{"id":47073,"date":"2015-09-21T12:00:57","date_gmt":"2015-09-21T11:00:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=47073"},"modified":"2015-09-17T19:09:17","modified_gmt":"2015-09-17T18:09:17","slug":"portugues-onde-augusto-boal-investiga-a-banalidade-do-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2015\/09\/portugues-onde-augusto-boal-investiga-a-banalidade-do-mal\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Onde Augusto Boal investiga a \u2018banalidade do mal\u2019"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_47074\" style=\"width: 495px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Augusto-Boal.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-47074\" class=\"wp-image-47074 size-full\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Augusto-Boal.jpg\" alt=\"Augusto Boal\" width=\"485\" height=\"328\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Augusto-Boal.jpg 485w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Augusto-Boal-300x202.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 485px) 100vw, 485px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-47074\" class=\"wp-caption-text\">Augusto Boal<\/p><\/div>\n<p><em>Em dois livros quase desconhecidos, dramaturgo narra sua pris\u00e3o pela ditadura. N\u00e3o faz panfleto: quer enxergar engrenagens que transformam tortura em ritual quase burocr\u00e1tico. Leitura dif\u00edcil porque gr\u00e1fica, do dia-a-dia dos prisioneiros e das torturas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas. Documentos hist\u00f3ricos.<\/em><\/p>\n<p>Os dias de pris\u00e3o vivenciados por Augusto Boal s\u00e3o objeto espec\u00edfico de dois de seus livros, ambos concebidos e iniciados no c\u00e1rcere e escritos durante o ex\u00edlio: a pe\u00e7a teatral <em>Torquemada<\/em> (1972) e o romance <em>Milagre no Brasil<\/em> (1979). Apesar de o romance ter sido escrito posteriormente, \u00e9 nele que vamos encontrar indica\u00e7\u00f5es mais precisas dos elementos epis\u00f3dicos e tem\u00e1ticos que foram transpostos e trabalhados ficcionalmente na obra dram\u00e1tica. Quanto a sua autobiografia, servimo-nos dela para demarcar as mudan\u00e7as de tom e enfoque operadas pelo autor ao abordar retrospectivamente a experi\u00eancia carcer\u00e1ria a partir de uma perspectiva temporal mais dilatada que a das obras anteriores.<\/p>\n<div id=\"attachment_41467\" style=\"width: 308px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/pau-de-arara.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-41467\" class=\"wp-image-41467\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/pau-de-arara-198x300.jpg\" alt=\"pau de arara\" width=\"298\" height=\"451\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/pau-de-arara-198x300.jpg 198w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/pau-de-arara.jpg 572w\" sizes=\"auto, (max-width: 298px) 100vw, 298px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-41467\" class=\"wp-caption-text\">Pau-de-arara<\/p><\/div>\n<p>Augusto Boal foi sequestrado e preso em fevereiro de 1971, a caminho de casa logo ap\u00f3s sair do Teatro de Arena, sendo registrado nas fichas de identifica\u00e7\u00e3o do DOPS sob nome falso, para dificultar sua localiza\u00e7\u00e3o por parte de quem fosse procur\u00e1-lo. O motivo alegado de sua pris\u00e3o foi o fato de seu nome ter \u201caparecido num interrogat\u00f3rio\u201d. Torturado com choques el\u00e9tricos no \u201cpau-de-arara\u201d (verdadeira institui\u00e7\u00e3o em nossas latitudes, desde os tempos da escravid\u00e3o), o dramaturgo teve sua casa invadida quando estava na pris\u00e3o, em cela individual, desfrutando da companhia de um singelo camundongo que descreve inicialmente com asco, depois com inusitado lirismo em suas mem\u00f3rias.i<\/p>\n<p>Transferido para o Pres\u00eddio Tiradentes [em S\u00e3o Paulo], passa dois meses em uma cela coletiva e ali rabisca os desenhos e as anota\u00e7\u00f5es a partir das quais escreveria posteriormente <em>Milagre no Brasil<\/em> e <em>Torquemada<\/em>.ii<\/p>\n<p>A pe\u00e7a \u00e9 um protesto contundente contra a ditadura militar brasileira e resgata os epis\u00f3dios vividos no c\u00e1rcere rompendo com a linearidade e a perspectiva temporal dos fatos narrados no romance. Utilizando-se de um recurso ficcional carregado de simbologia \u2013 a irrup\u00e7\u00e3o, como protagonista das atrocidades, do padre Tom\u00e1s de Torquemada, primeiro inquisidor-geral do Santo Of\u00edcio, introduzido na Espanha no final do s\u00e9culo XV \u2013, Boal trabalha os n\u00edveis temporais da narrativa sincronicamente, associando a inquisi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica medieval ao terror instaurado pela ditadura militar no Brasil. O clima de irrealidade da pe\u00e7a e o tratamento aleg\u00f3rico acabam conferindo \u00e0 obra um car\u00e1ter perene, diluindo seu tom inicialmente superficial e panflet\u00e1rio e construindo cenas de intensa dramaticidade e inquestion\u00e1vel valor est\u00e9tico, um libelo contra o fen\u00f4meno da intoler\u00e2ncia que n\u00e3o fica circunscrito a uma experi\u00eancia hist\u00f3rica espec\u00edfica.<\/p>\n<p>J\u00e1 o romance \u2013 que passaremos a comentar \u2013 \u00e9 constru\u00eddo como um minucioso relat\u00f3rio no qual o narrador reconstitui sua trajet\u00f3ria carcer\u00e1ria com a inten\u00e7\u00e3o manifesta de a um s\u00f3 tempo oferecer um testemunho e fazer da obra instrumento de den\u00fancia.<\/p>\n<p>A narrativa come\u00e7a em tom sinistro, numa noite chuvosa na qual o dramaturgo \u00e9 conduzido at\u00e9 as depend\u00eancias do DOPS, departamento de pol\u00edcia pol\u00edtica que o autor classifica como \u201cuma esp\u00e9cie de escrit\u00f3rio policial clandestino\u201d. Em poucas p\u00e1ginas, o ambiente prisional \u00e9 descrito: a cela individual que ocupa (F-1: primeira cela do fund\u00e3o), o soldado que o vigia, os presos transformados em ajudantes (um dos quais, alcunhado \u201cCatarina\u201d) e os funcion\u00e1rios regulares do calabou\u00e7o (como o inspetor Lu\u00eds, \u201cuma esp\u00e9cie de fiscal que anotava tudo o que ocorria\u201d). Um dos homens que o prenderam \u2013 identificado como um dos que tentaram impedir a estr\u00e9ia da <em>Primeira Feira Paulista de Opini\u00e3o<\/em> \u2013 \u00e9 descrito em suas caracter\u00edsticas psicol\u00f3gicas:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cO que o Baixinho mais gostava era de ver rostos assustados: gostava de provocar o medo. Seu sadismo consistia de amea\u00e7ar, mais do que de realizar a viol\u00eancia, efetivamente. Gostava de ver o medo e n\u00e3o a dor na cara de suas v\u00edtimas. (\u2026) Ele era um dos membros do Esquadr\u00e3o da Morte e confessava que o que ele mais gostava de fazer eram os preparativos para matar um homem, e n\u00e3o a morte em si mesma, o assassinato. Quando iam levar um prisioneiro para mat\u00e1-lo na rua, ou num terreno baldio, sentia um enorme prazer em tudo: tirar o prisioneiro da cela, atar suas m\u00e3os com arame (\u2026), met\u00ea-lo dentro do carro, conversar com os outros policiais sobre o melhor lugar para a execu\u00e7\u00e3o, diante do preso que ia ser executado, descer no lugar combinado, fazer o preso correr e finalmente (e isso era o que menos lhe importava) disparar e mat\u00e1-lo. Quando lhe dava o \u00faltimo tiro de miseric\u00f3rdia (\u2026) j\u00e1 n\u00e3o sentia o menor prazer. Se o fazia, era simplesmente porque acreditava ser esse o seu dever profissional: cumpria uma rotina, como um empregado banc\u00e1rio\u201d.iii<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na cela ao lado, sem poder v\u00ea-la, o autor percebe a presen\u00e7a de uma amiga que j\u00e1 passara por sucessivas pris\u00f5es e lhe faz uma recomenda\u00e7\u00e3o, cujo significado ele compreenderia mais tarde: \u201cAqui \u00e9 preciso ser mais brechtiano do que stanislawskiano\u2026 Aqui a gente n\u00e3o pode s\u00f3 sentir, tem que tentar compreender\u2026\u201d. O quadro de terror \u00e9 imediatamente instaurado na narrativa quando ela \u00e9 retirada da cela e levada para o quartel da Rua Tut\u00f3ia:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cO quartel a que [Maria Helena] se referia era um dos lugares mais l\u00fagubres e terr\u00edveis de todo Brasil. (\u2026) Ali tr\u00eas equipes de oficiais se revezavam torturando dia e noite, sem qualquer interrup\u00e7\u00e3o. Os mais ferozes torturadores, os mais animalizados, ali praticavam. E como era pequena a dist\u00e2ncia entre a sala de tortura e as celas dos presos, estes eram for\u00e7ados a escutar dia e noite, sem descanso, os gritos de dor dos companheiros. \u00c0s vezes, a pior tortura \u00e9 ver um torturado. E ali se podia ver \u2013 e se era for\u00e7ado a ver \u2013 e ouvir. Vinte e quatro horas por dia\u201d.iv<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ao narrar a primeira tarde passada no c\u00e1rcere, Augusto Boal n\u00e3o deixa de observar um aspecto esmiu\u00e7ado de forma recorrente no livro, qual seja, a maneira pela qual as atrocidades ali cometidas estavam inscritas numa fria burocracia, num ambiente povoado de seres estranhos \u2013 seja pela circunst\u00e2ncia inusitada de desenvolverem atividades corriqueiras dentro daquele local sinistro (\u201cum homem que vendia caf\u00e9 com biscoitos e sandu\u00edches), seja pelo fato de cumprirem com zelosa naturalidade os ditames de uma verdadeira administra\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie, num c\u00e1lculo racional que chegava \u00e0s raias da ci\u00eancia:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cO policial assinou um \u2018recibo\u2019 por mim, isto \u00e9, eu era a coisa a que o recibo se referia\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u201c\u00c0s duas da tarde, a atmosfera come\u00e7ou a ficar tensa. Todos come\u00e7aram a se comportar de uma maneira diferente, todos mais nervosos, o sil\u00eancio mais duro, nenhum sorriso em nenhum rosto. Era porque \u00e0s duas da tarde come\u00e7avam os interrogat\u00f3rios, as torturas. Como se fosse um escrit\u00f3rio comercial. Burocraticamente. Das duas \u00e0s sete\u201d.v<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O autor \u00e9 atento em observar o poder absoluto de que eram investidos os seus algozes, na medida em que criavam uma r\u00edgida e disciplinada din\u00e2mica de terror que, n\u00e3o obstante \u2013 terror dos terrores \u2013, podia ser subvertida a qualquer momento. \u00c9 o caso do ocorrido com um dos presos pol\u00edticos, que acreditava que seria solto e j\u00e1 se preparava para deixar o aljube:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cOuvi ru\u00eddos no corredor: traziam um homem deitado em uma maca. Quando se aproximaram, pude ver um rosto duramente golpeado. Era H\u00e9lvio que voltava \u00e0 sua cela. Tinha sido torturado com toda a crueldade: hematomas e sangue. Depois me contaram que essa era uma das piores formas de torturar: consistia em dizer ao prisioneiro que ele ia ser posto em liberdade e lhe davam mesmo o direito de tomar banho, fazer a barba, arrumar suas coisas. \u00c0s vezes, at\u00e9 lhe devolviam os documentos e objetos pessoais. E, quando j\u00e1 estava no elevador, em vez de ir para a rua era levado diretamente \u00e0 sala de torturas para novas sess\u00f5es. Inconsciente, voltava \u00e0 sua cela, onde tinha comemorado sua liberdade com seus amigos. Isso produzia um impacto terr\u00edvel sobre a v\u00edtima principal e, colateralmente, sobre todos os seus companheiros. Aliava-se a tortura f\u00edsica \u00e0 psicol\u00f3gica\u201d.vi<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O delegado do DOPS \u2013 S\u00e9rgio Paranhos Fleury \u2013 \u00e9 descrito como \u201cum personagem sinistro\u201d, detentor de um poder p\u00e2nico, capaz de disseminar um pavor repentino, \u00e0s vezes sem fundamento, e de provocar uma rea\u00e7\u00e3o desordenada (individual ou coletiva) de r\u00e1pida propaga\u00e7\u00e3o entre seus subordinados: \u201co terror que os tiras sentiam do seu chefe se convertia em crueldade diante de suas v\u00edtimas\u201d.vii<\/p>\n<p>Ao narrar o seu retorno \u00e0 cela ap\u00f3s o primeiro interrogat\u00f3rio com o sinistro comiss\u00e1rio \u2013 quando os policiais o conduzem ao elevador como se fossem subir \u00e0 sala de torturas, mas afinal acabam apertando o bot\u00e3o do t\u00e9rreo \u2013, Augusto Boal mostra em poucas linhas como o esp\u00edrito do preso vai sendo alquebrado pela tortura psicol\u00f3gica, de tal modo que acaba at\u00e9 mesmo se adaptando \u00e0s condi\u00e7\u00f5es subumanas do c\u00e1rcere:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cOlhei a cama imunda, o cobertor roto e sujo que me tinham trazido como muito favor, a privada ninho de ratos, a pia sem \u00e1gua \u2013 olhei toda essa sujeira e sorri. Eu me sentia como se tivesse voltado para casa. A cela j\u00e1 era para mim um lugar familiar. Me deitei e dormi. Profundamente\u201d.viii<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na narrativa s\u00e3o recriadas algumas situa\u00e7\u00f5es ins\u00f3litas, especialmente uma, caracterizada como sendo \u201cde extremo rid\u00edculo e insuper\u00e1vel bo\u00e7alidade\u201d, quando, estando o autor no \u201cpau-de-arara\u201d, quase no limite de perder a consci\u00eancia, um dos torturadores o acusa de difamar a imagem do Brasil no exterior: \u201c- Mas difamo como?\u201d, pergunta. \u201c\u2013 Voc\u00ea difama porque, quando voc\u00ea vai ao Exterior, l\u00e1 fora voc\u00ea diz que aqui no Brasil existe tortura!\u201d (vendo a cena de cabe\u00e7a para baixo, ali pendurado, o dramaturgo n\u00e3o suportou o rid\u00edculo da situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o conseguiu conter o riso).<\/p>\n<p>O romance pode ser lido n\u00e3o apenas como um panfleto, ou seja, como um texto de den\u00fancia, protesto e indigna\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m como um ensaio sobre a psicologia do torturador. H\u00e1 mesmo um cap\u00edtulo do livro (\u201cUm jantar macabro\u201d) no qual os presos insistem em narrar uma s\u00e9rie de torturas que se praticavam no Brasil, apesar da insist\u00eancia de um deles, que pedia que o ros\u00e1rio de crueldades cessasse \u2013 pois, como anota o autor, \u201co assunto fascinava a todos n\u00f3s, hipnoticamente\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 importante observar que, nas entrelinhas, mais do que a \u201csoberana estupidez\u201d, o narrador tenta compreender o incompreens\u00edvel \u2013 como, por exemplo, a aparente naturalidade dos seus algozes, que queriam \u201capressar o servi\u00e7o\u201d para poderem ir para casa jantar com a mulher e os filhos. Interessa-lhe n\u00e3o apenas apontar a natureza e a inclina\u00e7\u00e3o fac\u00ednora, perversa e s\u00e1dica de cada um daqueles personagens \u2013 de resto, como o pr\u00f3prio autor afirma, integrantes de um sistema muito mais amplo \u2013, mas sobretudo penetrar na alma ou no interior da consci\u00eancia daqueles homens aparentemente desprovidos desses atributos e do pr\u00f3prio senso de humanidade:<\/p>\n<p><strong><em>\u201c\u2013 \u00c9 verdade que a gente est\u00e1 te torturando sim, mas com todo o respeito.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u201c[O m\u00e9dico da pris\u00e3o] entrou na cela de H\u00e9lvio e seu Lu\u00eds [o inspetor] foi atr\u00e1s. (\u2026) Seu Lu\u00eds perguntou se n\u00e3o tinham exagerado um pouco na tortura.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u2013 N\u00e3o, n\u00e3o\u2026 \u2013 respondeu o m\u00e9dico. \u2013 Acontece que torturaram ele de uma forma errada. N\u00e3o fizeram um trabalho profissional. (\u2026) Penduraram ele de uma perna s\u00f3, a direita. (\u2026) O resultado foi esse, \u00e9 l\u00f3gico\u2026<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Seu Lu\u00eds perguntou ent\u00e3o muito naturalmente quantos dias teriam que esperar antes de poderem torturar de novo. Friamente, o m\u00e9dico respondeu:<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u2013 N\u00e3o precisa repouso nenhum, n\u00e3o. Se quiserem fazer outra sess\u00e3o hoje mesmo \u00e0 tarde, como n\u00e3o? S\u00f3 que n\u00e3o podem encostar na perna direita: mas podem pendurar o rapaz pela esquerda\u2026\u201dix<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Por vezes, \u00e9 como se o autor considerasse que os personagens que integram a verticalidade da paisagem carcer\u00e1ria fizessem parte de uma engrenagem aut\u00f4noma: a certa altura, observa que seus torturadores n\u00e3o sabiam exatamente que perguntas deveriam dirigir-lhe, olhando um roteiro com algumas quest\u00f5es previamente estabelecidas.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o do universo carcer\u00e1rio assume outra inflex\u00e3o quando o autor passa a narrar os dias que passou ap\u00f3s sua transfer\u00eancia para a cela 3 do Pres\u00eddio Tiradentesx. A perspectiva subjetiva, terrificada pelo ambiente do DOPS, vai aos poucos cedendo lugar \u00e0 descri\u00e7\u00e3o dos companheiros de cela e dos demais personagens que compunham aquele submundo carcer\u00e1rio: o m\u00e9dico (tamb\u00e9m recluso) que atendia aos presos pol\u00edticos e aos presos comuns (chamados <em>corr\u00f3s<\/em>), o \u201cqueijeiro\u201d Zeca (que fazia queijo na cela para oferec\u00ea-lo aos presos comuns, como complemento de sua alimenta\u00e7\u00e3o), Scarface (ladr\u00e3o e contrabandista, a princ\u00edpio rejeitado pelo grupo devido \u00e0 sua origem), Buda (o b\u00f3ia-fria) e o inesquec\u00edvel Polyana xi.<\/p>\n<p>A prec\u00e1ria organiza\u00e7\u00e3o do cub\u00edculo e o espa\u00e7o f\u00edsico da cela coletiva s\u00e3o esquadrinhados:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cMinha primeira impress\u00e3o foi estranha: olhei e n\u00e3o vi onde estava a cela. O que vi me pareceu um dep\u00f3sito. Muitas camas duplas, umas em cima das outras, roupa pendurada por toda parte, caixas de alimentos, charque e lingui\u00e7as penduradas ao lado das roupas, bananas. Uma mistura infernal. As paredes estavam todas recobertas de cartazes, especialmente de mulheres nuas. Jane Fonda era a mais consp\u00edcua. Entre as camas, algumas estantes cheias de livros e rem\u00e9dios. Dois ou tr\u00eas viol\u00f5es, uma mesa grande no centro e mais outras duas, v\u00e1rias cadeiras e uma poltrona. Cortina na maioria das camas: umas estavam abertas e outras fechadas, como se fossem caixas. A isto os presos chamavam moc\u00f3s.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u201c(\u2026) O moc\u00f3 era o reduto \u00edntimo e \u00faltimo do preso, que s\u00f3 ali podia ficar sozinho. Dentro do moc\u00f3, os presos colocavam tamb\u00e9m pequenas estantes privadas, com suas coisas pessoais, fotografias, rel\u00f3gio, cadernos e at\u00e9 sua decora\u00e7\u00e3o pessoal. O preso podia entrar no seu moc\u00f3, fechar as cortinas e se isolar do mundo. Esse era o seu ninho. A volta ao \u00fatero\u201d.xii<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O autor descreve a teia de solidariedade existente entre os presos, como a confec\u00e7\u00e3o de bijuterias, colares e bolsas \u2013 de que tamb\u00e9m nos fala Frei Betto em suas cartas \u2013 que eram vendidos para fora e cuja renda era destinada a amenizar as dificuldades financeiras das fam\u00edlias de outros presos. Havia mesmo uma bebida que era fabricada com as frutas trazidas pelos parentes e destilada clandestinamente no banheiro de algumas celas.<\/p>\n<p>Outros \u201cpersonagens\u201d \u2013 isto \u00e9, homens forjados em situa\u00e7\u00f5es-limite que o escritor recria literariamente dando ensejo inclusive a situa\u00e7\u00f5es c\u00f4micas e ir\u00f4nicas, coisa que n\u00e3o ocorre em <em>Torquemada<\/em>, obra marcada por um clima permanentemente dram\u00e1tico e sombrio \u2013 nos s\u00e3o apresentados, como o japon\u00eas Hirata, farmac\u00eautico que com seu sotaque peculiar depositava uma confian\u00e7a exacerbada na R\u00e1dio Nacional, emissora sob interven\u00e7\u00e3o cujas informa\u00e7\u00f5es eram contestadas por Copy Desk, dono de grande habilidade e prodigiosa mem\u00f3ria com cifras estat\u00edsticas:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cCopy Desk falava com paix\u00e3o. Os n\u00fameros em sua boca n\u00e3o eram simples abstra\u00e7\u00f5es. Quando dizia que no Nordeste existia um d\u00e9ficit de 2.300.000, dava a impress\u00e3o de que conhecia pessoalmente a cada uma das fam\u00edlias que n\u00e3o tinham essas 2.300.000 casas, e que compartia suas dores e suas incomodidades\u201d. xiii<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O carcereiro, por sua vez, \u00e9 retratado como sendo possu\u00eddo por um compulsivo apetite:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cN\u00e3o perdoava nada. Quando por casualidade chegava tarde ao jantar [na cela dos presos], ele se sentava ao lado da lata do lixo e antes que as pessoas esvaziassem os restos dos seus pratos ele sempre aproveitava alguma coisinha: um osso n\u00e3o completamente chupado, uma folha de alface, uns fios de espaguete\u201d.xiv<\/em><\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 trechos do livro que parecem tecidos com elementos eminentemente ficcionais. A partir do relato do carcereiro, Boal reconstitui com humor o di\u00e1logo de um dos presos pol\u00edticos com o diretor do pres\u00eddio. O ingl\u00eas, que ocupava a \u201cCela dos Lordes\u201d, exigia em tom formal os seus direitos legais, entre os quais o de entrevistar-se privadamente com sua esposa:<\/p>\n<p><strong><em>\u201c\u2013 Como advogado, o senhor deve saber que existe um estatuto para os presos, especialmente para os presos pol\u00edticos. Segundo esse estatuto n\u00f3s temos muitos direitos, muitas regalias. Eu lamento ter que dizer, senhor diretor, que essas regalias e esses direitos n\u00e3o t\u00eam sido respeitados, pelo menos no que me diz respeito.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u2013 Voc\u00eas tomam sol duas vezes por semana; n\u00f3s permitimos que joguem futebol meia hora depois do sol; t\u00eam livros nas celas; algumas celas t\u00eam at\u00e9 aparelhos de televis\u00e3o. Suas fam\u00edlias s\u00e3o autorizadas a trazer comida que n\u00f3s n\u00e3o interceptamos. Que mais querem? Que mais querem?<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u2013 Esses s\u00e3o direitos b\u00e1sicos, doutor. Eu me refiro a outros\u2026<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u2013 O senhor quer voltar aos tempos passados??? Quando esta penitenci\u00e1ria era um prost\u00edbulo, um cabar\u00e9, uma verdadeira Sodoma e Gomorra??? (\u2026) Escute de uma vez por todas, mister. Aqui, enquanto eu viva, vai haver respeito na marra. (\u2026) O senhor \u00e9 um abusado. Como pode ter pensado nisso? Eu n\u00e3o li a sua ficha, mas conhe\u00e7o o senhor muito bem. Primeiro, a sua mulher come\u00e7ou a trazer ch\u00e1 ingl\u00eas pra c\u00e1. Eu percebi muito bem, porque eu fiscalizo tudo que entra nas celas, n\u00e3o vou deixar passar um rev\u00f3lver ou um punhal. Ch\u00e1 ingl\u00eas!!! Veja s\u00f3. No pavilh\u00e3o dos corr\u00f3s se passa fome, fome de verdade. Os corr\u00f3s disputam na porrada a pouca comida que existe. E o senhor com seu ch\u00e1 ingl\u00eas\u2026 Bom, como se n\u00e3o bastasse, sua senhora esposa come\u00e7ou a trazer biscoitos doces. Caramba! Nem que fosse o Presidente da Rep\u00fablica! Mas eu fiquei calado. Estou a favor da propriedade privada e cada um pode dispor dos seus bens como bem entender. Depois, come\u00e7aram os pratos salgados: pat\u00ea franc\u00eas, presunto de n\u00e3o sei onde e at\u00e9 frango com farofa. Frango com farofa, minha Nossa Senhora!!! Mas em nome da propriedade privada eu fui aguentando tudo, tudo o que se refere ao est\u00f4mago! Mas agora tenho que dizer chega!!! O est\u00f4mago sim, eu respeito! Mas a abstin\u00eancia \u00e9 parte da condena\u00e7\u00e3o!!!\u201dxv<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Apesar de a narrativa \u00e0s vezes ceder lugar ao humor e \u00e0 ironia, o que acaba prevalecendo em <em>Milagre no Brasil<\/em> \u00e9 um clima absurdo e surreal. \u201cNo universo contingente da pris\u00e3o, territ\u00f3rio do abuso e da subvers\u00e3o moral, a realidade transfigura-se em irrealidade\u201d, como bem observou Maria Jos\u00e9 de Queiroz. Isso se torna mais evidente quando o autor nos conta, por exemplo, que os dias de visita no pres\u00eddio Tiradentes eram tamb\u00e9m dias de butim (uma vez que os guardas se apropriavam dos despojos dos presos e o retorno \u00e0s celas era marcado pelo paciente invent\u00e1rio das coisas saqueadas), ou quando reconstitui o pat\u00e9tico depoimento de um dos presos na auditoria militar acusando o tribunal de exce\u00e7\u00e3o de abrigar entre seus membros os seus pr\u00f3prios torturadores, sem deixar de registrar ainda a impot\u00eancia dos jornalistas diante do epis\u00f3dio kafkiano:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cOs jornalistas presentes foram avisados de que n\u00e3o poderiam publicar nada, e por isso nem se deram ao trabalho de escrever o que estavam vendo\u201d.xvi<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Detentor de prodigiosa mem\u00f3ria e de escrupuloso senso de observa\u00e7\u00e3o, Augusto Boal \u00e9 atento aos detalhes que vivenciou ou que lhe foram narrados durante sua pris\u00e3o e com eles comp\u00f5e, a exemplo do que fez Graciliano Ramos em <em>Mem\u00f3rias do c\u00e1rcere,<\/em> um cen\u00e1rio miser\u00e1vel e dantesco: o carcereiro faminto que come a metade do sandu\u00edche que o dramaturgo deixara na cela antes de subir \u00e0 sala de torturas, um preso dando choques el\u00e9tricos em si mesmo para \u201cmanter a forma\u201d, o industrial que al\u00e9m de subvencionar o aparelho repressivo mantido pelo regime gostava de assistir \u00e0s torturas pelas quais pagava, o estupro de um preso comum no pavilh\u00e3o dos correcionais.<\/p>\n<p>Entremeando di\u00e1logos e situa\u00e7\u00f5es, o autor vai fundindo a observa\u00e7\u00e3o em torno dos colegas com a descri\u00e7\u00e3o do ambiente penitenci\u00e1rio, criando um clima que beira o absurdo. Parece-nos, entretanto, que interessa ao narrador n\u00e3o somente a den\u00fancia, mas tamb\u00e9m anotar a profus\u00e3o de coisas d\u00edspares que habita a realidade carcer\u00e1ria, o modo como se entrecruzam as expectativas individuais dos detentos (\u201cquanto tempo duraria ainda o mal das grades\u201d?) e a concep\u00e7\u00e3o de mundo daqueles homens sinistros que promoveram sua reclus\u00e3o ou eram de uma maneira ou de outra respons\u00e1veis por sua tutela e sujei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao narrar, por exemplo, a visita de um integrante da organiza\u00e7\u00e3o <em>Opus Dei<\/em> \u00e0 cela, Augusto Boal procura captar os postulados da estranha l\u00f3gica que habitava aquela alma peregrina \u2013 alma confusa que a um s\u00f3 tempo condenava a tortura por quest\u00f5es de foro \u00edntimo mas justificava sua aplica\u00e7\u00e3o em \u201csitua\u00e7\u00f5es extremas\u201d, afirmando que no Brasil a tortura desempenharia um \u201cpapel progressista\u201d e desenvolvendo a tese de que \u201cdiante de cada problema que o homem enfrenta deve ser considerada humana a solu\u00e7\u00e3o mais eficaz\u201d.<\/p>\n<p>Em tom ficcional, o romancista situa o contra-senso \u00e9tico e pol\u00edtico que a argumenta\u00e7\u00e3o comportava, mostrando que a banaliza\u00e7\u00e3o do mal \u00e9 constru\u00edda a partir de um discurso previamente elaborado (no caso, de cartilha), discurso dogm\u00e1tico que o nosso narrador certamente rejeita (com um travo de ironia), mas cujos termos quase tenta <em>compreender<\/em>, ou seja, incluir no universo de uma formula\u00e7\u00e3o geral:<\/p>\n<p><strong><em>\u201c\u2013 A tortura est\u00e1 muito desacreditada hoje em dia. \u00c9 preciso restabelecer a sua dignidade. Dizem por a\u00ed que o torturado \u00e9 capaz de confessar at\u00e9 o que n\u00e3o fez. \u00c9 verdade. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o torturador consciente n\u00e3o aceita a confiss\u00e3o sem provas. A confiss\u00e3o \u00e9 o come\u00e7o do processo, n\u00e3o \u00e9 o fim. Torturar significa vencer certas resist\u00eancias morais, ideol\u00f3gicas, psicol\u00f3gicas, que p\u00f5em o paciente em um estado de esp\u00edrito hostil e contr\u00e1rio ao do interrogador. Vencidas essas resist\u00eancias muito compreens\u00edveis, o paciente estar\u00e1 pronto a mostrar sua boa vontade, sua coopera\u00e7\u00e3o\u201d.xvii<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Diante da aridez de tal paisagem, o \u00fanico contraponto que encontramos \u00e9 uma semente que vemos nascer dos pr\u00f3prios sulcos daquela terra agredida que o romance exp\u00f5e e denuncia. O sentimento de irmandade entre pessoas que pertenciam a organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas distintas e divergentes e que foram obrigadas a um longo per\u00edodo de conviv\u00eancia for\u00e7ada \u00e9 apontado por todos os escritores que consultamos (exce\u00e7\u00e3o feita a Graciliano Ramos), inclusive autores identificados com o regime.xviii<\/p>\n<p>Augusto Boal o afirma com todas as letras: \u201cN\u00f3s todos sent\u00edamos que \u00e9ramos irm\u00e3os. Foi o \u00fanico favor que nos fez a ditadura\u201d. Mais que isso, aponta a estranha solidariedade que viceja at\u00e9 mesmo entre carcereiros e presos \u2013 em \u00faltima inst\u00e2ncia, ainda que por motivos distintos, tamb\u00e9m obrigados a uma conviv\u00eancia for\u00e7ada.xix<\/p>\n<p>Em <em>Milagre no Brasil<\/em>, s\u00e3o in\u00fameras as men\u00e7\u00f5es a pequenos atos de solidariedade, troca de informa\u00e7\u00f5es, condescend\u00eancia diante de alguma irregularidade e mesmo observa\u00e7\u00f5es canhestras atravessadas por um certo cinismo como a que transcrevemos a seguir:<\/p>\n<p><strong><em>\u201c\u2013 Eu avisei, eu avisei\u2026 [diz o carcereiro ao prisioneiro que havia insultado um dos guardas, julgando erroneamente que seria trocado pelo embaixador norte-americano que acabara de ser sequestrado por uma organiza\u00e7\u00e3o de esquerda] Comigo voc\u00eas podem falar o que quiserem. Mas n\u00e3o digam nada aos soldados que est\u00e3o de plant\u00e3o. Que \u00e9 que voc\u00eas querem? Digam a mim que n\u00f3s somos filhos da puta e n\u00e3o vai acontecer nada. Mas aos soldados, n\u00e3o!. Existe uma diferen\u00e7a muito grande entre um civil e um soldado: n\u00f3s, civis, n\u00f3s compreendemos que somos uns filhos da puta, fazendo esse servi\u00e7o que a gente faz. Mas os milicos n\u00e3o compreendem, n\u00e3o, eles pensam que isso \u00e9 patriotismo, essas coisas\u2026\u201d.xx<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ainda em rela\u00e7\u00e3o a esse \u00faltimo aspecto, deve-se observar que quando ainda permanecia em regime de incomunicabilidade Augusto Boal conseguiu enviar duas cartas ao exterior por interm\u00e9dio de um soldado que, devido a suas inclina\u00e7\u00f5es musicais, identificou-se com o fato de o prisioneiro ser co-autor de uma das m\u00fasicas cantadas pelos outros presos. Quando recuperou a liberdade, o missivista p\u00f4de verificar que as cartas chegaram a seu destino, desencadeando a campanha de solidariedade que culminaria na sua soltura.xxi<\/p>\n<p>O olhar cr\u00edtico do autor, entretanto, n\u00e3o desaparece frente ao epis\u00f3dio:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cSempre existem soldados assim nos regimes fascistas: gente que condena o governo, mas que ao mesmo tempo n\u00e3o tem a coragem suficiente para negar-se a servi-lo. (\u2026) Esses soldados \u2018bonzinhos\u2019 s\u00e3o muito poucos, na verdade: a maioria termina por assumir a ideologia da repress\u00e3o e a justificar os seus pr\u00f3prios atos contra o povo, a sua pr\u00f3pria bestialidade\u201d.xxii<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Apesar do permanente tom de den\u00fancia pol\u00edtica, o romance n\u00e3o se reduz \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de simples relat\u00f3rio das atrocidades cometidas pelo regime instaurado no Brasil em 1964. Se a pe\u00e7a teatral <em>Torquemada<\/em> pode ser lida como um papiro bruto sobre o qual o autor reconstruiu de forma aleg\u00f3rica a sua c\u00f3lera e o seu rancor, <em>Milagre no Brasil<\/em> pode ser lido como um palimpsesto, por tr\u00e1s de cujas marcas aparentemente objetivas (\u201cneste livro tudo \u00e9 verdade, verdade modificada pela mem\u00f3ria\u201d) \u00e9 poss\u00edvel perceber camadas mais profundas e procedimentos estil\u00edsticos extremamente elaborados que, somados ao distanciamento cr\u00edtico operado pelo autor, elevam o romance \u00e0 categoria de uma das obras-primas da literatura carcer\u00e1ria brasileira.<\/p>\n<p><strong>NOTAS:<\/strong><\/p>\n<p>BOAL, Augusto. <em>Milagre no Brasil<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1979.<\/p>\n<p>__________. <em>Torquemada<\/em>. In: Teatro de Augusto Boal \u2013 II. S\u00e3o Paulo: Hucitec, 1990.<\/p>\n<p>__________. <em>Teatro do Oprimido.<\/em> Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1977.<\/p>\n<p>__________. <em>Teatro Legislativo<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1996.<\/p>\n<p>iCuriosamente, o simp\u00e1tico roedor n\u00e3o comparece no romance ou na pe\u00e7a, apenas nas mem\u00f3rias. Quando fala de sua pris\u00e3o, aos 70 anos, Boal parece ter passado por um processo cat\u00e1rtico, talvez por j\u00e1 ter trabalhado esses dem\u00f4nios em obras precedentes \u2013 na pe\u00e7a, com intenso \u00f3dio e rancor; no romance, como um jornalista. <em>Hamlet e o filho do padeiro<\/em> \u00e9 uma s\u00edntese entre o tom passional e a postura cr\u00edtica verificados nas obras mencionadas e, ao tratar de sua estadia no c\u00e1rcere depois de trinta anos, o autor se permite de modo muito mais recorrente a ironia, que se espraia como forma de consci\u00eancia que consegue abarcar e compreender a crueldade perpetrada pelo regime militar.<\/p>\n<p>iiAs circunst\u00e2ncias de composi\u00e7\u00e3o dessas duas obras n\u00e3o est\u00e3o de todo explicitadas. Em suas mem\u00f3rias o autor nos fala apenas dos desenhos que teria subtra\u00eddo ao olhar vigilante das autoridades do pres\u00eddio, passando-os em segredo para a m\u00e3e que o visitava. No romance, alude ao fato de ter redigido em segredo alguns cadernos, em parte em outras l\u00ednguas para convencer as autoridades carcer\u00e1rias de que eram anota\u00e7\u00f5es de estudo.<\/p>\n<p>iii<em>Milagre no Brasil,<\/em>pp. 12-13. Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, Augusto Boal nos fala dos \u201cdelinquentes enquistados no aparelho governamental\u201d. O diretor do pres\u00eddio Tiradentes, para onde o dramaturgo seria transferido, \u00e9 apresentado como um homem dotado de um sinistro pragmatismo: tamb\u00e9m integrante do \u201cEsquadr\u00e3o da Morte\u201d, considerava a organiza\u00e7\u00e3o interessante por dispensar \u201cprocessos demorados\u201d, mas defendia uma certa \u201cdiscri\u00e7\u00e3o\u201d nas execu\u00e7\u00f5es e na divulga\u00e7\u00e3o dos feitos do grupo. \u201cSuas propostas n\u00e3o venceram nunca: ningu\u00e9m conseguia tirar aos policiais o prazer de matar, como ao Baixinho ningu\u00e9m lhe podia tirar o prazer de provocar o medo, o terror. O sadismo era imanente aos integrantes do Esquadr\u00e3o\u201d. (Idem, p. 129).<\/p>\n<p>iv<em>Milagre no Brasil,<\/em> p. 26.<\/p>\n<p>v<em>Milagre no Brasil<\/em>, p. 28.<\/p>\n<p>vi<em>Milagre no Brasil<\/em>, pp. 32-33.<\/p>\n<p>viiA certa altura do livro Augusto Boal afirma ter ouvido \u00e0 \u00e9poca em que escrevia o romance a hist\u00f3ria (que n\u00e3o pudemos confirmar) de que o comiss\u00e1rio possuiria um aparelho de TV em circuito interno, podendo ver e ouvir de sua mesa o que acontecia na sala de torturas. De qualquer maneira, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar mais esse instrumento totalit\u00e1rio, que, se realmente existiu, deveria funcionar como uma esp\u00e9cie de <em>pan\u00f3ptico<\/em> foucaultiano em rela\u00e7\u00e3o ao zelo dos outros funcion\u00e1rios tamb\u00e9m encarregados das torturas.<\/p>\n<p>viii<em>Milagre no Brasil<\/em>, p. 45.<\/p>\n<p>ix<em>Milagre no Brasil<\/em>, p. 35.<\/p>\n<p>xComo bem lembrou o autor, esse pres\u00eddio possui uma longa tradi\u00e7\u00e3o: antigo mercado de escravos desde o per\u00edodo colonial at\u00e9 a aboli\u00e7\u00e3o, com o advento da Rep\u00fablica converteu-se em pris\u00e3o para presos comuns e tamb\u00e9m em pris\u00e3o pol\u00edtica em \u00e9pocas de ditadura.<\/p>\n<p>xiPolyana defendia a tese de que n\u00e3o existe nada, por pior que seja, que n\u00e3o tenha o seu lado bom:\u201c- Podia ser pior\u2026 Estou chegando do Carandiru\u2026 Podia estar indo para l\u00e1\u2026\u201d. Segundo sua l\u00f3gica, a situa\u00e7\u00e3o em que se encontravam no Pres\u00eddio Tiradentes tamb\u00e9m \u201cpodia ser pior\u201d, se comparada a situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas ent\u00e3o verificadas na Indon\u00e9sia, na Turquia, no Vietn\u00e3\u2026 Esse personagem tinha uma peculiar maneira de ver as coisas que, como bem observa Maria Jos\u00e9 de Queiroz, nos lembra a figura do Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, companheiro de pris\u00e3o de Graciliano que \u00e9 descrito nas <em>Mem\u00f3rias do c\u00e1rcere<\/em> como um otimista contumaz, devido a seu ir\u00f4nico apego \u00e0 \u201cteoria das duas hip\u00f3teses\u201d. A alcunha do prisioneiro citado por Augusto Boal tem origem no personagem do livro de Eleanor H. Porter, \u201cPoliana\u201d, traduzido por Monteiro Lobato em 1934.<\/p>\n<p>xii<em>Milagre no Brasil<\/em>, pp. 85-86. A familiaridade do autor e dos outros presos com a pris\u00e3o vai sendo revelada ao leitor pela profus\u00e3o de g\u00edrias e alcunhas existente no pres\u00eddio, pela descri\u00e7\u00e3o das atividades comuns que mantinham e pelas estrat\u00e9gias de resist\u00eancia e sobreviv\u00eancia que desenvolviam naquele ambiente hostil. O contato com o mundo era permitido por meio de um aparelho de TV, de um r\u00e1dio e de jornais. Os dias de visita eram regulares, n\u00e3o sendo permitida a visita entre presos. Os alimentos eram requisitados aos familiares (exceto leite e p\u00e3o) e a limpeza da cela era feita pelos pr\u00f3prios presos. As atividades eram m\u00faltiplas: gin\u00e1stica, aulas de hist\u00f3ria e l\u00ednguas, matem\u00e1tica e artesanato. Havia per\u00edodos de sil\u00eancio absoluto, destinados \u00e0 leitura e ao estudo.<\/p>\n<p>xiii<em>Milagre no Brasil<\/em>, p. 100. A caracteriza\u00e7\u00e3o deste personagem contrasta com a do ent\u00e3o ministro da economia, M\u00e1rio Henrique Simonsen, citado no livro como algu\u00e9m cujo exerc\u00edcio tecnocr\u00e1tico e megaloman\u00edaco da profiss\u00e3o podia transcorrer estritamente mediante c\u00e1lculos matem\u00e1ticos, uma vez que o modelo que ajudara a instalar, coercitivo, autorit\u00e1rio, teria simplificado e pacificado as negocia\u00e7\u00f5es coletivas para os reajustes salariais e dissolvido o inconveniente do permanente jogo de greves e press\u00f5es que havia anteriormente.<\/p>\n<p>xiv<em>Milagre no Brasil<\/em>, p. 113.<\/p>\n<p>xv<em>Milagre no Brasil,<\/em> pp. 130-133.<\/p>\n<p>xvi<em>Milagre no Brasil,<\/em> p. 159.<\/p>\n<p>xvii<em>Milagre no Brasil,<\/em> p. 202.<\/p>\n<p>xviiiAtribui-se a um dos ide\u00f3logos do regime militar brasileiro \u2013 Golbery do Couto e Silva \u2013 a afirma\u00e7\u00e3o, eivada de cinismo, segundo a qual \u201ca esquerda s\u00f3 se une na cadeia\u201d.<\/p>\n<p>xixNuma circunst\u00e2ncia bastante distinta, durante a ocupa\u00e7\u00e3o pac\u00edfica da Assembl\u00e9ia Legislativa de S\u00e3o Paulo por professores em greve, tive oportunidade de verificar algo semelhante entre os grevistas e os policiais militares que ali permaneceram: depois de dois dias, a rela\u00e7\u00e3o entre professores e policiais tornava-se simp\u00e1tica e at\u00e9 afetiva. Pude ver policiais que reconheceram antigos mestres ou ent\u00e3o professores de seus filhos, dos quais se despediram chorando ao serem substitu\u00eddos por outros policiais que chegavam sempre carrancudos. Quanto a estes, depois de um dia de fome e sede, tornavam-se simp\u00e1ticos ao verem que seus superiores n\u00e3o se importavam com suas condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e que recebiam aten\u00e7\u00e3o apenas daqueles a quem deveriam reprimir. Havia, naturalmente, os refrat\u00e1rios, que insistiam em ficar em posi\u00e7\u00e3o inflex\u00edvel (empertigados pela domestica\u00e7\u00e3o de seus corpos, diria Foucault) e que por sua vez n\u00e3o mereciam de nossa parte nenhuma aten\u00e7\u00e3o especial. O epis\u00f3dio, apesar de prosaico e marcado por uma viv\u00eancia pessoal, serve para mostrar que a conviv\u00eancia for\u00e7ada em situa\u00e7\u00f5es extremas n\u00e3o necessariamente conduz \u00e0 selvageria, podendo ser circunst\u00e2ncia de humaniza\u00e7\u00e3o. Da\u00ed porque, nessa mesma circunst\u00e2ncia, a troca constante de guarda revelou-se na verdade estrat\u00e9gia pol\u00edtica de domina\u00e7\u00e3o, associada \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>xx<em>Milagre no Brasil,<\/em> p. 194.<\/p>\n<p>xxiPressionado por uma campanha internacional, o regime viu-se obrigado a promover sua soltura e o autorizou a se juntar ao elenco do Arena que participava do Festival Mundial de Teatro de Nancy (Fran\u00e7a), fazendo-o assinar uma declara\u00e7\u00e3o de que retornaria ao pa\u00eds e, ao mesmo tempo, amea\u00e7ando-o de morte caso cumprisse o que fora obrigado a declarar no papel. Assim Augusto Boal chegou ao avi\u00e3o que o levaria ao longo ex\u00edlio, do qual retornaria apenas ap\u00f3s a anistia.<\/p>\n<p>xxii<em>Milagre no Brasil,<\/em> p. 52.<\/p>\n<p>____________________________<\/p>\n<p><em>Ov\u00eddio Poli Junior:<\/em><em> Escritor, editor e doutor em literatura brasileira pela USP.<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/onde-augusto-boal-encontra-se-com-hannah-arendt\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em dois livros quase desconhecidos, dramaturgo narra sua pris\u00e3o pela ditadura. N\u00e3o faz panfleto: quer enxergar engrenagens que transformam tortura em ritual quase burocr\u00e1tico. Leitura dif\u00edcil porque gr\u00e1fica, do dia-a-dia dos prisioneiros e das torturas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas. Documentos hist\u00f3ricos.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-47073","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47073","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47073"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47073\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47073"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47073"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47073"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}