{"id":47338,"date":"2014-09-22T12:00:00","date_gmt":"2014-09-22T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=47338"},"modified":"2015-05-05T21:30:35","modified_gmt":"2015-05-05T20:30:35","slug":"portugues-augusto-boal-o-subversivo-maravilhoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/09\/portugues-augusto-boal-o-subversivo-maravilhoso\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Augusto Boal: o subversivo maravilhoso"},"content":{"rendered":"<p><em>Em seu testamento, ele prop\u00f4s: \u201cTemos obriga\u00e7\u00e3o de inventar outro mundo. Mas cabe constru\u00ed-lo com nossas m\u00e3os, entrando em cena, no palco e na vida.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Boal queria transformar o mundo. Queria um mundo em que as pessoas pudessem se realizar em todo seu potencial. Quando voltou dos Estados Unidos, em 1956, veio com uma das mais poderosas armas para o desenvolvimento humano. Veio com o teatro incorporado a seu ser, acreditando que Stanislavski o ajudaria a levar a cabo a revolu\u00e7\u00e3o cultural necess\u00e1ria. E reinventou o teatro.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, o Brasil se reinventava em todos os aspectos da criatividade humana: reformas de base, teatro, cinema novo, bossa nova, poesia concreta, CPC da UNE, democracia, CGT\/Pua[1] , Congresso de Trabalhadores Agr\u00edcolas, projeto nacional de desenvolvimento, plano trienal\u2026. \u00e9, o Brasil se reinventava.<\/p>\n<p>As metr\u00f3poles temerosas de perder sua fonte de riqueza deram o golpe. O teatro j\u00e1 n\u00e3o era suficiente para enfrentar a ditadura civil-militar que teimava em anular cada uma das conquistas do povo brasileiro. Liquidaram com os partidos de express\u00e3o popular, fecharam o Congresso, intervieram nos sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es estudantis, cassaram e ca\u00e7aram a intelig\u00eancia e as lideran\u00e7as nacionais.<\/p>\n<p>Diante da impossibilidade de atuar e avan\u00e7ar politicamente, comunistas, cat\u00f3licos, democratas das mais diversas cores partiram para a luta armada, como op\u00e7\u00e3o para livrar o pa\u00eds de seus algozes. Amigo de Carlos Marighella e C\u00e2mara Ferreira, Augusto Boal n\u00e3o ficou indiferente aos novos desafios. S\u00f3 o teatro j\u00e1 n\u00e3o bastava como arma para devolver a liberdade e a democracia ao povo brasileiro. Preso, torturado, saiu para o ex\u00edlio e continuou a fazer do teatro sua arena de luta em favor da liberta\u00e7\u00e3o dos povos. Boal jamais se recuperou das sequelas da tortura: tr\u00eas ou mais cirurgias no joelho e, finalmente, a leucemia que mais tarde o levou deste mundo.<\/p>\n<p>No ex\u00edlio, Boal continuou a ser perseguido e torturado pela ditadura. Deixaram-no sem passaporte. A mim tamb\u00e9m a ditadura me deixou sem passaporte. \u00c9 terr\u00edvel, pois no exterior o passaporte \u00e9 o \u00fanico documento v\u00e1lido e n\u00f3s precis\u00e1vamos trabalhar para sobreviver. Al\u00e9m disso, Boal queria mostrar seu teatro para o mundo. Um teatro j\u00e1 evolu\u00eddo para uma a\u00e7\u00e3o consciencializadora, capaz de despertar as pessoas a olhar al\u00e9m de seu pr\u00f3prio umbigo e encarar cr\u00edtica e criativamente a realidade.<\/p>\n<p>Idibal Piveta, advogado, seguidor dos ensinamentos de Boal, que como poeta e teatr\u00f3logo \u00e9 o Cesar Vieira do \u201cUni\u00e3o e Olho Vivo\u201d, impetrou mandado de injun\u00e7\u00e3o contra a Uni\u00e3o pelo absurdo de negar passaporte a um cidad\u00e3o. O caso foi parar no Superior Tribunal de Justi\u00e7a que deu ganho de causa a Boal por nove votos a favor e dois contra. Na sess\u00e3o seguinte foi julgado o meu processo e os ju\u00edzes votaram onze a zero. Firmou jurisprud\u00eancia e a partir da\u00ed todos os brasileiros que estavam no ex\u00edlio sem passaporte puderam requerer nas embaixadas e permanecer devidamente documentados.<\/p>\n<p>Em 1969 nos encontramos em Cuba. Depois, vez ou outra nos encontr\u00e1vamos em Buenos Aires. Na Argentina, ele criou o Teatro Invis\u00edvel, uma forma de fazer manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em ambientes p\u00fablicos, como em \u00f4nibus, metr\u00f4 etc. Nessa \u00e9poca ele mostrou seu teatro no Festival de Nancy (1971) e ganhou seu primeiro pr\u00eamio internacional. Antes j\u00e1 havia sido premiado em S\u00e3o Paulo em reconhecimento a sua obra e seu trabalho no Teatro de Arena.<\/p>\n<p>Quando o governo revolucion\u00e1rio de Velasco Alvarado, no Peru, iniciou a reforma na educa\u00e7\u00e3o, na realidade uma revolu\u00e7\u00e3o cultural que come\u00e7ava com uma estrat\u00e9gia de alfabetiza\u00e7\u00e3o e outra de educa\u00e7\u00e3o, sugeri a Salazar Bondy que convidasse Boal para nos ajudar na forma\u00e7\u00e3o dos quadros que formariam o contingente de educadores. Salazar Bondy, educador, fil\u00f3sofo, epistemologista, era o executivo do Minist\u00e9rio de Educa\u00e7\u00e3o, e quem tocava o principal projeto da revolu\u00e7\u00e3o peruana: a forma\u00e7\u00e3o do homem novo.<\/p>\n<p>Foram momentos maravilhosos conviver com Salazar Bondy, assim como poder interagir com lideran\u00e7as de uma cultura milenar como a andina. Sei que essa experi\u00eancia influenciou profundamente o Boal. Foi a\u00ed que, aplicando a t\u00e9cnica do Teatro Invis\u00edvel, criou o Teatro F\u00f3rum para trabalhar os conflitos intererrelacionais.<\/p>\n<p>Em 1978 Boal foi para a Fran\u00e7a e, no ano seguinte, seu Teatro do Oprimido estava provocando uma ebuli\u00e7\u00e3o no meio intelectual franc\u00eas com repercuss\u00e3o por v\u00e1rios pa\u00edses da Europa. Impressionante como essa ideia extravasou fronteiras. A acumula\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias levou-o a utilizar o teatro como terapia, materializado no Arco-\u00cdris do Desejo.<\/p>\n<p>Em 1986 Boal aceitou convite formulado por Darcy Ribeiro, secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro no governo de Leonel Brizola, e foi dirigir a F\u00e1brica de Teatro Popular. A partir dessa \u00e9poca, permaneceu no Brasil desenvolvendo seu projeto, dando palestras, viajando pelo mundo a fim de difundir suas ideias e suas t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>Em 1992 foi eleito vereador na cidade do Rio de Janeiro e aproveitou a experi\u00eancia para mais uma de suas cria\u00e7\u00f5es: o Teatro Legislativo. Mais uma ferramenta de a\u00e7\u00e3o cultural conscientizadora, atrav\u00e9s da qual estimulava o povo a pensar a legisla\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em 2008 o processo de anistia a Boal, que estava parado h\u00e1 cerca de nove anos, foi para julgamento na Comiss\u00e3o de Anistia. Num primeiro momento, para a burocracia, Boal n\u00e3o poderia receber indeniza\u00e7\u00e3o mensal e continuada porque n\u00e3o havia prova documental de que trabalhava e de quanto recebia mensalmente quando foi preso, torturado e for\u00e7ado a um ex\u00edlio de mais de dez anos.<\/p>\n<p>Chegaram centenas de cartas e em\u00eaios do mundo inteiro testemunhando o trabalho e a import\u00e2ncia de Boal. Nem ele mesmo tinha ideia de tal abrang\u00eancia de sua contribui\u00e7\u00e3o para a a\u00e7\u00e3o cultural atrav\u00e9s do teatro no mundo. Felizmente a comiss\u00e3o entendeu que, como diretor do Teatro de Arena, Boal n\u00e3o poderia ter carteira assinada, mas era remunerado como qualquer outro diretor teatral. A repara\u00e7\u00e3o foi concedida.<\/p>\n<p>A concess\u00e3o da anistia aliviou um pouco a situa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. No entanto, a essa altura Boal j\u00e1 estava bastante doente. Em 27 de mar\u00e7o de 2009, teve a alegria de receber da Unesco o t\u00edtulo de Embaixador Mundial do Teatro. Inegavelmente, o seu discurso, mais do que uma despedida \u00e9 um testamento[2]. Deixa pra n\u00f3s sua mensagem de sempre: \u201cTeatro n\u00e3o pode ser apenas um evento \u2013 \u00e9 forma de vida! Atores somos todos n\u00f3s, e cidad\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aquele que vive em sociedade: \u00e9 aquele que a transforma!\u201d<\/p>\n<p>Em homenagem a Augusto Boal transcrevo seu discurso:<\/p>\n<p><em>\u201cTodas as sociedades humanas s\u00e3o espetaculares no seu cotidiano, e produzem espet\u00e1culos em momentos especiais. S\u00e3o espetaculares como forma de organiza\u00e7\u00e3o social, e produzem espet\u00e1culos como este que voc\u00eas vieram ver.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cMesmo quando inconscientes, as rela\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o estruturadas em forma teatral: o uso do espa\u00e7o, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modula\u00e7\u00e3o das vozes, o confronto de ideias e paix\u00f5es, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: n\u00f3s somos teatro!<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o s\u00f3 casamentos e funerais s\u00e3o espet\u00e1culos, mas tamb\u00e9m os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, n\u00e3o nos chegam \u00e0 consci\u00eancia. N\u00e3o s\u00f3 pompas, mas tamb\u00e9m o caf\u00e9 da manh\u00e3 e os bons-dias, t\u00edmidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sess\u00e3o do Senado ou uma reuni\u00e3o diplom\u00e1tica \u2013 tudo \u00e9 teatro.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cUma das principais fun\u00e7\u00f5es da nossa arte \u00e9 tornar conscientes esses espet\u00e1culos da vida di\u00e1ria onde os atores s\u00e3o os pr\u00f3prios espectadores, o palco \u00e9 a plat\u00e9ia e a plat\u00e9ia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver t\u00e3o habituados estamos apenas a olhar. O que nos \u00e9 familiar torna-se invis\u00edvel: fazer teatro, ao contr\u00e1rio, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cEm setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revela\u00e7\u00e3o teatral: n\u00f3s, que pens\u00e1vamos viver em um mundo seguro, apesar das guerras, genoc\u00eddios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de n\u00f3s em pa\u00edses distantes e selvagens, n\u00f3s viv\u00edamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeit\u00e1vel ou nas m\u00e3os de um honesto corretor da Bolsa \u2013 n\u00f3s fomos informados de que esse dinheiro n\u00e3o existia, era virtual, feia fic\u00e7\u00e3o de alguns economistas que n\u00e3o eram fic\u00e7\u00e3o, nem eram seguros, nem respeit\u00e1veis. Tudo n\u00e3o passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Pol\u00edticos dos pa\u00edses ricos fecharam-se em reuni\u00f5es secretas e de l\u00e1 sa\u00edram com solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas. N\u00f3s, v\u00edtimas de suas decis\u00f5es, continuamos espectadores sentados na \u00faltima fila das galerias.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cVinte anos atr\u00e1s, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cen\u00e1rio era pobre; no ch\u00e3o, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de come\u00e7ar o espet\u00e1culo, eu dizia aos meus atores: \u2013 \u201cAgora acabou a fic\u00e7\u00e3o que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, l\u00e1 no palco, nenhum de voc\u00eas tem o direito de mentir. <\/em><em>Teatro \u00e9 a Verdade Escondida\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cVendo o mundo al\u00e9m das apar\u00eancias, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, g\u00eaneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obriga\u00e7\u00e3o de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo \u00e9 poss\u00edvel. Mas cabe a n\u00f3s constru\u00ed-lo com nossas m\u00e3os entrando em cena, no palco e na vida.<\/em><br \/>\n<em>\u201cAssistam ao espet\u00e1culo que vai come\u00e7ar; depois, em suas casas com seus amigos, fa\u00e7am suas pe\u00e7as voc\u00eas mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro n\u00e3o pode ser apenas um evento \u2013 \u00e9 forma de vida!<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cAtores somos todos n\u00f3s, e cidad\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aquele que vive em sociedade: \u00e9 aquele que a transforma!\u201d<\/em><\/p>\n<p>Augusto Boal, 27 Mar\u00e7o, 2009, Dia Mundial de Teatro<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/mundo\/america-latina\/augusto-boal-o-subversivo-maravilhoso\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu testamento, ele prop\u00f4s: \u201cTemos obriga\u00e7\u00e3o de inventar outro mundo. 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