00f3 para deixar bem claro que podia faz\u00ea-lo e que o faria. No entanto, um advogado me demoveu da ideia, argumentando que n\u00e3o fazia sentido correr riscos legais desse tipo antes de sabermos como o governo dos Estados Unidos planejava reagir.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Voc\u00ea acabou de facilitar o maior vazamento de seguran\u00e7a nacional da hist\u00f3ria dos Estados Unidos, e apareceu na televis\u00e3o com a mensagem mais desafiadora poss\u00edvel \u2013 disse ele. \u2013 S\u00f3 faz sentido planejar uma ida ao pa\u00eds quando tivermos ideia de qual vai ser a resposta do Departamento de Justi\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>Eu discordava: achava muito improv\u00e1vel que o governo Obama fosse prender um jornalista no meio de uma reportagem t\u00e3o em evid\u00eancia. Mas estava exausto demais para discutir ou correr o risco. Assim, pedi ao Guardian que me pusesse em um voo para o Rio passando por Dubai, bem longe dos Estados Unidos. Por ora, pensei, o que eu tinha feito bastava.<\/em><\/p>\n<p><em>_____________________________<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Veja tamb\u00e9m:<\/em><\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/jornalista-conta-bastidores-de-caso-snowden-em-livro-12451950\" >Jornalista conta bastidores de caso Snowden em livro<\/a><\/em><\/li>\n<li><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/tecnologia\/nsa-atrai-jovens-criptografos-com-anuncios-cifrados-12392358\" >NSA atrai jovens cript\u00f3grafos com an\u00fancios cifrados<\/a><\/em><\/li>\n<li><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/liberdade-de-imprensa-atinge-nivel-mais-baixo-em-dez-anos-diz-relatorio-12363344\" >Liberdade de imprensa atinge n\u00edvel mais baixo em dez anos, diz relat\u00f3rio<\/a><\/em><\/li>\n<li><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/merkel-diz-que-ainda-precisa-superar-dificuldades-com-obama-12370712\" >Merkel diz que ainda precisa superar \u2018dificuldades\u2019 com Obama<\/a><\/em><\/li>\n<li><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/guardian-washington-post-recebem-pulitzer-por-reportagens-sobre-espionagem-dos-eua-12192867\" >\u2018Guardian\u2019 e \u2018Washington Post\u2019 recebem Pulitzer por reportagens sobre espionagem dos EUA<\/a><\/em><\/li>\n<li><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/snowden-faz-pergunta-putin-sobre-espionagem-12221646\" >Snowden faz pergunta a Putin sobre espionagem<\/a><\/em><\/li>\n<li><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/justica-permite-que-bradley-manning-passe-se-chamar-chelsea-12277500\" >Justi\u00e7a permite que Bradley Manning passe a se chamar Chelsea<\/a><\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p><em><br \/>\n\u00a9 1996 &#8211; 2014. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunica\u00e7\u00e3o e Participa\u00e7\u00f5es S.A.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/leia-com-exclusividade-mais-trechos-do-livro-de-glenn-greenwald-12441318\" >Go to Original \u2013 globo.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na pr\u00f3xima ter\u00e7a-feira [13 maio 2014], o lan\u00e7amento de um dos livros mais esperados do ano: \u201cSem lugar para se esconder\u201d, do ex-advogado e jornalista americano Glenn Greenwald, que conta a hist\u00f3rica den\u00fancia sobre como a Ag\u00eancia de Seguran\u00e7a Nacional americana (NSA) espionava de cidad\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es americanas a governos e empresas de outros pa\u00edses.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-42823","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42823","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42823"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42823\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42823"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42823"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42823"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}