{"id":43172,"date":"2014-05-26T12:00:29","date_gmt":"2014-05-26T11:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=43172"},"modified":"2015-05-05T21:34:57","modified_gmt":"2015-05-05T20:34:57","slug":"portugues-zizek-a-contradicao-principal-da-nova-ordem-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/05\/portugues-zizek-a-contradicao-principal-da-nova-ordem-mundial\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) \u017di\u017eek: A contradi\u00e7\u00e3o principal da nova ordem mundial"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_34836\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/zizek_0.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-34836\" class=\"wp-image-34836 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/zizek_0-150x150.jpg\" alt=\"\u017di\u017eek\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-34836\" class=\"wp-caption-text\">Slavoj \u017di\u017eek<\/p><\/div>\n<p><em>Chegou definitivamente a hora de ensinar algumas maneiras \u00e0s superpot\u00eancias, velhas e novas. Mas quem vai fazer isso? <\/em><\/p>\n<p>Conhecer uma sociedade n\u00e3o \u00e9 apenas saber\u00a0suas regras expl\u00edcitas. \u00c9 tamb\u00e9m compreender\u00a0como funciona sua aplica\u00e7\u00e3o: saber quando usar e quando violar as normas, saber quando recusar uma escolha oferecida\u00a0e saber quando fingir que est\u00e1 se fazendo algo por livre escolha quando trata-se\u00a0efetivamente de uma obriga\u00e7\u00e3o. Considere o paradoxo, por exemplo, das\u00a0\u201cofertas-feitas-para-serem-recusadas\u201d. Quando sou convidado a um restaurante por um tio rico, ambos sabemos que ele cuidar\u00e1 da conta, mas devo mesmo assim insistir\u00a0em rachar\u00a0ela \u2013 imagine minha surpresa se meu tio simplesmente dissesse: \u201cOk, ent\u00e3o, pode pagar!\u201d<\/p>\n<p>Houve um problema semelhante durante os ca\u00f3ticos anos p\u00f3s-sovi\u00e9ticos do governo Yeltsin na R\u00fassia. Embora as regras legais fossem sabidas \u2013 e eram em larga medida as mesmas que vigoravam sob a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica\u00a0\u2013, desintegrou-se a complexa rede de regras impl\u00edcitas, tacitamente aceitas, que sustentava o edif\u00edcio social. Na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, se voc\u00ea quisesse, digamos, um tratamento hospitalar melhor, ou um apartamento novo, se voc\u00ea tivesse uma reclama\u00e7\u00e3o sobre as autoridades, havia sido convocado ao tribunal ou queria que seu filho fosse aceito em uma escola concorrida, voc\u00ea sabia as regras impl\u00edcitas. Sabia com quem falar ou a m\u00e3o de quem molhar, o que se podia e n\u00e3o se podia fazer.<\/p>\n<p>Assista aqui: <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Primeiros-Passos\/-So-a-China-pode-salvar-o-capitalismo-ironiza-Slavoj-Zizek-em-entrevista-a-Carta-Maior\/42\/27727\" >&#8220;S\u00f3 a China pode salvar o capitalismo&#8221;, ironiza Slavoj \u017di\u017eek em entrevista \u00e0 Carta Maior<\/a><\/p>\n<p>httpv:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dvc41RxfLqo#t=21<\/p>\n<p>Depois do colapso do poder sovi\u00e9tico, um dos mais frustrantes aspectos do cotidiano para as pessoas comuns era que esse espa\u00e7o de\u00a0regras n\u00e3o-ditas tornou-se seriamente esfuma\u00e7ado. As pessoas simplesmente n\u00e3o sabiam como reagir diante de regula\u00e7\u00f5es legais expl\u00edcitas, o que podia ser ignorado, onde o suborno funcionava. (Uma das fun\u00e7\u00f5es do crime organizado era justamente a de fornecer uma esp\u00e9cie de legalidade\u00a0<em>ersatz<\/em>, substituta. Se voc\u00ea possu\u00edsse um pequeno neg\u00f3cio e um cliente o devia dinheiro, voc\u00ea ia ao seu protetor da m\u00e1fia para lidar\u00a0com o problema, j\u00e1 que o sistema legal do Estado era ineficiente.)<\/p>\n<p>A estabiliza\u00e7\u00e3o da sociedade sob o regime Putin se deve em larga medida \u00e0 transpar\u00eancia que se\u00a0estabeleceu dessas regras n\u00e3o-ditas. Agora as pessoas compreendem novamente, de modo geral, o complexo emaranhado de intera\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>N\u00e3o chegamos ainda a esse est\u00e1gio no plano da pol\u00edtica internacional. Na d\u00e9cada de 1990, um pacto silencioso regulava a rela\u00e7\u00e3o entre a R\u00fassia e as grandes pot\u00eancias ocidentais. Os Estados ocidentais tratavam a R\u00fassia como uma grande pot\u00eancia na condi\u00e7\u00e3o de que a R\u00fassia n\u00e3o agisse como uma. Mas e se o sujeito para quem a \u201coferta-feita-para-ser-recusada\u201d realmente aceitar ela? E se a R\u00fassia realmente come\u00e7ar a agir como uma grande pot\u00eancia? Uma situa\u00e7\u00e3o como essa \u00e9 propriamente catastr\u00f3fica, amea\u00e7ando todo o tecido de rela\u00e7\u00f5es existente \u2013 como ocorreu cinco anos atr\u00e1s na Ge\u00f3rgia. Cansada de apenas ser tratada como uma superpot\u00eancia, a R\u00fassia de fato agiu como uma.<\/p>\n<p>Como chegamos a isso? O \u201cs\u00e9culo americano\u201d acabou, e entramos num per\u00edodo em que m\u00faltiplos polos do capitalismo global v\u00eam se formando. Nos EUA, na Europa, na China e talvez na Am\u00e9rica Latina tamb\u00e9m, sistemas capitalistas desenvolveram com colora\u00e7\u00f5es\u00a0espec\u00edficos: os EUA representam o capitalismo neoliberal, a Europa o que resta do estado de bem estar social (<em>Welfare State<\/em>), a China o capitalismo autorit\u00e1rio\u00a0e\u00a0a Am\u00e9rica Latina o capitalismo populista. Com o\u00a0fracasso da tentativa estadunidense de se impor como a \u00fanica superpot\u00eancia mundial \u2013 a policiadora universal \u2013, h\u00e1 agora a necessidade de estabelecer as regras de intera\u00e7\u00e3o entre esses polos locais no que diz respeito aos seus interesses conflitantes.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que nossos tempos s\u00e3o potencialmente mais perigosos do que podem parecer. Durante a Guerra Fria, as regras de comportamento internacional eram claras, garantidas pela loucura da Destrui\u00e7\u00e3o M\u00fatua Assegurada (MAD) das superpot\u00eancias. Quando a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica violou essas regras n\u00e3o-ditas ao invadir o Afeganist\u00e3o, ela pagou caro por essa infra\u00e7\u00e3o. A guerra do Afeganist\u00e3o foi o come\u00e7o de seu fim. Hoje, as novas e velhas superpot\u00eancias est\u00e3o se testando, tentando impor sua pr\u00f3pria vers\u00e3o de regras globais, experimentando com elas atrav\u00e9s de\u00a0<em>proxies\u00a0<\/em>(guerras por procura\u00e7\u00e3o)\u00a0\u2013 que s\u00e3o, \u00e9 claro, outras pequenas na\u00e7\u00f5es e estados.<\/p>\n<p>Karl Popper certa vez elogiou o teste cient\u00edfico das hip\u00f3teses, dizendo que, dessa forma, permitimos que nossas hip\u00f3teses morram ao inv\u00e9s de n\u00f3s. Nos testes de hoje, as pequenas na\u00e7\u00f5es se ferem no lugar\u00a0das maiores \u2013 primeiro a Ge\u00f3rgia, agora a Ucr\u00e2nia. Embora os argumentos oficiais sejam altamente morais, girando em torno de direitos humanos e liberdades, a natureza do jogo \u00e9 clara. Os eventos na Ucr\u00e2nia parecem algo como \u201ca crise na Ge\u00f3rgia, parte II\u201d \u2013 a pr\u00f3xima etapa de uma luta geopol\u00edtica por controle em um mundo multipolar, n\u00e3o regulado.<\/p>\n<p>Chegou definitivamente a hora de ensinar alguns modos \u00e0s superpot\u00eancias, velhas e novas. Mas quem vai fazer isso? Obviamente, apenas uma entidade transnacional poder\u00e1 dar conta de uma tarefa como essa. Mais de duzentos\u00a0anos atr\u00e1s, Immanuel Kant viu a necessidade de uma ordem legal transnacional fundada\u00a0na emerg\u00eancia da sociedade global. Em seu projeto para paz perp\u00e9tua [<em>Zum ewigen Frieden. Ein philosophischer Entwurf<\/em>, 1795], ele escreveu:<\/p>\n<p>\u201cAvan\u00e7ou-se tanto no estabelecimento de uma comunidade (mais ou menos estreita) entre os povos terrestres que, como resultado, a viola\u00e7\u00e3o do direito em um ponto da terra repercute em todos os demais, a ideia de um Direito Cosmopolita n\u00e3o \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica nem extravagante.\u201d<\/p>\n<p>Isso, no entanto, nos traz ao que \u00e9 talvez seja a \u201ccontradi\u00e7\u00e3o principal\u201d da nova ordem mundial (se pudermos usar esse velho termo maoista): a impossibilidade de criar uma ordem pol\u00edtica global que corresponda \u00e0 economia capitalista global.\u00a0E se, por raz\u00f5es estruturais, e n\u00e3o apenas devido a\u00a0limita\u00e7\u00f5es emp\u00edricas, n\u00e3o puder haver uma democracia ou um governo representativo mundial? E se a economia global de mercado n\u00e3o puder ser diretamente organizada como uma democracia liberal global com elei\u00e7\u00f5es mundiais?<\/p>\n<p>Hoje, em nossa era de globaliza\u00e7\u00e3o, estamos pagando o pre\u00e7o por essa \u201ccontradi\u00e7\u00e3o principal\u201d. Na pol\u00edtica, fixa\u00e7\u00f5es da era passada, e identidades particulares, \u00e9tnicas, religiosas e culturais retornaram com for\u00e7a total. Nosso predicamento hoje \u00e9 definido por essa tens\u00e3o: a livre circula\u00e7\u00e3o global de mercadorias \u00e9 acompanhada por crescentes separa\u00e7\u00f5es na esfera social. Desde a Queda do Muro de Berlim e a ascens\u00e3o do mercado global, novos muros come\u00e7aram a emergir por toda a parte, separando povos e suas culturas. Talvez a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da humanidade dependa da resolu\u00e7\u00e3o dessa tens\u00e3o.<br \/>\n_______________<\/p>\n<p><em>A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de Artur Renzo.<br \/>\n<\/em><br \/>\n<em>Slavoj \u017di\u017eek nasceu na cidade de Liubliana, Eslov\u00eania, em 1949. \u00c9 fil\u00f3sofo, psicanalista e um dos principais te\u00f3ricos contempor\u00e2neos. Transita por diversas \u00e1reas do conhecimento e, sob influ\u00eancia principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora cr\u00edtica cultural e pol\u00edtica da p\u00f3s-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, \u017di\u017eek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e \u00e9 um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou\u00a0<\/em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titles\/view\/bem-vindo-ao-deserto-do-real%21\" >Bem-vindo ao deserto do Real!\u00a0<\/a><em>(2003),\u00a0<\/em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/boitempoeditorial.com.br\/livro_completo.php?isbn=85-7559-060-X\" >\u00c0s portas da revolu\u00e7\u00e3o (escritos de Lenin de 1917)<\/a><em>\u00a0(2005),\u00a0<\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/boitempoeditorial.com.br\/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-124-6\" >A vis\u00e3o em paralaxe<\/a><\/em><em>\u00a0(2008),\u00a0<\/em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/boitempoeditorial.com.br\/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-134-5\" >Lacrimae rerum<\/a><em>\u00a0(2009),\u00a0<\/em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titles\/view\/em-defesa-das-causas-perdidas\" >Em defesa das causas perdidas<\/a>,\u00a0<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/boitempoeditorial.com.br\/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-174-1\" >Primeiro como trag\u00e9dia, depois como farsa<\/a><em>\u00a0<\/em><em>(ambos de 2011) e o mais recente,\u00a0<\/em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-212-0\" >Vivendo no fim dos tempos<\/a><em>\u00a0(2012).<\/em><\/p>\n<p><em>Originalmente publicado no <\/em>The Guardian<em> (Reino Unido)<\/em> <em>e em\u00a0<\/em>Carta Maior <em>(Brasil).<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Zizek-A-contradicao-principal-da-nova-ordem-mundial\/6\/30971\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhecer uma sociedade n\u00e3o \u00e9 apenas saber suas regras expl\u00edcitas. \u00c9 tamb\u00e9m compreender como funciona sua aplica\u00e7\u00e3o: saber quando usar e quando violar as normas, saber quando recusar uma escolha oferecida e saber quando fingir que est\u00e1 se fazendo algo por livre escolha quando trata-se efetivamente de uma obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-43172","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43172","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43172"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43172\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}