{"id":43761,"date":"2014-06-09T12:00:30","date_gmt":"2014-06-09T11:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=43761"},"modified":"2015-05-05T21:33:46","modified_gmt":"2015-05-05T20:33:46","slug":"portugues-flasko-a-fabrica-brasileira-sob-controle-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/06\/portugues-flasko-a-fabrica-brasileira-sob-controle-operario\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Flask\u00f4, a F\u00e1brica Brasileira Sob Controle Oper\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><em>Quebrada por patr\u00f5es, recuperada pelos trabalhadores, ind\u00fastria reduziu jornada, estabeleceu democracia interna e criou\u00a0centro cultural. Ap\u00f3s\u00a0onze anos, luta entra em nova fase.<\/em><\/p>\n<p>Em Sumar\u00e9 (SP), regi\u00e3o metropolitana de Campinas, funciona a \u00fanica f\u00e1brica administrada por trabalhadores do Brasil. Amea\u00e7ada de ser fechada em 2003 devido \u00e0 fal\u00eancia do grupo que a administrava, a Flask\u00f4, que produz tambores pl\u00e1sticos, seguiu sendo tocada por seus antigos funcion\u00e1rios e hoje tenta se manter ativa mesmo com as d\u00edvidas herdadas da antiga gest\u00e3o. A nova batalha \u00e9 pela estatiza\u00e7\u00e3o da empresa, que tramita no Senado h\u00e1 mais de dois anos.<\/p>\n<p>At\u00e9 2003, o controle da f\u00e1brica era da Holding Brasil (ou apenas HB), um bra\u00e7o da gigante Tigre. O grupo entrou em uma forte derrocada nos anos 1990, acumulando d\u00edvidas e aumentando demiss\u00f5es. \u201cForam cerca de 40 empresas que quebraram, gra\u00e7as \u00e0 abertura econ\u00f4mica e tamb\u00e9m \u00e0 m\u00e1 gest\u00e3o\u201d, explica o advogado da Flask\u00f4, Alexandre Mandl. \u201cA Cipla e a Interfribra, em Joinville, e a Flask\u00f4, aqui em Sumar\u00e9, retomam a produ\u00e7\u00e3o e elas v\u00e3o ser o trip\u00e9 do movimento das f\u00e1bricas ocupadas\u201d, explica ele. Nas duas f\u00e1bricas de Santa Catarina, entretanto, um interventor judicial,\u00a0Rainoldo Uessler, foi nomeado para assumir o comando das empresas em 2007. A Flask\u00f4 tamb\u00e9m sofreu interven\u00e7\u00e3o, que cortou a energia da f\u00e1brica por 42 dias e fez boa parte do seu quadro de funcion\u00e1rios buscar outros empregos, mas retomou as atividades depois do per\u00edodo.<\/p>\n<p>Ad\u00e9lia, de 23 anos,\u00a0acompanhou todo esse processo de perto. Filha de funcion\u00e1rios da Flask\u00f4, ela viveu a mudan\u00e7a da gest\u00e3o dos patr\u00f5es para a gest\u00e3o tamb\u00e9m comandada por seus pais.\u00a0\u201cMeu pai e minha m\u00e3e trabalharam aqui, ainda na \u00e9poca patronal. Com o in\u00edcio dos problemas, minha m\u00e3e tamb\u00e9m foi levada embora na leva de demiss\u00f5es, mas meu pai ficou e j\u00e1 deve fazer 20 anos que ele trabalha aqui.\u201d Hoje, Ad\u00e9lia\u00a0\u00e9 uma das mulheres que comp\u00f5e o quadro de funcion\u00e1rios da fabricante de tambores pl\u00e1sticos no setor de compras e financeiro.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 11 anos, Ad\u00e9lia acompanhou o pai em todos os atos e passeatas pela estatiza\u00e7\u00e3o da Flask\u00f4. \u201cEu sempre fui junto \u00e0s passeatas em Bras\u00edlia, que aconteciam todos os anos\u201d, afirma. H\u00e1 tr\u00eas anos trabalhando na f\u00e1brica, Ad\u00e9lia diz que o trabalho em uma f\u00e1brica ocupada \u00e9 \u201ctotalmente diferente\u201d. \u201cAqui voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sob press\u00e3o, voc\u00ea faz com tranquilidade e consegue resolver seus problemas\u201d, diz ela. Mas o preconceito ainda \u00e9 grande: \u201cQuando voc\u00ea fala \u201ctrabalho em uma f\u00e1brica ocupada, sob o controle dos trabalhadores, as pessoas j\u00e1 falam \u2018Nossa, mas essa empresa ainda funciona\u2019, \u2018Ai \u00e9 falida\u2019. Quando voc\u00ea explica a situa\u00e7\u00e3o, elas ficam curiosas e veem que n\u00e3o \u00e9 bem assim\u201d, conta.\u00a0\u201cAqui \u00e9 como uma empresa normal, s\u00f3 n\u00e3o tem o patr\u00e3o, o que \u00e9 a vantagem\u201d, diz a jovem.<\/p>\n<p>Ad\u00e9lia \u00e9 uma dos 70 trabalhadores da Flask\u00f4. S\u00e3o 60 homens e 10 mulheres, sem que nenhum tenha o cargo ou se reconhe\u00e7a como chefia ou \u201cpatr\u00e3o\u201d. O ritmo de trabalho \u00e9 definido por assembleias, gerais e de turnos. A\u00a0jornada de trabalho foi reduzida de 44 para 30 horas semanais, sem redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios; tamb\u00e9m foi realizado um achatamento da diferen\u00e7a salarial \u2013 as fun\u00e7\u00f5es mais bem remuneradas passaram a ganhar menos e as pior remuneradas passaram a ser maiores.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos avan\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s leis trabalhistas, os funcion\u00e1rios tamb\u00e9m acreditavam que a Flask\u00f4 deveria se envolver com a comunidade em que est\u00e1 inserida. Isso levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da F\u00e1brica de Cultura e Esportes, que desenvolve diversos eventos e a\u00e7\u00f5es culturais: sess\u00f5es de cinema semanais, aulas de bal\u00e9, capoeira,\u00a0oficina de quadrinhos e uma pista de skate (e campeonatos regulares que agitam completamente o dia-a-dia da f\u00e1brica). Alunos da Unicamp tocam ainda o\u00a0Educa\u00e7\u00e3o para Jovens e Adultos, projeto de extens\u00e3o para a comunidade.<\/p>\n<p>No espa\u00e7o da F\u00e1brica de Cultura e Esportes, companhias de teatro tamb\u00e9m realizam ensaios e apresenta\u00e7\u00f5es. A iniciativa \u00e9 importante para manter grupos da regi\u00e3o, como pode ser visto no depoimento do v\u00eddeo, produzido pela pr\u00f3pria Flask\u00f4, do ator da Honesta Companhia de Teatro. \u201cNa regi\u00e3o de Campinas e Sumar\u00e9, nenhum grupo de teatro, cultura e m\u00fasica tem espa\u00e7o para sediar suas atividades. E a Flask\u00f4 \u00e9 um dos poucos espa\u00e7os nessa regi\u00e3o toda que se coloca abrindo as portas oferecendo lugar n\u00e3o s\u00f3 para ensaio, mas apoios para apresenta\u00e7\u00e3o de qualquer tipo\u201d, declara o ator.<\/p>\n<p>Mandl, o advogado da f\u00e1brica ocupada, explica que os trabalhos realizados evidenciam o car\u00e1ter social da Flask\u00f4. \u201cA gente usa dois galp\u00f5es da f\u00e1brica para projetos culturais, em vez de especular esse espa\u00e7o. E, al\u00e9m disso, tr\u00eas quartos da propriedade da f\u00e1brica, que poderia ser utilizada para a gera\u00e7\u00e3o de lucro, \u00e9 destinada para uma ocupa\u00e7\u00e3o de moradia chamada Vila Oper\u00e1ria\u201d, afirma ele.<\/p>\n<p>O terreno foi ocupado em 2005, inicialmente por cerca de 300 fam\u00edlias. No momento, Mandl afirma que a ocupa\u00e7\u00e3o j\u00e1 atingiu o n\u00famero de 564 fam\u00edlias.\u00a0\u201cNossa reivindica\u00e7\u00e3o parte desse trip\u00e9: trabalho, pela F\u00e1brica de Cultura e Esporte e pelo direito \u00e0 moradia\u201d.<\/p>\n<p><strong>D\u00edvidas<\/strong><\/p>\n<p>Apesar das vit\u00f3rias trabalhistas, a vida dos funcion\u00e1rios da n\u00e3o \u00e9 de todo tranquila: a Flask\u00f4 sofre a amea\u00e7a de fechar a qualquer momento. Nos \u00faltimos 11 anos de ocupa\u00e7\u00e3o (em 12 de junho a f\u00e1brica completa mais um ano sob gest\u00e3o oper\u00e1ria) foram diversos pedidos de leil\u00f5es de m\u00e1quinas e penhora de bens. A d\u00edvida j\u00e1 ultrapassa os 120 milh\u00f5es de reais.<\/p>\n<p>O imbr\u00f3glio \u00e9 grande: os dirigentes da Flask\u00f4 acreditam que a d\u00edvida deveria ser cobrada de quem a gerou, ou seja, a antiga gest\u00e3o da HB.\u00a0\u201cNosso entendimento \u00e9 que quem criou a d\u00edvida que pague\u201d, afirma Mandl.\u00a0\u201cMas o CNPJ da Flask\u00f4 \u00e9 o mesmo, ent\u00e3o seguimos respons\u00e1veis pelas d\u00edvidas geradas por este CNPJ\u201d, diz. Apesar da gest\u00e3o oper\u00e1ria ser cobrada pelas d\u00edvidas, a propriedade da f\u00e1brica n\u00e3o est\u00e1 sob poder dos funcion\u00e1rios. \u201cHoje, temos a gest\u00e3o oper\u00e1ria, mas n\u00e3o temos a propriedade, que continua dos antigos patr\u00f5es\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o provoca indigna\u00e7\u00e3o dos novos administradores da Flask\u00f4. Eles alegam que a gest\u00e3o patronal ficou 20 anos sem pagar esses tributos e o sistema tribut\u00e1rio n\u00e3o conseguiu cumprir a fun\u00e7\u00e3o de reaver o dinheiro. \u201cAgora n\u00f3s temos oficial de justi\u00e7a na casa de trabalhadores, querendo penhorar seus bens\u201d, diz. Mandl\u00a0acredita, entretanto, que a melhor maneira de resolver a quest\u00e3o seria comprometer uma porcentagem dos rendimentos da f\u00e1brica para pagar as d\u00edvidas. \u201cSeria semelhante ao acordo que temos com o Minist\u00e9rio do Trabalho. Hoje, 1% do nosso faturamento vai pra pagar d\u00edvidas dos antigos patr\u00f5es com os trabalhadores.\u201d O rendimento mensal da Flask\u00f4 fica entre 500 e 600 mil reais.<\/p>\n<p>O que os trabalhadores esperam conseguir com a estatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 o abatimento dos valores dos bens da Flask\u00f4 da d\u00edvida da f\u00e1brica. Com isso, esperam acabar com o drama representado pelas amea\u00e7as de leil\u00f5es judiciais. De 2003 para c\u00e1, afirma Mandl, foram mais de 200. \u201cEm todos os leil\u00f5es levamos uma faixa \u2018se arrematar, n\u00e3o vai levar\u2019, porque existem outras formas de se resolver isso. E, hoje, a Flask\u00f4 n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de perder nenhuma de suas m\u00e1quinas, porque se isso acontecer ela vai a fal\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>No p\u00e1tio da f\u00e1brica, s\u00e3o seis m\u00e1quinas que realizam a confec\u00e7\u00e3o dos tambores pl\u00e1sticos. Na gest\u00e3o da HB eram mais de 40, que foram sendo retiradas conforme a fal\u00eancia do grupo.\u00a0No pr\u00f3ximo dia 9 de junho, mais uma s\u00e9rie de leil\u00f5es est\u00e1 marcada e os funcion\u00e1rios prometem realizar um ato de protesto a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Campanha<br \/>\n<\/strong><br \/>\nPara pressionar os senadores a discutirem a quest\u00e3o da empresa, a Flask\u00f4 busca 10 mil assinaturas, para que uma audi\u00eancia p\u00fablica seja convocada para discutir o Projeto de Lei 257\/2012.\u00a0<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www12.senado.gov.br\/ecidadania\/visualizacaopropostaaudiencia?id=11662\" ><strong>A coleta de assinaturas \u00e9 feita online.<\/strong>\u00a0<\/a>O pedido do PL \u00e9 para a Declara\u00e7\u00e3o de Interesse Social da empresa, um primeiro passo para a estatiza\u00e7\u00e3o, ou seja, torn\u00e1-la uma propriedade do Estado.<\/p>\n<p>O pedido se baseia em uma lei de 1962, que define os casos de desapropria\u00e7\u00e3o por interesse social. O artigo 1\u00ba da lei disp\u00f5e que \u201cA desapropria\u00e7\u00e3o por interesse social ser\u00e1 decretada para promover a justa distribui\u00e7\u00e3o da propriedade ou condicionar o seu uso ao bem estar social\u201d.<\/p>\n<p>O projeto j\u00e1 foi aprovado pela Comiss\u00e3o de Direitos Humanos do Senado (CDH), em uma audi\u00eancia p\u00fablica realizada em 5 de julho de 2011. De l\u00e1, seguiu para a Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a, onde segue parada.\u00a0A Flask\u00f4 espera que, com a desapropria\u00e7\u00e3o, a indeniza\u00e7\u00e3o dos bens m\u00f3veis e im\u00f3veis seja abatida dos impostos devedores, e os trabalhadores administrando a f\u00e1brica por uma forma de concess\u00e3o.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outras-palavras.net\/outrasmidias\/?p=17544\" >Go to Original \u2013 outras-palavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quebrada por patr\u00f5es, recuperada pelos trabalhadores, ind\u00fastria reduziu jornada, estabeleceu democracia interna e criou centro cultural. 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