{"id":48261,"date":"2014-10-06T12:00:53","date_gmt":"2014-10-06T11:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/?p=48261"},"modified":"2015-05-05T21:29:40","modified_gmt":"2015-05-05T20:29:40","slug":"portugues-o-retorno-de-george-orwell","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/2014\/10\/portugues-o-retorno-de-george-orwell\/","title":{"rendered":"(Portugu\u00eas) O Retorno de George Orwell"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_48262\" style=\"width: 495px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/george-orwell-1984.jpg\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-48262\" class=\"size-full wp-image-48262\" src=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/george-orwell-1984.jpg\" alt=\"Cena de \u201c1984\u201d, filme de Michael Radford adptado a partir do romance original. Para Pilger, \u201cna pol\u00edtica, assim como no jornalismo e nas artes, parece que a dissid\u00eancia, antes tolerada no \u2018mainstream\u2019, voltou a ser uma dissid\u00eancia: um submundo metaf\u00f3rico\u201d\" width=\"485\" height=\"261\" srcset=\"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/george-orwell-1984.jpg 485w, https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/george-orwell-1984-300x161.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 485px) 100vw, 485px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-48262\" class=\"wp-caption-text\">Cena de \u201c1984\u201d, filme de Michael Radford adptado a partir do romance original. Para Pilger, \u201cna pol\u00edtica, assim como no jornalismo e nas artes, parece que a dissid\u00eancia, antes tolerada no \u2018mainstream\u2019, voltou a ser uma dissid\u00eancia: um submundo metaf\u00f3rico\u201d<\/p><\/div>\n<p><em>Como despolitiza\u00e7\u00e3o, m\u00eddia submissa\u00a0ao Estado e cinismo dos intelectuais est\u00e3o produzindo, nas antigas democracias ocidentais, um ambiente \u201c1984 high-tech\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Uma\u00a0noite dessas, assisti ao <em>1984<\/em>, de George Orwell, interpretado no teatro, em Londres. Apesar de clamar por uma interpreta\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, o alerta de Orwell sobre o futuro foi apresentado como algo de \u00e9poca: remoto, pouco amea\u00e7ador , quase tranquilizador. Foi como se Edward Snowden n\u00e3o tivesse revelado nada, o Grande Irm\u00e3o n\u00e3o fosse um bisbilhoteiro digital e o pr\u00f3prio Orwell nunca tivesse dito \u201cningu\u00e9m precisa viver em um pa\u00eds totalit\u00e1rio para ser corrompido pelo totalitarismo\u201d.<\/p>\n<p>Aclamada pela cr\u00edtica, a h\u00e1bil produ\u00e7\u00e3o foi um sinal de nossos tempos, pol\u00edticos e culturais. Quando as luzes acenderam, as pessoas j\u00e1 estavam de sa\u00edda. Pareciam indiferentes, ou talvez outras distra\u00e7\u00f5es as atra\u00edssem. \u201cQue confus\u00e3o\u201d, disse uma jovem, ao ligar seu celular.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que sociedades avan\u00e7adas v\u00e3o sendo despolitizadas, as mudan\u00e7as s\u00e3o t\u00e3o s\u00fabitas quanto espetaculares. No discurso cotidiano, a fala pol\u00edtica est\u00e1 de ponta cabe\u00e7a, como Orwell profetizou em <em>1984<\/em>. \u201cDemocracia\u201d transformou-se em um aparato ret\u00f3rico. Paz \u00e9 \u201cguerra permanente\u201d. \u201cGlobal\u201d \u00e9 imperial. O conceito, uma vez esperan\u00e7oso, de \u201creforma\u201d agora significa regress\u00e3o, e mesmo destrui\u00e7\u00e3o. \u201cAusteridade\u201d \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o do capitalismo extremo aos pobres e a ben\u00e7\u00e3o da socializa\u00e7\u00e3o das perdas para os ricos: um engenhoso sistema no qual a maioria paga as contas da minoria.<\/p>\n<p>Nas artes, a hostilidade a quem diz verdades pol\u00edticas \u00e9 um artefato da f\u00e9 burguesa. \u201cO per\u00edodo vermelho de Picasso e por que pol\u00edtica n\u00e3o faz boa arte\u201d, diz uma manchete do <em>Observer<\/em>. Considere isso em um jornal que promoveu o banho de sangue no Iraque como uma cruzada liberal. A vida de Picasso, de oposi\u00e7\u00e3o ao fascismo, \u00e9 apenas uma nota de rodap\u00e9, assim como o radicalismo de Orwell desbotou do pr\u00eamio que leva seu nome.<\/p>\n<p>Alguns anos atr\u00e1s, Terry Eagleton, ent\u00e3o professor de Literatura Inglesa na Universidade de Manchester, avaliou que \u201cpela primeira vez em dois s\u00e9culos, n\u00e3o h\u00e1 nenhum poeta, dramaturgo ou romancista eminente ingl\u00eas preparado para questionar os alicerces do modo de vida ocidental\u201d Nenhum Shelley fala pelos pobres, ou Blake pelos sonhos ut\u00f3picos; nenhum Byron condena a corrup\u00e7\u00e3o da classe dominante, nenhum Thomas Carlyle ou John Ruskin revela o desastre moral do capitalismo. William Morris, Oscar Wilde, H. G. Wells, George Bernard Shaw, nenhum tem equivalentes hoje. Harold Pinter foi o \u00faltimo a erguer sua voz. Entre as insistentes vozes dos consumidores de feminismo, nenhuma ecoa Virginia Woolf, que descreveu \u201c as artes de dominar outras pessoas\u2026 de mandar, de matar, de adquirir terra e capital\u201d.<\/p>\n<p>No <em>National Theatre<\/em>, uma nova pe\u00e7a, <em>Great Britain<\/em>, satiriza o esc\u00e2ndalo da vigil\u00e2ncia telef\u00f4nica que levou a julgamento e condenou jornalistas, incluindo um antigo editor do <em>News of the World, <\/em>de Rupert Murdoch . Descrita como uma \u201cfarsa com dentes [que] p\u00f5e toda a cultura incestuosa [midi\u00e1tica] na berlinda e a sujeita ao rid\u00edculo impiedoso\u201d, a pe\u00e7a tem como alvos os \u201caben\u00e7oadamente engra\u00e7ados\u201d personagens dos tabloides brit\u00e2nicos. Isso \u00e9 muito bom, e tamb\u00e9m muito familiar. O que dizer da m\u00eddia n\u00e3o sensacionalista que se considera honrada e digna de cr\u00e9dito, mas desempenha um papel paralelo como arma de Estado e do poder corporativo, como na promo\u00e7\u00e3o da guerra ilegal?<\/p>\n<p>O <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Leveson_Inquiry\" >inqu\u00e9rito Leveson<\/a> sobre vigil\u00e2ncia telef\u00f4nica permitiu ver de relance estes fatos impronunci\u00e1veis. Tony Blair dirigia-se ao p\u00fablico , reclamando ao Seu Senhor sobre o ass\u00e9dio dos tabloides \u00e0 sua mulher, quando foi interrompido por uma voz da plateia. David Lawley-Wakelin, um cineasta, demandava a pris\u00e3o de Blair por crimes de guerra. Houve uma grande pausa: o choque da verdade. Lorde Leveson ficou em p\u00e9 em um salto, mandou expulsar o contador de verdades e pediu desculpas ao criminoso de guerra. Lawley-Wakelin foi processado; Blair ficou livre.<\/p>\n<p>Os c\u00famplices permanentes de Blair s\u00e3o mais respeit\u00e1veis que grampeadores de telefone. Quando a apresentadora de artes da BBC, Kirsty Wark, entrevistou-o no d\u00e9cimo anivers\u00e1rio da invas\u00e3o ao Iraque, ela o presenteou com um momento com o qual ele s\u00f3 poderia sonhar. Permitiu-lhe lamentar sua \u201cdif\u00edcil\u201d decis\u00e3o no Iraque, ao inv\u00e9s de cham\u00e1-lo a prestar contas sobre o seu crime \u00e9pico. Isso fez lembrar a prociss\u00e3o de jornalistas da BBC, que, em 2003, declararam que Blair poderia se sentir \u201cvingado\u201d e o subsequente seriado da BBC, \u201cThe Blair Years\u201d, para o qual David Aaronovitch foi escolhido como escritor, apresentador e entrevistador. Um bate-pau de Murdoch que fez campanha em favor dos ataques militares ao Iraque, L\u00edbia e S\u00edria, Aaronovitch soube bajular com esperteza.<\/p>\n<p>Desde a invas\u00e3o do Iraque \u2013 exemplo dum ato de agress\u00e3o n\u00e3o provocada, algo que o procurador de Nuremberg, Robert Jackson, chamou de \u201do supremo crime internacional, que diferencia-se dos outros crimes de guerra por conter acumulado em si todo o mal\u201d \u2013 Blair e seu porta-voz e principal c\u00famplice, Alastair Campbell, t\u00eam recebido espa\u00e7os generosos no <em>The Guardian<\/em> para reabilitar suas reputa\u00e7\u00f5es. Descrito como uma \u201cestrela\u201d de partidos trabalhistas, Campbell buscou a simpatia de seus leitores por sua depress\u00e3o e exibiu seus interesses, embora escondesse seu atual \u2013 de conselheiro, junto com Blair, da tirania militar eg\u00edpcia.<\/p>\n<p>Enquanto o Iraque vai sendo desmembrado como consequ\u00eancia da invas\u00e3o de Blair e de Bush, uma manchete do <em>Guardian<\/em> declara: \u201cDerrubar Saddam estava certo, mas fizemos isso muito cedo\u201d. Isso coincide com um proeminente artigo de 13 de Junho, escrito por um antigo funcion\u00e1rio de Blair, John McTernan, que tamb\u00e9m serviu ao ditador iraquiano instalado pela CIA, Iyad Allawi. Ao falar da invas\u00e3o repetida a um pa\u00eds que seu antigo mestre havia ajudado a destruir, McTernan n\u00e3o faz nenhuma refer\u00eancia \u00e0s mortes de pelo menos 700 mil pessoas, \u00e0 fuga de quatro milh\u00f5es de refugiados e ao tumulto sect\u00e1rio de uma na\u00e7\u00e3o outrora orgulhosa da sua toler\u00e2ncia comum.<\/p>\n<p>\u201cBlair encarna a corrup\u00e7\u00e3o e a guerra\u201d, escreveu o colunista radical do <em>Gardian<\/em>, Seumas Milne, em um artigo espirituoso em 3 de Julho. No com\u00e9rcio, isso \u00e9 conhecido como \u201cbalan\u00e7o\u201d. No dia seguinte, o jornal publicou um an\u00fancio de p\u00e1gina inteira de um bombardeiro invis\u00edvel norte-americano. Na imagem amea\u00e7adora do avi\u00e3o, estavam as palavras \u201dO F-35. \u00d3TIMO para a Gr\u00e3-Bretanha\u201d. Essa outra encarna\u00e7\u00e3o da \u201ccorrup\u00e7\u00e3o e da guerra\u201d vai custar aos contribuintes brit\u00e2nicos 2,1 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, e seus modelos antecessores t\u00eam massacrado gente pelo mundo em desenvolvimento.<\/p>\n<p>Em uma vila no Afeganist\u00e3o, habitada pelos mais pobres dentre os pobres, filmei Orifa, ajoelhada no t\u00famulo de seu marido, Gul Ahmed, um tecel\u00e3o de tapetes, e de sete outros membros da sua fam\u00edlia, incluindo seis filhos e duas crian\u00e7as que foram mortas na casa adjacente. Uma bomba de \u201cprecis\u00e3o\u201d de mais de duzentos quilos caiu diretamente na sua casa de lama, pedras e palha, deixando uma cratera de 15 metros de largura. A Lockheed Martin,fabricante do avi\u00e3o, teve lugar de honra na propaganda do <em>The Guardian<\/em>.<\/p>\n<p>A antiga secret\u00e1ria de Estado e aspirante a Presidente dos Estados Unidos, Hillary Clinton, esteve recentemente no quadro da BBC \u201cHora das Mulheres\u201d [\u201cWomen&#8217;s Hour\u201d], a quintess\u00eancia da respeitabilidade da m\u00eddia. A apresentadora, Jenni Murray, apresentou Clinton como um farol das conquistas femininas. Ela n\u00e3o lembrou seus ouvintes sobre a mistifica\u00e7\u00e3o de Clinton, segundo a qul o Afeganist\u00e3o foi invadido para \u201cliberar\u201d mulheres como Orifa. Ela n\u00e3o perguntou nada a ex-secret\u00e1ria sobre a campanha de terror, conduzida por seu governo, usando drones, para matar mulheres, homens e crian\u00e7as. N\u00e3o houve men\u00e7\u00e3o \u00e0 amea\u00e7a v\u00e3 de Clinton, durante sua campanha para ser a primeira presidente mulher, de \u201celiminar\u201d o Ir\u00e3, e nada sobre o seu apoio \u00e0 vigil\u00e2ncia maci\u00e7a e ilegal sobre os cidad\u00e3os e a persegui\u00e7\u00e3o a quem a denuncia.<\/p>\n<p>Ah, sim \u2013 Murray fez uma pergunta indiscreta. Clinton perdoou Monica Lewinsky por ter um caso com seu marido? \u201cO perd\u00e3o \u00e9 uma escolha\u201d, disse Clinton, \u201cpara mim, foi certamente a melhor escolha \u201d. Isso fez lembrar a d\u00e9cada de 90 e os anos consumidos pelo \u201cesc\u00e2ndalo\u201d Lewinsky. O Presidente Bill Clinton estava, ent\u00e3o, invadindo o Haiti e bombardeando os Balc\u00e3s, a \u00c1frica e o Iraque. Ele tamb\u00e9m estava destruindo a vida de crian\u00e7as iraquianas; a Unicef reportou que as mortes de meio milh\u00e3o de crian\u00e7as iraquianas com menos de cinco anos foi resultado de um embargo liderado pelos EUA e a Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as n\u00e3o eram pessoas para a m\u00eddia, assim como as v\u00edtimas de Hillary Clinton nas invas\u00f5es que ela apoiou e promoveu \u2013 Afeganist\u00e3o, Iraque, I\u00eamen, Som\u00e1lia \u2013 n\u00e3o s\u00e3o pessoas para a m\u00eddia. Murray n\u00e3o fez refer\u00eancias a elas. Uma fotografia dela e da sua distinta convidada, sorridentes, aparece no site da BBC.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica, assim como no jornalismo e nas artes, parece que a dissid\u00eancia, antes tolerada no \u201c<em>mainstream<\/em>\u201d, voltou a ser uma dissid\u00eancia: um submundo metaf\u00f3rico. Quando comecei uma carreira na imprensa brit\u00e2nica, nos anos 60, era aceit\u00e1vel criticar o poder ocidental como uma for\u00e7a voraz. Leia os festejados relatos de James Cameron sobre a explos\u00e3o da bomba de hidrog\u00eanio no Atol de Bikini, a guerra b\u00e1rbara na Coreia e o bombardeio americano no Vietn\u00e3 do Norte. A grande ilus\u00e3o de hoje \u00e9 sobre uma suposta Era da Informa\u00e7\u00e3o quando, na verdade, vivemos em uma Era da M\u00eddia, na qual a incessante propaganda corporativa \u00e9 insidiosa, contagiosa, efetiva e liberal.<\/p>\n<p>Em seu ensaio \u201cSobre a Liberdade\u201d [\u201c<em>On Liberty<\/em>\u201d], de 1859, ao qual os liberais modernos prestam homenagem, John Stuart Mill escreveu: \u201cDespotismo \u00e9 um modo leg\u00edtimo de governo no trato com b\u00e1rbaros, desde que o fim seja melhor\u00e1-los, e tendo os meios justificados pelo cumprimento do objetivo\u201d. Os \u201cb\u00e1rbaros\u201d eram grandes setores da humanidade de quem era exigida \u201cobedi\u00eancia impl\u00edcita\u201d. \u201c\u00c9 um mito bom e conveniente que os liberais s\u00e3o promotores da paz e os conservadores s\u00e3o os fomentadores da guerra\u201d, escreveu o historiador Hywel Williams em 2001, \u201cmas o imperialismo da veia liberal talvez seja mais perigoso, por causa da sua natureza aberta: sua convic\u00e7\u00e3o de que representa uma forma de vida superior\u201d. Ele tinha em mente um discurso de Blair, em que o ent\u00e3o primeiro ministro prometeu \u201creorganizar o mundo ao redor de n\u00f3s\u201d de acordo com os seus \u201cvalores morais\u201d.<\/p>\n<p>Richard Falk, respeitada autoridade em lei internacional e Relator Especial da ONU na Palestina, uma vez descreveu uma \u201ctela moral e legal hip\u00f3crita, de via \u00fanica, com imagens positivas de valores ocidentais e da inoc\u00eancia retratada como sob amea\u00e7a, que valida uma campanha de viol\u00eancia pol\u00edtica irrestrita\u201d. Isso \u00e9 \u201ct\u00e3o amplamente aceito que \u00e9 virtualmente incontest\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>Posse e prote\u00e7\u00e3o recompensam os que se submetem. Na R\u00e1dio 4 da BBC, Razia Igbal entrevistou Toni Morrison, a afro-americana laureada pelo Nobel. Morrison se perguntava por que as pessoas estavam \u201ct\u00e3o bravas\u201d com o Barack Obama, que era \u201clegal\u201d e desejava construir uma \u201ceconomia e assist\u00eancia m\u00e9dica fortes\u201d. Morrison estava orgulhosa de ter falado ao telefone com o seu her\u00f3i, que leu um de seus livros e a convidou \u00e0 cerim\u00f4nia de sua posse .<\/p>\n<p>Nem ela, nem sua entrevistadora, mencionaram as sete guerras de Obama, nem a sua campanha de terror com drones, na qual fam\u00edlias inteiras foram executadas, assim como quem tentava socorr\u00ea-las ou orava por elas. O que parecia importar era que um homem negro e \u201cde fala elegante\u201d havia subido ao mais alto comando do poder. Em \u201cOs Condenados da terra\u201d, Frantz Fanon escreveu que a \u201cmiss\u00e3o hist\u00f3rica\u201d dos colonizados era servir de \u201clinha de transmiss\u00e3o\u201d para aqueles que comandavam e oprimiam. Nos tempos atuais, o emprego da diferen\u00e7a \u00e9tnica no poder e sistema de propaganda ocidentais \u00e9 visto como essencial. Obama exemplifica isso, ainda que o gabinete de George W. Bush \u2013 sua panelinha belicosa \u2013 tenha sido o mais multirracial na hist\u00f3ria presidencial.<\/p>\n<p>Quando a cidade iraquiana de Mosul ca\u00eda sob o poder dos jihadistas do ISIS, Obama afirmou: \u201cO povo americano faz grandes investimentos e sacrif\u00edcios para dar aos iraquianos a oportunidade de tra\u00e7ar um destino melhor\u201d. Qu\u00e3o \u201clegal\u201d \u00e9 essa mentira? Qu\u00e3o \u201celegantemente falado\u201d foi o discurso de Obama na academia militar West Point<em>, <\/em>em 28 de maio? Quando fez seu discurso a respeito da \u201csitua\u00e7\u00e3o mundial\u201d, na cerim\u00f4nia de gradua\u00e7\u00e3o daqueles que \u201cv\u00e3o exercer a lideran\u00e7a americana\u201d ao redor do mundo, Obama disse: \u201cOs Estados Unidos v\u00e3o usar for\u00e7a militar, unilateralmente se necess\u00e1rio, quando os nossos interesses centrais demandarem isso. A opini\u00e3o internacional importa, mas a Am\u00e9rica nunca vai pedir permiss\u00e3o\u2026\u201d<\/p>\n<p>Ao repudiar o direito internacional e os direitos das na\u00e7\u00f5es independentes, o presidente norte-americano reivindica uma divindade baseada no poder da sua \u201cna\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel\u201d. Essa \u00e9 uma mensagem familiar da impunidade imperial. Evocando o come\u00e7o do fascismo na d\u00e9cada de 30, Obama disse: \u201ceu acredito na excepcionalidade americana com todas as fibras do meu ser\u201d. O historiador Norman Pollack escreveu: \u201cNo lugar da marcha ao passo de ganso [t\u00edpica do fascismo], coloque a militariza\u00e7\u00e3o de toda a cultura, aparentemente mais in\u00f3cua. E em vez do l\u00edder tonitruante, n\u00f3s temos o projeto de reformista, alegre no seu trabalho, planejando e executando assassinatos, sorrindo todo o tempo\u2019.<\/p>\n<p>Em fevereiro, os EUA montaram um dos seus golpes \u201ccoloridos\u201d contra o governo eleito na Ucr\u00e2nia, explorando protestos genu\u00ednos contra a corrup\u00e7\u00e3o em Kiev. A secret\u00e1ria de Estado assistente de Obama, Victoria Nuland, escolheu pessoalmente o l\u00edder para um \u201cgoverno interino\u201d. Ela o apelidou \u201cYats\u201d. O vice presidente Joe Biden foi a Kiev, assim como o diretor da CIA, John Brennan. As tropas de choque do seu putsch eram fascistas ucranianos.<\/p>\n<p>Pela primeira vez desde 1945, um partido neo-nazista, abertamente anti-semita, controla setores fundamentais do poder p\u00fablico em uma capital europeia. Nenhum l\u00edder europeu ocidental condenou essa recupera\u00e7\u00e3o do fascismo na fronteira atrav\u00e9s da qual as tropas invasoras de Hitler tiraram milh\u00f5es de vidas russas. Eles eram apoiados pelo Ex\u00e9rcito Insurgente Ucraniano (UPA), respons\u00e1vel pelo massacre de judeus e russos que chamam de \u201cvermes\u201d. O UPA \u00e9 a inspira\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do atual Partido Svoboda e seus companheiros de viagem da direita. O lider do Svoboda, Oleh Tyanybok, pediu o expurgo da \u201cm\u00e1fia moscovita-judia\u201d e \u201coutra esc\u00f3ria\u201d, incluindo gays, feministas e pessoas de esquerda.<\/p>\n<p>Desde o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, os Estados Unidos cercaram a R\u00fassia de bases militares, avi\u00f5es nucleares de guerra e m\u00edsseis, como parte do seu Projeto de Amplia\u00e7\u00e3o OTAN. Renegando uma promessa feita ao presidente sovi\u00e9tico Mikhail Gorbachev em 1990, de que a n\u00e3o se expandiria \u201cuma polegada para o leste\u201d, a OTAN tem, com efeito, ocupado militarmente a Europa Oriental. No antigo C\u00e1ucaso Sovi\u00e9tico, a expans\u00e3o da OTAN \u00e9 a maior mobiliza\u00e7\u00e3o militar desde a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>O Plano de A\u00e7\u00e3o para Ades\u00e3o \u00e0 OTAN \u00e9 o presente de Washington ao regime golpista em Kiev. Em Agosto, a \u201cOpera\u00e7\u00e3o Rapid Trident\u201d vai colocar tropas norte-americanas e brit\u00e2nicas na fronteira russa da Ucr\u00e2nia; e a \u201cSea Breeze\u201d vai colocar navios de guerra estadunidenses t\u00e3o pr\u00f3ximos dos portos russos que poder\u00e3o ser vistos a olho nu. Imagine a resposta, se esses atos de provoca\u00e7\u00e3o e intimida\u00e7\u00e3o fossem executados nas fronteiras americanas.<\/p>\n<p>Na recupera\u00e7\u00e3o da Crimeia \u2013 que Nikita Kruschev separou ilegalmente da R\u00fassia, em 1954 \u2013 os russos defenderam-se como t\u00eam feito por quase um s\u00e9culo. Mais de 90% da popula\u00e7\u00e3o da Crimeia votou favoravelmente a reincorporar o territ\u00f3rio \u00e0 R\u00fassia. A Crimeia \u00e9 a base da Frota do Mar Negro e sua perda significaria vida ou morte para a Marinha Russa e um pr\u00eamio para a OTAN. Confundindo as for\u00e7as em guerra em Washington e Kiev, Vladimir Putin retirou as tropas da fronteira ucraniana e pediu aos russos do leste da Ucr\u00e2nia que abandonassem o separatismo.<\/p>\n<p>De maneira orwelliana, isso foi invertido no Ocidente, para se converter na \u201camea\u00e7a Russa\u201d. Hillary Clinton associou Putin a Hitler. Sem ironia, comentaristas de direita alem\u00e3es disseram o mesmo. Na m\u00eddia, os neo-nazistas ucranianos s\u00e3o tratados com eufemismos: \u201cnacionalistas\u201d, ou \u201cultra-nacionalistas\u201d. O que eles temem \u00e9 que Putin esteja buscando uma sa\u00edda diplom\u00e1tica e talvez tenha sucesso. Em 27 de junho, em resposta ao \u00faltimo ajuste de Putin \u2013 seu pedido ao parlamento russo para rescindir da lei que lhe deu poder para intervir pelos russos na Ucr\u00e2nia \u2013 o secret\u00e1rio de Estado John Kerry emitiu mais um de seus ultimatos. A R\u00fassia deveria \u201cagir dentro das pr\u00f3ximas horas, literalmente\u201d para acabar com a revolta no leste da Ucr\u00e2nia. N\u00e3o obstante Kerry seja amplamente reconhecido como um buf\u00e3o, o prop\u00f3sito s\u00e9rio desses \u201cavisos\u201d \u00e9 conferir \u00e0 R\u00fassia o status de p\u00e1ria e suprimir as not\u00edcias da guerra do regime de Kiev ao seu pr\u00f3prio povo.<\/p>\n<p>Um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u00e9 russo-falante e bil\u00edngue. Buscam h\u00e1 muito tempo uma federa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica que reflita a diversidade \u00e9tnica da Ucr\u00e2nia e que seja tanto aut\u00f4noma quanto independente de Moscou. A maioria n\u00e3o \u00e9 nem \u201cseparatista\u201d nem \u201crebelde\u201d, mas cidad\u00e3os que querem viver com seguran\u00e7a em seu pa\u00eds. O separatismo \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o aos ataques da junta de Kiev contra eles, que provocaram a fuga de cerca de 110 mil pessoas (segundo estimativa da ONU)pela fronteira, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia. Tipicamente, s\u00e3o mulheres e crian\u00e7as traumatizadas.<\/p>\n<p>Assim como as crian\u00e7as v\u00edtimas do embargo ao Iraque, ou as mulheres e crian\u00e7as \u201cliberadas\u201d do Afeganist\u00e3o, aterrorizadas pelos senhores da guerra da CIA, esse povo \u00e9tnico da Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 gente para a m\u00eddia ocidental. Seu sofrimento e as atrocidades cometidas contra ele s\u00e3o minimizados ou suprimidos. Nenhum senso da escala da agressividade do regime \u00e9 relatado nos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidental tradicionais. Isso n\u00e3o \u00e9 sem precedentes. Relendo o magistral \u201cA Primeira V\u00edtima<em>: o correspondente de guerra como her\u00f3i, propagandista, e criador de mitos<\/em>\u201d de Phillip Knightley, pude renovar minha admira\u00e7\u00e3o por Morgan Philips Price, que, pelo <em>Manchester Guardian<\/em>, foi o \u00fanico rep\u00f3rter ocidental a permanecer na R\u00fassia durante a revolu\u00e7\u00e3o de 1917 e reportar a verdade sobre a desastrosa invas\u00e3o dos aliados ocidentais. Justo e corajoso, Philips Price sozinho sacudiu aquilo que Knightley chama de \u201csil\u00eancio negro\u201d anti-russo no Ocidente.<\/p>\n<p>Em 2 de maio, em Odessa, 41 ucranianos de etnia russa foram queimados vivos na sede da central sindical, com a pol\u00edcia assistindo. H\u00e1 um v\u00eddeo horr\u00edvel como evid\u00eancia. O l\u00edder da direita, Dmytro Yarosh, comemorou o massacre como \u201cmais um dia brilhante na nossa hist\u00f3ria nacional\u201d. Na m\u00eddia norte-americana e brit\u00e2nica, o ocorrido foi reportado como uma \u201ctrag\u00e9dia obscura\u201d, resultando de confrontos entre \u201cnacionalistas\u201d (neo-nazistas) e \u201cseparatistas\u201d (pessoas coletando assinaturas para um referendo em favor de um sistema federativo para a Ucr\u00e2nia. O<em> New York Times <\/em>enterrou a not\u00edcia, tendo considerado \u201cpropaganda russa\u201d os alertas sobre as pol\u00edticas fascistas e anti-semitas dos novos clientes de Washington. O <em>Wall Street Journal <\/em>responsabilizou as v\u00edtimas \u2013 \u201cInc\u00eandio Ucraniano Mortal Iniciado por Rebeldes, diz o governo\u201d. Obama felicitou a junta pela sua \u201cmodera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>No dia 28 de junho, o <em>Guardian <\/em>dedicou a maior parte de uma p\u00e1gina \u00e0s declara\u00e7\u00f5es do \u201cpresidente\u201d do regime de Kiev, o oligarca Petro Poroshenko. Novamente, a regra de invers\u00e3o de Orwell aplicada. N\u00e3o havia golpe; n\u00e3o havia guerra contra a minoria ucraniana; os russos eram culpados de tudo. \u201cN\u00f3s queremos modernizar nosso pa\u00eds\u201d, disse Poroshenko. \u201cN\u00f3s queremos introduzir liberdade, democracia e valores europeus. Algu\u00e9m n\u00e3o gosta disso. Algu\u00e9m n\u00e3o gosta de n\u00f3s por isso.\u201d<\/p>\n<p>Segundo seu pr\u00f3prio texto, o rep\u00f3rter do <em>Guardian, <\/em>Luke Harding, n\u00e3o questionou estas afirma\u00e7\u00f5es, nem mencionou o massacre de Odessa, os ataques do regime, por ar e canh\u00f5es, contra \u00e1reas residenciais, a execu\u00e7\u00e3o e sequestro de jornalistas, a explos\u00e3o de um jornal de oposi\u00e7\u00e3o e a amea\u00e7a de Poroshenko de \u201clivrar a Ucr\u00e2nia da sujeira e dos parasitas\u201d. Os inimigos s\u00e3o os \u201crebeldes\u201d, \u201cmilitantes\u201d, \u201cisurgentes\u201d, \u201cterroristas\u201d e lacaios do Kremlin. A hist\u00f3ria evoca os fantasmas do Vietn\u00e3, Chile, Timor Leste, \u00c1frica do Sul, Iraque; observe os mesmos r\u00f3tulos. A Palestina \u00e9 o sinal mais claro dessa manipula\u00e7\u00e3o imut\u00e1vel. Em 11 de julho, na sequ\u00eancia de mais um massacre israelense em Gaza, praticado com equipamento americano, em Gaza \u2013 80 pessoas, incluindo seis crian\u00e7as em uma fam\u00edlia foram mortas \u2013, um general israelense encreveu, no <em>Guardian<\/em>, um texto intitulado: \u201cUma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a necess\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 70, conheci Leni Riefenstahl e perguntei a ela a respeito dos seus filmes que glorificavam os nazistas. Usando t\u00e9cnicas revolucion\u00e1rias de luz e c\u00e2mera, ela produziu um document\u00e1rio que hipnotizou os alem\u00e3es; era o seu \u201c<em>O Triunfo da Vontade<\/em>\u201d que, como se sabe, lan\u00e7ou o feiti\u00e7o de Hitler. Perguntei a ela sobre a propaganda nas sociedades que se consideram superiores. Ela respondeu que as \u201cmensagens\u201d nos seus filmes eram dependentes n\u00e3o das \u201cordens de cima\u201d, mas de um \u201cvazio submisso\u201d na popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3. \u201cIsso inclui a burguesia liberal e educada?\u201d perguntei. \u201cTodos,\u201d ela respondeu, \u201ce, \u00e9 claro, a <em>intelligentsia<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>_____________________________<\/p>\n<p><em>John Pilger teve sua carreira como rep\u00f3rter iniciada em 1958, e ao longo dos anos tornou-se famoso pelos livros e document\u00e1rios que escreveu ou produziu. Especializou-se nas \u00e1reas de jornalismo investigativo e direitos humanos.<\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Mariana Bercht Ruy<\/em><\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/o-retorno-de-george-orwell\/\" >Go to Original \u2013 outraspalavras.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como despolitiza\u00e7\u00e3o, m\u00eddia submissa ao Estado e cinismo dos intelectuais est\u00e3o produzindo, nas antigas democracias ocidentais, um ambiente \u201c1984 high-tech\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-48261","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-original-languages"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48261","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48261"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48261\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48261"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48261"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.transcend.org\/tms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48261"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}