{"id":43755,"date":"2014-06-16T12:00:06","date_gmt":"2014-06-16T11:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=43755"},"modified":"2015-05-05T21:33:45","modified_gmt":"2015-05-05T20:33:45","slug":"portugues-como-o-reino-unido-ensinou-os-militares-brasileiros-a-torturar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/06\/portugues-como-o-reino-unido-ensinou-os-militares-brasileiros-a-torturar\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Como O Reino Unido Ensinou os Militares Brasileiros a Torturar"},"content":{"rendered":"<p><em>A BBC encontrou evid\u00eancias de que o Reino Unido colaborou ativamente com os generais e os treinou com t\u00e9cnicas sofisticadas de interrogat\u00f3rio. <\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/brasil-desaparecidos-brazil-disappeared-dead-dictatorship.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-43757\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/brasil-desaparecidos-brazil-disappeared-dead-dictatorship.jpg\" alt=\"brasil desaparecidos brazil disappeared dead dictatorship\" width=\"504\" height=\"322\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/brasil-desaparecidos-brazil-disappeared-dead-dictatorship.jpg 504w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/brasil-desaparecidos-brazil-disappeared-dead-dictatorship-300x191.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 504px) 100vw, 504px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras de sua estreia, a Copa do Mundo atrai a aten\u00e7\u00e3o de muitos. Mas, no pa\u00eds-sede, h\u00e1 os que vivem sob a sombra do passado, com revela\u00e7\u00f5es que t\u00eam mostrado claramente como era a situa\u00e7\u00e3o durante o regime militar vigente desde 1964 at\u00e9 1985. A BBC encontrou evid\u00eancias de que o Reino Unido colaborou ativamente com os generais e os treinou com t\u00e9cnicas sofisticadas de interrogat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A ditadura que durou 21 anos no Brasil \u00e9 menos conhecido no exterior do que o da Argentina ou o do Chile, mas tamb\u00e9m foi brutal. Centenas morreram e milhares foram presos e torturados.<\/p>\n<p>Uma das torturadas, uma guerrilheira esquerdista, \u00e9 atualmente a presidenta do pa\u00eds, Dilma Rousseff, quem implementou uma Comiss\u00e3o da Verdade para desenterrar fatos do passado. \u00c0 medida que v\u00edtimas e alguns poucos militares mostram evid\u00eancias, surgiu o papel secreto do Reino Unido.<\/p>\n<p><strong>Primeiro as pancadas, depois as sensa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>No come\u00e7o da d\u00e9cada de 1970, os governantes brasileiros estavam envolvidos em uma amarga luta contra guerrilheiros de esquerda. Foram reprimidos dirigentes sindicais, estudantes, jornalistas e quase todos os que expressassem alguma opini\u00e3o contr\u00e1ria ao regime.<\/p>\n<p>Alvaro Caldas pertencia a um grupo comunista quando foi preso em 1970. Ele passou dois anos preso dentro de um quartel da pol\u00edcia militar no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Ele foi submetido a espancamentos, choques e pendurado no &#8220;pau de arara&#8221; \u2013 amarrado de cabe\u00e7a para baixo por horas.<\/p>\n<p>Ao ser solto, ele desistiu da pol\u00edtica e passou a se dedicar ao jornalismo esportivo. Em 1973, voltou a ser preso. Caldas foi levado ao mesmo pr\u00e9dio, mas tudo estava diferente por l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8220;Desta vez, a cela estava limpa e esterilizada, com um cheiro nauseante. O ar condicionado era muito frio. A luz estava permanentemente acesa, ent\u00e3o eu n\u00e3o tinha ideia se era dia ou noite. Eles alternavam sons muito altos e depois muito baixos. Eu n\u00e3o conseguia dormir de jeito nenhum.&#8221;<\/p>\n<p>Alvaro conta que a sensa\u00e7\u00e3o avassaladora que sentia era medo. De tempos em tempos, alguns oficiais entravam na cela, o encapuzavam e levavam para interroga\u00e7\u00f5es. Ele sentia que o objetivo era desestabiliz\u00e1-lo, fazendo-o confessar algum crime que n\u00e3o havia cometido.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o era tortura f\u00edsica, mas sim uma press\u00e3o psicol\u00f3gica intensa.<\/p>\n<p>&#8220;Por sorte, s\u00f3 passei uma semana l\u00e1. Se tivesse ficado duas semanas ou um m\u00eas, teria enlouquecido.&#8221;<\/p>\n<p><strong>&#8216;Sistema ingl\u00eas&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>Esta nova t\u00e9cnica de interroga\u00e7\u00e3o ficou conhecida como &#8220;sistema ingl\u00eas&#8221;. Depoimentos coletados pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade \u2013 criada pelo governo para investigar epis\u00f3dios ocorridos durante a Ditadura Militar \u2013 explicam o porqu\u00ea.<\/p>\n<p>Nas mais de 20 horas de seu depoimento, o coronel Paulo Malh\u00e3es \u2013 um dos mais temidos torturadores e que morreu poucos dias depois \u2013 ganhou destaque nacional ao confessar ter torturado e mutilado diversas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Malh\u00e3es expressou grande admira\u00e7\u00e3o pela tortura psicol\u00f3gica que, para ele, era muito mais eficiente do que a for\u00e7a bruta, especialmente quando a tentativa era de transformar militantes de esquerda em agentes infiltrados.<\/p>\n<p>&#8220;Naquelas pris\u00f5es com portas fechadas, voc\u00ea podia mudar a temperatura, a luz, tudo dentro da pris\u00e3o. A ideia veio da Inglaterra&#8221;, disse ele.<\/p>\n<p>Ele admitiu, em conversa em privado com a advogada e integrante da Comiss\u00e3o da Verdade do Rio, Nadine Borges, que viajou \u00e0 Inglaterra para aprender t\u00e9cnicas de interroga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deixavam marcas f\u00edsicas. Borges relatou detalhes de sua conversa com Malh\u00e3es \u00e0 BBC.<\/p>\n<p>&#8220;A melhor coisa para ele era a tortura psicol\u00f3gica. Ele tamb\u00e9m esteve em outros lugares, mas disse que a Inglaterra foi o melhor lugar para aprender.&#8221;<\/p>\n<p><strong>&#8216;Melhor escola&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>O professor Gl\u00e1ucio Soares entrevistou v\u00e1rios generais nos anos 1990. Muitos contaram que enviaram militares \u00e0 Alemanha, Fran\u00e7a, Panam\u00e1 e Estados Unidos para aprender sobre interrogat\u00f3rios, mas todos elogiaram a Gr\u00e3-Bretanha como o melhor lugar de aprendizado.<\/p>\n<p>O general Ivan de Souza Mendes teria dito a Soares: &#8220;Os americanos tamb\u00e9m ensinam, mas os ingleses \u00e9 que s\u00e3o os mestres em ensinar como arrancar confiss\u00f5es sob press\u00e3o, por tortura, de todas as formas. A Inglaterra \u00e9 o modelo de democracia. Eles d\u00e3o cursos aos seus amigos&#8221;.<\/p>\n<p>O general Fiuza de Castro disse que os brit\u00e2nicos recomendam deixar os prisioneiros nus antes de interrog\u00e1-los, para deix\u00e1-los angustiados e deprimidos \u2013 um estado que favorece o interrogador.<\/p>\n<p>As t\u00e9cnicas teriam sido criadas nos anos 1960 em territ\u00f3rios brit\u00e2nicos na \u00c1sia e aperfei\u00e7oadas contra militantes na Irlanda do Norte.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo ficou consagrado em ingl\u00eas como &#8220;Five Techniques&#8221;, ou &#8220;Cinco T\u00e9cnicas&#8221;:<\/p>\n<p>&#8211; Manter a pessoa de p\u00e9 contra uma parede por muitas horas<br \/>\n&#8211; Encapuzar<br \/>\n&#8211; Sujeitar a grandes barulhos<br \/>\n&#8211; Impedir o sono<br \/>\n&#8211; Pouca comida e \u00e1gua<\/p>\n<p>Muitos dizem que essas t\u00e9cnicas equivalem \u00e0 tortura. Em 1972, elas foram oficialmente proibidas pelo premi\u00ea Edward Heath, depois que o p\u00fablico tomou conhecimento que eram usadas contra os militantes irlandeses do IRA.<\/p>\n<p>Mas no Brasil, os m\u00e9todos de interrogat\u00f3rio psicol\u00f3gico seguiram adiante, atendendo as necessidades dos militares. O p\u00e9ssimo hist\u00f3rico de direitos humanos do Brasil estava come\u00e7ando a atrair publicidade negativa no mundo. Um m\u00e9todo que n\u00e3o deixava marcas f\u00edsicas era considerado perfeito pelos militares para extrair informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Aparentemente, n\u00e3o s\u00f3 os militares brasileiros foram \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha, mas o inverso tamb\u00e9m aconteceu. O ex-policial Claudio Guerra disse que agentes brit\u00e2nicos deram cursos no quartel-general da pol\u00edcia militar sobre como seguir pessoas, grampear telefones e usar as celas isoladas.<\/p>\n<p>Guerra disse que viu esses agentes brit\u00e2nicos nas ocasi\u00f5es em que visitou o quartel-general para recolher corpos de v\u00edtimas que sofreram com os m\u00e9todos antigos.<\/p>\n<p><strong>Correspond\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 mais pistas sobre a rela\u00e7\u00e3o entre militares brit\u00e2nicos e brasileiros no pr\u00e9dio dos Arquivos Nacionais, na regi\u00e3o londrina de Kew.<\/p>\n<p>Em agosto de 1972, o ent\u00e3o embaixador brit\u00e2nico no Brasil, David Hunt, escreveu uma carta secreta a uma autoridade com refer\u00eancia aos m\u00e9todos mais sofisticados usados pelos brasileiros.<\/p>\n<p>Ele escreveu: &#8220;Como voc\u00ea sabe, eu acho, eles (os militares brasileiros) foram influenciados por sugest\u00f5es e conselhos emitidos por n\u00f3s; mas esta conex\u00e3o n\u00e3o existe mais&#8230; \u00c9 importante que o conhecimento deste fato fique restrito.&#8221;<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera de uma visita do ent\u00e3o presidente Ernesto Geisel \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha, em 1976, havia uma refer\u00eancia indireta \u00e0 uma &#8220;reforma da tortura&#8221;. Uma das cartas fala de &#8220;padr\u00f5es aceit\u00e1veis de interrogat\u00f3rio (por exemplo, o que \u00e9 permitido na Irlanda do Norte)&#8221;.<\/p>\n<p>Um documento intitulado &#8220;Tortura no Brasil&#8221; classificado como &#8220;confidencial&#8221; fala da p\u00e9ssima publicidade que o Ex\u00e9rcito brasileiro estava recebendo mundialmente, e de como foram adotadas novas t\u00e9cnicas baseadas em m\u00e9todos psicol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>&#8220;O Primeiro Batalh\u00e3o do Rio estaria usando agora as novas t\u00e9cnicas, cuja introdu\u00e7\u00e3o foi descrita por um comandante do Ex\u00e9rcito como uma p\u00e1gina tirada da cartilha brit\u00e2nica.&#8221;<\/p>\n<p>A correspond\u00eancia do minist\u00e9rio brit\u00e2nico das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores deixa claro que interesses comerciais eram de suma relev\u00e2ncia e que o p\u00e9ssimo hist\u00f3rico de direitos humanos do Brasil era subestimado.<\/p>\n<p>Alan Munro, que foi c\u00f4nsul geral brit\u00e2nico no Rio nos anos 1970, disse que, pessoalmente, n\u00e3o tinha conhecimento da colabora\u00e7\u00e3o dos militares brit\u00e2nicos.<\/p>\n<p>&#8220;Se os brasileiros estavam procurando t\u00e9cnicas de interrogat\u00f3rio usadas por autoridades brit\u00e2nicas, o melhor exemplo vinha dos primeiros anos da Irlanda do Norte. Isso teria sido aprendido por inciativa dos brasileiros, e no sentido de reduzir as pr\u00e1ticas mais crueis, isso teria sido um passo no caminho certo&#8221;, diz Munro.<\/p>\n<p>Mas os brasileiros n\u00e3o veem isso como &#8220;um passo no caminho certo&#8221;.<\/p>\n<p>O diretor da Comiss\u00e3o da Verdade do Rio, Wadih Damous, disse que h\u00e1 anos conhece o envolvimento dos Estados Unidos no treinamento de militares do regime brasileiro, e que ficou indignado ao tomar conhecimento do papel dos brit\u00e2nicos.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 sempre chocante ouvir que uma democracia que \u00e9 t\u00e3o importante, t\u00e3o consolidada, t\u00e3o velha, colaborou com a ditadura&#8221;, disse Damous.<\/p>\n<p>A BBC pediu uma declara\u00e7\u00e3o oficial ao minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da Gr\u00e3-Bretanha. Um porta-voz disse que &#8220;n\u00e3o pode fazer coment\u00e1rios sobre administra\u00e7\u00f5es passadas&#8221;, mas que qualquer pol\u00edtica atual do governo de colabora\u00e7\u00e3o internacional cumpre com exig\u00eancias de direitos humanos estabelecidas dentro do pa\u00eds.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Como-o-Reino-Unido-ensinou-os-militares-brasileiros-a-torturar\/6\/31073\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A BBC encontrou evid\u00eancias de que o Reino Unido colaborou ativamente com os generais e os treinou com t\u00e9cnicas sofisticadas de interrogat\u00f3rio. <\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-43755","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43755"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43755\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}