{"id":45465,"date":"2014-08-11T12:00:24","date_gmt":"2014-08-11T11:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=45465"},"modified":"2015-05-05T21:30:45","modified_gmt":"2015-05-05T20:30:45","slug":"portugues-os-abutres-isolados-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/08\/portugues-os-abutres-isolados-do-mundo\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Os abutres, isolados do mundo"},"content":{"rendered":"<p><em>N\u00e3o deixa de chamar aten\u00e7\u00e3o que a Argentina obtenha apoio de parte de alguns s\u00edmbolos desses setores, como o editorialista estrela do <\/em>Financial Times<em>.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_45461\" style=\"width: 242px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/abutres-vultures-argentina-default-imf-wb.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-45461\" class=\"size-full wp-image-45461\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/abutres-vultures-argentina-default-imf-wb.jpg\" alt=\"A disputa da Argentina com os fundos abutres tornou-se uma tem\u00e1tica proeminente.\" width=\"232\" height=\"276\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-45461\" class=\"wp-caption-text\">A disputa da Argentina com os fundos abutres tornou-se uma tem\u00e1tica proeminente.<\/p><\/div>\n<p>O papel da Argentina no Consenso de Washington desde o in\u00edcio dos anos 90 lhe rendeu conhecimento internacional. A vontade pol\u00edtica expressada pelo menemismo para levar adiante uma pol\u00edtica de organiza\u00e7\u00e3o social baseada nos crit\u00e9rios do mercado acumulou elogios dos centros de poder globais.<\/p>\n<p>Simbolicamente, os Estados Unidos at\u00e9 suprimiram o requisito de tramitar visto aos cidad\u00e3os argentinos para entrada em seu territ\u00f3rio. Cada assembleia do Fundo Monet\u00e1rio Internacional era prop\u00edcia para colocar a Argentina como exemplo de pa\u00eds s\u00e9rio, ordenado, capaz de deixar para tr\u00e1s suas contradi\u00e7\u00f5es e se atirar em um sistema econ\u00f4mico moderno.<\/p>\n<p>Neoliberalismo em seu estado puro: redu\u00e7\u00e3o do Estado \u00e0 sua express\u00e3o m\u00ednima, livre fluxo de entrada e sa\u00edda para os capitais especulativos, primazia da valoriza\u00e7\u00e3o financeira sobre a produ\u00e7\u00e3o, abertura comercial, privatiza\u00e7\u00f5es \u2013 hidrocarbonetos, energia el\u00e9trica, telecomunica\u00e7\u00f5es, transporte, servi\u00e7os b\u00e1sicos, ind\u00fastrias-chave como a siderurgia, a naval e a aeron\u00e1utica, espectro radioel\u00e9trico e at\u00e9 confec\u00e7\u00e3o de passaportes \u2013 entrega ao setor financeiro a administra\u00e7\u00e3o das aposentadorias e desregulamenta\u00e7\u00e3o trabalhista. Todas essas pol\u00edticas tiveram sua tradu\u00e7\u00e3o institucional em leis, decretos e resolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m houve acordos internacional que tornaram ainda mais profunda a marca do caminho tra\u00e7ado. Atualmente, alerta-se em toda sua dimens\u00e3o o que significou ceder \u00e0 solu\u00e7\u00e3o legal de controv\u00e9rsias com t\u00edtulos da d\u00edvida nos tribunais dos Estados Unidos. E antes, j\u00e1 haviam sido comprovados os efeitos de aceitar o Ciadi, o tribunal do Banco Mundial para dirimir eventuais conflitos com as privatizadas. Os Tratados Bilaterais de Investimento que floresceram na Am\u00e9rica Latina acabaram por empacotar a soberania jur\u00eddica e outorg\u00e1-la aos pa\u00edses mais poderosos.<\/p>\n<p>Se fossem analisadas uma por uma todas as pol\u00edticas que alimentaram aquela Argentina que acabaria estalando em 2001, seria f\u00e1cil encontrar nos arquivos documentos e declara\u00e7\u00f5es dos \u201cl\u00edderes do mundo\u201d, enfatizando sua admira\u00e7\u00e3o por tanto compromisso argentino com suas ideias. Conseguiram uma identifica\u00e7\u00e3o assustadora com os interesses econ\u00f4micos de seus pa\u00edses, empresas e capitais como se fossem de interesse nacional. Que a Repsol assumisse o controle da YPF, por exemplo, seria o melhor para a Argentina porque permitiria que fizesse render em todo seu potencial as riquezas subterr\u00e2neas, algo que a gest\u00e3o estatal n\u00e3o poderia fazer.<\/p>\n<p>A imprensa local mais influente fez um empr\u00e9stimo valioso para viabilizar politicamente iniciativas que atentavam contra as maiorias. Os s\u00f3cios locais daqueles capitais e companhias estrangeiras tamb\u00e9m fizeram sua parte e, neste bloco,\u00a0 se destacaram \u2013 e ainda se destacam \u2013 os economistas, que conseguiram ser apresentados pela m\u00eddia como gurus. Nesta tarefa sempre foi muito \u00fatil a utiliza\u00e7\u00e3o de eufemismos ou conceitualiza\u00e7\u00f5es vaporosas: a Argentina deveria ser um pa\u00eds s\u00e9rio, moderno, integrado ao mundo.<\/p>\n<p>A eclos\u00e3o de 2001 varreu com essa estrutura argumentativa e o que ficou \u00e0 vista de todos foi a realidade. J\u00e1 n\u00e3o havia maquiagem suficiente para tapar os resultados da doutrina neoliberal, que o pa\u00eds havia abra\u00e7ado com tanto entusiamo.<\/p>\n<p>Os mesmos \u201cl\u00edderes mundiais\u201d que tinham enchido a Argentina de elogios n\u00e3o tiveram vergonha de esconder quanto ganharam seus pa\u00edses, empresas e capitais e colocaram a culpa do ocorrido na \u201cirrespons\u00e1vel\u201d dirig\u00eancia pol\u00edtica local, que n\u00e3o teve a capacidade de fazer o ajuste como deveria. Em todo caso, a administra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica local ganhou o \u201cque se vayan todos\u201d por ter seguido de forma t\u00e3o potente os comandos que chegavam de Washington.<\/p>\n<p>Tanto cinismo, por fim, abriu uma brecha para um projeto pol\u00edtico diferente daquele desenvolvido at\u00e9 ent\u00e3o. O processo aconteceu com carater\u00edsticas semelhantes na Am\u00e9rica Latina. E as respostas da imprensa dominante tamb\u00e9m foram semelhantes. A t\u00e9cnica do eufemismo, apesar de tudo, n\u00e3o desapareceu. Nestes dias de dura luta travada com os fundos abutres, fui ler o jornal La Naci\u00f3n. Em suas p\u00e1ginas, pediu \u201cplasticidade\u201d por parte do governo para resolver o conflito.<\/p>\n<p>Plasticidade, neste caso, seria aceitar as condi\u00e7\u00f5es dos abutres, que entregariam o pa\u00eds a julgamentos multimilion\u00e1rios, fazendo ruir a reestrutura\u00e7\u00e3o da d\u00edvida de 2005 e 2010.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma novidade nesta etapa, que contrasta com o que aconteceu at\u00e9 2001.<\/p>\n<p>As mensagens que chegam dos espa\u00e7os de poder internacionais n\u00e3o s\u00e3o uniformes. N\u00e3o h\u00e1 um discurso \u00fanico como o que havia at\u00e9 ent\u00e3o. Isso talvez seja a melhor express\u00e3o da decomposi\u00e7\u00e3o pela qual atravessa um sistema econ\u00f4mico global monopolizado por setores financeiros.<\/p>\n<p>Neste contexto, a disputa da Argentina com os fundos abutres tornou-se uma tem\u00e1tica proeminente. Completa uma etapa iniciada em 2008 com a crise das hipotecas subprime nos Estados Unidos. A principal pot\u00eancia mundial experimentou na pr\u00f3pria pele os efeitos da desregula\u00e7\u00e3o financeira. Isso sacudiu o tabuleiro. Estados Unidos e Europa deveriam aceitar, por exemplo, a convocat\u00f3ria do G-20 para canalizar a situa\u00e7\u00e3o, dando espa\u00e7o na mesa de tomada de decis\u00f5es pa\u00edses em ascens\u00e3o, como os Brics (Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul) e outros pa\u00edses, em um mundo multipolar.<\/p>\n<p>O reconhecimento internacional para a Argentina nos anos 90 vinha pela direita. Agora, n\u00e3o deixa de chamar aten\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds obtenha apoio de parte de alguns s\u00edmbolos desses setores, como o editorialista estrela do Financial Times ou a mesm\u00edssima Anne Krueger, outrora n\u00famero dois do FMI em 2001. A lista de pa\u00edses e institui\u00e7\u00f5es que apoiam a posi\u00e7\u00e3o do governo \u2013 um governo progressista, de ruptura com o establishment financeiro, que fez a maior quita\u00e7\u00e3o na maior reestrutura\u00e7\u00e3o da d\u00edvida da hist\u00f3ria \u2013 \u00e9 impactante. E isso tamb\u00e9m diz respeito ao fato de a economia internacional estar no meio de algo, de um processo que n\u00e3o se sabe onde vai terminar, mas que apresenta questionamentos cada vez mais firma sobre as bases que pautaram seu funcionamento por quatro d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Houve, na sexta-feira (25\/7\/2014), uma nova demonstra\u00e7\u00e3o neste sentido. Mais de uma centena de parlamentares italianos assinaram uma declara\u00e7\u00e3o em apoio \u00e0 Argentina no conflito com os fundos abutre. Afirmaram que \u201cchegou o momento de superar o caos normativo existente em n\u00edvel internacional para a reestrutura\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas soberanas\u201d. A iniciativa foi assinada por 105 legisladores de diversos partidos pol\u00edticos. O texto proclama a necessidade de \u201cregras e procedimentos de gest\u00e3o acordados em n\u00edvel internacional para a reestrutura\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas soberanas\u201d. \u201cCasos deste tipo revelam a aus\u00eancia das regras e normas claras, que envolvem os mercados financeiros em escala internacional, e podem ter consequ\u00eancias graves para um pa\u00eds soberano e para a estabilidade de todo o sistema econ\u00f4mico internacional\u201d, enfatizaram.<\/p>\n<p>Nesse sentido, entenderam que \u201cesta dram\u00e1tica eventualidade\u201d \u2013como se referem ao caso argentino\u2013 poderia ter \u201crepercuss\u00f5es mais do que graves, tanto no plano interno argentino\u201d, como sobre \u201co sistema econ\u00f4mico e financeiro internacional\u201d.<\/p>\n<p>Diante deste panorama, os legisladores disseram que \u201curge retomar nas institui\u00e7\u00f5es financeiras (FMI e Banco Mundial) o caminho para o estabelecimento de um conjunto de procedimentos de gest\u00e3o acordados, em n\u00edvel internacional, para a reestrutura\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas soberanas\u201d.<\/p>\n<p>Na mesma linha, o secret\u00e1rio adjunto da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para Am\u00e9rica Latina e o Caribe (Cepal), Antonio Prado, advertiu que a senten\u00e7a do juiz Griesa \u201catenta contra o sistema financeiro internacional, porque constitui um precedente que pode obstaculizar outros processos de reestrutura\u00e7\u00e3o da d\u00edvida soberana\u201d. \u201cO caso da Argentina \u00e9 um leading case para a comunidade internacional, que evidencia um vazio jur\u00eddico e deve dar lugar para reformas que permitam proteger os bens comuns\u201d, afirmou o funcion\u00e1rio, ao falar diante do Conselho Sul-americanos de Finan\u00e7as, em sess\u00e3o realizada no Pal\u00e1cio San Mart\u00edn.<\/p>\n<p>Tais manifesta\u00e7\u00f5es de apoio ao pa\u00eds e questionamentos sobre a falta de regulamenta\u00e7\u00e3o internacional dos mercados s\u00e3o um elemento que o governo deve continuar considerando nesta briga com os abutres, pois \u201cestar isolados do mundo\u201d j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais uma op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>________________________________<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Daniella Camba\u00fava<\/em><\/p>\n<p><em>Original<\/em><em>: <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.pagina12.com.ar\/diario\/economia\/2-251600-2014-07-26.html\" >http:\/\/www.pagina12.com.ar\/diario\/economia\/2-251600-2014-07-26.html<\/a><\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Economia\/Os-abutres-isolados-do-mundo%0A\/7\/31486\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 digno de nota que a Argentina obtenha apoio do editorialista estrela do Financial Times. \u201cO caso da Argentina \u00e9 uma tem\u00e1tica proeminente para a comunidade internacional, que evidencia um vazio jur\u00eddico e deve dar lugar para reformas que permitam proteger os bens comuns.\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-45465","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45465","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45465"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45465\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}