{"id":48036,"date":"2014-09-29T12:00:26","date_gmt":"2014-09-29T11:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=48036"},"modified":"2015-05-05T21:29:42","modified_gmt":"2015-05-05T20:29:42","slug":"portugues-zoologicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/09\/portugues-zoologicos\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) Zool\u00f3gicos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_32771\" style=\"width: 430px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/zoos.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-32771\" class=\"size-full wp-image-32771\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/zoos.jpg\" alt=\"A female ocelot.\" width=\"420\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/zoos.jpg 420w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/zoos-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-32771\" class=\"wp-caption-text\">A female ocelot.<\/p><\/div>\n<p><em>A no\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica que muitas pessoas possam\u00a0ter destes parques est\u00e1 longe da realidade. Estes n\u00e3o s\u00e3o locais de lazer,\u00a0educa\u00e7\u00e3o ambiental ou pesquisa, mas de sofrimento intermin\u00e1vel para os\u00a0animais.<\/em><\/p>\n<p><strong>Um pouco de hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>A vis\u00e3o de animais como \u201ccoisas\u201d ou \u201cobjetos\u201d a serem utilizados para nossos\u00a0prop\u00f3sitos n\u00e3o \u00e9 recente na hist\u00f3ria humana, e como todas as demais \u201ccoisas\u201d, animais\u00a0parecem ter sido sempre colecionados por seres humanos, mesmo no per\u00edodo pr\u00e9-\u00a0hist\u00f3rico.\u00a0H\u00e1 s\u00edtios arqueol\u00f3gicos pertencentes aos mais variados grupamentos humanos que\u00a0demonstram a presen\u00e7a de ossadas de animais juntamente a restos humanos, isso\u00a0mesmo nos casos de grupos que ainda n\u00e3o haviam desenvolvido a agricultura ou\u00a0pecu\u00e1ria. Os arque\u00f3logos creem que estes animais n\u00e3o eram mantidos por raz\u00f5es\u00a0econ\u00f4micas, nem tampouco parecem ter sido aproveitados em alguma refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Possivelmente muitos desses animais eram crias de animais abatidos em ca\u00e7adas ou\u00a0pertenciam a esp\u00e9cies que sequer eram ca\u00e7adas. Eram aparentemente mantidos pelo\u00a0prazer de mant\u00ea-los.\u00a0J\u00e1 nas primeiras civiliza\u00e7\u00f5es, animais selvagens eram transportados vivos de regi\u00f5es\u00a0remotas para serem utilizados como moeda de troca por outros itens. Na civiliza\u00e7\u00e3o\u00a0mesopot\u00e2mica, por exemplo, onde o com\u00e9rcio de itens de sobreviv\u00eancia j\u00e1 havia\u00a0atingido certa robustez, itens de luxo e entretenimento tamb\u00e9m tinham seu mercado,\u00a0entre eles animais vivos.<\/p>\n<p>N\u00e3o raro os nobres e comerciantes abastados adquiriam le\u00f5es ou outros animais, os\u00a0quais mantinham como s\u00edmbolo de estatus, riqueza ou poder. Quanto mais ex\u00f3tico,\u00a0feroz ou raro, melhor era.\u00a0Foi no Egito, na cidade de Nekhen,5.500 anos atr\u00e1s, que surgiu o primeiro zool\u00f3gico\u00a0conhecido na hist\u00f3ria. Nele eram mantidos centenas de animais entre hipop\u00f3tamos,\u00a0elefantes, ant\u00edlopes, babu\u00ednos, felinos selvagens. No entanto, a proposta dessa cole\u00e7\u00e3o\u00a0n\u00e3o era a exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos animais.<\/p>\n<p>Essa cole\u00e7\u00e3o particular servia t\u00e3o somente ao fara\u00f3 e \u00e0 elite eg\u00edpcia, que podiam\u00a0acompanhar os animais se ca\u00e7ando dentro dos recintos, j\u00e1 que muitas vezes predadores\u00a0e presas eram colocados no mesmo recinto. Tamb\u00e9m, a cole\u00e7\u00e3o servia para que o fara\u00f3\u00a0pudesse ca\u00e7ar animais em um ambiente mais controlado, sem se expor demasiado aos\u00a0riscos inerentes \u00e0s ca\u00e7adas. A cole\u00e7\u00e3o servia tamb\u00e9m para demonstrar riqueza e poder\u00a0aos dignit\u00e1rios estrangeiros.<\/p>\n<p>A faraona Hatshepsut , por volta de 3.500 anos atr\u00e1s, costumava colecionar animais que\u00a0eram trazidos como tributo das prov\u00edncias ao sul, especialmente animais de Punt\u00a0(Som\u00e1lia) como aves, macacos, leopardos, rinocerontes, girafas, etc. Foi Hatshepsut que\u00a0abriu o primeiro zool\u00f3gico para visita\u00e7\u00e3o p\u00fablica e ela o utilizava como demonstra\u00e7\u00e3o\u00a0de poder.<\/p>\n<p>Na China antiga, o fundador da dinastia Zhou, Imperador Wen Wang, fundou 3.000\u00a0anos atr\u00e1s um zool\u00f3gico o qual chamou Lingyou (Jardim do Encorajamento da\u00a0Intelig\u00eancia). Tratava-se de 1.500 acres de terra com cole\u00e7\u00e3o de animais oriundos\u00a0de toda a China, incluindo o panda gigante. O prop\u00f3sito de seu zool\u00f3gico era que a\u00a0popula\u00e7\u00e3o cada vez mais urbanizada tivesse a oportunidade de conhecer os animais\u00a0selvagens que ocorriam na regi\u00e3o.\u00a0Kublai Khan, neto de Genghis Khan, no s\u00e9culo XIII, expandiu os zool\u00f3gicos na China,mas de centros de contempla\u00e7\u00e3o da fauna transformou-os em anexos para a ca\u00e7a. Kublai\u00a0Khan, como os mong\u00f3is at\u00e9 hoje, apreciava a ca\u00e7a com falc\u00f5es, c\u00e3es e em seu caso\u00a0utilizava tamb\u00e9m felinos domesticados. Diz-se que possu\u00eda 1.000 guepardos de ca\u00e7a e\u00a0milhares de aves de rapina, e muitas vezes ca\u00e7ava animais de sua pr\u00f3pria cole\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Roma foi a respons\u00e1vel de levar para a regi\u00e3o do Mediterr\u00e2neo diversos animais\u00a0pertencentes \u00e0s suas prov\u00edncias conquistadas no norte da Europa, \u00c1frica e \u00c1sia Menor.\u00a0Essas cole\u00e7\u00f5es de animais, chamadas de Vivarium eram secund\u00e1rias frente ao objetivo\u00a0principal: o massacre de animais nos anfiteatros e arenas. Romanos se deleitavam em\u00a0assistir a espet\u00e1culos onde animais se combatiam at\u00e9 a morte, ou em que seres humanos\u00a0lutavam contra animais.<\/p>\n<p>O imperador azteca Montezuma (s\u00e9culo XVI) mantinha enormes cole\u00e7\u00f5es de animais\u00a0em Tenochtitl\u00e1n, Teotihuac\u00e1n,Tlalelolco, Texcoco e Iztapalap\u00e1nas quais chamava\u00a0Totocalli (\u201ccasa de animais\u201d, em n\u00e1huatl). Consistia em conjuntos de constru\u00e7\u00f5es\u00a0divididos em espa\u00e7os onde v\u00e1rios animais eram mantidos cativos para serem usados\u00a0como sacrif\u00edcio ou outras finalidades, inclusive para demonstrar poder para os\u00a0estrangeiros.<\/p>\n<p>O Totocalli de Tenochtitl\u00e1npossu\u00eda 300 tratadores para cuidar dos animais; possu\u00eda\u00a0tantas aves de rapina que necessitava de 500 perus por dia para aliment\u00e1-las. Especula-se que jaguares e pumas pudessem ser alimentados com carne oriunda de sacrif\u00edcios\u00a0humanos. Possu\u00eda tamb\u00e9m uma grande quantidade de serpentes al\u00e9m de 10 lagoas de\u00a0\u00e1gua doce e 10 lagoas de \u00e1gua salgada. Esses zool\u00f3gicos aztecas tamb\u00e9m possu\u00edam uma\u00a0cole\u00e7\u00e3o de homens e mulheres deformados, aleijados, an\u00f5es, corcundas e albinos.<\/p>\n<p>J\u00e1 na Idade Moderna, caracterizada pela Renascen\u00e7a, as grandes navega\u00e7\u00f5es e o\u00a0requinte das nobrezas europeias, as cole\u00e7\u00f5es de animais ganharam novo impulso. A\u00a0Europa colonizava a \u00c1frica e a \u00c1sia e descobria a Am\u00e9rica. Animais ex\u00f3ticos eram\u00a0trazidos nos navios, juntamente com escravos e outras mercadorias e abasteciam os\u00a0monarcas, nobres e aristocratas. Em breve, mesmo os monast\u00e9rios e municipalidades j\u00e1\u00a0possu\u00edam sua pr\u00f3pria Menagerie.<\/p>\n<p>A maior parte dos animais que n\u00e3o morriam durante a viagem, morria logo ap\u00f3s a\u00a0chegada \u00e0 Europa, seja por doen\u00e7as adquiridas durante a viagem, pela m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o,\u00a0pelas instala\u00e7\u00f5es inadequadas, seja pelo clima, seja pelo que fosse. Aqueles que\u00a0adquiriam esses animais n\u00e3o conheciam seus h\u00e1bitos e isso explica muito do insucesso\u00a0em sua manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Animais ent\u00e3o eram apenas mercadoria sem valor inerente. Seu pre\u00e7o em dinheiro\u00a0era determinado com base em beleza, raridade e dificuldade de se trazer \u00e0 Europa\u00a0exemplares vivos. Embora uma grande percentagem desses animais morresse no\u00a0caminho o lucro obtido com a venda dos exemplares vivos garantia a continuidade do\u00a0neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>D. Manuel I, de Portugal, que apoiou os descobrimentos e instituiu monop\u00f3lios\u00a0comerciais, praticamente monopolizou tamb\u00e9m o com\u00e9rcio de macacos e aves que\u00a0vinham da \u00c1frica e Am\u00e9rica para abastecer a Europa.Ele mesmo possu\u00eda uma enorme\u00a0cole\u00e7\u00e3o de animais no Parque Real, entre macacos, araras e papagaios do Brasil e\u00a0babu\u00ednos, elefantes, leopardos e um rinoceronte da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Luiz XIV, o Rei-Sol, construiu por volta de 1665 uma m\u00e9nagerie no Pal\u00e1cio de\u00a0Versailles, na Fran\u00e7a. Essa cole\u00e7\u00e3o de animais foi mantida e incrementada ao longo dos\u00a0anos por seus sucessores, at\u00e9 que em 1789, durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, revoltosos\u00a0soltaram grande parte dos herb\u00edvoros pertencentes \u00e0 cole\u00e7\u00e3o real para que os famintos\u00a0pudessem ca\u00e7\u00e1-los e com\u00ea-los.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o, em 1793, a Menagerie du Parc de Versailles foi transferida para o\u00a0Jardin des Plantes e aberta ao p\u00fablico. Sendo mantida pelo Mus\u00e9um National D\u2019Historie\u00a0Naturelle, essa cole\u00e7\u00e3o foi considerada pela primeira vez por crit\u00e9rios cient\u00edficos.\u00a0De todas as cole\u00e7\u00f5es particulares e zool\u00f3gicos que foram constitu\u00eddos na Europa\u00a0desde o s\u00e9culo XVI, o mais antigo que existe at\u00e9 hoje \u00e9 o Tiergarten Sch\u00f6nbrunn, de\u00a0Viena, que come\u00e7ou como uma cole\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Hapsburg, em 1752 e foi aberto ao\u00a0p\u00fablico em 1779. A pr\u00f3pria fam\u00edlia imperial austr\u00edaca promovia excurs\u00f5es de captura de\u00a0esp\u00e9cimes na Am\u00e9rica e \u00c1frica para enriquecer sua cole\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Inglaterra animais ex\u00f3ticos eram mantidos pelo menos desde o s\u00e9culo XIII. Le\u00f5es\u00a0eram mantidos na Torre de Londres desde 1210. Eram comuns incidentes envolvendo\u00a0esses animais e pessoas e a manuten\u00e7\u00e3o da cole\u00e7\u00e3o foi descontinuada no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Em 1826 foi fundada a Zoological Society of London, que construiu um zool\u00f3gico\u00a0de 16 alqueires no Regent Park, onde ainda se encontra o London Zoo. Curioso que o\u00a0principal objetivo da Zoological Society of London era identificar novas esp\u00e9cies de\u00a0animais que pudessem ser exploradas comercialmente pelo ser humano.\u00a0De fato era de se estranhar que todas as domestica\u00e7\u00f5es animais haviam ocorrido tantos\u00a0milhares de anos antes, e desde ent\u00e3o mais nenhuma. O empreendimento, por\u00e9m,\u00a0falhou. Nenhuma das esp\u00e9cies estudadas apresentava caracter\u00edsticas zoot\u00e9cnicas que\u00a0justificassem sua explora\u00e7\u00e3o. Para ser justo, a Zoological Society of London apresentou\u00a0ao mundo o hamster dourado, hoje popular animal de estima\u00e7\u00e3o. Foi ela tamb\u00e9m que\u00a0cunhou os termos \u201cZoological Park\u201d e \u201cZoo\u201d.<\/p>\n<p>Podemos imaginar que tipo de vida era essa que esses animais tinham. Viviam\u00a0confinados em pequenos espa\u00e7os, encarcerados em pesadas gaiolas vitorianas, com\u00a0v\u00e1rios outros animais, vendo os passantes se aproximarem por entre as barras geladas\u00a0de metal, fazendo barulho, provocando-os, algumas vezes cutucando-os com varas para\u00a0verem eles se mexerem, vivendo em um ambiente pobre, sujo, f\u00e9tido . . . Nessa \u00e9poca as\u00a0pessoas podiam mesmo tocar os animais, aliment\u00e1-los.<\/p>\n<p>Os animais passavam o dia assustados. Ou entediados, frustrados. Privados de todas\u00a0as suas atividades naturais, desenvolviam patologias ps\u00edquicas, comportamentos\u00a0estereotipados ou anormais. Estes comportamentos ainda podem ser observados em\u00a0animais cativos hoje em dia: Animais que apresentam comportamento repetitivo,\u00a0andando de um lado para o outro da cela. Animais que se alimentam de suas pr\u00f3prias\u00a0fezes. Animais que tentam cavar no concreto. Elefantes que balan\u00e7am a cabe\u00e7a,\u00a0macacos que se masturbam compulsivamente, papagaios que se automutilam . . .<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a transfer\u00eancia da fam\u00edlia real e da corte portuguesa para o Brasil, D. Jo\u00e3o VI,\u00a0escreveu,em 1819, para o governador de Angola exigindo que todos os navios que\u00a0partissem para o Brasil deveriam trazer \u201cum viveiro de p\u00e1ssaros esquisitos\u201d. Entre\u00a01819 e 1823 ele recebeu 762 p\u00e1ssaros vivos, mas milhares chegavam mortos. D. Jo\u00e3o\u00a0VI pediu tamb\u00e9m 6 zebras, para divers\u00e3o dos pr\u00edncipes, mas elas morriam no caminho.<\/p>\n<p><strong>Expondo seres humanos em zool\u00f3gicos<\/strong><\/p>\n<p>Podemos, por essa revis\u00e3o hist\u00f3rica, ver que animais nada mais eram do que\u00a0representantes involunt\u00e1rios da extens\u00e3o do poder dos governantes. Quando um fara\u00f3\u00a0expunha um le\u00e3o, ou um rei portugu\u00eas expunha uma zebra ele de certa forma estava\u00a0dizendo: \u201cVejam at\u00e9 onde se estendem meus dom\u00ednios\u201d. A proposta original das\u00a0cole\u00e7\u00f5es de animais e zool\u00f3gicos nada mais era do que isso.<\/p>\n<p>O prop\u00f3sito educacional dessas cole\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m era distorcido. Elas n\u00e3o ensinavam\u00a0um senso de rever\u00eancia pela vida, pelo contr\u00e1rio, ensinavam que a beleza podia ser\u00a0roubada e mantinha encarcerada. Animais ex\u00f3ticos sempre atra\u00edram multid\u00f5es, mas isso\u00a0nada ensinava em rela\u00e7\u00e3o ao que eles realmente eram. As pessoas n\u00e3o viam os animais\u00a0como eles s\u00e3o, mas reflexos do que eles s\u00e3o. Acima disso, animais eram vistos como\u00a0caricaturas de n\u00f3s mesmos, seres humanos imperfeitos, que est\u00e3o enjaulados para nos\u00a0fazer rir e nos lembrar de nossa pr\u00f3pria superioridade.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que, juntamente com essas cole\u00e7\u00f5es de animais oriundos dos territ\u00f3rios\u00a0descobertos e conquistados, tamb\u00e9m se usava expor seres humanos adquiridos nas\u00a0mesmas condi\u00e7\u00f5es. Quando os navegadores se apresentavam aos seus respectivos reis\u00a0levando amostras das \u201ccriaturas\u201d que viviam al\u00e9m do oceano, al\u00e9m dos animais, traziam\u00a0tamb\u00e9m alguns exemplares humanos.<\/p>\n<p>Foi assim que os primeiros africanos, asi\u00e1ticos, americanos e oce\u00e2nicos chegaram ao\u00a0Velho Mundo. Pessoas pertencentes a v\u00e1rias etnias eram exibidas em zool\u00f3gicos e\u00a0cole\u00e7\u00f5es itinerantes, de forma degradante, para satisfazer a curiosidade de um p\u00fablico\u00a0pagante.\u00a0Exposi\u00e7\u00f5es coloniais mostravam ao p\u00fablico europeu fra\u00e7\u00f5es dos h\u00e1bitos de vida dos\u00a0povos conquistados, por esse motivo, esses zool\u00f3gicos reproduziam as vilas de onde\u00a0essas pessoas haviam sido tiradas. E exemplares desses grupos eram ali mantidos com\u00a0suas roupas tradicionais desempenhando atividades que seriam t\u00edpicas de sua cultura.<\/p>\n<p>Assim, zool\u00f3gicos de pessoas possu\u00edam vilas que representavam fragmentos de uma\u00a0aldeia amer\u00edndia ou africana, ou alguma cidade asi\u00e1tica. E seus \u201chabitantes\u201d deveriam\u00a0entreter os europeus com seus costumes peculiares ou deixando tocar seus corpos t\u00e3o\u00a0diferentes.\u00a0Se o objetivo alegado era promover um melhor entendimento dos europeus sobre outras\u00a0culturas \u00e9 claro que isso n\u00e3o podia ser feito dessa forma. Tudo o que essas exposi\u00e7\u00f5es\u00a0faziam era degradar o ser humano e \u201cprovar\u201d a superioridade cultural europeia.<\/p>\n<p>Merece destaque a hist\u00f3ria das mulheres da etnia khoisan levadas \u00e0 Europa para\u00a0exposi\u00e7\u00e3o, em especial a hist\u00f3ria de Saartjie Baartman, que viveu entre 1789 e 1815\u00a0e ficou conhecida como a V\u00eanus Hotentote (hotentote era como os khoisans eram\u00a0chamados pelos afric\u00e2nders; os ingleses os chamavam bushmen e em portugu\u00eas eles\u00a0foram chamados bosqu\u00edmanos).<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe ao certo seu nome de nascen\u00e7a, Saartjie (\u201cSarinha\u201d) foi o nome que\u00a0os holandeses lhe deram. Saartjie sofria de esteatopigia, possu\u00eda nadegas enormes,\u00a0o que levou \u00e0 falsa cren\u00e7a de que todas as mulheres hotentotes possu\u00edam a mesma\u00a0caracter\u00edstica. Al\u00e9m disso, ela tinha sinus pudores, enormes l\u00e1bios vaginais.\u00a0Em 1810 ela foi levada para a Inglaterra para ser exposta, por um valor a mais era\u00a0permitido toc\u00e1-la nas partes intimas. Em 1814 ela foi vendida para um franc\u00eas que\u00a0a exp\u00f4s ainda mais e a alugava para animar festas, inclusive a de reintroniza\u00e7\u00e3o de<\/p>\n<p>Napole\u00e3o Bonaparte (1815), onde a mo\u00e7a sofreu bastante nas m\u00e3os dos b\u00eabados.\u00a0Quando eventos pol\u00edticos fizeram com que as exposi\u00e7\u00f5es fossem canceladas, a mo\u00e7a foi\u00a0obrigada a se prostituir e se tornou alco\u00f3latra, vindo a morrer poucos meses depois. Para\u00a0lucrar com ela mesmo ap\u00f3s sua morte, seu propriet\u00e1rio vendeu o cad\u00e1ver para o Mus\u00e9e\u00a0de l\u2019Homme, em Paris.<\/p>\n<p>Exposi\u00e7\u00f5es de seres humanos persistiram at\u00e9 por volta de 1950, principalmente por\u00a0meio de circos itinerantes que apresentavam pessoas com deformidades e problemas\u00a0gen\u00e9ticos (mulheres peludas, g\u00eameos siameses, an\u00f5es, gigantes, etc). Ap\u00f3s isso, a\u00a0sociedade passou a considerar esses freak shows como degradantes demais para serem\u00a0tolerados.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma justificativa para os zool\u00f3gicos?<\/strong><\/p>\n<p>O ser humano inventa desculpas para justificar suas m\u00e1s a\u00e7\u00f5es. Isso nos cria uma\u00a0sensa\u00e7\u00e3o de conforto, ainda que as desculpas sejam pouco convincentes. \u00c9 f\u00e1cil\u00a0verificar que um zool\u00f3gico n\u00e3o pode ser justificado pelo ponto de vista \u00e9tico: O que\u00a0justificaria manter animais selvagens em gaiolas e jaulas? O ser humano cria suas\u00a0justificativas\u2026<\/p>\n<p>A justificativa de que os zool\u00f3gicos possuem fun\u00e7\u00e3o socioeducativa, em diferentes\u00a0variedades de coloca\u00e7\u00f5es, tem sua m\u00e1xima na frase \u201cconhecer para preservar\u201d. Isto\u00a0pressup\u00f5e que se n\u00e3o conhecemos algo, n\u00e3o temos interesse em preserv\u00e1-lo.\u00a0Talvez essa mesma desculpa tenha sido utilizada no passado para se manter exposi\u00e7\u00f5es\u00a0coloniais na Europa. Mas ser\u00e1 que a \u00fanica forma de um europeu criar alguma simpatia\u00a0por ind\u00edgenas brasileiros seria manter alguns exemplares vivos de tupinamb\u00e1s em uma\u00a0exposi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>E embora aquela pequena crian\u00e7a senegalesa exposta em um zool\u00f3gico em Paris\u00a0tenha potencial de despertar simpatia dos frequentadores, n\u00e3o vejo como isso possa\u00a0se refletir de forma positiva quanto \u00e0 considera\u00e7\u00e3o dos interesses dos senegaleses que\u00a0permaneceram em seu territ\u00f3rio.\u00a0Quer essa desculpa que esses poucos exemplares depositados na cole\u00e7\u00e3o sejam\u00a0embaixadores de seus compatriotas na natureza?Isso ignora o fato de que aqueles\u00a0animais, que de fato tem o potencial de gerar simpatia das pessoas, n\u00e3o s\u00e3o\u00a0representantes de seus pares na natureza. A despeito do lazer e da curiosidade, o\u00a0zool\u00f3gico n\u00e3o cria qualquer esp\u00e9cie de consci\u00eancia nas pessoas.<\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a que v\u00ea um elefante em um recinto de fato aprecia o animal, mas a\u00a0mensagem que ela recebe, ainda que de maneira subliminar, \u00e9 a de que podemos\u00a0aprisionar animais. Animais s\u00e3o inferiores e n\u00f3s somos superiores. E nossa\u00a0superioridade nos permite capturar um animal na natureza e mant\u00ea-lo em cativeiro.\u00a0Criamos a simpatia pelo animal, mas \u00e0 medida que o animal se assemelha a n\u00f3s\u00a0mesmos.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que quando encostamos ao lado dos visitantes em um zool\u00f3gico podemos escutar\u00a0toda sorte de coment\u00e1rios: \u201cQue urso lindo, parece meu tio bonach\u00e3o\u201d, \u201cCredo, que\u00a0lagarto horr\u00edvel\u201d . . . De toda forma, n\u00e3o precisamos dos zool\u00f3gicos para conhecer os\u00a0animais, nem acho que o zool\u00f3gico permita esse conhecimento.<\/p>\n<p>Quando as exposi\u00e7\u00f5es de animais come\u00e7aram essa era a \u00fanica forma de um europeu ver\u00a0um rinoceronte ou um chimpanz\u00e9. A televis\u00e3o ent\u00e3o n\u00e3o existia e se o cinema existia,\u00a0o que ele mostrava eram filmes onde os animais eram subjugados por algum homem\u00a0branco criado desde a inf\u00e2ncia por primatas africanos.<\/p>\n<p>Foi apenas na d\u00e9cada de 1960 e 1970 que come\u00e7aram a surgir document\u00e1rios sobre\u00a0vida selvagem que de fato mostravam os animais vivendo em seus habitats. Esses\u00a0document\u00e1rios, mais do que qualquer zool\u00f3gico do mundo, podiam nos apresentar os\u00a0animais tais como eles eram.\u00a0Algu\u00e9m poderia defender que assistir animais pela televis\u00e3o n\u00e3o tem o mesmo efeito\u00a0que poder olhar para eles pessoalmente, mas tampouco v\u00ea-los confinados em gaiolas\u00a0pode nos mostrar o que esses animais realmente s\u00e3o. Em termos de educa\u00e7\u00e3o e respeito,\u00a0os document\u00e1rios da natureza e sobre vida selvagem nos ensinam mais do que qualquer\u00a0zool\u00f3gico.<\/p>\n<p>Outra desculpa comum para justificar a manuten\u00e7\u00e3o de zool\u00f3gicos \u00e9 a de que essas\u00a0cole\u00e7\u00f5es s\u00e3o deposit\u00e1rias de animais amea\u00e7ados, e talvez representem a solu\u00e7\u00e3o para o\u00a0problema de algumas esp\u00e9cies em vias de extin\u00e7\u00e3o.\u00a0Ora, de que adianta manter em um zool\u00f3gico alguns poucos exemplares de determinada\u00a0esp\u00e9cie enquanto seu habitat \u00e9 suprimido? Qual a id\u00e9ia por tr\u00e1s desse racioc\u00ednio?\u00a0Manter indefinidamente essas esp\u00e9cies em cativeiro sem jamais poder introduzi-las?<\/p>\n<p>Afunilar sua diversidade gen\u00e9tica a alguns poucos exemplares representantes da esp\u00e9cie\u00a0em cativeiro e manter essas popula\u00e7\u00f5es indefinidamente cruzando entre si? N\u00e3o vejo a\u00ed\u00a0qualquer sentido nessa esp\u00e9cie de preserva\u00e7\u00e3o.\u00a0Preserva\u00e7\u00e3o de fato \u00e9 a preserva\u00e7\u00e3o de um bioma, a preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie em seu\u00a0habitat, A preserva\u00e7\u00e3o da variabilidade gen\u00e9tica dentro do grupo. Nada disso se pode\u00a0conseguir com zool\u00f3gicos.<\/p>\n<p>A despeito de alguns poucos programas que foram bem sucedidos em introduzir\u00a0exemplares de zool\u00f3gicos em vias de extin\u00e7\u00e3o em seu ambiente selvagem, mais\u00a0resultados ainda teriam sido obtidos se parques fossem criados em torno das \u00e1reas de\u00a0ocorr\u00eancia da esp\u00e9cie antes da mesma ser colocada em perigo de extin\u00e7\u00e3o.\u00a0A pesquisa, outra das justificativas para a manuten\u00e7\u00e3o de zool\u00f3gicos, em grande parte\u00a0n\u00e3o necessitaria ser realizada no \u00e2mbito de uma institui\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m animais em\u00a0cativeiro. Pesquisas de preserva\u00e7\u00e3o podem ser realizadas com animais em seu ambiente\u00a0natural. Ali\u00e1s, melhor que seja assim. A parcela de atividades que demandariam, de\u00a0fato, animais cativos \u00e9 justamente aquelas pesquisas que visam aprimorar as formas de\u00a0manuten\u00e7\u00e3o de animais cativos. H\u00e1 um ciclo vicioso a\u00ed.<\/p>\n<p>A outra justificativa que normalmente se fornece para a manuten\u00e7\u00e3o de animais\u00a0em zool\u00f3gicos \u00e9 a de que zool\u00f3gicos representam uma alternativa de lazer barata e,\u00a0portanto, acess\u00edvel para parcelas significativas da popula\u00e7\u00e3o. Ora, que fosse um conflito\u00a0real de interesses, de um lado temos a pris\u00e3o sem justificativa de animais que nada\u00a0fizeram para merecer isso, de outro temos pessoas querendo se divertir vendo esses\u00a0animais, qual interesse deve prevalecer?<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 tantas outras formas de se divertir de forma acess\u00edvel que n\u00e3o\u00a0demandam o aprisionamento de animais, realmente essa \u00e9 uma desculpa pouco\u00a0defens\u00e1vel.\u00a0Entendo que a biofilia, a satisfa\u00e7\u00e3o em conviver com outras esp\u00e9cies, seja natural ao ser\u00a0humano, mas para que tal conviv\u00eancia seja saud\u00e1vel \u00e9 importante que ela seja o mais\u00a0harm\u00f4nica poss\u00edvel. Em um passeio pelo Horto Florestal vemos macacos e aves as mais\u00a0diversas, vemos uma variedade de insetos, vemos patos que apesar de n\u00e3o serem nativos\u00a0est\u00e3o ali soltos e se sentem \u00e0 vontade. N\u00e3o encontraremos em um parque como este\u00a0a variedade que se encontra em um zool\u00f3gico, mas mais do que quantidade devemos\u00a0primar pela qualidade. Um parque razoavelmente equilibrado, onde se possa observar\u00a0uma variedade de animais de, talvez, 15 esp\u00e9cies,cada qual desempenhando sua fun\u00e7\u00e3o\u00a0ecol\u00f3gica, tem um potencial de educa\u00e7\u00e3o e lazer maior do que um jardim zool\u00f3gico com\u00a0uma variedade de 200 esp\u00e9cies acumuladas em pequenos recintos onde as atividades\u00a0naturais mais elementares est\u00e3o restringidas.<\/p>\n<p><strong>A vida por tr\u00e1s das grades<\/strong><\/p>\n<p>Recentemente, o vereador de Goi\u00e2nia, sr. Zander F\u00e1bio Alves da Costa (PSL) prop\u00f4s\u00a0a extin\u00e7\u00e3o do zool\u00f3gico local. Sua proposta encontrou oposi\u00e7\u00e3o desde a popula\u00e7\u00e3o\u00a0local at\u00e9 o conselho de medicina veterin\u00e1ria. Basicamente a linha de defesa para\u00a0a manuten\u00e7\u00e3o do zool\u00f3gico foi de que ali os animais n\u00e3o s\u00e3o maltratados. Que ali\u00a0eles recebem a alimenta\u00e7\u00e3o correta, \u00e1gua e est\u00e3o protegidos de predadores. Que se\u00a0houvessem maus tratos todos saberiam.<\/p>\n<p>Pois bem, \u00e9 poss\u00edvel que em muitos aspectos a vida de um animal de zool\u00f3gico\u00a0possa ser considerada superior \u00e1 vida de um animal na natureza. Dificilmente em um\u00a0zool\u00f3gico atual um impala possa ser ca\u00e7ado por um le\u00e3o, ent\u00e3o pelo menos no que diz\u00a0respeito \u00e1 preda\u00e7\u00e3o os animais est\u00e3o mais seguros.\u00a0Tamb\u00e9m \u00e9 fato que grande parte das preocupa\u00e7\u00f5es de um animal selvagem na natureza,\u00a0ou seja, o forrageamento atr\u00e1s de alimentos n\u00e3o chega a ser uma preocupa\u00e7\u00e3o do animal\u00a0em um zool\u00f3gico, j\u00e1 que se tudo estiver funcionando bem o alimento aparecer\u00e1 por uma\u00a0portinha na hora certa.<\/p>\n<p>As causas de morte e sofrimento da maior parte dos animais na natureza, a preda\u00e7\u00e3o,\u00a0a disputa por territ\u00f3rios ou a inani\u00e7\u00e3o parecem ser eliminadas quando o animal se\u00a0encontra em um zool\u00f3gico. Pelo ponto de vista humano essa pode parecer uma \u00f3tima\u00a0alternativa de vida, mas n\u00e3o podemos analisar a situa\u00e7\u00e3o de forma t\u00e3o enviesada.\u00a0Cada animal possui seu umwelt, sua pr\u00f3pria realidade, sua percep\u00e7\u00e3o de mundo. Manter\u00a0organismos em recintos e supri-los com o m\u00ednimo para mant\u00ea-los vivos \u00e9 priv\u00e1-los de\u00a0todas as demais experi\u00eancias que lhes seriam naturais. Animais de zool\u00f3gico que as\u00a0pessoas podem considerar saud\u00e1veis e em \u00f3timas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o vivendo, apenas\u00a0sobrevivendo.<\/p>\n<p>Portanto, mesmo nos zool\u00f3gicos considerados refer\u00eancia, que mant\u00e9m seus recintos\u00a0limpos, com enriquecimento ambiental, alimenta\u00e7\u00e3o de qualidade e em quantidade\u00a0suficiente, os animais que ali vivem n\u00e3o levam vidas plenas. S\u00e3o apenas reflexo do que\u00a0seriam se estivessem em liberdade.<\/p>\n<p>Dificilmente um zool\u00f3gico conseguir\u00e1 prover para os animais ali alojados as condi\u00e7\u00f5es\u00a0de vida que eles teriam caso se encontrassem em condi\u00e7\u00f5es naturais. Um felino solto\u00a0percorre quil\u00f4metros por dia; em um zool\u00f3gico tudo o que ele pode fazer \u00e9 percorrer\u00a0aqueles poucos metros de jaula milhares de vezes em um mesmo dia. Na natureza\u00a0primatas ocupam seu tempo forrageando, ou catando ectoparasitas uns dos outros, ou\u00a0explorando seu territ\u00f3rio; em um zool\u00f3gico essa possibilidade n\u00e3o existe, os animais\u00a0passam o dia entediados ou expressando comportamentos anormais e estereotipados (e o\u00a0que fazer com um macaco que se masturba em frente aos visitantes?).<\/p>\n<p>Elefantes na natureza vivem em bandos de v\u00e1rios indiv\u00edduos, que exploram\u00a0seu ambiente em busca de alimentos e fontes de \u00e1gua; no zool\u00f3gico alguns\u00a0poucos exemplares s\u00e3o for\u00e7ados a conviver em um recinto restrito e apresentam\u00a0comportamentos estereotipados, como o balan\u00e7o de cabe\u00e7a que s\u00f3 ocorre em animais\u00a0cativos.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se pode deixar de notar que os animais que se encontram expostos em um\u00a0zool\u00f3gico s\u00e3o apenas uma fra\u00e7\u00e3o dos animais que ali se encontram abrigados. Para\u00a0al\u00e9m das jaulas e recintos de exposi\u00e7\u00f5es, h\u00e1 todo um universo de animais considerados\u00a0excedentes, apinhados em recintos menores e menos cuidados. Esses animais\u00a0aguardam por um destino, que seja a venda para outros zool\u00f3gicos, para colecionadores\u00a0particulares, para centros de pesquisa que poder\u00e3o dissec\u00e1-los, para fazendas de ca\u00e7a,\u00a0etc. E por enquanto estamos tratando dos melhores zool\u00f3gicos.\u00a0Nos piores zool\u00f3gicos as den\u00fancias afloram. Apenas no ano de 2013, mais de 500 mil\u00a0animais morreram em zool\u00f3gicos de todo o mundo devido a condi\u00e7\u00f5es inapropriadas \u00e0s\u00a0quais foram submetidos. Para nos atermos apenas a fatos mais recentes:<\/p>\n<p>Entre janeiro e mar\u00e7o de 2010, 11 tigres siberianos foram deixados morrer de fome no\u00a0zool\u00f3gico de Shenyang (China). Argumentou-se que os animais comiam demais. Mas\u00a0suas carca\u00e7as puderam ser aproveitadas, sendo partes destas vendidas a bom pre\u00e7o para\u00a0abastecer a demanda por produtos derivados de tigres, usados na medicina tradicional\u00a0chinesa.<\/p>\n<p>O pa\u00eds hoje possui menos de 50 tigres em liberdade e mais de 5.000 em cativeiro e o\u00a0zool\u00f3gico de Shenyang n\u00e3o foi o \u00fanico onde foram encontrados problemas. Em apenas\u00a03 meses de investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o muito aprofundada o \u00f3rg\u00e3o ambiental nacional da China\u00a0encontrou outros 50 zool\u00f3gicos que abusavam de animais no pa\u00eds.\u00a0Igualmente, o zool\u00f3gico de Surabaya, na Indon\u00e9sia, foi mundialmente denunciado\u00a0pelo estado de inani\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria em que os animais se encontram. Muitos\u00a0outros zool\u00f3gicos, como o Melaca, tamb\u00e9m na Indon\u00e9sia, foram denunciados\u00a0internacionalmente.<\/p>\n<p>E todos se recordam da girafinha Marius, morta em fevereiro de 2014 e retalhada em\u00a0frente ao p\u00fablico, inclusive crian\u00e7as, no Zool\u00f3gico de Copenhagen, para alimentar\u00a0os le\u00f5es. Se usou dizer que a girafinha era um animal excedente que poderia cruzar\u00a0com sua pr\u00f3pria m\u00e3e no futuro, mas essa desculpa era bastante fraca, pois havia v\u00e1rios\u00a0interessados em adotar o animal.<\/p>\n<p>Festas \u00e0s sextas-feiras \u00e1 noite no Zool\u00f3gico de Londres j\u00e1 foram denunciadas devido\u00a0aos abusos cometidos contra os animais. Exceto pelo barulho que em si j\u00e1 estressa\u00a0os animais demasiadamente, h\u00e1 relatos de pessoas invadindo a jaula dos animais e\u00a0cometendo abusos. Para citar alguns, uma mulher foi pega agredindo uma ave, um\u00a0homem foi pego jogando cerveja no tigre, outro foi pego nadando nu na piscina dos\u00a0pinguins e v\u00e1rias borboletas foram encontradas esmagadas. O zool\u00f3gico argumenta que\u00a0as festas s\u00e3o lucrativas, mas podemos perguntar: \u201cE da\u00ed?\u201d<\/p>\n<p>No Zool\u00f3gico D\u00e4hlh\u00f6lzli, de Berna, Su\u00ed\u00e7a, um filhote de 5 meses de urso foi morto\u00a0porque, segundo se alegou, ele sofria Bullying de seu pai. Ora, \u00e9 natural que machos de\u00a0ursos n\u00e3o tolerem filhotes, ainda que sejam seus filhos. Ursos s\u00e3o, em geral, animais\u00a0solit\u00e1rios. O pessoal do zool\u00f3gico n\u00e3o sabia disso. O ursinho foi morto e empalhado, e\u00a0exposto ao lado da jaula dos ursos \u201cpara que as crian\u00e7as saibam que a natureza \u00e9 cruel\u201d.\u00a0Eis a educa\u00e7\u00e3o ambiental que se pretende que os zool\u00f3gicos ensinem.<\/p>\n<p>No Brasil h\u00e1 110 zool\u00f3gicos e 13 aqu\u00e1rios. Desses, 31 s\u00e3o particulares, 69 municipais,\u00a004 estaduais, 02 do ex\u00e9rcito e os demais 17 s\u00e3o funda\u00e7\u00f5es ou administra\u00e7\u00f5es mistas.\u00a0No Estado de S\u00e3o Paulo s\u00e3o 60 empreendimentos, a maior parte dos quais encontra-se\u00a0denunciado.<\/p>\n<p>Provavelmente o zool\u00f3gico que se encontra com maior n\u00famero de den\u00fancias seja\u00a0o zool\u00f3gico de Tabo\u00e3o da Serra (Parque das Hort\u00eancias), que vinha recebendo\u00a0enorme quantidade de den\u00fancias devido \u00e0s p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es em que os animais se\u00a0encontravam alojados, al\u00e9m de alta taxa de mortandade em pequeno espa\u00e7o de tempo.\u00a0O zool\u00f3gico foi interditado e v\u00e1rios de seus animais foram encaminhados para outros\u00a0centros, como por exemplo a Associa\u00e7\u00e3o Mata Ciliar, em Jundia\u00ed, para triagem dos\u00a0esp\u00e9cimes poss\u00edveis de serem reintroduzidos em seu habitat natural.\u00a0O Bosque dos Jequitib\u00e1s, em Campinas, foi denunciado pela morte de mais de 10\u00a0animais durante o ano de 2013, devido a maus tratos. Al\u00e9m disso, h\u00e1 den\u00fancias contra\u00a0os zool\u00f3gicos de Ara\u00e7atuba, Limeira, Sumar\u00e9, Guarulhos, Salvador . . .<\/p>\n<p>No zool\u00f3gico de Guarulhos, al\u00e9m dos elevados casos de mortes devido ao manejo e\u00a0instala\u00e7\u00f5es inadequadas, foram registrados o desaparecimento de mais de cem animais,\u00a0possivelmente para abastecer o com\u00e9rcio de animais silvestres e ex\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Mesmo no Zoo Safari, onde em tese os animais vivem em uma condi\u00e7\u00e3o melhor, por\u00a0estarem soltos e serem os visitantes quem adentram os recintos dentro de seus carros,\u00a0as condi\u00e7\u00f5es dos animais s\u00e3o bastante ruins. Funcion\u00e1rios do parque constantemente\u00a0cutucam-nos com varas ou chicotes para que estes se movam, saiam dos recantos\u00a0abrigados e embrenhem-se em meio aos carros. Creio at\u00e9 que viver no saf\u00e1ri seja mais\u00a0estressante do que viver no pr\u00f3prio zool\u00f3gico.\u00a0Al\u00e9m dessas den\u00fancias devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de manuten\u00e7\u00e3o dos animais, h\u00e1 ainda os\u00a0recentes eventos que ganharam destaque na m\u00eddia envolvendo zool\u00f3gicos, como o caso\u00a0do garoto que teve seu bra\u00e7o retalhado por um tigre no zool\u00f3gico de Cascavel e o caso\u00a0da girafa que morreu enforcada pela corda que suspende seu alimento, no zool\u00f3gico de\u00a0Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Embora estas sejam fatalidades e no caso do garoto a culpa seja muito mais de seu\u00a0pai irrespons\u00e1vel do que do zool\u00f3gico (e muito menos a culpa pode ser atribu\u00edda ao\u00a0tigre, pois \u00e9 isso que se espera que esses animais fa\u00e7am) tais epis\u00f3dios servem para nos\u00a0lembrar que zool\u00f3gicos n\u00e3o devem ser vistos como locais encantados e rom\u00e2nticos, mas\u00a0sim como locais de aprisionamento de animais inocentes.<\/p>\n<p><strong>O que fazer com os animais de zool\u00f3gicos?<\/strong><\/p>\n<p>Com freq\u00fc\u00eancia sou confrontado com o fato de que na maior parte dos zool\u00f3gicos do\u00a0mundo, e a maior parte dos animais que constituem suas cole\u00e7\u00f5es, o que encontramos\u00a0s\u00e3o exemplares nascidos em zool\u00f3gicos, ou que chegaram ao zool\u00f3gico por meio de\u00a0trocas ente institui\u00e7\u00f5es, ou ainda de apreens\u00f5es de animais do trafico. S\u00e3o ent\u00e3o animais\u00a0j\u00e1 distantes da natureza.<\/p>\n<p>Supondo que essa afirma\u00e7\u00e3o seja verdadeira, ainda assim pode-se questionar se\u00a0zool\u00f3gicos s\u00e3o a melhor alternativa para lidar com a quest\u00e3o dos animais cativos. Por\u00a0tudo o que sabemos de zool\u00f3gicos, sua prioridade \u00e9 manter cole\u00e7\u00f5es de animais, alguns\u00a0poucos exemplares de cada esp\u00e9cie e o m\u00e1ximo de diversidade de esp\u00e9cies de forma a\u00a0tornar isso uma exposi\u00e7\u00e3o interessante para o p\u00fablico.\u00a0Zool\u00f3gicos geralmente n\u00e3o prov\u00eam aos animais mais do que isso. Eles n\u00e3o se\u00a0especializam em grupos espec\u00edficos de animais e em geral n\u00e3o apresentam solu\u00e7\u00e3o para\u00a0o problema. S\u00e3o simplesmente cole\u00e7\u00f5es de animais vivos e expostos ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>Em 2013 a Costa Rica decidiu fechar seus zool\u00f3gicos estatais. A decis\u00e3o foi baseada\u00a0nos princ\u00edpios que guiam aquela na\u00e7\u00e3o: N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se dizer que o pa\u00eds preserva o\u00a0meio ambiente quando tantos animais encontram-se ainda enjaulados.\u00a0Assim, a Costa Rica transformou seus zool\u00f3gicos em jardins bot\u00e2nicos e parques\u00a0naturais urbanos. Os animais que ali se encontravam foram transferidos para centros de\u00a0resgate no pr\u00f3prio pa\u00eds, com vistas \u00e0 sua reintrodu\u00e7\u00e3o na natureza.<\/p>\n<p>Importante dizer que os zool\u00f3gicos do pa\u00eds mantinham principalmente animais\u00a0pertencentes \u00e0 fauna local, de modo que a reabilita\u00e7\u00e3o e reintrodu\u00e7\u00e3o dos animais no\u00a0pr\u00f3prio territ\u00f3rio s\u00e3o mais simples. Poder\u00edamos pensar um mundo inteiro seguindo esse\u00a0exemplo.\u00a0N\u00e3o precisamos de animais em jaulas para conhecer essas esp\u00e9cies, document\u00e1rios\u00a0da natureza, livros e passeios no campo ensinam pessoas realmente interessadas no\u00a0assunto.<\/p>\n<p>Os animais hoje presentes nos zool\u00f3gicos necessitam ser reabilitados e reintroduzidos\u00a0na natureza, ou talvez estes sejam matrizes para uma pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de animais que\u00a0j\u00e1 nas\u00e7am sendo preparados para esse prop\u00f3sito. Mesmo animais mantidos por gera\u00e7\u00f5es\u00a0em cativeiro tem potencial de serem introduzidos se o trabalho for bem feito.\u00a0A maior parte dos animais expressam principalmente comportamentos inatos e uma\u00a0pequena parcela de comportamentos adquiridos, da\u00ed a facilidade de reintroduzi-los na\u00a0natureza se estes estiverem gozando de boa sa\u00fade f\u00edsica.<\/p>\n<p>J\u00e1 os animais que expressam grande parte de seu comportamento baseado em\u00a0comportamento adquirido (aprendido) estes podem ser ensinados a viver na natureza.\u00a0Apenas faz sentido falar em preserva\u00e7\u00e3o ambiental quando o prop\u00f3sito for a\u00a0reintrodu\u00e7\u00e3o dos animais. Isso apenas poder\u00e1 ser feito se a prioridade for a preserva\u00e7\u00e3o\u00a0dos ambientes naturais.\u00a0Por\u00e9m, diferente da Costa Rica, a maior parte dos zool\u00f3gicos do mundo possuem\u00a0cole\u00e7\u00f5es de animais ex\u00f3ticos. \u00c9 por esse motivo que o movimento pelo fim dos\u00a0zool\u00f3gicos deve ser realizado em n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p>No estado atual, se apenas o Brasil resolvesse abolir os zool\u00f3gicos, seus le\u00f5es e\u00a0elefantes possivelmente teriam de ser transferidos para outros zool\u00f3gicos em outros\u00a0pa\u00edses, talvez at\u00e9 para parques de ca\u00e7a. As reservas africanas talvez possam n\u00e3o ter\u00a0interesse em receber esses animais que poder\u00e3o criar problemas para as popula\u00e7\u00f5es j\u00e1\u00a0instaladas. Al\u00e9m do que a capacidade suporte das reservas existentes pode j\u00e1 ter sido\u00a0atingida.<\/p>\n<p>Mas no caso de uma aboli\u00e7\u00e3o dos zool\u00f3gicos em \u00e2mbito mundial, ou de uma pol\u00edtica\u00a0s\u00f3lida de repatria\u00e7\u00e3o de animais entre continentes, os animais seriam distribu\u00eddos\u00a0por uma rede de institui\u00e7\u00f5es para centros de reabilita\u00e7\u00e3o instalados em cada bioma, e\u00a0cada um deles desenvolveria um trabalho com vistas \u00e0 reabilita\u00e7\u00e3o desses animais na\u00a0natureza, ou na reprodu\u00e7\u00e3o dos mesmos com objetivo de reintroduzir sua prole.\u00a0Importante que entendamos que nas condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas em que muitos dos\u00a0animais de zool\u00f3gico se encontram, eles em si jamais possam ser reintroduzidos. Talvez\u00a0mesmo para o caso de animais h\u00e1beis, o processo de reintrodu\u00e7\u00e3o n\u00e3o terminasse dentro\u00a0de seu pr\u00f3prio ciclo de vida. Mas possivelmente seus filhotes j\u00e1 nascessem em estado de\u00a0semi-liberdade e seus netos em estado de completa liberdade.<\/p>\n<p>Uma outra poss\u00edvel alternativa para muitos dos animais que hoje se encontram em\u00a0zool\u00f3gicos s\u00e3o os santu\u00e1rios de animais. Santu\u00e1rios de animais, diferentemente de\u00a0zool\u00f3gicos, n\u00e3o priorizam a diversidade de esp\u00e9cies. Eles d\u00e3o abrigo a grande n\u00famero\u00a0de indiv\u00edduos pertencentes a poucas esp\u00e9cies, e geralmente vivendo em espa\u00e7os\u00a0maiores. Santu\u00e1rios tamb\u00e9m priorizam o bem-estar do animal, e n\u00e3o sua exposi\u00e7\u00e3o ao\u00a0p\u00fablico.\u00a0Santu\u00e1rios podem se especializar em determinados grupos de animais, de modo que isso\u00a0facilite seu manejo. Eles podem tamb\u00e9m ser estabelecidos de forma a atingirem certo\u00a0n\u00edvel de sustentabilidade econ\u00f4mica, caso n\u00e3o disponham de verbas p\u00fablicas para sua\u00a0manuten\u00e7\u00e3o (ver <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/22\/05\/2014\/sustentabilidade-santuarios-animais\" >Sustentabilidade para Santu\u00e1rios de Animais<\/a>)<\/p>\n<p>Imagino, por exemplo, que uma enorme fazenda no cerrado pudesse ser transformada\u00a0em um santu\u00e1rio para grandes herb\u00edvoros africanos que por diversos motivos n\u00e3o\u00a0puderam ser repatriados. Na savana africana zebras, gnus, girafas, rinocerontes,\u00a0elefantes, b\u00fafalos do cabo, avestruzes, ant\u00edlopes, impalas e outros animais formam\u00a0bandos mistos, pastando lado a lado de forma harm\u00f4nica.<\/p>\n<p>De forma bastante controlada essa \u00e1rea poderia receber a visita\u00e7\u00e3o de turistas, que n\u00e3o\u00a0mais visualizariam animais em pequenos recintos, mas animais vivendo em ambientes\u00a0muito pr\u00f3ximos de seu ambiente original. N\u00e3o seriam os animais que estariam presos,\u00a0mas os visitantes, dentro de jipes, \u00e0 semelhan\u00e7a do que ocorre em safaris fotogr\u00e1ficos.\u00a0Importante que tal empreendimento, para ser qualificado como santu\u00e1rio, tivesse o\u00a0compromisso de continuar preservando o bem-estar dos animais em detrimento das\u00a0op\u00e7\u00f5es de visualiza\u00e7\u00e3o por seres humanos.<\/p>\n<p>Estes santu\u00e1rios n\u00e3o deveriam se transformar em zool\u00f3gicos com jaulas maiores, nem\u00a0parques safaris. Os jipes n\u00e3o deveriam se aproximar demasiadamente dos animais, nem\u00a0persegui-los, nem alterar seu comportamento. Tamb\u00e9m, nesses santu\u00e1rios os animais\u00a0deveriam ser todos est\u00e9reis, para evitar futuros problemas ecol\u00f3gicos (por tratarem-se de\u00a0esp\u00e9cies ex\u00f3ticas) ou a perpetua\u00e7\u00e3o do empreendimento. A visita\u00e7\u00e3o seria apenas uma\u00a0forma de manter a sa\u00fade econ\u00f4mica do santu\u00e1rio, pelo tempo de vida dos animais.<\/p>\n<p>Tenho com frequ\u00eancia tratado do tema \u201csantu\u00e1rios de animais\u201d e muitas pessoas\u00a0me perguntam se n\u00e3o seriam tamb\u00e9m estes locais de aprisionamento de animais e\u00a0sua exposi\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico. \u00c9 verdade que animais em um santu\u00e1rio encontram-se\u00a0igualmente presos, mas essa pris\u00e3o \u00e9 circunstancial. Muitos desses animais, se fossem\u00a0simplesmente soltos, morreriam (no caso de animais silvestres) ou causariam problemas\u00a0ecol\u00f3gicos (no caso de animais ex\u00f3ticos). Mant\u00ea-los aprisionados em santu\u00e1rios, em\u00a0muitos casos, talvez seja a \u00fanica possibilidade.\u00a0A reabilita\u00e7\u00e3o de animais e sua libera\u00e7\u00e3o em \u00e1reas de soltura \u00e9 um processo complexo\u00a0que atravessa diferentes fases. As aves necessitam aprender a voar em enormes gaiolas\u00a0voadeiras e ap\u00f3s isso s\u00e3o liberadas em campo tendo ainda a alternativa de buscarem\u00a0seu alimento junto a comedouros instalados por humanos at\u00e9 que consigam completa\u00a0independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Pode se tratar de um processo de anos e por esse motivo esse processo necessita ser\u00a0sustent\u00e1vel. Se n\u00e3o houverem verbas p\u00fablicas destinadas para essa causa, penso que\u00a0uma alternativa seria que esses empreendimentos fossem realizados nas proximidades\u00a0de hot\u00e9is de campo. Os h\u00f3spedes poderiam acompanhar o trabalho realizado com a\u00a0reabilita\u00e7\u00e3o das aves, observ\u00e1-las nos comedouros, em estado de semiliberdade, e v\u00ea-las\u00a0j\u00e1 em liberdade.<\/p>\n<p>Diferente de zool\u00f3gicos, tais empreendimentos sim teriam um potencial de educa\u00e7\u00e3o\u00a0ambiental, preservacionista e cient\u00edfico. Zool\u00f3gicos s\u00e3o perpetuadores do cativeiro,\u00a0mas esses empreendimentos funcionariam na dire\u00e7\u00e3o oposta. Tamb\u00e9m n\u00e3o cabe o\u00a0argumento de que tais santu\u00e1rios, devido \u00e1 limita\u00e7\u00e3o de visita\u00e7\u00e3o, seriam elitistas. A\u00a0visita\u00e7\u00e3o \u00e9 mera forma de manter o sistema economicamente vi\u00e1vel, de forma alguma \u00e9\u00a0a prioridade de um santu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Creio que o futuro dos zool\u00f3gicos seja o da pr\u00f3pria extin\u00e7\u00e3o. As desculpas antes\u00a0utilizadas para sua manuten\u00e7\u00e3o fazem cada vez menos sentido e mesmo as reformas\u00a0cosm\u00e9ticas, que apresentam os recintos com menos barras nas jaulas e mais fossos,\u00a0menos concreto aparente e mais enriquecimento ambiental, n\u00e3o enganar\u00e3o as pessoas\u00a0por muito mais tempo.<\/p>\n<p>No futuro n\u00e3o existir\u00e3o zool\u00f3gicos, mas os animais ser\u00e3o t\u00e3o, ou melhor, conhecidos\u00a0pelos interessados. Animais n\u00e3o mais ser\u00e3o expostos para curiosos, mas as pessoas\u00a0poder\u00e3o visit\u00e1-los em reservas e santu\u00e1rios, eventualmente avist\u00e1-los em seu ambiente\u00a0natural. Apenas ent\u00e3o poderemos usar a palavra respeito para com os animais com\u00a0alguma propriedade.<\/p>\n<p>__________________________<\/p>\n<p><em>S\u00e9rgio Greif \u2013 Bi\u00f3logo formado pela UNICAMP, mestre em Alimentos e Nutri\u00e7\u00e3o com tese em nutri\u00e7\u00e3o vegetariana pela mesma universidade, ativista pelos direitos animais, vegano desde 1998, consultor em diversas a\u00e7\u00f5es civis publicas e audi\u00eancias p\u00fablicas em defesa dos direitos animais. Co-autor do livro \u201c<\/em>A Verdadeira Face da Experimenta\u00e7\u00e3o Animal: A sua sa\u00fade em perigo<em>\u201d e autor de \u201c<\/em>Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educa\u00e7\u00e3o: pela ci\u00eancia respons\u00e1vel<em>\u201d, al\u00e9m de diversos artigos e ensaios referentes \u00e0 nutri\u00e7\u00e3o vegetariana, ao modo de vida vegano, aos direitos ambientais, \u00e0 bio\u00e9tica, \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o animal, aos m\u00e9todos substitutivos ao uso de animais na pesquisa e na educa\u00e7\u00e3o e aos impactos da pecu\u00e1ria ao meio ambiente, entre outros temas. Membro fundador da Sociedade Vegana. <\/em><strong><em>Sites:<\/em><\/strong> <em><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.sociedadevegana.org\/\" >www.sociedadevegana.org<\/a><\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.anda.jor.br\/11\/09\/2014\/zoologicos-3\" >Go to Original \u2013 anda.jor.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um pouco de hist\u00f3ria: A vis\u00e3o de animais como \u201ccoisas\u201d ou \u201cobjetos\u201d a serem utilizados para nossos prop\u00f3sitos n\u00e3o \u00e9 recente na hist\u00f3ria humana, e como todas as demais \u201ccoisas\u201d, animais parecem ter sido sempre colecionados por seres humanos, mesmo no per\u00edodo pr\u00e9- hist\u00f3rico.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-48036","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48036","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48036"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48036\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48036"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48036"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48036"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}