{"id":47699,"date":"2014-09-22T12:00:42","date_gmt":"2014-09-22T11:00:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=47699"},"modified":"2015-05-05T21:30:34","modified_gmt":"2015-05-05T20:30:34","slug":"portugues-o-mel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/09\/portugues-o-mel\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Mel"},"content":{"rendered":"<p><strong>O que \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>O mel \u00e9 uma subst\u00e2ncia adocicada e viscosa produzida pelas abelhas a partir do n\u00e9ctar de flores ou solu\u00e7\u00f5es a\u00e7ucaradas, recolhidos pelas abelhas com a glossa (l\u00edngua), armazenado na ves\u00edcula mel\u00edfera (papo), digerido pelas enzimas da saliva (invertase, diastase, catalase, alfa-glicosidase, glicose-oxidase, peroxidase, lipase, amilase, fosfatase \u00e1cida e inulase), que principalmente transformam a sacarose em monossacar\u00eddeos (glicose e frutose) e o amido em maltose.<\/p>\n<p>Depois que as abelhas recolhem o n\u00e9ctar e retornam \u00e0 colmeia elas o transferem para o papo de outra abelha, que transfere para outra, que transfere para outra . . . A cada passagem o n\u00e9ctar vai sofrendo mais a\u00e7\u00f5es enzim\u00e1ticas e vai perdendo maior quantidade de \u00e1gua. O n\u00e9ctar ent\u00e3o se torna mel, que \u00e9 depositado em c\u00e9lulas de cera (alv\u00e9olos) no interior da colmeia.<\/p>\n<p>Apesar da grande considera\u00e7\u00e3o que recebe, o mel \u00e9 composto 80% de a\u00e7\u00facares (31% glicose, 38% frutose, 1 % sacarose e 7 % maltose, 3 % outros a\u00e7\u00facares), 17% \u00e1gua e apenas 3% s\u00e3o outros componentes (concentra\u00e7\u00f5es \u00ednfimas ou tra\u00e7os de prote\u00ednas, vitaminas, minerais, \u00e1cidos org\u00e2nicos e antioxidantes de origem vegetal), muitos deles removidos do mel com a filtra\u00e7\u00e3o (O melado de cana e os a\u00e7\u00facares mascavo e demerara s\u00e3o mais ricos que o mel em prote\u00ednas, pot\u00e1ssio, c\u00e1lcio, magn\u00e9sio, f\u00f3sforo, cobre, ferro, cloro e vitaminas do complexo B e n\u00e3o recebem tamanha considera\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Sua grande concentra\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facares o torna 2,5 vezes mais cal\u00f3rico do que os ovos, quase 4 vezes mais cal\u00f3rico do que a carne de frango, e 5,6 vezes mais cal\u00f3rico do que o leite.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de quantidades de \u00e1gua acima de 18% torna o mel sujeito \u00e0 a\u00e7\u00e3o de leveduras fermentadoras e outros microorganismos, como bact\u00e9rias patog\u00eanicas (ex.<em>Clostridium botulinum<\/em>, causador do bolulismo). Por esse motivo, mesmo pessoas favor\u00e1veis \u00e0 utilizam do mel n\u00e3o o recomendam para crian\u00e7as em idade muito tenra.<\/p>\n<p>A sociedade das abelhas \u00e9 homeot\u00edpica, sendo que cada casta desempenha atividades muito bem definidas. Na colmeia existe apenas uma rainha, \u00fanica f\u00eamea f\u00e9rtil, sendo esta respons\u00e1vel pela postura de ovos e manuten\u00e7\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o entre os demais membros por meio de ferom\u00f4nios; alguns zang\u00f5es, machos respons\u00e1veis por fecundar a rainha; e alguns milhares de oper\u00e1rias, f\u00eameas inf\u00e9rteis respons\u00e1veis por todo o trabalho na colmeia.<\/p>\n<p><strong>O sistema de explora\u00e7\u00e3o ap\u00edcola<\/strong><\/p>\n<p>O ser humano usufrui do mel desde antes do neol\u00edtico, por\u00e9m nos sistemas mais primitivos de explora\u00e7\u00e3o as colmeias eram parcial ou completamente destru\u00eddas. Por volta de 10 mil anos atr\u00e1s desenvolveram-se t\u00e9cnicas de explora\u00e7\u00e3o racional da colmeia, o que facilitava o manejo e preservava em parte a col\u00f4nia, garantindo continuidade de sua explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma tend\u00eancia rom\u00e2ntica \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o da apicultura como uma atividade harm\u00f4nica e respeitosa, na qual o ser humano mant\u00eam as abelhas, potencializa sua produ\u00e7\u00e3o e em troca recebe a poliniza\u00e7\u00e3o de suas lavouras e os excedentes da produ\u00e7\u00e3o das colmeias, na forma principalmente de mel. Essa vis\u00e3o, no entanto, \u00e9 falsa.<\/p>\n<p>Embora a apicultura racional n\u00e3o implique na completa destrui\u00e7\u00e3o da colmeia, como era realizada na coleta de mel silvestre, ela mant\u00e9m as abelhas em permanente sistema de explora\u00e7\u00e3o. O apicultor \u00e9 gentil com suas abelhas apenas pelo tempo que est\u00e1 se beneficiando de seus produtos, mas n\u00e3o deixa de explor\u00e1-las quando conv\u00e9m, e mesmo mat\u00e1-las quando conv\u00e9m.<\/p>\n<p>Cada casta de abelhas possui suas peculiaridades e o manejo da colmeia implica no conhecimento de sua biologia e na explora\u00e7\u00e3o de cada uma dessas caracter\u00edsticas, \u00e0 servi\u00e7o do ser humano. Entendamos de que forma cada casta \u00e9 explorada na apicultura:<\/p>\n<p>Rainha:\u00a0Devido ao fato de que uma colmeia bem produtiva deve possuir mais de 60 mil abelhas, e as oper\u00e1rias \u2013 a maior parte das abelhas que comp\u00f5em a colm\u00e9ia \u2013 possuem longevidade de menos de 45 dias, a rainha deve manter uma taxa constante de oviposi\u00e7\u00e3o, entre 2 e 3 mil ovos por dia.<\/p>\n<p>A rainha vive cerca de 5 anos, por\u00e9m por volta dos 2 anos de idade sua produ\u00e7\u00e3o de ovos j\u00e1 apresenta decaimento. Para que a colmeia n\u00e3o perca seu potencial produtivo, o apicultor deve eliminar a rainha todos os anos, no m\u00e1ximo a cada dois anos. Esse processo de elimina\u00e7\u00e3o da rainha regente se chama \u201corfana\u00e7\u00e3o\u201d. Esta ser\u00e1 substitu\u00edda por uma nova rainha emergida na pr\u00f3pria colmeia ou trazida de outra colmeia.<\/p>\n<p>O processo consiste no apicultor abrir a caixa onde cria as abelhas e identificar a presen\u00e7a de \u201crealeiras\u201d, c\u00e9lulas de cria grandes de onde certamente emergir\u00e1 uma nova rainha. Em havendo tais c\u00e9lulas ele localiza a rainha \u201cvelha\u201d e a esmaga. Al\u00e9m de esmagar a rainha atual o apicultor pode destruir v\u00e1rias realeiras com larvas em desenvolvimento, para impedir que muitas rainhas emerjam de uma vez.<\/p>\n<p>A todo momento a colmeia produz princesas, larvas de abelha que se desenvolver\u00e3o em novas rainhas. Na natureza essas princesas emergem e disputam a colmeia com a rainha m\u00e3e, sendo que a maioria delas acaba por ser expulsa da colmeia levando consigo um s\u00e9quito de oper\u00e1rias com a finalidade de fundar novas colmeias, em um processo denominado \u201cenxamea\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Essa dissid\u00eancia enfraquece a col\u00f4nia original, o que em um sistema de explora\u00e7\u00e3o racional n\u00e3o pode ocorrer. Ademais, o apicultor n\u00e3o quer que uma rainha nova e saud\u00e1vel, que esteja depositando muitos ovos por dia, perca tempo disputando seu posto com outras rainhas. Assim sendo, o apicultor que j\u00e1 possui uma rainha saud\u00e1vel elimina as larvas-princesas antes de elas emergirem das realeiras.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras ocasi\u00f5es em que a rainha \u00e9 eliminada pelo apicultor, como quando este resolve unir dois enxames fracos em um \u00fanico enxame forte. Nesse caso a tend\u00eancia \u00e9 eliminar a rainha mais velha ou mais fraca.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s rainhas, h\u00e1 ainda uma outra categoria de explora\u00e7\u00e3o que envolve a venda de rainhas com alto potencial gen\u00e9tico entre apicultores.<\/p>\n<p>Nesse caso, o vendedor despacha pelo correio rainhas rec\u00e9m emergidas (ou pupas de rainhas por emergir) com um pequeno s\u00e9quito de oper\u00e1rias cuidadoras, ficando os animais sujeitos aos extremos de temperatura, falta de \u00e1gua, fome e todo o estresse envolvido no transporte e acondicionamento em caixa fechada.<\/p>\n<p>Zang\u00e3o:\u00a0Os zang\u00f5es possuem como \u00fanica fun\u00e7\u00e3o na colmeia fecundar a rainha virgem. No entanto, ap\u00f3s fecundada, uma rainha pode armazenar em sua espermateca todo o esperma que necessitar\u00e1 para permanecer fecunda pelo resto de sua vida. Assim sendo, pelo tempo que n\u00e3o houver a necessidade de substitui\u00e7\u00e3o da rainha, a presen\u00e7a de zang\u00f5es ser\u00e1 desnecess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em um sistema racional de explora\u00e7\u00e3o ap\u00edcola a presen\u00e7a de grande quantidade de zang\u00f5es em uma colmeia \u00e9 visto como problema. Zang\u00f5es vivem cerca de 80 dias e, sendo duas vezes maiores do que as oper\u00e1rias, consomem muito mais mel do que estas. Zang\u00f5es tamb\u00e9m ocupam as oper\u00e1rias que tentam mant\u00ea-los afastados da rainha j\u00e1 fecundada, impedindo-as de trabalharem em outras fun\u00e7\u00f5es. Por serem os zang\u00f5es as \u00fanicas abelhas que podem entrar em v\u00e1rias colmeias diferentes, o apicultor os v\u00ea como poss\u00edveis vetores de pat\u00f3genos (\u00e1caros, bact\u00e9rias e v\u00edrus) entre colmeias.<\/p>\n<p>Por todos esses motivos, o apicultor que j\u00e1 possui todas as suas rainhas fecundadas e bem produtivas elimina os zang\u00f5es, seja na fase adulta, seja na fase larval (as c\u00e9lulas onde est\u00e3o se desenvolvendo zang\u00f5es s\u00e3o maiores do que as c\u00e9lulas onde se desenvolvem as oper\u00e1rias).<\/p>\n<p>Em v\u00e1rias cria\u00e7\u00f5es a presen\u00e7a f\u00edsica de um zang\u00e3o sequer se faz necess\u00e1ria, pois nesses casos recorre-se \u00e0 insemina\u00e7\u00e3o artificial das abelhas-rainhas. Nesse sistema o zang\u00e3o com alto potencial gen\u00e9tico \u00e9 pego e decapitado. A decapita\u00e7\u00e3o faz com que o zang\u00e3o ejacule em uma placa. Seu esperma \u00e9 ent\u00e3o recolhido com uma seringa e injetado na espermateca de uma rainha virgem.<\/p>\n<p>Oper\u00e1rias: As abelhas oper\u00e1rias s\u00e3o as respons\u00e1veis por todo o trabalho da colmeia, chegando a trabalhar mais de 10 horas seguidas por dia. Este trabalho inclui uma gama de atividades, geralmente associadas com a idade da abelha. De forma geral, as atividades s\u00e3o:<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>Tarefa<\/strong><\/td>\n<td><strong>Idade (dias)<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Limpeza de alv\u00e9olos<\/td>\n<td>0 a 8<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Opercula\u00e7\u00e3o de cria<\/td>\n<td>2 a 9<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Atendimento de cria<\/td>\n<td>5 a 15<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Atendimento da rainha<\/td>\n<td>3 a 14<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Recebimento de n\u00e9ctar<\/td>\n<td>8 a 16<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Remo\u00e7\u00e3o de detritos<\/td>\n<td>7 a 21<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Compacta\u00e7\u00e3o de p\u00f3len<\/td>\n<td>8 a 19<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Constru\u00e7\u00e3o de favos<\/td>\n<td>11 a 22<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Ventila\u00e7\u00e3o da colm\u00e9ia<\/td>\n<td>13 a 22<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Guarda da colm\u00e9ia<\/td>\n<td>14 a 27<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Primeiro forrageamento<\/td>\n<td>18 a 28<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Durante sua vida uma abelha campestre necessitar\u00e1 voar cerca de 800 km para produzir 2,5 ml de mel. Para produzirem um quilo de mel, as abelhas precisam visitar 5 milh\u00f5es de flores. O prop\u00f3sito de todo este trabalho \u00e9 criar reservas de mel para a colmeia, pois uma colmeia t\u00edpica necessita de cerca de 90 kg de mel para se manter em per\u00edodos sem florada.<\/p>\n<p>As abelhas n\u00e3o realizam todo esse trabalho com o objetivo de suprir o ser humano com seus produtos. O que muitas pessoas podem considerar excedentes de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o na verdade reservas que as abelhas mant\u00e9m para o sustento da colmeia em tempos de escassez. A retirada do mel, ainda que em retribui\u00e7\u00e3o o apicultor disponibilize solu\u00e7\u00f5es a\u00e7ucaradas para ajudar as abelhas a se manterem em tempos de escassez torna o sistema todo bastante injusto (em pa\u00edses com invernos rigorosos muitos apicultores sequer se preocupam em manter suas col\u00f4nias durante essa esta\u00e7\u00e3o, permitindo que elas morram para assim n\u00e3o necessitarem mant\u00ea-las).<\/p>\n<p>O ser humano, e isso inclui o apicultor, s\u00e3o percebidos pelas abelhas como inimigos e n\u00e3o aliados. Quando o ser humano mexe em uma colmeia, seja para realizar revis\u00f5es, seja para extra\u00e7\u00e3o de mel, as abelhas oper\u00e1rias tentam defend\u00ea-la, dando ferroadas. Em uma explora\u00e7\u00e3o racional de mel o apicultor estar\u00e1 utilizando trajes de prote\u00e7\u00e3o adequados, de modo que as picadas n\u00e3o lhe atingir\u00e3o, por\u00e9m, isso n\u00e3o impede que as abelhas piquem seu traje.<\/p>\n<p>Quando o ferr\u00e3o da abelha entra em um tecido, a presen\u00e7a de espinhos r\u00edgidos em forma de serra faz com que ele se prenda ao mesmo, n\u00e3o podendo mais ser solto. Sendo um prolongamento de seu pr\u00f3prio abd\u00f4men, quando a abelha abandona a v\u00edtima, deixa para tr\u00e1s \u00f3rg\u00e3os vitais \u00e0 sua sobreviv\u00eancia, incluindo parte de seu trato digestivo. Ap\u00f3s haver picado sua vitima a abelha morre em no m\u00e1ximo 15 minutos.<\/p>\n<p>Embora o apicultor utilize trajes de colora\u00e7\u00e3o branca (cor que transmite calma \u00e0s abelhas), e embora fumegue fuma\u00e7a com a inten\u00e7\u00e3o de atordoa-las enquanto mexe na colmeia (na verdade a fuma\u00e7a faz com que as abelhas creiam que a colmeia est\u00e1 pegando fogo e isso faz com que elas engulam grandes quantidades de mel, ficando embriagadas), as abelhas sempre tentar\u00e3o defender a colmeia picando o apicultor.<\/p>\n<p>A abertura e fechamento da tampa, a remo\u00e7\u00e3o e recoloca\u00e7\u00e3o dos quadros e demais procedimentos adotados pelo apicultor implica em eventuais esmagamentos de algumas abelhas. Outras ser\u00e3o pisoteadas. Essas abelhas, quando esmagadas, liberar\u00e3o ferom\u00f4nios que induzir\u00e3o outras abelhas a intensificar seus ataques ao apicultor. A verdade \u00e9 que centenas de abelhas poder\u00e3o morrer cada vez que a colmeia for manipulada.<\/p>\n<p>Larvas:\u00a0Al\u00e9m de todas as abelhas adultas que s\u00e3o mortas em diferentes etapas do manejo da colmeia, e das larvas de rainhas e zang\u00f5es que s\u00e3o propositalmente eliminadas com o prop\u00f3sito de controle de enxamea\u00e7\u00e3o, as larvas das abelhas oper\u00e1rias tamb\u00e9m s\u00e3o mortas quando da manipula\u00e7\u00e3o da colmeia.<\/p>\n<p>Muitas dessas larvas s\u00e3o mortas por esmagamento n\u00e3o proposital, quando da manipula\u00e7\u00e3o dos quadros e da tampa da caixa. Outras s\u00e3o mortas durante a opera\u00e7\u00e3o de desopercula\u00e7\u00e3o e retirada do mel. Nessa opera\u00e7\u00e3o, o apicultor retira da colmeia os quadros que cont\u00e9m mel e os coloca na vertical. Ele ent\u00e3o passa uma faca cortando a capa de cera que recobre os favos de mel (op\u00e9rculo), permitindo que o mel escorra. Em geral as apiculturas modernas possuem centr\u00edfugas onde os quadros s\u00e3o colocados, permitindo um melhor escoamento do mel.<\/p>\n<p>Ocorre que alguns desses favos onde se sup\u00f5em haver apenas mel (melgueiras) em verdade podem conter larvas de abelhas em desenvolvimento. Essas larvas ser\u00e3o removidas juntamente com o mel e centrifugadas, vindo a morrer por consequ\u00eancia dessa manipula\u00e7\u00e3o. Posteriormente \u00e0 centrifuga\u00e7\u00e3o, o mel \u00e9 coado em peneira pr\u00f3pria e encaminhado ao decantador. Dessa forma, todos os peda\u00e7os de insetos mortos durante o processo ser\u00e3o removidos do produto final.<\/p>\n<p><strong>Outros produtos das abelhas<\/strong><\/p>\n<p>Abelhas tamb\u00e9m s\u00e3o exploradas para a obten\u00e7\u00e3o de cera, gel\u00e9ia real, pr\u00f3polis e p\u00f3len.<\/p>\n<p>A cera \u00e9 produzida pelas abelhas por meio das gl\u00e2ndulas cer\u00edngeas e se presta \u00e0 constru\u00e7\u00e3o dos favos da colmeia. As abelhas necessitam consumir de 6 a 7 gramas de mel para produzirem 1 grama de cera. A cera \u00e9 usada como ingrediente cosm\u00e9tico, na ind\u00fastria de alimentos ou como ceras de polimento, velas, etc.<\/p>\n<p>O p\u00f3len \u00e9 coletado das flores juntamente com o n\u00e9ctar, sendo transportado pelas abelhas nas corb\u00edculas presentes em suas patas traseiras. Uma vez na colmeia, o p\u00f3len \u00e9 armazenado nos alv\u00e9olos dos favos, submetido \u00e0 a\u00e7\u00e3o das enzimas contidas na saliva das abelhas e umidade e convertidos em \u201cp\u00e3o das abelhas\u201d, sua principal fonte alimentar de prote\u00ednas.<\/p>\n<p>O apicultor pode recolher o p\u00f3len coletado pelas abelhas antes delas entrarem nas colmeias, instalando coletores na porta de entrada. Esses coletores s\u00e3o feitos de modo que as abelhas consigam passar pela abertura, mas deixem cair a bolota de p\u00f3len em uma bandeja que possui uma tela, de modo que quando a pelota cai na bandeja n\u00e3o pode ser recuperada pela abelha.<\/p>\n<p>A gel\u00e9ia real \u00e9 o alimento destinado \u00e0 casta das rainhas, bem como na alimenta\u00e7\u00e3o das larvas de abelhas oper\u00e1rias at\u00e9 o terceiro dia de vida, e das larvas dos zang\u00f5es.\u00a0 Ela \u00e9 produzida pelas abelhas oper\u00e1rias mais jovens por meio de suas gl\u00e2ndulas hipofar\u00edngeas utilizando mel e p\u00f3len e possui composi\u00e7\u00e3o diferenciada em rela\u00e7\u00e3o ao mel comum.<\/p>\n<p>A pr\u00f3polis \u00e9 obtida pelas abelhas a partir de resinas retiradas principalmente de secre\u00e7\u00f5es de \u00e1rvores, quando destas se quebra algum galho. Dessa forma a \u00e1rvore se protege com um produto natural com poder bactericida e a abelha reprocessa essa seiva, misturando a ela cera, p\u00f3len e gorduras. Esta \u00e9 utilizada pelas abelhas para duas finalidades principais: vedar a colmeia de maneira a n\u00e3o permitir a entrada de \u00e1gua, vento ou outros animais; e encapar outros insetos ou animais que penetram na colmeia e s\u00e3o mortos l\u00e1 dentro (essa \u201cmumifica\u00e7\u00e3o\u201d impede que o animal se decomponha dentro da colmeia).<\/p>\n<p>Por sua reconhecida a\u00e7\u00e3o antibi\u00f3tica a pr\u00f3polis \u00e9 consumida como profil\u00e1tico, sendo que o mesmo representa potencial perigo \u00e0 sa\u00fade humana, devido \u00e0s propriedades do composto. Sendo um produto natural muitas pessoas acreditam que n\u00e3o apresente contraindica\u00e7\u00f5es. A pr\u00f3polis \u00e9 extra\u00edda da colmeia raspando suas molduras e frestas, expondo a colmeia \u00e0 friagem e \u00e0 a\u00e7\u00e3o de invasores.<\/p>\n<p>Outro recurso produzido pelas abelhas e aproveitado pelo ser humano \u00e9 a apitoxina, o veneno de abelhas, utilizado por exemplo para o tratamento de reumatismo. A apitoxina \u00e9 extra\u00edda das abelhas ministrando-lhes choques el\u00e9tricos de 12v e 2 amp\u00e9res por cerca de 20 minutos.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es \u00e9ticas referentes \u00e0 apicultura<\/strong><\/p>\n<p>Muitos supostos vegetarianos defendem que a explora\u00e7\u00e3o mel\u00edfera n\u00e3o envolve a morte das abelhas, configurando-se mais como uma rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica entre ser humano e a abelha do que uma rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o. Nada mais distante da realidade, pois conforme visto, a apicultura envolve a morte de muitas abelhas. Certamente n\u00e3o se trata de uma rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica.<\/p>\n<p>O mel, o p\u00f3len, e a gel\u00e9ia real s\u00e3o alimentos produzidos pelas abelhas para a alimenta\u00e7\u00e3o da colmeia; aproveitar-se de parte desse esfor\u00e7o para benef\u00edcio humano nada mais \u00e9 do que roubo. A cera e a pr\u00f3polis s\u00e3o os elementos construtivos da colmeia; destruir partes da colmeia para for\u00e7ar as abelhas a produzir mais cera e pr\u00f3polis \u00e9 escravid\u00e3o. De que forma considerar tal rela\u00e7\u00e3o como sendo de alguma forma \u00e9tica?<\/p>\n<p>Ministrar choques \u00e0s abelhas para extra\u00e7\u00e3o de apitoxina, ainda que n\u00e3o envolva a morte de animais, tamb\u00e9m deve ser vista com severas restri\u00e7\u00f5es \u00e9ticas. N\u00e3o h\u00e1 motivo para se pensar que nas abelhas os choques el\u00e9tricos sejam menos inc\u00f4modos do que seriam em um ser humano.<\/p>\n<p>Abelhas s\u00e3o organismos sencientes, possuindo um sistema nervoso organizado constitu\u00eddo de g\u00e2nglios nervosos, neur\u00f4nios e c\u00e9lulas sensoriais. Elas tamb\u00e9m possuem todos os mecanismos fisiol\u00f3gicos e bioqu\u00edmicos que evidenciam a capacidade de sentir dor. Elas reagem de forma positiva a est\u00edmulos positivos e de forma negativa a est\u00edmulos negativos.<\/p>\n<p>Abelhas percebem melhor do que o ser humano o ambiente \u00e0 sua volta, sendo mais sens\u00edveis \u00e0s cores, odores, sabores, ru\u00eddos, aos poluentes e componentes presentes na atmosfera, \u00e0s radia\u00e7\u00f5es e aos campos eletromagn\u00e9ticos.<\/p>\n<p>E embora intelig\u00eancia n\u00e3o seja pr\u00e9-requisito para a senci\u00eancia, certamente um animal inteligente \u00e9 tamb\u00e9m senciente. As abelhas possuem grande capacidade de aprendizado, agu\u00e7ada mem\u00f3ria espacial, senso de dire\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o complexa, dando todos esses elementos informa\u00e7\u00f5es sobre sua indubit\u00e1vel intelig\u00eancia e senci\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de todas essas quest\u00f5es de ordem \u00e9tica, ressalte-se tamb\u00e9m que as abelhas utilizadas para explora\u00e7\u00e3o racional do mel pertencem \u00e0 esp\u00e9cie Apis mell\u00edfera, origin\u00e1ria do Velho Mundo. No Brasil e em outras regi\u00f5es nas quais essas abelhas n\u00e3o s\u00e3o nativas elas competem com a fauna nectar\u00edvora e polinizadora local, representando grande amea\u00e7a \u00e0 sobreviv\u00eancia de abelhas e vespas silvestres.<\/p>\n<p><strong>Substituindo o mel<\/strong><\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o do mel \u00e9 algo f\u00e1cil de ser realizado, especialmente por n\u00e3o ser o mel um alimento essencial. Por\u00e9m, a medicina popular atribui ao mel propriedades medicinais, especialmente relacionadas ao fortalecimento do sistema imunol\u00f3gico, propriedades antibacterianas, antif\u00fangicas, antiinflamat\u00f3rias, cicatrizante, antiss\u00e9pticas, analg\u00e9sicas e sedativas, expectorantes e hiposensibilizadoras, mas tamb\u00e9m antian\u00eamica, emoliente, antiputrefante, digestiva, laxativa e diur\u00e9tica.<\/p>\n<p>Embora a maioria dessas propriedades n\u00e3o tenha sido verificada cientificamente, persiste a cren\u00e7a de que o mel realmente as possua. Existem diversas plantas medicinais que possuem essas mesmas propriedades, nesse caso muitas delas comprovadas cientificamente (alho, gengibre, gingko biloba, a\u00e7afr\u00e3o, echinacea, unha de gato, astr\u00e1galo, melaleuca, babosa, cal\u00eandula, mil-folhas, andiroba, camomila, gua\u00e7atonga, caju, pau-ferro, carajiru, pic\u00e3o, pinh\u00e3o-roxo, espinheira-santa, aroeira, etc).<\/p>\n<p>Ainda que as propriedades medicinais do mel fossem comprovadas cientificamente, ainda assim a explora\u00e7\u00e3o ap\u00edcola n\u00e3o poderia se sustentar pelo ponto de vista \u00e9tico. Mas a presen\u00e7a de grande n\u00famero de plantas medicinais que possuem propriedades semelhantes torna o uso do mel e outros produtos ap\u00edcolas completamente dispens\u00e1veis.<\/p>\n<p>Igualmente, na culin\u00e1ria, existem muitos substitutos para o mel, como o melado de cana, o extrato de malte, o a\u00e7\u00facar mascavo e o demerara, o xarope de glicose, a glicose de milho, o xarope de bordo (Maple), suco de frutas concentrado, etc.<\/p>\n<p>____________________________<\/p>\n<p><em>S\u00e9rgio Greif \u2013 Bi\u00f3logo formado pela UNICAMP, mestre em Alimentos e Nutri\u00e7\u00e3o com tese em nutri\u00e7\u00e3o vegetariana pela mesma universidade, ativista pelos direitos animais, vegano desde 1998, consultor em diversas a\u00e7\u00f5es civis publicas e audi\u00eancias p\u00fablicas em defesa dos direitos animais. Co-autor do livro \u201c<\/em>A Verdadeira Face da Experimenta\u00e7\u00e3o Animal: A sua sa\u00fade em perigo<em>\u201d e autor de \u201c<\/em>Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educa\u00e7\u00e3o: pela ci\u00eancia respons\u00e1vel<em>\u201d, al\u00e9m de diversos artigos e ensaios referentes \u00e0 nutri\u00e7\u00e3o vegetariana, ao modo de vida vegano, aos direitos ambientais, \u00e0 bio\u00e9tica, \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o animal, aos m\u00e9todos substitutivos ao uso de animais na pesquisa e na educa\u00e7\u00e3o e aos impactos da pecu\u00e1ria ao meio ambiente, entre outros temas. Membro fundador da Sociedade Vegana. <strong>Sites:<\/strong> <\/em><em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.sociedadevegana.org\/\" >www.sociedadevegana.org<\/a><\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.veggietal.com.br\/o-mel\/\" >Go to Original \u2013 veggietal.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda que as propriedades medicinais do mel fossem comprovadas cientificamente, ainda assim a explora\u00e7\u00e3o ap\u00edcola n\u00e3o poderia se sustentar pelo ponto de vista \u00e9tico. 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