{"id":46316,"date":"2014-08-25T12:00:59","date_gmt":"2014-08-25T11:00:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=46316"},"modified":"2015-05-05T21:30:40","modified_gmt":"2015-05-05T20:30:40","slug":"portugues-acusemos-israel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/08\/portugues-acusemos-israel\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Acusemos Israel"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_43164\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Boaventura-de-Sousa-Santos.png\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-43164\" class=\"size-thumbnail wp-image-43164\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Boaventura-de-Sousa-Santos-150x150.png\" alt=\"Boaventura de Sousa Santos\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-43164\" class=\"wp-caption-text\">Boaventura de Sousa Santos<\/p><\/div>\n<p><em>Os cidad\u00e3os do mundo deviam propor a cria\u00e7\u00e3o na Palestina de um Estado secular, plurinacional e intercultural, onde judeus e palestinos possam viver juntos. <\/em><\/p>\n<p>Podem simples cidad\u00e3os de todo o mundo organizar-se para propor em todas as inst\u00e2ncias de jurisdi\u00e7\u00e3o universal poss\u00edveis uma a\u00e7\u00e3o popular contra o Estado de Israel no sentido de ser declarada a sua extin\u00e7\u00e3o, enquanto Estado judaico, n\u00e3o apenas por ao longo da sua exist\u00eancia ter cometido reiteradamente crimes contra a humanidade, mas sobretudo por a sua pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o, enquanto Estado judaico, constituir um crime contra a humanidade? Podem. E como este tipo de crime n\u00e3o prescreve, est\u00e3o a tempo de o fazer. Eis os argumentos e as solu\u00e7\u00f5es para restituir aos judeus e palestinos e ao mundo em geral a dignidade que lhes foi roubada por um dos atos mais violentos do colonialismo europeu no s\u00e9culo XX, secundado pelo imperialismo norte-americano e pela m\u00e1 consci\u00eancia europeia desde o fim da segunda guerra mundial.<\/p>\n<p>O termo sionismo designa o movimento que apoia o \u201cregresso\u201d dos judeus \u00e0 sua suposta p\u00e1tria de que tamb\u00e9m supostamente foram expulsos no s\u00e9culo V AC. H\u00e1, no entanto, que distinguir entre sionismo judaico e sionismo crist\u00e3o. O sionismo judaico tem origem no antissemitismo que desgra\u00e7adamente sempre perseguiu os judeus na Europa e que viria a culminar no holocausto nazi. O sonho de Theodor Herzl, judeu austr\u00edaco e grande poponente do sionismo, era a cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de um Estado judaico, mas de uma p\u00e1tria segura para os judeus. O sionismo crist\u00e3o, por sua vez, \u00e9 antissemita, e a ideia de um Estado judaico deveu-se a pol\u00edticos brit\u00e2nicos, sionistas e anglicanos devotos, como Lord Shaftesbury, que, acima de tudo, desejavam ver o seu pa\u00eds livre dos judeus-enquanto-judeus. Eram tolerados os judeus cristianizados (como Benjamin Disraeli, que chegou a ser Primeiro Ministro), mas s\u00f3 esses. Esta toler\u00e2ncia estava de acordo com a profecia crist\u00e3 de que \u00e9 destino dos judeus converterem-se ao cristianismo. O mesmo sentimento se encontra hoje entre os evang\u00e9licos norte-americanos, que apoiam Israel como Estado judaico, bem como a sua desapiedada expans\u00e3o colonialista contra os palestinos, por acreditarem que a reden\u00e7\u00e3o total ocorrer\u00e1 no fim dos tempos, com a convers\u00e3o dos judeus na Parusia (o regresso de Jesus Cristo).<\/p>\n<p>Ter\u00e1 sido Lord Shaftesbury quem, ainda no s\u00e9culo XIX, formulou o pensamento \u201cuma terra sem povo para um povo sem terra\u201d que ajudaria mais tarde a justificar a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel na Palestina em 1948. E alguns anos mais tarde, foi outro sionista n\u00e3o judeu (Arthur James Balfour) quem prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o de \u201cuma p\u00e1tria para os judeus\u201d na Palestina, sem consultar os povos \u00e1rabes que habitavam esse territ\u00f3rio h\u00e1 mais de mil anos. \u201cOs Grandes Poderes\u201d (\u00c1ustria, R\u00fassia, Fran\u00e7a, Inglaterra), l\u00ea-se no Memorandum Balfour de 11 de Agosto de 1919, \u201cest\u00e3o comprometidos com o Sionismo. E o Sionismo, correto ou incorreto, bom ou mau, tem as suas ra\u00edzes em antiqu\u00edssimas tradi\u00e7\u00f5es, em necessidades atuais e em esperan\u00e7as futuras, que s\u00e3o bem mais importantes do que os desejos de 700.000 \u00e1rabes que neste momento habitam aquele antigo territ\u00f3rio\u201d. Urgia, pois, transformar esses \u00e1rabes em um n\u00e3o-povo.<\/p>\n<p>Em 1948, com o benepl\u00e1cito dos poderes ocidentais, especialmente da Inglaterra, foi criado o Estado de Israel numa Palestina povoada de \u00e1rabes e 10% de judeus imigrantes. Argumentava-se ent\u00e3o que havia de se encontrar um espa\u00e7o para o povo judeu, que ningu\u00e9m queria receber depois do genoc\u00eddio alem\u00e3o. Muito antes dessa cat\u00e1strofe, os sionistas judeus tinham j\u00e1 pensado em v\u00e1rios locais para o seu futuro Estado. No final do s\u00e9culo XIX, a regi\u00e3o do Uganda, no que \u00e9 hoje o Qu\u00eania, ent\u00e3o col\u00f4nia inglesa, foi ponderada como um poss\u00edvel local para o futuro Estado de Israel. Um espa\u00e7o na Argentina chegou tamb\u00e9m a ser considerado. Mais tarde, auscultado sobre um local no norte de \u00c1frica (no que \u00e9 hoje a L\u00edbia), o rei da It\u00e1lia, Victor Emmanuel, ter\u00e1 recusado, respondendo: \u201cMa \u00e8 ancora casa di altri\u201d.<\/p>\n<p>Mas nenhum europeu, por mais preocupado com a situa\u00e7\u00e3o dos judeus, jamais pensou num lugar dentro da pr\u00f3pria Europa. Havia que inventar-se \u201cuma terra sem povo para um povo sem terra\u201d. Mesmo que fosse necess\u00e1rio obliterar um povo. E assim se vem paulatinamente eliminando um povo da face da terra desde h\u00e1 sessenta e seis anos. A Cisjord\u00e2nia palestina vem sendo desmantelada pelos colonatos ilegais e a Faixa de Gaza transformada em pris\u00e3o a c\u00e9u aberto. A extrema-direita israelense \u00e9 apenas mais estridente do que o governo ao reclamar que os \u201c\u00e1rabes fedorentos de Gaza sejam lan\u00e7ados ao mar\u201d. O que \u00e9 espantoso, comenta o historiador judeu israelita, Ilan Papp\u00e9 em <em>The Ethnic Cleansing of Palestine<\/em> (2006), \u00e9 ver como os judeus, em 1948, h\u00e1 t\u00e3o pouco tempo expulsos das suas casas, espoliados dos seus pertences e por fim exterminados, procederam sem pestanejar \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de aldeias palestinas, com expuls\u00e3o dos seus habitantes e massacre daqueles que se recusaram a sair. O controverso coment\u00e1rio de Jos\u00e9 Saramago de h\u00e1 alguns anos de que o esp\u00edrito de Auschwitz se reproduz em Israel faz hoje mais sentido do que nunca.<\/p>\n<p>Assim foi sacrificada a Palestina, invocadas raz\u00f5es b\u00edblicas e hist\u00f3ricas, que a B\u00edblia n\u00e3o sanciona e a hist\u00f3ria viria a desmistificar. Muitos judeus, como os que constituem a Jewish Voice for Peace, n\u00e3o s\u00e3o sionistas e consideram que o Estado de Israel, nas condi\u00e7\u00f5es em que foi criado (um territ\u00f3rio, um povo, uma l\u00edngua, uma religi\u00e3o) \u00e9 uma arcaica aberra\u00e7\u00e3o colonialista fundada no mito de uma \u201cterra de Israel\u201d e de um \u201cpovo judaico\u201d, que a B\u00edblia nem sequer confirma. Como bem demonstra, entre outros, o historiador judeu israelita, Shlomo Sand, a Palestina como a \u201cterra de Israel\u201d \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o recente (<em>The Invention of the Land of Israel<\/em>, 2012). Ali\u00e1s, ainda segundo o mesmo autor, tamb\u00e9m o conceito de \u201cpovo judaico\u201d \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o recente (<em>The Invention of the Jewish People<\/em>, 2009).<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do Estado judaico de Israel configura um crime continuado cujos abismos mais desumanos se revelam nos dias de hoje. Declarada a sua extin\u00e7\u00e3o, os cidad\u00e3os do mundo prop\u00f5em a cria\u00e7\u00e3o na Palestina de um Estado secular, plurinacional e intercultural, onde judeus e palestinos possam viver pacifica e dignamente. A dignidade do mundo est\u00e1 hoje hipotecada \u00e0 dignidade da conviv\u00eancia entre palestinos e judeus.<\/p>\n<p>___________________________<\/p>\n<p><em>Boaventura de Sousa Santos \u00e9 doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, professor catedr\u00e1tico da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diretor dos Centro de Estudos Sociais e do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o 25 de Abril, e Coordenador Cient\u00edfico do Observat\u00f3rio Permanente da Justi\u00e7a Portuguesa &#8211; todos da Universidade de Coimbra. Sua trajet\u00f3ria recente \u00e9 marcada pela proximidade com os movimentos organizadores e participantes do F\u00f3rum Social Mundial e pela participa\u00e7\u00e3o na coordena\u00e7\u00e3o de uma obra coletiva de pesquisa denominada Reinventar a Emancipa\u00e7\u00e3o Social: Para Novos Manifestos.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Coluna\/Acusemos-Israel\/31625\" >Go to Original \u2013 cartamaior.com. br<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">Junte-se \u00e0 campanha BDS (Boicote, Desinvestimento, SAN\u00c7\u00d5ES)<\/span> em protesto contra o b\u00e1rbaro cerco de Gaza pelos sionistas, contra a ocupa\u00e7\u00e3o ilegal do territ\u00f3rio da na\u00e7\u00e3o Palestina, o muro do apartheid, o tratamento desumano e degradante do povo palestino pelos israelitas, e dos mais de 8.000 palestinos homens, mulheres, idosos, adolescentes e crian\u00e7as arbitrariamente encarcerados em pris\u00f5es israelenses.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">N\u00e3o compre produtos CUJAS BARRAS COMECEM COM O N\u00daMERO 729, indicador de que \u00e9 um produto de Israel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">FA\u00c7A SUA PARTE! Fa\u00e7a a diferen\u00e7a! <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">7 2 9: BOICOTE POR JUSTI\u00c7A!<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cria\u00e7\u00e3o do Estado judaico de Israel configura um crime continuado cujos abismos mais desumanos se revelam nos dias de hoje. 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